Meu homão da porra

Conheci meu homão da porra trabalhando. Estávamos participando de um programa de TV. Quando acabou a gravação, ele entregou um cartão com seus contatos e pediu meu telefone.

Mandei uma mensagem. Ele me chamou para sair.

Homão da Porra=Mulher Porreta= Ser Gente

 

Era quarta-feira à noite. Por isso, propus que saíssemos na sexta – expliquei que era minha única noite livre na semana. “Sexta não posso: janto com meus filhos”, foi a resposta.

 

Com a sexta ocupada, decidimos que tudo bem sairmos na quinta mesmo. Saímos na quinta, no sábado, domingo… seguimos nos vendo pelos próximos meses.

Nosso primeiro jantar em casa foi na casa dele porque ele cozinhou para mim (o segundo, o terceiro, o quarto… também).

Ele me contou que aprendeu a cozinhar de verdade quando se separou: “não quero ser aquele pai separado que pede pizza para os filhos”. Também contou que a primeira vez que fez um feijão para os meninos pensou “Nossa, isso sim é realizar um feito difícil!” (detalhe nada pequeno aqui: ele é correspondente de guerra).

Meu homão da porra tem lá suas confusões; por um ano ficamos juntos sem exclusividade. Fomos, voltamos, demos espaço um ao outro, respeitando o tempo de cada um.

Nisso, quase nos perdemos. É que estar junto não é questão apenas de paixão e amor. É ainda questão de timing.

Por um período, eu quis namorá-lo, ele não estava pronto. Houve outro tempo em que ele quis me namorar, eu queria namorar outro alguém. Ele respeitou.

Meu homão da porra não faz crochê; mas lava, cozinha, passa as camisetas da escola dos filhos e me leva ao trabalho – quando não está cobrindo uma eleição na França, fazendo o Ramadã em Gaza, vivendo a guerra na Venezuela.

Ele faz declarações de amor, me mostra canções que combinam com a gente.   Ele também dá mancadas, nunca me deu flores e diz coisas que às vezes me entristecem. Fala do mundo, dos mais de 60 países que já conheceu com a mesma naturalidade com que conta sobre a consulta da Capitu na veterinária.

Só que ele não é um  homão da porra vivendo numa bolha isolada: perdeu a mãe aos 14 anos. Junto de duas irmãs porretas, aprendeu a se virar.

Uma delas, é motoqueira, tem uma alma linda de quem luta por igualdades. Outra trabalha o dia inteiro, dá conta de um de ser mãe, companheira e irmãe e ainda acha tempo para as viagens que tanto ama.

Meu homão da porra só é um homão da porra porque tem algo lindo que se chama empatia.

E, eu não sei vocês, mas, para mim, parece que nossa surpresa com a existência de empatia masculina é um alerta de que algo vai muito mal.

Afinal, se colocar no lugar do outro não deveria ser coisa de homão da porra nem de mulher porreta. Deveria ser coisa de gente.

Lições do tempo, ou, sobre ter irmãos

Todo ano, quando chega este período, fico pensando o que dá para dizer que ainda não foi dito sobre essas criaturinhas. Afinal já faz mais de 30 anos que convivo com um e já faz duas décadas que ouço ( e como ouço!) a outra.

Já vendemos  picolé na praia juntos .  Minha veia de comunicadora e meu ar sempre independente tiveram a brilhante ideia de sairmos pelas areias de Oásis empreendendo. Com a consciência de que nada domino de exatas, meu irmão seria meu parceiro na empreitada: eu fazia o marketing; gritava “olha o picolé”,  ele fazia as contas.  A condição, imposta por nossa mãe “não passar pelas ruas em que pudesse haver conhecidos”.

Ela já me deu o dia mais feliz da minha vida com a maior simplicidade. Foi a primeira vez que a levei ao teatro. Ela tinha 3 anos e fomos ver o Mágico de Oz. Ao final da peça, os personagens desceram do palco e abraçaram as crianças. Sim, ela abraçou a Dorothy, o espantalho, o homem de lata, o leão. Depois disso, me abraçou e com o sorriso mais sincero disse “mana, hoje é o dia mais feliz da minha vida”. – Da minha, com certeza, foi.

Acontece que ser mais velho traz para a gente uma série de neuras e dificuldades. Não é só dar ideias de empreendimentos ou momentos de felicidade em uma peça de teatro. Ser mais velho é ser um mini pai e mãe e como tal é ver o irmão mais novo sofrer e se ferrar muitas vezes. E com isso a gente sofre.  E como sofre.

O primeiro impulso é proteger; dizer “não vai por aí, você vai se dar mal”, “eu já  fiz isso antes e deu  errado.”.  E aí eu acredito que está a grande lição do irmão mais velho:  a nós , vocês ensinam o respeito pelo tempo de cada um, ensinam a ter paciência para ver o outro errando e aprendendo com o próprio erro;  porque, às vezes, é só assim mesmo que a gente aprende .

Então, nesta data tão linda que é o aniversário de vocês dois quero agradecer por este grande aprendizado que é a lição de enxergar o tempo do outro e respeitar  o momento  da vida de cada um. Sejam felizes – nos erros e acertos – a nós, irmãos mais velhos, cabe estar ao seu lado para ouvir, confortar, independentemente da situação, afinal,  vocês são nosso maior aprendizado sobre paciência e resignação.

Pedacin e esquema: dá trabalho demais

A primeira história terminou no carnaval. Uma amiga vinha curtindo um affair há cerca de dois meses, com um cara aparentemente bacana até que foi obrigada a aderir ao hit da folia “Você partiu meu coração” depois que ele decidiu desaparecer durante a festa. Sem mais, nem menos, ele sumiu.

Na verdade, ele não desapareceu completamente, em um dos dias, resolveu dar um “oi”, atacando ela com mensagens agressivas e malucas, em meio a um surto psicótico. O que sei da narrativa: os dois se conheceram em um app e relacionamentos. Tinham afinida
des. Ela titubeou por alguns instantes achando que poderia ser fria mas, pesando prós e contras, achou que teria mais prós: idades, regulavam; ideias, convergiam; assuntos, sobravam; sexo dava para o gasto; enfim, aparentemente, valia a pena o investimento de tempo, energia, lucidez.

Depois do carnaval, ele ressurgiu, com a desculpa de que o desaparecimento
era normal. Os dois não tinham compromisso,aliás, segundo ele, ela sequer poderia chamá-lo namorado, e ele estava “apenas curtindo a esbórnia com os amigos”. Conclusão, minha amiga decidiu não mais chamá-lo de coisa alguma e sim mandá-lo caminhar.

A segunda história foi comigo. Por um ano, fiquei em uma das relações mais legais
que já tive. A gente se conheceu trabalhando. Eu levei um puta susto quando ele me chamou para sair porque era um cara que eu lia na faculdade e pensava “nossa, quando eu for gente grande, quero fazer isso”.  O tipo do jornalista que sempre sonhei ser.  Quando terminou o programa que estávamos fazendo, ele pediu meu telefone. Achei que era alguma pauta, ou, uma piada mesmo mas, na verdade, o que ele queria era me chamar para sair.

E chamou. E a gente saiu. E foi tudo muito rápido. E, porque foi rápido, não deu certo. Separamos-nos por uns dois meses. E, depois, nos reaproximamos. Seguimos compartilhando vinhos, pautas, problemas, alegrias, por um bom tempo. A rotina dele é viajar a trabalho, a minha é uma dupla jornada de trabalho. Por isso, o cotidiano nunca permitiu que tivéssemos uma relação “normal”. Nunca houve amarras. E não sentíamos necessidades delas. Estávamos ali no presente e isso nos bastava. Até o momento em que deixarmos de estar.

O problema é que o momento em que deixamos de estar foi aquele em que ele decidiu formalizar tudo isso. E foi aquele também em que, no ditado popular, “a fila andou”.

Olhando para estas duas histórias lembro da conversa que tive esta madrugada:

Eu: Será que o fato de os homens estarem meio “perdidos” com seus papeis é que tem feito com que eles se tornem tão imaturos e irresponsáveis?

Outra Pessoa: Mas não são os homens. São as pessoas que estão imaturas e irresponsáveis em termos de relacionamentos.

(…)

Vou ter que concordar.

Não são apenas os homens. Muito embora eu veja isso com maior frequência no universo masculino.

Estamos todos deliberadamente imaturos e irresponsáveis com as outras pessoas quando o assunto é criar laços.

Olhando para as duas histórias que contei, vejo claramente que não tem uma fórmula de re
lação correta. Só que todas, sem exceção, exigem dedicação. E isso dá trabalho. Exige transpiração.

Olho para a minha amiga que achava estar fazendo tudo certo ao investir em uma relação.  Parecia a primeira aluna da classe de um lama budista que prega compaixão. Esqueceu apenas que até no altruísmo pode haver uma pitada de egoísmo. Sim, porque ajudar quem não está pedindo pode ser muito mais uma forma de auto-ajuda.

Minha amiga, coitada, esqueceu o básico: relação é  via de mão dupla. É impossível relacionar-se com quem não tem empatia.

Olho para minha ex -relação que sofreu de timings diferentes, porque não tínhamos tempo suficiente para dedicar  um ao outro e penso – esse negócio de criar laços  é tão old school.

Agora entendo, assim como minha amiga, o tal hit do carnaval. É mais fácil distribuir o coração em pedacinhos, porque pedacinhos são fáceis de juntar. A gente pode até dar desculpas, desaparecer, pode esquecer um pedacinho aqui e outro ali que talvez nem sinta falta.

O coração inteiro – daquele jeito que a gente dispõe com toda coragem p
ara ser partido – precisa ser trabalhado, estimulado. São necessárias horas de dedicação, afinco, paciência.

É atirar-se de cabeça em algo que, sabemos, pode dar errado. Que dando errado pode gerar novos traumas, novos esforços. Mais do que isso, você entra  em uma história sabendo que coisas mais tentadoras podem vir e que você terá que recusá-las porque está ali, comprometido.

Assim, fica fácil entender porque o preço do “pedacin” sai mais em conta. Só não dá para esquecer que, quando os “esquemas” acabarem, dá trabalho também preencher o vazio deixado por tantos pedacins...

Meu pedido de aniversário: Não dá para controlar

Reconhecer nossos defeitos. Eis uma das maiores qualidades da tal maturidade.  Faltando uma semana para meu aniversário e, em meio à tempestade que o inferno astral traz,  isto tem feito o maior sentido.

É que inferno astral que se preza, precisa de ingredientes de todas as partes:  você  vê seu salário sem reajuste , em uma briga sindical/judiciária que não tem fim; acumulam as contas do final do ano com os impostos do início do ano;  as datas das férias mudam e você não consegue mais conciliar as férias dos dois empregos;  começo  uma dieta maluca que deixa o meu tradicionalmente humor ácido com um PH próximo de 1 e, quando parece que o cenário não pode ficar mais desfavorável, resolvo me apaixonar.

Mas não é uma paixão dessas “tranquilas com sabor de fruta mordida, nós na batida no embalo da rede…” . É tudo exatamente o avesso.

O que fazer?

Até aqui, sempre fiz o mesmo: entro  no turbilhão, me rasgo, tento agarrar as coisas de uma forma desesperada para  “fazer dar certo”.  Em um prazo que varia de um a três meses o resultado disso, inevitavelmente, é eu já ter deixado este turbilhão de lado, esquecido tudo o que passei e estar prestes a cair em outro vendaval (e haja alertas para que Dorothy saia de perto da linha do trem).

Por isso, e só por isso, decidi que iria tentar fazer um pouco diferente.  Vou colocar em prática algo que, na teoria, o Gerson (o terapeuta mais maravilhoso e viajandão do universo) tenta me ensinar  há uns 8 anos:  Não vou controlar.

Sim, neste mês de inferno astral eis que, finalmente, consigo enxergar um de meus maiores defeitos – sou uma pessoa controladora.  (ok, quem me conhece neste momento deve estar gargalhando porque provavelmente já sabia disso).  Só que eu não.

Conheço minha teimosia. Conheço meu lado blasé. Mas nunca tinha enxergado essa imensa necessidade de controle – e o quanto isso faz sofrer.

Neste ponto entra a “viagem”.  Ocorre que, não controlar na vida real é difícil para caramba.  Um exemplo:  eu gosto das coisas programadas. Na segunda-feira, quero saber se irei jantar em algum lugar especial, ir ao cinema, ou, se, ao sair do trabalho, irei para a casa na sexta à noite.  (Isso, na segunda-feira preciso saber o que farei  na sexta-feira seguinte).

Quando a gente está sozinho isso é fácil. Mas, quando tem outra pessoa na história, começa a ficar complicado. Sobretudo, se você e esta outra pessoa estão se conhecendo.

Cada um carrega consigo uma série de entendimentos sobre como é se relacionar com outro. (Na regra geral, uma pessoa que na segunda à noite quer confirmar o que vocês farão na sexta é considerada um pouco “excêntrica” ).

Por outro lado, se você curte a pessoa e ela curte você, parece meio obvio que a sexta à noite é uma noite para curtir com quem você gosta (Friday I’m in love, não é isso?).

Aí,  tem mais uma série de teorias que a gente aprende ao longo da vida:

Se uma pessoa está interessada em outra, ela irá procurar, ela irá demonstrar interesse, fazer planos. Ela não vai deixar para chamar você na sexta às 23h ( dando aquela ideia de que já convidou a agenda inteira para sair e, diante da negativa, você foi a que restou).  Ela também não vai deixar você horas, dias sem notícia, sobretudo em tempos de whatsapp. Afinal, relações exigem investimento (de tempo, de carinho, de dedicação).

Com tudo isso na cabeça – como você fica quando o encontro não foi marcado, o recado não foi lido, a resposta não foi dada?

Se eu me proponho a não controlar, eu não vou  enlouquecer com tudo isso. É fácil? Nem um pouquinho.  Só que a verdade é que a gente começa a entender que todo este esforço  de controle – que a gente faz sobre os dates, os amigos, o trabalho é uma grande ilusão porque  tudo isso independe de nós.

Ou seja, eu posso sofrer pela mensagem não lida imaginando em que cenário ela não foi lida;  “Ele está ocupado com outra pessoa?” , “Não está interessado em mim?” , “Está simplesmente dormindo” ,“ Está com os amigos e não viu”…  Seja qual for o cenário,  minha vontade de controle e meu sofrimento não irão mudar os fatos.

Então, eu posso  ficar angustiada, triste, preocupada, ou, simplesmente, seguir  meu dia sem esperar pela resposta, pelo convite.

A verdade é que, olhando assim  este apego todo, soa até meio idiota o tempo que eu perdi tentando controlar uma completa ilusão – uma bolha incontrolável.

Então, no apagar das velinhas deste 2017, já tenho meu pedido: Não quero mais controlar! E isso é tão libertador.

 

 

Diálogos (verdadeiros) de Jornalistas em APP de relacionamento…

Diálogo UM:
Gatinho: Oi. Tá fazendo o quê?
Jornalista: Um obituário
FIM
DIÁLOGO DOIS: 
Gatinho: Você é jornalista? Conhece xxx? Gosto muito dele porque ele é imparcial e tem coragem para falar a verdade na TV.
Gatinho: E sabe né, é que sou muito inteligente, já li tudo do Olavo de Carvalho, acompanho todas as colunas de Y na Folha…
Jornalista: É, analfabetismo funcional é fogo.
 
DIALOGO TRÊS:
 
Gatinho: Você é Gremista
Jornalista: Sou, mas, não era eu lá na lista não.
DIÁLOGO QUATRO:
Gatinho: Humm, tomando um drink na foto. Curte Campari?
Jornalista: Prefiro o Gim
DIÁLOGO CINCO: 
Gatinho: Quer beber hoje?
Jornalista: Então, não me leva a mal, não é você. É a Lava Jato
DIÁLOGO SEIS:
 
Gatinho: O que você vai fazer neste fim de semana?
Jornalista: Programa.
 
((Obrigada às queridas amigas e queridos amigos que colaboraram. Se você também quiser contar uma história boa de APP, manda aí)) . Ah,  pode ser em off mesmo. 

Tom, Rob e Alfie : o que o cinema nos diz sobre a evolução masculina

Se você tem entre 30 e 40 anos de idade com certeza  já deve ter escutado o som de The Smiths mais alto do que o comum nos seus fones de ouvido, na esperança de que a menina ao seu lado cante junto: “To die by your side Is such a heavenly way to die…”

Afinal, essa é a clássica cena do encontro entre Tom e Summer o casal de “500 dias com ela” , filme que melhor traduz o zeitgeist

Summer and Tom
Summer and Tom

da cinematografia  indie,com seus anti-heróis. Mais do que isso, eu diria que se trata do casal que melhor define uma geração de garotas crescidas pós revolução sexual e de garotos que não sabem mais como lidar com as

relações ao perceber que deixaram de ser necessários.

E,quando digo que deixaram de ser necessários, é exatamente isso: não precisamos deles para nos sustentar porque, embora ainda ganhando salários que são em média 30% menores do que os dos homens, conseguimos fazer isso sozinhas. Não precisamos deles para o status social, afinal, só quem lhe enche a paciência com o ” e os namorados hein?” é aquela tia velha que já virou anacrônica e que, portanto, você não vai nem dar ouvidos. E não precisamos deles sequer para ter prazer – qualquer menina que comprou o vibrador certo sabe que é até mais fácil ter orgasmo com o brinquedinho.

Diante deste cenário, é normal eu ouvir de namorados, alunos, amigos, primos, relatos como “poxa, mas como que você quer que eu fique tranquilo ao lado de uma pessoa que não precisa de mim?” . E aí entra a questão fundamental: nós não precisamos mais. Porém, aceitamos, de bom grado, companhias que nos fazem crescer, gente com quem repartir as angustias, a pipoca, o café na cama,as contas e o tesão.

Porém, quando a Summer diz para o Tom, em “500 dias com ela”, que não pode prometer a ele que ficará ao seu lado, porque afinal ninguém pode prometer isso, o pobre Tom se vê perdido. Que tipo de garota é essa que não quer compromisso? Que moça cruel que apenas quer ir levando as coisas, compartilhando, deixando rolar?

Summer faz com Tom o que muitos Toms fizeram com muitas Summers anos antes dela. Eles eram apenas descolados; ela é cruel. Mas questões de Summer x Tom à parte, a minha ideia aqui é falar um pouco sobre personagens pop que representam certas gerações de meninos.

Minha teoria – bem particular – é de que Tom está para os homens de 20 e poucos 30 anos. Enquanto Rob Gordon, traduz bem os de 30 e poucos a 40 e Alfie celebra os quarenta+ (em crise).

Tom, no caso, é um ícone do menino indie. Este que fica perdidão, sem saber muito bem qual seria seu papel uma vez que nós, mulheres, pagamos nossas contas, compramos vibradores e temos prioridades na agenda que não giram em torno de namoro/namorado… E aqui falo com toda a compaixão que me cabe e com meu olhar de um feminismo que não busca a exclusão mas a inclusão dos homens na luta: é duro para eles.

Alguns alunos, por conhecer meu ativismo junto ao feminismo, desabafaram coisas como  “mas, professora, não é fácil ver minha namorada ganhando mais do que eu”, ou, “poxa, eu mando mensagens, digo que quero estar com ela mas nunca sou prioridade, nunca sei o que ela está mesmo pensando”. Ok, nós mulheres passamos anos nesta mesma situação e acredito que, até encontrarmos um equilíbrio, até entrarmos na legítima equidade de gêneros, é natural que a balança pese horas mais para um lado, horas mais para outro.

E, enquanto a coisa não se harmoniza de vez, muitos Toms seguem perdidos: afinal, seus pais os criaram da forma tradicional, eles aprenderam a desejar mulheres tradicionais, mas o mundo real, oferece mulheres reais, que em nada se parecem com as princesas dos filmes da Disney.  E que talvez nunca gritem por socorro na beira de de um penhasco, refém de um vilão. Na vida real, é mais fácil bufarmos ao final do dia ao termos uma puxada de tapete no trabalho, ou precisarmos de chocolate na TPM. E essas coisas simples sim podem ficar menos pesadas se você quiser compartilhar conosco.

Em mais uma referência pop, lembro de um episódios de How I met Your Mother, em que Robin fica possessa ao ter como colega de trabalho uma menina que, propositalmente, se faz de burra e frágil. E, com essas características, rouba não apenas o posto cobiçado por Robin (afinal, os chefes preferem alguém menos contestadora), como também a atração de todos os demais colegas – que se derretem pela pobre moça indefesa e não se sentem ameaçados por ela.

Antes de Tom, quem melhor definiu esse dilema masculino foi Rob Gordon (John Cusack), em “Alta Fidelidade”. O filme foi lançado em 2000, mas,  retrata bem os homens que hoje estão entre seus 30 e poucos/40 anos.

Faça rápido a lista dos seus 5 piores relacionamentos
Faça rápido a lista dos seus 5 piores relacionamentos

Dono de uma loja de discos que acabou de ser deixado pela namorada, ele é aquele cara meio perdido na vida, meio depressivo que resolve fazer um balanço de seus relacionamentos. Para isso, Rob, que adora fazer listas de “melhores músicas”, “melhores discos”, decide rever as suas “cinco piores separações”. 

A questão aqui é que este é o homem que precisa lidar com a dura realidade: nem todo dia, é dia de pão quente. E não, nunca encontramos tudo num só corpo. Em um dos episódios que melhor define este filme para mim, Rob constata que, antes de ir morar com a namorada, pensava que casamento era lingerie sexy e sexo quente todas as noites. Só que, no cotidiano, ele descobriu que casamento é sinônimo de calcinha de algodão bege pendurada no box do banheiro.

A mim, esta é a tradução de uma geração que, perdida entre a expectativa e a realidade, decidiu simplesmente se deixar levar pela vida. Sem se responsabilizar pelos seus atos, sem ser o protagonista das suas escolhas. E que, em um dado momento, ao serem confrontados com os fatos, precisam entender que sim: querendo ou não nós fazemos escolhas e temos uma voz nos relacionamentos – ainda que ela se estabeleça pela omissão. Uma geração que, de tão acostumada a culpar os pais no divã, esquece que o passado ficou lá trás e que crescer é tomar crédito por nossas escolhas. 

Agora, se você é um homem que  já passou dos 40, é bem mais provável que se identifique com “Alfie, o Sedutor”. Na verdade, o filme de 2004 que tem Jude Law, vivendo Alfie é um remake de um clássico dos anos 60 “Como Conquistar as Mulheres” com Michael Caine.

Até parece sedutor mas na verdade... é fria
Até parece sedutor mas na verdade… é fria

 

Alfie é um motorista de limosine que acha que a liberdade é o fundamental na vida de um homem. O enredo inicial trata daquele tipo machista clássico desenhado no imaginário de gerações: homem que é homem precisa de muitas mulheres, mas, não deve se apegar a nenhuma – “Pega mas não se apega”. Se alguma companheira parece se envolver demais, ter sentimentos mais estáveis (e meigos), ele dá um jeito de terminar.

Ou seja, se nós mulheres tivermos um pouquinho de estômago, vamos assistir inicialmente um filme de um homem que trata mulher como brinquedo, e que retrata uma série de misoginia. Aliás, o longa já foi bem recomendado para machos inseguros que precisavam aumentar sua confiança com algumas técnicas manjadas de conquista.

Por isso que Alfie resume bem a vida daqueles que vivem em torno do próprio falo. Qualquer mulher que já conviveu com um “garanhão” sabe bem o quão solitária e vazia é a vida dos homens incapazes de se relacionar afetivamente.

A discussão ainda perpassa pela dificuldade que estes homens encontram para falar abertamente sobre esta solidão. E, como é um remake de uma obra da década e 1960, é possível vermos frases e cenas clássicas que já encontramos pelo caminho – e que deveriam servir de alerta para homens e mulheres de que algo ali está bem errado.

 

 

 

Voltei a fumar, e daí?

A questão é a seguinte: Levei um pé na bunda que, para ser pior, nem foi pé na bunda porque a pessoa em questão simplesmente desapareceu do mapa. Na sequencia, ganhei 4 Kg (porque ao invés de nascer com a sorte de ser daquelas que deixam de comer na tristeza, eu faço o contrário).

Voltei das férias – voltei à rotina de dormir às 01h e acordar às 06h. Com as contas apertadas, não foi neste mês que retomei a academia.

Quando coloquei tudo isso no meu horizonte, voltei a fumar.  Não me orgulho nadica disso.

 

Sempre estive adiantada no colégcigarroio. Por isso, quando meus colegas tinham ali pelos seus 14 anos de idade e começaram a ter as primeiras experiências de dar tragadas em gudan garam nas festinhas, eu tinha somente 12 anos.

Ok, eu era a nerd que sentava lá na frente porque não enxergava o quadro. Só que era uma nerd bem aceita pela turma do fundão (afinal, alguém tinha que estudar para passar cola nas provas). Logo, foi aos 12 anos que também dei minhas primeiras tragadas no cigarro.

Dos 12 até os 23 anos, fumava assim: numa festa ou outra. Sempre escondida porque não suportaria a culpa de dar esse exemplo para a minha irmãzinha.  Aos 23, comecei a fumar diariamente.Comprar carteira de cigarro de verdade – e não aqueles cigarros com sabor, vendidos a vulso.

Até eu ir morar na Rússia, segui uma rotina em que fumava em média um maço por dia. Quando cheguei em Moscou, com aquele cigarro barato e horrorosamente fedido, meu vício desapareceu e eu peguei verdadeiro nojo da fumaceira e do cheiro que aquele negócio deixava nas mãos, cabelos, roupa. Cheiro que, aliás, nunca gostei.

Tempo vai, tempo vem; eu vim morar em São Paulo. Nos dois primeiros anos, sofri para caramba para me adaptar e, aí, o cigarro voltou a ser companhia constante. Fui salva pela rinite – que de tanto me deixar sem voz, acabou me convencendo a parar com o vício.  Sempre falo para os meus alunos (de radiojornalismo e RTV) o quanto é importante cuidar da voz, afinal, é nosso instrumento de trabalho.

Acontece que ontem fiquei constrangidíssima quando estava caminhando rumo à faculdade e fui flagrada por duas alunas com meu palheiro na mão. Poxa, justo eu que me orgulhava tanto de dizer que estava há três anos sem fumar! Justo eu que sou tão cri-cri com o trabalho (e, portanto, com meu instrumento de trabalho)…

Só que ai fiquei pensando também; a idade tem uma coisa ótima (ou, pelo menos, eu acredito que deveria ter) – ela pode ser libertadora.

O tempo nos liberta, ao nos tirar da cegueira do momento. Porque há um tempo em que a gente já não deveria mais ficar se preocupando em parecer tão ok. Em que a gente já sabe que as expectativas não serão todas atingidas, e que tá tudo bem nisso. Sei lá, deve haver um tempo em que poder reconhecer nossas fraquezas, admitir que precisamos de cuidado não deveriam ser mais problema pra gente. Em algum momento, talvez, a gente possa precisar de um tarja preta, de um vinho pra dormir, ou, do cigarro para saber o que fazer com as mãos enquanto temos aquele papo desagradável que estamos  tentando evitar há meses.

Às vezes tenho a sensação de que ficar o tempo todo nos vendendo como foto de instagram e perfil de facebook é de uma crueldade imensa. Olho meus alunos nativo-digitais e fico vendo o quanto a obrigatoriedade da felicidade virou uma coisa dura. Ou eles são imensamente felizes, perfeitos e realizados em todos aspectos da vida, ou, não são nada.

Um certo ex namorado sempre lembrava “nem todo dia é dia
de pão quente”
;  e outro sempre gostava de dizer que “o ótimo é inimigo do bom”. E a vida – de verdade – é essa em que a gente fala mal de alguém que desperta nossa inveja e depois se arrepende. O mundo real é dormir à 01h, acordar às 06h e se sentir um bagaço às 18h, quando você ainda tem um segundo turno inteiro de trabalho pela frente.cigarro2

Não tenho filhos, mas, sou irmãe e convivo com muitas amigas que já têm seus rebentos. Sempre fico pensando que essa exigência que os pais fazem de ter seu filho como o melhor da classe, o melhor do mercado de trabalho, o mais dentro dos padrões estéticos exigidos, o grande esportista da turma e, ainda por cima, o popular, só gera mais e mais frustração.  Se pais, tios, primos, irmãos mais velhos passam o tempo todo mostrando o quanto são vencedores em tudo, que tipo de sentimento um filho vai ter quando ele fracassar? Se a felicidade vira obrigação, então qual a graça em ser feliz (basta ver que o culto da melancolia volta e meia retorna à moda).

Então, meus caros, se vocês me virem fumando, me deixem quietinha, porque eu já sei que é só por um período. É só para aguentar a transição. Daqui a pouco, novas paixões surgem, uma nova reportagem me arrebata, e os 4Kg se vão, junto com o vício do cigarro. Porque assim são as coisas: impermanentes.