(SÃO PAULO) Ponho o despertador para às 7 da manhã. Estava livre no horário, podia dormir até tarde, mas não queria perder. Preparo café da manhã e vou torcer por Diego Hypólito.
Desde então o assunto não sai da minha cabeça. Penso constantemente no que muitos têm dito: brasileiro amarela na decisão.
A afirmação pode, em alguns casos, ser verdadeira, mas por ser extremamente pejorativa preferi gastar meu domingo pensando nisso. Vamos por partes.
Comecemos com o ginasta. O brasileiro era favorito? Era. Uma Isinbayeva? Um Phelps? Não. Podia pegar o ouro, mas poderia ficar até fora do pódio? Sim. Foi o que aconteceu. Antes de sua entrada no solo, o romeno Dragulescu, outro favorito, errou. Faz parte da rotina desse esporte? Sim. O brasileiro, talvez confiante pelo erro do rival, ou até mesmo o oposto, receoso, errou em sua última passagem, a mais fácil. Já teria tirado o peso das costas e relaxou? Talvez.
Especialistas garantem que o erro lhe tirou a prata, não o ouro. Uma pena. Fiz uma pesquisa na intenet e fiquei sabendo que desde Seul, 1988, o favorito do solo não leva. Portanto, não foi só o brasileiro.
Hoje pela manhã, acordo e ligo a TV. Semifinal dos 400 metros com barreira feminino. Na raia 4, considerada a mais forte, uma sueca tropeça e cai na primeira barreira. Dava dó! Teria amarelado? Claro que não. E apesar do uniforme azul e amarelo, ela não era brasileira.
Houve casos na natação, como a da australiana Lisbeth Trickett, que teve quebra de recordes olímpico e mundial nas eliminatórias, e por pouco uma eliminação na semifinal. Amarelou?
São vários os exemplos de brasileiros no atletismo que chegam com uma marca, longe do favoritismo, mas que sequer repetem os números apresentados anteriormente. Falta o quê?
Como disse passei meu dia de ontem pensando no Hypólito e tirei algumas conclusões. O Brasil sempre foi forte em alguns esportes coletivos. E nas quadras e gramados, os erros são aceitáveis. Quantas vezes uma equipe que erra um pênalti, uma enterrada, um saque, uma cortada, termina como vencedora. Na ginástica, atletismo, natação e tantos outros esportes olímpicos, o erro não é tolerado. E isso é cruel!
Tentem colocar na rotina de vocês a ausência de erro. Acordem e não derramem uma gota de café na toalha de mesa. Derrubar migalhas de pão no chão nem pensar. Depois do banho, não molhem o tapete do banheiro. Combinem a roupa perfeitamente para o trabalho. No trânsito, não fechem a porta de ninguém, não passem a roda na faixa de pedestre e jamais atravessem a rua fora dela. E, seja qual for o trabalho de vocês, não errem jamais. Um arquiteto que desenhe projeto em tempo de 1 minuto e 30 segundos. Sem um só errinho. Caso contrário, é um amarelão.
Vamos lá, vou encaixar minha rotina. A transmissão da Jovem Pan de Fórmula 1 é eficiente. Téo José, Claudio Carsughi e eu erramos pouco. Mas, certamente, erramos. Téo pode confundir algum piloto na narração ao olhar rapidamente, Carsughi pensar algo que não aconteça e eu gaguejar. Faz parte. Na rotina dos atletas, o erro não pode existir, o que repito, é cruel.
Não pensem que estou apenas defendendo. Penso que muitas coisas podem ser feitas. Primeira é um trabalho emocional fortíssimo. Para aguentar a carga forte de um evento como Olimpíada. Os mundiais das modalidades são forte e lindos, mas não atraem mídia e público como Jogos Olímpicos. Tem de haver algum preparo específico.
É importante também criar a tradição. E isso só vem com tempo. Peguemos o exemplo da F-1. Uma coisa é começar a andar na frente. A outra é virar o vencedor. A BMW chegou ao primeiro pelotão, mas ainda falta o pulo do gato para vencer. Isso acontece em todos os esportes.
No handebol feminino, as meninas atingiram um belo nível de jogo. Encaram as seleções mais fortes de igual para igual. Mas nos dois minutos finais de cada jogo, o lado pesa para elas, não para coreanas (ganhamos delas), francesas, russas, polonesas… Não é por amarelar. Até dar-se o click do vencedor leva tempo.
Outra coisa fundamental: atleta precisa parar de ser encarado como salvador da pátria, o responsável por conquistar o mundo e mostrar que o Brasil não é uma porcaria, um lixo. O cidadão e a imprensa precisam mudar o foco e o próprio atleta também. Aí entra o tal preparo emocional que as Federações devem promover.
Os franceses, americanos, australianos, canadenses, alemães, britânicos, tornam-se campeões, ganham medalhas e o país não muda. Continua sua rotina, uma rotina repleta de problemas, mas que pelo menos vê caminhar de forma segura e com planejamento no esporte.
Os brasileiros não. São eles os responsáveis por nossas vitórias, os heróis da resistência. Se elas não vêm, somos uma nação de fracos, pobres, desamparados. O dia em que tivermos “atletas de ouro” no Congresso, Senado, Câmaras Municipais, Prefeituras, aí sim estaremos no caminho certo. Até de bronze já serve. E isso independe de Murers, Hypólitos, Santos, Cielos… O que não dá é para nesta “modalidade” continuarmos eliminados na primeira bateria. O dia em que mudarmos esse pensamento, caminharemos para um Brasil melhor em todos os sentidos, inclusive no quadro geral de medalhas olímpicas. Mas, sinceramente, do jeito em que estamos como nação, não se surpreendam com trigésimo lugar no quadro de medalhas. Estamos onde merecemos.
No lugar de Rio 2016, que tal investir dinheiro pesado nas categorias esportivas? Seria melhor. Para quê sediar Olimpíada e ganhar meia dúzia de medalhas se podemos melhorar gradativamente nossa performance, como a ginástica, por exemplo. Há dez anos não eramos nada e hoje temos muitos finalistas. Medalha é questão de tempo.
Mas não, querem sediar a Olimpíada. Assim, no lugar dos atletas receberem incentivo, receberão os outros “atletas” supracitados. Uma pena. Neste cenário, só me resta parabenizar os atleta individuais, heróis da resistência. E como resistem. César Cielo (não recebeu nada e deve tudo ao pai), Thiago Pereira, Eduardo Santos (quem não chorou com o judoca que não tinha dinheiro para a faixa preta, fez bonito e honrou a família e o país), Quadros, Hypólitos, Daiane, Jade, Larissa, Ana Paula, e tantos outros…