(SÃO PAULO) Escrever sobre o caso Cingapura 2008 e toda a polêmica recente da F-1 não é fácil. Parece ser, mas não é. Aliás, como a vida de uma maneira geral. Seria simples sentar aqui e chover no molhado de que Nelsinho foi um besta, Briatore uma anta, Alonso um omisso, Massa um prejudicado…
Mas para mim a vida não é tão simples. Muito pelo contrário. É super-complexa. Rotular as pessoas como personagens é fácil e pouco produtivo. Ainda assim, não pretendo escrever sobre a verdade, por que qual é a verdade? Existe uma? Busco aqui levantar informações daquele GP, áudios, lembranças e, claro, emitir opiniões. As minhas, simples assim.
Recordo de toda a expectativa que envolvia a primeira corrida noturna da história. Era algo fora dos padrões, naturalmente, e havia clima muito especial. Na começo da semana, houve o julgamento do recurso da McLaren sobre o GP da Bélgica e a punição de Lewis Hamilton por cortar a chicane. O episódio tinha muita importância porque envolvia diretamente um candidato ao título. E esse era outro foco do GP de Cingapura. A luta do inglês com Felipe Massa.
Lembro-me como se fosse ontem de chegar em Cingapura e na primeira entrevista de Rubens Barrichello, piloto da Honda, ouvir palavras de dor por uma carreira que se aproximava do fim. Era doído acompanhar o suspiro final de uma carreira que poderia ser mais brilhante e que escoava pelo ralo.
Também me lembro de forma cristalina a chegada de um novo piloto. Bruno Senna respirava a F-1. Conversa de forma ativa com Honda, Toro Rosso e Force India. Brilharia em 2009.
E tinha ainda um jovem de nome Nelson Ângelo Piquet, Nelsinho para o mundo. Um ano de estreia longe do que se esperava. Ainda assim, não era de forma alguma um fracasso. A pressão que carregava era grande. Especulava-se nos bastidores que poderia ser dispensado antes do fim do ano. Romain Grosjean era um nome, de pouco brilho na época na GP2. Lucas di Grassi, terceiro piloto da equipe francesa, estava em alta. Sucesso na GP2, realizara teste na semana anterior. Foi muito bem e recebeu elogios públicos de Pat Symonds. Sua chance de correr era real.
Neste cenário, Nelsinho recebeu a mim, Tatiana Cunha, Luiz Fernando Ramos e Livio Oricchio no escritório provisório da Renault. A entrevista durou 12 minutos e falava sobre mil coisas. Editei somente fatos curiosos, como minha pergunta para Nelsinho sobre a alta possibilidade da entrada de safety-car.
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Chega a sexta-feira e os carros vão à pista pela primeira vez. Novamente converso com pilotos, relembro da otimismo de Massa pelo ótimo ritmo da Ferrari, Rubinho ainda cabisbaixo, Alonso e Nelsinho confiantes com o ritmo da Renault. No briefing, os pilotos se reúnem e ficam um tempão falando sobre segurança. O brasileiro da Renault, mais uma vez, reclama do excesso de atenção dos veteranos.
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O sábado chega e traz muita disputa. Pela manhã, a Renault anda bem, com Nelsinho inclusive. A chance de bom resultado era real.
Felipe Massa faz volta de outro planeta e coloca 7 décimos em Hamilton, o segundo no grid. Nelsinho e Barrichello ficam no Q1. E Alonso, um dos favoritos, pára no começo do Q2 com problemas no carro.
Outra coisa que me lembro muito bem é que o treino aconteceu às 11 da manhã, horário de Brasília. Acabou, portanto, ao meio-dia, o que me obrigava a correr para realizar o Fórmula JP, que começa às 13 horas.
Entrevistamos Massa no cercadinho e enviei ao Brasil. Aquilo me dava tranquilidade para ouvir outros pilotos. Fui para a Renault. Encontrei um Nelsinho mais do que abatido. Era tão nítido seu estado, que eu ressalto isso em uma colocação que fiz a ele. Assombra quando ele cita que sua preocupação não era a corrida e sim o contrato.
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De lá corri para a Honda e coloquei Rubens Barrichello ao vivo. Ele conversou com Téo José e falou de suas possibilidades contratuais para 2009.
Chega a corrida, os pilotos largam, Massa domina, Alonso faz seu pit, Nelsinho…. enfim, todos sabem o que aconteceu.
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O mundo caía na Ferrari por causa do erro com Massa. Quase ninguém conseguiu ouvir Nelsinho Piquet. Eu tive um pouco de sorte e, ao lado de Carlos Gil, conversei com Nelsinho.
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Algumas coisas naquele momento me chamaram a atenção. Por que Nelsinho, arrasado no sábado em relação ao seu contrato, estava tranquilo no domingo? Por que Alonso foi com estratégia tão ousada largando em décimo quinto? Havia muitos “por ques”. A suspeita de acidente proposital surgiu na própria semana. Mas, sem qualquer prova, era melhor não acreditar em tamanha sujeira.
Quando Nelsinho deixou a Renault, em julho, concedeu-me a primeira entrevista. Eu garanto que o assunto Cingapura não fazia parte de minha pauta. A questão surgiu na hora mesmo, como se alguém me soprasse.
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Vamos então a algumas considerações. Antes de mais nada, a opinião de cada um é livre, diferente. Acho ridículo bancar o juiz e literalmente julgar A, B ou C. De qualquer forma, tenho minha visão sobre o episódio.
Trata-se de uma vergonha. Algo nojento, baixo, raso. Uma palhaçada! Sinto-me um idiota, lesado como torcedores e fãs ao cobrir a felicidade de Alonso, a festa da Renault, a dor de Massa, o próprio choro do coitado da Ferrari no caso do pirulito eletrônico.
Discordo de todos os que comparam Cingapura 2008, com Japão 1989/90, Austria 2002 e outras lamentáveis situações. Com o episódio do ano passado não há comparação. Foi muito pior, para todos os envolvidos.
Hoje, lendo a minha amiga Tatiana Cunha, da Folha de São Paulo, deparo-me com comentário de Fábio Seixas com o qual concordo. Transcrevo-o porque iria escrever algo parecido: “Nas polêmicas anteriores, resgatadas pelas rodinhas de conversa nas últimas semanas, o torcedor pode ter vibrado, se irritado, chutado a mesinha de centro diante da TV, perpetrado vaias nas arquibancadas dos autódromos. Mas não se sentiu otário, enganado. Os vilões se revelaram por inteiro, na hora, para quem quisesse julgar”. E outra verdade: “O choque de Nelsinho no muro mexeu com um monte de gente que não tinha nada a ver com aquilo. Antes da batida, Massa liderava. Na bandeirada, foi o 13º. Sim, Massa, aquele que perdeu o título por um ponto”. Sobre os casos passados, falarei mais amanhã.
Dividamos os personagens. Flavio Briatore já vai tarde. Pinta de mafioso, atitudes idem. Sua saída é um bem para a F-1. Sai com vitórias e derrotas no currículo e a imagem de trambiqueiro-mor. E sai pela porta dos fundos, como Bernie Ecclestone disse.
Pat Symonds foi o mentor de tudo. O criador da “obra de arte” das sacanagens. Como o próprio Nelsinho disse várias vezes, Briatore não sabe um cazzo deste esporte. Não teria a competência para bolar artimanha como essa, com informações de que na curva X não havia guindastes, na volta Y a porrada tinha que acontecer. Foi Symonds que bolou tudo.
Apurei que Alonso não ficou sabendo da tramóia. Sinceramente, tenho dúvidas. Como explicar a um bicampeão para competir com uma estratégia insana daquela. Compreendo que ele não precisava saber de nada para que tudo fluísse bem. Mas discordo que não soube depois da prova. Antes até tudo bem, vai. Mas depois… duvido!
Nelsinho Piquet errou. E feio. Sei de seu estado naquele GP. Era tão nítido que estava acabado que declarei em uma pergunta ao próprio. Como tenho a posição já escrita de que não vejo as coisas na vida como simples, não posso escrever “ele já tinha 23 anos, era homem”. Ainda assim, ele errou. E feio. Ao topar chocar-se ao muro visando renovar seu contrato, estava na verdade mostrando uma total falta de respeito para consigo mesmo. Jamais seria respeitado novamente dentro do time. Tanto que em 2009 sua vida foi ainda pior do que 2008.
Mas ok, admitamos que houve erro de avaliação, o momento delicado pelo qual passava. O que não entendo em hipótese alguma é o porquê de denunciar a dupla de crápulas somente após a dispensa? Isso para mim é a grande questão. Significa que enquanto eu estou empregado aquela farsa foi positiva. Quando estou fora, transformou-se em algo vergonhoso para o esporte.
Por este motivo, não vejo a denúncia como algo que tenha como finalidade o bem do esporte. É a vingança simples e pura. E isso não acrescenta nada. Tudo bem, nos livramos de Briatore e Symonds. Mas e Nelsinho? Fez o que com sua carreira? A menos que tenha algo muito bom nas mangas, não voltará a correr. Porque na F1 o clima ficou bem pesado.
Alguns neste momento acusam Nelsinho de safado, mau-caráter. Eu vou por uma outra linha; está mais ainda para uma marionete, sem forças e capacidade de avaliação sobre o que fazer e para onde seguir. E isso não é bom.
Nelsinho viveu na sombra do pai até chegar na F-1. Na categoria máxima, entrou em competição dura e perdeu a cabeça (nisso Briatore tem razão). Mas não era algo irreversível. Nelsinho tinha a chance de dar a volta por cima. Porém, passou a viver na sombra do patrão Briatore. Saiu da F-1 e voltou a seguir a cartilha do pai. E claramente o que estamos vendo é uma guerra entre Briatore e Nelson. Uma batalha sem vencedores.