(MONZA) Corridas com chuva costumam ser confusas para análises imediatas. Dizer simplesmente fulano deu show, beltrano é um fracasso não auxilia em compreensão de nada. Tentei buscar informações que explicassem algumas questões para mim mesmo, e também para vocês.
Sebastian Vettel deu um verdadeiro show. Mostra a cada prova seu talento, especialmente em chuva. Quem não se lembra o que ele fez na dobradinha Japão e China, ano passado. O acerto da Toro Rosso não era 100% para chuva, como alegam alguns para justificar seu ritmo. Ele diz que optaram por uma configuração que levasse seu carro a ter muita velocidade de reta. De fato tinha, chegava a abrir 12 km/h em aceleração. Cabia a ele contornar as curvas habilmente. Ajudou também não ter spray na cara em nenhum momento. Sua visibilidade era total, o que faz imensa diferença. Felipe Massa em Mônaco abriu enorme vantagem. Lá, deu azar de safety car trazer os rivais novamente em seu encalço.
Passo agora para Lewis Hamilton. O inglês é brilhante. Em qualquer condição, diga-se de passagem. Para entender, no entanto, a facilidade com a qual ultrapassava os rivais, ouvi muita gente. Vocês ouviram aqui no Dentro e Fora das Pistas. O que escrevo é fato, não argumentos que diminuam o piloto. A McLaren em asfalto molhado é o melhor carro. Mesmo quando não chove e o asfalto está com temperatura inferior a 20 graus, os prateados dão banho. Lembrem-se de Hockenheim. Naquele momento achei que tinha acabado o campeonato. Não, trata-se apenas de condição muito particular. Quando acontecer isso, os rivais estarão em sérias dificuldades.
Além dessa informações importantes, é preciso entender que na Fórmula 1 atual mudou em relação ao passado. O esporte é diferente do futebol, por exemplo, que o regulamento é semelhante e mudam-se apenas esquemas táticos e preparação fÃsica. Antigamente, nas décadas de 80 e 90, pegando exemplos mais recentes, todos os carros podiam bolar seu acerto na hora da corrida, minutos antes.
Hoje, as corridas na chuva viraram imensas loterias. As equipes devem acertar os carros (todos, conforme Fernanda me perguntou, ninguém muda set-up, só combustÃvel) no sábado. Ou seja, alguém que configura o carro para o seco e chove está na pior. E vice-versa. O carro de Hamilton era mais para a chuva, por isso voava baixo. Além, repito, espero que guardem minhas palavras acima, de sua brilhante capacidade em qualquer circunstância. Vale ver o que o companheiro, Heikki Kovalainen, fez com o mesmo acerto. Uma decepção. Confesso que esperava muito mais dele quando o vi disputar GP2. Talvez cresça o ano que vem.
Peguemos Kimi Raikkonen. O finlandês faz temporada pÃfia. Alguns escreveram que ele acorda do nada e faz voltas mais rápidas. Em provas 100% no seco eu não teria argumento para derrubar essa tese. Mas, com asfalto molhado que se seca, ou seco em que caÃa uma chuva, as alternâncias de condições mudam o ritmo do piloto. Como explicar ele começar tão lento e fechar a prova como o mais rápido, enquanto Hamilton voava baixo e no fim foi ameaçado por Mark Webber, da Red Bull.
A corrida de Felipe Massa foi boa. O acerto da Ferrari tentava dar um ritmo bom tanto em chuva quanto em seco. A chamada solução de compromisso. A estratégia não permitiu a ele em nenhum momento um ritmo forte, pois andou encaixotado quase toda a corrida. Tanto Massa quanto Raikkonen citam a dificuldade de aquecer os pneus.
Uma outra razão para tentar entender o ritmo da McLaren nestas condições veio através de Nelsinho Piquet. Ouçam a entrevista dele, postada aqui. A CEO, ou centralina, de todos os carros foi desenvolvida pela McLaren. Muitos acreditam que o time consiga atenuar mais a ausência do controle de tração do que as rivais, que também correm atrás disso. Não seria uma trapaça, de forma alguma.
Queria falar sobre as manobras de Lewis Hamilton. Primeiro contra Timo Glock. O alemão foi altamente leal na chicane dando espaço ao inglês, que não fez o mesmo na reta. Naquelas condições de pista e em aceleração plena, aquilo é perigoso. Glock estaria em apuros em caso de batida. Não penso nem como aqueles que acharam que foi uma selvageria, tampouco com quem diz que foi normal, como Senna fazia. Houve os casos isolados com Prost, é verdade, e o tricampeão estava longe de ser santo, muito longe, mas existem disputas, lembro-me de uma com Mansell, que os dois ficaram lado a lado na reta e ninguém mudava trajetória (quando chegar ao Brasil posto). Acho apenas que falta aos outros pilotos fazerem o mesmo com ele. Hamilton está certo na medida em que joga o carro e ninguém responde. Glock deixou Monza dizendo que na próxima fará o mesmo. Tomara. Isso é automobilismo. E o inglês precisa aprender.
O incidente com Mark Webber pode parecer pior, na medida em que ele muda claramente a trajetória, mas tenho uma versão e acho que ela é boa. Vocês ouviram Massa ontem? Ele disse que se Hamilton fosse para cima dele seria um problema porque seu retrovisor estava tão sujo que não seria capaz de ver nada. Pois bem! Penso que aconteceu o mesmo com Hamilton. O inglês, na minha opinião, não viu o australiano. Também algo normal neste esporte.
Para mim a ultrapassagem de Massa sobre Rosberg foi normal. E não pense que uso dois pesos, duas medidas. O brasileiro passa sobre a zebra, tanto que seu carro se ergue. Se cortasse chicane, iria reto. Ao mesmo tempo que acho normal, a Ferrari para mim fez certÃssimo em solicitar a devolução da posição. Correria risco de punição ainda em momento recente do problema de Spa.
Antes do GP da Itália a expectativa era que Hamilton dominaria no seco e mais ainda no molhado. Depois do treino de classificação, parecia que Massa terminaria muito na frente do inglês. Em determinada situação de prova, se voltasse a chover, Hamilton terminaria, no mÃnimo, em segundo. O brasileiro estaria em quinto, sexto, sétimo. No fim das contas, acho que saiu de bom tamanho para os dois. Mais ainda para Massa que tinha tudo para perder pontos para Hamilton e ainda ganhou um. E uma corrida não começa na largada, e sim na classificação. No paddock, classificaram o erro McLaren/Hamilton de estúpido no sábado. Se ele não fizesse aquilo, largaria como seu companheiro entre os três melhores. Errou feio no sábado e foi incrÃvel no domingo. Massa fez excelente trabalho no sábado e foi normal no domingo. Um ponto a mais para ele no duelo, que promete.
Senhores e senhoras, hoje é dia de viagem. Após longas duas semanas (como foram intensas) voltarei ao Brasil. Tentarei ainda postar mais coisas aqui. Caso não consiga, assim que chegar em minha casa falamos mais. Tem muito assunto. Muito mesmo. Mercado de pilotos, Bruno Senna, Lucas di Grassi, Nelsinho Piquet, Raikkonen e Massa, Kovalainen, Kubica, Vettel, Cingapura, mais chuva por aÅ. Esperem! Abraços