(SÃO PAULO) Não é fácil escrever sobre o que aconteceu no Grande Prêmio da Espanha. Existem informações, indÃcios e muitas ideias divergentes. Por isso, sem pretender ser o dono da verdade, vou tentar municiá-los com algumas cenas vistas no paddock.
É importante frisar que o “território Rubens Barrichello†é bastante complicado. Há muito, perdeu-se qualquer senso racional sobre o assunto, seja para que lado for. Os que não o toleram, mesmo quando ele não comete nenhum erro dentro ou fora das pistas, massacram-no. Em contrapartida, seus amantes o defendem até quando não merece. O embate é 100% emotivo.
Por isso, todo cuidado é pouco. É preciso ser responsável quando se trata do assunto.
Confesso que quando a corrida acabou estava certo: tinham passado Barrichello para trás. Na transmissão da Jovem Pan enalteci inúmeras vezes que não entendia o porquê da mudança na estratégia de Jenson e Rubens, que parou uma volta depois, sequer aviso recebeu. Na entrevista, como vocês acompanharam, foi a única coisa que Rubinho pediu para que fosse diferente.
Na coletiva pós-corrida o clima estava amistoso. Até que Paulo Ianieri, da Gazzeta dello Sport, perguntou a Rubens se o episódio lembrava Austria 2002, quando abriu para Michael Schumacher. Rubinho disse que tem experiência com ordens de equipe e se isso acontecer não irá aceitar. “Torno público agora para que todos saibamâ€.
Jenson pediu a palavra porque o assunto o dizia respeito e declarou: “Nossa estratégia dizia que (estratégia) três paradas era mais rápidaâ€. De lá, segui para o cercadinho. A entrevista com Rubens foi boa e ele estava controlado. Evitava, com razão, polêmica. Tinha acabado de descer do carro e nessas horas é bom controlar-se mesmo.
Naquele instante Tatiana Cunha virou-se para a turma brasileira e comentou: “Precisamos ouvir Rossâ€. Os quatro (Livio, Ico, eu e Tati) seguimos para o motorhome da Brawn. Eu continuava com a impressão da manipulação do resultado. Por isso, virei-me e disse aos três para seguirem ao Brawn que tentaria ouvir Jenson. Fui e ouvi o piloto inglês conforme vocês escutaram no DFDP.
Corri para a o motorhome da Brawn. Lá estavam os integrantes do time esperando os pilotos para a foto oficial. Abordamos Brawn que nos evitou para ser fotografado com membros da escuderia. Quando saiu da posição de Gisele Bündchen, tentamos mais uma vez. Desta vez nos despachou dizendo que tinha a reunião com equipe.
Livio seguiu para apurar notÃcias pelo paddock. Eu, Ico e Tati permanecemos. Os minutos passavam e nada. Uma hora depois Brawn sai da sala e nos evita mais uma vez. Começamos a achar que ficarÃamos de mãos abanando. Ico volta à sala de imprensa para trabalhar. Eu e Tatiana, então, comentamos: “a entrevista de Rubens no cercadinho foi no condicional. De qualquer forma esperaremos para ouvÃ-lo. Ele falaráâ€.
Dito e feito. Acaba reunião e Rubinho nos atende. Fala de pendurar as chuteiras se perceber favorecimento a Button. Dois minutos após entrevista começar, Ico retorna e se junta ao grupo. Entrevista termina e nos despedimos de Rubens. Ao fundo, Ross Brawn. Abordamos pela enésima vez e eu digo: “Ross, duas perguntas…â€. E ele percebendo que não irÃamos desistir após duas horas e meia de chá de cadeira, responde: “ok, mas apenas duasâ€. Tatiana e Ico as fazem. A espera, como vocês conferiram, valera a pena. (Brawn responde olhando nos olhos. E parece sempre verdadeiro. Dois jornalistas bem conceituados me disseram coisas opostas. Um que o inglês mente mesmo olhando nos seus olhos. O outro que era Todt o carrasco da Ferrari, não Brawn)
Saà de lá, joguei as matérias no computador e comecei a ouvir, e ouvir, e ouvir… Não chegava a conclusão alguma.
Foi então que peguei os tempos de volta de todos os pilotos. Analisei com Livio e chegamos a algumas conclusões. Que há cheiro de arroz queimado parece lógico. Inegável! Porém, os argumentos apresentados pela equipe são sólidos. E os discursos adotados por todos batem.
Primeiro: a estratégia de três paradas era a melhor na simulação da Brawn. Ninguém ficaria desde sexta contando lorota nas reuniões. Button e Barrichello descem dos carros e falam a mesma coisa.
Segundo: que Rubinho sairia na frente de Rosberg e Button não também era verdade. O brasileiro quase dividiu a curva com o alemão. Enquanto que o inglês, como aumentou sua autonomia, saiu dos pits com campo mais livre. A manobra, ao que parece, visava mais defendê-lo de Vettel e Massa, que estavam próximos e parariam depois, do que dar nó em Barrichello.
Terceiro: mesmo com a mudança, Rubinho poderia terminar a frente de Button se seu terceiro jogo de pneus funcionasse bem. Ok, vocês podem afirmar que destruÃram propositadamente o composto do brasileiro. Mas nesse campo eu não entro. Porque aà é cair em paranóia, que até pode ser real, mas daria no mesmo suspeitar da moça que trabalha como empregada na minha casa enquanto eu viajo de levar meus pertences embora, mesmo que eu não tenha provas.
Mas, claro, há pontos mais do que esquisitos.
Primeiro: por que não avisar engenheiro de Barrichello antes da primeira parada do brasileiro (li comentário que questionava o fato da TV ter mostrado. Jock Clear, engenheiro de Barrichello, não come amendoim e fica vendo apenas imagens. Tem mil coisas na cabeça)? Se boicotaram Rubinho, esquema também “derrubou†Clear. Para mim isso foi o mais grave da prova.
Segundo: Quando Barrichello parou, tinha um número X, previsto pela transmissão, de voltas (18). Deu 12 voltas. Isso ficou em aberto.
Terceiro: Também pensei que com a estratégia de três paradas, Rubinho teria stint curtÃssimo no fim com pneus duros. Nada. Parou próximo de Button. Sendo assim, a forma como a corrida foi trabalhada para o brasileiro dá impressão que foi para castrá-lo.
Quarto: histórico de Brawn com Barrichello é conhecido.
É senso comum na F-1 que o fim de semana foi de Rubinho. Ele trabalhou e acertou o carro e serviu de molde para que Button o copiasse. Eu não acreditava que ganharia. Mas fez largada maravilhosa. Com mais combustÃvel, não via como perdesse.
Citei em minha matéria da Jovem Pan Dom Casmurro, de Machado de Assis. E é assim que encaro este caso. Li uma vez o romance do escritor brasileiro e já vi muito que foi feito sobre a obra. Inclusive, a recente minissérie da Globo. Cada dia acordo com um sentimento sobre a (in)fidelidade de Capitu para com Bentinho. Sobre este caso do GP da Espanha, penso a mesma coisa. Hoje, porém, creio que tenha sido a coincidência dita por Brawn.
Uma coisa é certa, Situação de Barrichello não é fácil. Precisa vencer em Mônaco e torcer para que Button não acabe a prova. E depois do que falou, se perceber mesmo má-fé de Brawn terá que pendurar as chuteiras. Até para mostrar que não está para brincadeira.
Há muitas notÃcias novas. Vou dormir e amanhã quero falar sobre isso. Está na hora de mudarmos de assunto. A área destinada aos comentários deste post é para troca de figurinhas.