Da série certas coisas que só acontecem com certas pessoas (ou, de como nos conformamos com a desgraça alheia)

Quarta-feira, cai aquela chuva de final de tarde em São Paulo – na forma líquida e sólida. A cidade vira um caos, falta luz, alaga tudo, o estrago está feito.  Por causa da falta de energia e, principalmente, porque a Eletropaulo não dava previsão da volta dela, as aulas foram suspensas.

“Vou para casa  mais cedo”.  No caminho de casa, trânsito engarrafado. “Normal” – É São Paulo. Estamos na Zona Sul. Choveu.

O problema é que o engarrafamento começou a demorar um pouco mais que o normal na já travada Avenida Giovani Groncchi. “Vamos desviar por Paraisópolis”, peço para o taxista, já que NENHUM agente de trânsito está ali para dizer o que está ocorrendo.

Obvio, mais pessoas tiveram a mesma ideia.

Paraisópolis, como toda comunidade, tem as ruas estreitas, e repleta de carros estacionados, outros desovados mesmo, dos dois lados da via.  Com isso, quem entrou ali para desviar, teria que seguir em fila indiana.

Uns 40 minutos parada, desisti e decidi seguir a pé. Começaram os rumores “mataram dois na favela”. 

Nesta altura, percebo que os principais acessos ao extremo sul da cidade estão bloqueados e não há ninguém para informar nada. Ligo para a rádio, aviso que a situação está periclitante, digo que vou checar o ocorrido para entrar no ar.

Pego meu crachá de jornalista, me aproximo da polícia e pergunto “O que está acontecendo?”

  1. O gerador de uma obra na Giovani Groncchi pegou fogo
  2. Este gerador fica ao lado de um tanque de óleo diesel.
  3. Para evitar uma explosão a Giovani ficará bloqueada por tempo indeterminado.
  4. Dentro de Paraisópolis, dois homens que teriam tentado cometer um assalto foram mortos. Ou seja, a  “alternativa” para o motorista estava bloqueada porque era a cena do homicídio.
  5. Todos os veículos que tentaram desviar pela comunidade ficaram “presos” por ali.

Assim, para chegar em casa, eu tive que passar pelo incêndio, a ameaça de explosão, os dois homicídios, e andar entre 2 e 3 km por dentro de Paraisópolis.   Em uma noite em que eu avaliava que chegaria mais cedo.

Nisso, uma senhora simpática se aproxima e pergunta “Posso seguir com você?”

Fico contente, acho que nós mulheres devemos seguir juntas, porque é sempre uma segurança a mais.

Uns minutos de caminhada depois, ela quebra o silêncio e diz:

– A gente reclama, mas, vai ver que é Jesus livrando de algo pior, né?
Minha senhora, nós passamos por 1 incêndio, 1 explosão, 2 homicídios, vamos ter que subir ladeira feito 2 camelas dentro de Paraisópolis à noite para chegar em casa depois de um dia trabalho… A senhora está esperando o quê de PIOR?!

((WTF! ))

Sobre Marine Le Pen, o véu e uma polêmica que nunca existiu

Post de esclarecimento para quem assistiu o Programa 3 em 1 do dia 21/02 e o Morning Show do dia 22/02

Começo  esta história fazendo uma distinção importante dentro do jornalismo: quando um repórter REPORTA algo, ele está ali contando uma história, procurando mostrá-la sob as mais variadas óticas, para que o receptor da mensagem tire suas conclusões.

Diferentemente disso, temos o articulista e o âncora  – que pegam a narrativa trazida pelo repórter e a analisam com liberdade para, sobre ela, emitir a sua opinião , e/ou, a opinião do veículo  em que trabalham.

No dia 21/02, fiz uma reportagem para o programa 3 em 1 da Jovem Pan  – gravada – em que eu contava o episódio em que a candidata à presidência da França  Marine Le Pen se recusou a usar o véu, para encontrar o grão-mufti da República do Líbano.

Para compreender o contexto da “polêmica”, consultei alguns veículos internacionais e entrei em contato com uma entidade ligada à comunidade libanesa de São Paulo. Sob a ótica da fonte com quem conversei, a recusa de Marine Le  Pen, estava  ligada a uma inadequação de vestimenta (uma vez que ela teria sido avisada da necessidade do uso do véu de forma antecipada).

Na função de repórter (e não de articulista), gravei o boletim, fazendo estas pontuações: o contexto em que isso havia ocorrido (um momento delicado para a Frente Nacional pois, isto ocorreu um dia após uma vistoria da Policia Francesa no comitê do partido,  e na véspera de lançamento de um filme que  está causando certo rumor na França (“Chez Nous”).  Considerado como campanha negativa para o partido de Marine Le Pen). Falei também sobre o embate envolvendo a proibição do uso de véus nas repartições públicas e escolas francesas –  e que a candidata da Frente Nacional defende a ampliação desta proibição, e fiz o obvio comparativo entre as propostas dela para França e as de Donald Trump para os Estados Unidos. Por fim, o boletim terminava com uma pergunta para a bancada – como é praxe no programa , já que as reportagens lá servem para incitar o debate entre os apresentadores.

Para minha surpresa, porém, a minha posição (que não estava em questão) sobre o tema foi inalada pelo meu colega Carlos Andreazza.

Talvez por conhecer meus posicionamentos em relação aos temas envolvendo as mulheres – sou assumidamente uma mulher feminista – Andreazza supôs que:

1. Eu deveria defender Marine Le Pen. 2. Eu não a estaria defendendo naquele momento. (Ambas premissas equivocadas)

 Assim sendo, a pauta foi retomada esta manhã no programa que integro – o Morning Show – onde pude não apenas reportá-la mas, aí sim, no meu espaço de âncora e articulista, emitir minha opinião sobre o tema.  O que penso está no vídeo que acompanha este post.

O episódio, agora esclarecido, serve para reflexão: o discurso do “nós x eles” pontua as questões por vieses equivocados. Neste caso, não se trata de feminismo, de sororidade. Trata-se de respeito à cultura e protocolos de Estado. Marine Le Pen é francesa, quer ser Chefe de Estado na França. E por lá, mulheres não usam véu. Logo, não cabe a ela cobrir-se porque o grão-mufti libanês assim exige. Logo, ela agiu Corretamente.

O problema é que o discurso por ela proclamado é tão contaminado que até quando age de forma correta, a intenção vem equivocada e abre espaço para ataques (pois, todos sabem, a campanha da Frente Nacional é baseada na xenofobia).  E aí, não se trata de ser uma mulher xenofóbica e sim de estarmos falando de um ser humano xenofóbico. Não é porque é uma mulher, que vou defender o preconceito que ela propaga ou a forma de propagar.

Ser feminista não é fechar os olhos para equívocos. No feminismo que eu atuo ser feminista é procurar igualdade  e também o respeito às diferenças .

Sobre religião, religiosidades e afins

Por algum motivo desconhecido, fui metralhada na noite passada por perguntas no twitter que envolviam minha espiritualidade/ religiosidade.

As primeiras e mais insistentes perguntas vieram de um ouvinte identificado

Primeira pergunta da avalanche de questionamentos sobre minha religiosidade

no twitter como @RodnerValente. A ele, prometi então tentar explicar como enxergo esta questão.

Primeira Pergunta:

Só pra saber: você é ateia?

Não. Não sou ateia.

Qual sua religião:

Não tenho religião. Religiões pressupõem homens como intermediários. Acredito na espiritualidade sem intermediários.

Você está tergiversando, acredita em Deus?

Deus, não sei. Vida após a morte?? Não faço ideia.  Paraíso, sérias dúvidas. Reencarnação… sei lá.

Vou melhorar. Quem são as pessoas que pensam como você. Não existe esse grupo? Vc é única no conceito?

Olha, não  acho que sou única no meu conceito, conheço outras pessoas que gostam de exercer sua espiritualidade, porém, não gostam de seguir uma doutrina, um dogma, uma prática . Pessoas que não se encaixam em conceitos, não se colocam na caixinha.

E, por isso mesmo, não somos “praticantes “ de algo.  O grande problema – do  MEU ponto de vista – de seguir algo é ter que me moldar a isso.  Não poder questionar, ter uma rotina de praticas religiosas, seguir cegamente uma crença.

No documentário “Espaço Além”, da Marina Abramovic, ela define a relação dela com a espiritualidade de uma forma que me identifiquei bastante; gosto de espiritualidade, mas, nunca simpatizei muito com religiões por causa desta existência dos intermediários.

Quando outros homens começam a querer  dizer como temos que nos conectar com algo que é genuinamente nosso, a mim parece haver aí algo de contraditório.

Fui batizada, fiz catequese, primeira comunhão, crisma. Estudei em escola de freiras e cheguei a cogitar a possibilidade de ingressar na Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria (irmãs que administravam minha escola). Felizmente, fui desaconselhada.

A espiritualidade, o contato com algo que transcende a racionalidade sempre foi algo forte para mim.  As práticas do catolicismo vieram, literalmente, por obrigação familiar. Integrei grupo de jovens, li a Bíblia, fiz parte da equipe de liturgia da Igreja do meu bairro, e tudo isso foi de extrema utilidade para formar minha convicção sobre nossa capacidade de acessarmos por nossa conta e risco esse lado transcendental do universo.

Na prática, isso significa que, se você me convidar para ir à missa, eu vou lhe acompanhar com respeito e alegria. Assim como costumo praticar minha meditação e fazer retiros budistas. Da mesma maneira, fico completamente reenergizada com um passe de umbanda ou o johrei . Particularmente,Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. 

Porém, não me peça para matar uma galinha, me confessar, ou, fazer  2 mil prostrações diante da imagem de Buda Shakyamuni. Muito menos, peçam-me para fechar os olhos para a pedofilia dos sacerdotes, ou, para a exploração da fé.

Acredito que estamos todos de alguma forma conectados. Acredito que eu, você e o ouvinte bolsominion que me odeia fazemos parte do mesmo universo. Acredito que toda ação nossa tem uma consequência (portanto, não se trata de “castigo” divino quando ela chega). Acredito que devemos viver cada dia em busca de uma evolução nossa  e, com isso, podemos impactar o crescimento do outro.  Agora, se há céu, inferno, vida além da morte, deus, diabo… são questionamentos para os quais não tenho resposta. E o melhor: com a idade, descubro tais questionamentos são infinitamente menos importantes para mim do que esta pergunta que encontrei pichada em um muro na cidade de Colônia de Sacramento, no Uruguai: Haverá vida ANTES da morte?

haverá vida ANTES da morte?

As armadilhas da linguagem e a minha (grave) falha

Este texto é um agradecimento e um sincero pedido de desculpas à Gabriela Di Lascio Sperotto

Mais do que isso, é um reconhecimento de que estamos aprendendo, todos os dias, a sermos alguém melhor.

Em um debate esta semana no Morning Show sobre  vídeo divulgado pela atriz Tássia Camargo , acusando a imprensa brasileira de Golpista, manipuladora das massas, etc,  fiz uma pontuação sobre o quanto me incomoda este ponto de vista único de que o receptor é uma tábula rasa esperando para ser preenchida por nós, comunicadores.

Isso é desprezar a capacidade do receptor de articular, interagir,  criticar.  Pontuei ainda que boa parte da “culpa”  nessa propagação está no (mau) uso de conceitos da Escola de Frankfurt por parte das Ciências Sociais. Na Comunicação, surgiram outras escolas, outras maneiras de ver o processo comunicativo. Porém, os cursos de Ciências Sociais dificilmente as abordam e seguem propagando a ideia de uma mídia manipuladora de massas.

Não digo aqui que a mensagem é pura (não sou ingênua). O conceito de imparcialidade é uma falácia – basta ver que hoje em dia quem o utiliza, em geral, aplica para dizer “imparcial” é aquele que diz o que eu quero ouvir. É uma falácia porque todos nós temos uma história, toda empresa precisa sobreviver, logo, tem que pensar nisso para operar. Enfim, são diversos os aspectos que pesam sobre uma notícia até ela chegar ao seu receptor. Como eu costumo brincar em sala de aula com meus alunos quando eles me perguntam sobre a “liberdade para reportar nas redações”:

“Não sejam ingênuos. Todos nós iremos servir a algum senhor. Se vocês forem trabalhar na Record, será diretamente a Ele”.

Antes que vocês atirem pedras do tipo “Não falei que o PIG era mesmo manipulador”, pensem um minuto; na empresa em que você atua, você não atende interesses, não cumpre metas, não segue normas? Por que seria diferente com uma empresa de comunicação. Nossa diferença está no interesse público (que, no bom jornalismo, deve preponderar sobre todo o resto). 

Portanto, acredito que o jornalismo honesto é aquele plural; que não nega a bagagem por trás da informação, porém, procura ouvir o máximo de vozes possíveis  e dar ao seu receptor essas múltiplas abordagens para que ele mesmo tire suas conclusões sobre o que está sendo informado.

Em relação a isso, acredito que trabalho em uma casa privilegiada. A Jovem Pan foi um dos primeiros veículos do País a abrir sua opinião editorial. Ser transparente quanto a linha que segue, quanto ao que defende.  O que não significa deixar de ser plural. E o Morning Show talvez seja o melhor exemplo disso dentro da emissora.

Ocorre que, ao fazer essa defesa no programa, usei um termo equivocado para definir essa concepção de ouvinte como “tábula rasa”. Eu disse “O ouvinte não é um retardado”. Como se a expressão retardado fosse um adjetivo.  Não é.

E, logo em seguida, percebi meu erro.  Fiquei pensando  a melhor maneira de corrigi-lo. Até que recebi uma mensagem da ouvinte Gabriela Di Lascio Sperotto, a quem muito agradeço. Ela justamente observava isso.

Há diversas formas de enxergarmos o idioma. Na minha trajetória acadêmica, sigo os Estudos Culturais. Portanto, não posso enxergar  a língua que falamos como algo ingênuo . A expressão retardado usada como adjetivo é uma forma pejorativa de tratar pessoas que possuem algum tipo de problema mental.   E foi comumente usada, até pouco tempo, para isso – depreciar, excluir essas pessoas da nossa sociedade.

Felizmente, evoluímos, felizmente entendemos que isso não é um adjetivo – é uma característica. Eu tenho olhos verdes, assim como eu tenho autismo, eu tenho down…  E é assim que deve ser tratado.

O erro que cometi é, obviamente, reflexo de anos ouvindo esta  palavra sendo usada como um adjetivo. Ou seja, assim como costumo explicar sobre as mulheres que são machistas (elas não vivem em uma bolha), eu  não fui criada em uma sociedade à parte.  Cresci em meio ao preconceito como todos nós.

Meus colegas de escola eram crianças que praticavam bulliying, em minha  família há pessoas politicamente incorretas e tudo isso fica marcado em meu inconsciente. Felizmente, pude estudar, ler, evoluir e problematizar essas coisas  para compreender a necessidade de mudança. Porém, por mais descontruídos que sejamos, eventualmente, podemos cometer erros.

Assim sendo, estou aqui para reconhecer o meu, pedir desculpas e dizer que aprendi com ele.

Moço, eu não quero seu cavalheirismo. Obrigada (explicando, didaticamente, o porquê)

Estou chegando aqui na Jovem Pan, quando um colega segura o elevador para mim e outras duas mulheres e comenta:

– Se não sou eu para segurar este elevador…O cavalheirismo morreu neste mundo.

Eu respondo:

– Ainda bem!

Nisso, ele e as duas mulheres me olham atravessado.  E começa o debate:

Colega: Como assim ainda bem?

Eu: Eu não preciso de cavalheirismo. Porém, não dispenso a gentileza. Se você segurasse o
elevador para ele, pode segurar para mim. Ou  seja, a diferença é: o que você faz pelo outro, pelo simples fato de fazer pelo outro, independentemente do gênero eu aceito. Mas, se você  segurou a porta porque eu sou mulher,  é cavalheirismo e isso não me agrada.

Colega:  Mas, as mulheres precisam ser protegidas.

Eu: De minha parte, dispenso.

Colega:  Se é assim, vocês não precisam de Maria da Penha.

Neste momento, uma das mulheres que assistia o embate diz:

– Por mim, o senhor pode continuar sendo cavalheiro.

Conto isso para um amigo e ele responde:

– É por isso que o feminismo tem tão baixa audiência, porque a maior parte das mulheres gosta destes gestos. E outra, está na hora de vocês decidirem se são ou não o sexo frágil. Porque eu fui sair com uma feminista, paguei a conta e a menina teve um pity “você acha que não sou capacitada para trabalhar e pagar minhas contas?”. Depois disso, sai com outra feminista, sugeri dividirmos a conta e ela surtou “que falta de cortesia! No primeiro encontro quer rachar a conta.” Depois disso, decidi não sair mais com feministas .  ((claro, isso até ele me conhecer <3<3 ))

Deste nosso diálogo (obrigada Baby) , pensei que talvez pudesse ser útil esclarecer esta questão de forma didática.  Aqui um alerta: estou partindo do MEU ponto de vista.

No feminismo que eu me alinho entendemos que homens e mulheres NÃO são iguais. Temos diferenças biológicas. Temos diferenças psíquicas. Temos N diferenças. Essas diferenças não nos fazem melhores nem piores. Apenas diferentes. Portanto, o que queremos é respeito  às diferenças.

Assim sendo, se eu estou carregando uma mala super pesada, e eu tenho 1,62cm, peso 56Kg, e meu irmão tem 1,92, e pesa 82 Kg, é obvio que é educado da parte dele se oferecer para carregar a mala. Ele treina, tem maiores condições físicas de suportar o peso e é isso.

Dividir a conta: a independência financeira é algo fundamental  para todas as outras independências. Para mim, por exemplo, foi a chave para a manifestação da minha identidade, para a livre expressão. Portanto,  ao sair com alguém, dividir a conta é  uma questão de justiça  e também uma forma de dizer que estamos juntos, porém, cada um irá ajudar manter e respeitar a individualidade do outro. Afinal, nós dois trabalhamos, nós dois temos nossas liberdades, nossas idiossincrasias e, nós dois dividimos este momento de um jantar juntos, assim sendo, juntos pagaremos por ele.

Agora, minha gente, as coisas podem – e devem – ser mais leves:  vamos supor que eu ganho um salário x e  o meu namorado ganha um salário  3x ( o que, infelizmente, é bem comum no Brasil, país em que mulheres ainda ganham, em média, 30%  menos que seus pares masculinos, exercendo as mesmas funções) . É justo, por exemplo,  que as contas sejam divididas meio a meio?  Talvez seja justiça dividi-las de forma proporcional. Enfim, cada casal terá seu acordo. Não existe regra para isso. Um dia eu vou querer levar o meu namorado para jantar e o meu presente para ele será eu pagar a conta, por que não? Ou o contrário.

Outro dia, uma amiga pontuou o seguinte; eu não divido conta porque, antes de sair, gasto R$ 200,00 em depilação, R$60,00 em manicure/pedicure; R$150,00 em lingerie nova. Logo, acho justo que ele, no mínimo,  pague o jantar. E , ok!  É um ponto de vista. Que também é correto. (Aliás, eu nunca tinha pensado nisso. quanto investimento a gente faz em um date hein!)

Maria da Penha:  se eu assediar um homem, ele provavelmente, saberá se desvencilhar deste assédio que não o agrada. Mais do que isso, ele não terá medo de ser estuprado por mim. Minha compleição física dificultaria o ato, a minha historia de mulher representa menor agressividade e, portanto, menor potencial para isso. Se for o contrário… qualquer mulher sabe o que é viver uma situação de assédio e o medo que essa situação passe para a esfera física.  Qualquer mulher sabe das dificuldades de se desvencilhar de um ataque desses. Assim sendo, a  Lei Maria da Penha surge em uma sociedade que ainda tem a  mulher como vítima frequente da violência.

Abrir porta do carro, puxar a cadeira, carregar bolsas: nós meninas, muitas vezes, somos ensinadas a gostar desses gestos.  “Se ele realmente gosta de você, irá mimá-la
abrindo a porta do carro, puxando a cadeira para você sentar”. O problema é  a “conta” que pagamos por eles. Em geral,  não são gestos genuínos. Eles vêm imbuídos de um pensamento de que somos “incapazes de”, ou, de uma cobrança, “ eu fiz isso por você, logo, você me deve algo”.  Pior, intrinsecamente, aprendemos a valorizar tais gestos mais do que o respeito por nossas ideias, mais do que a valorização pela nossa independência, o gosto pela nossa liberdade. E, muitas vezes, acabamos engolindo alguém que nos desrespeita nessas outras esferas porque “ele é um gentleman

Este, portanto, é motivo pelo qual o cavalheirismo é ruim. É pela carga que está nele. Assim sendo, eu sempre preferi e continuo preferindo a gentileza.  A mim, não ofende, não magoa,  que abram a porta do carro, que paguem a conta, ou, que ela seja dividida, não ofende segurar a porta do elevador.  Desde que tudo isso seja feito de forma genuína – pelo fato de eu ser humana e não pelo fato de eu ser mulher. 

Não ofendem gestos generosos, gentis – que venham acompanhados de honesta admiração pela minha pessoa, pelas minhas ideias, pelo meu sorriso. Que venham junto do respeito a minha liberdade, a minha individualidade. Isto é, prefiro um companheiro que me respeite e considere intelectualmente, que demonstre isso em gestos e palavras. Só que mais do que isso – que o faça também pelos outros, sejam eles meninos ou meninas.

No dia mundial do câncer, uma reflexão sobre o impermanente

Recentemente, enfrentamos o câncer. E, quando eu digo isso na primeira pessoa do plural, é porque câncer é assim mesmo: uma doença que atinge não somente o paciente – todo  mundo que está próximo é, de alguma, forma acometido.

Ninguém fala muito mas as complicações vão desde o óbvio medo de perder alguém que a gente ama muito, passando pela descoberta do repugnante “mercado médico de exploração da dor” (olha, você precisa fazer esse exame, que custa R$3 mil e que só meu marido faz aqui na cidade) e pelo acirramento das sensibilidades do paciente que – via de regra  – costuma ficar mais carente de atenção, cuidados, do nosso tempo.

Mãe mais linda do Universo

Quando minha mãe descobriu o câncer de mama, eu  já estava morando em São Paulo. Então, a gente coloca aí o ingrediente da culpa: minha mãe está doente e eu estou longe dela para trabalhar.

Felizmente, meus irmãos, meu pai, meus tios e primos seguraram juntos a barra e, mesmo longe, foi possível estar perto. Felizmente, em meio ao mercado médico da exploração da dor, encontramos profissionais sérios, comprometidos que caminharam conosco. O tratamento seguiu – cirurgia, radioterapia. Por escolha de minha mãe, ela não fez quimioterapia –  e hoje segue a medicação e toda observação que é preciso depois de combater o tumor. Mas sempre lembro que, infelizmente, nem todas tiveram os mesmos recursos para o diagnóstico rápido, o mesmo apoio, a mesma rede de solidariedade de minha mãe.

Compartilho isso porque o dia 04 de fevereiro é o Dia Mundial do Câncer, momento de falarmos sobre esta doença que ainda hoje assusta tanto a gente. Neste ano, o foco está no câncer que atinge crianças e jovens, um tipo que de certa forma nos choca mais ainda porque bagunça a “ordem” das coisas.

Lembro que, certa vez, fiz uma série de reportagens especiais sobre o Câncer Infantil. Na Santa Casa de Porto Alegre conheci a Clara, uma menina linda, cuja força me arrastou. A Clara, carequinha, sorridente, sapeca, encarava o tratamento com tanta força que tudo ali parecia uma grande brincadeira. A mãe da Clara me contava que, às vezes, ia para o corredor chorar – para que a Clarinha não visse o seu momento de “fraqueza”.

Preparando uma reportagem para este dia, ouvi especialistas em oncologia pediátrica que, de forma unânime, concordaram: é muito mais difícil fazer os pais compreenderem a doença do que as crianças. O Coordenador do Serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital Santa Marcelina e Presidente da Associação Para Crianças e Adolescentes com Câncer TUCCA, Sidnei Epelman tem uma explicação para isso:  o “normal” da vida é que os adultos, os velhos adoeçam. Quando um filho adoece a gente quebra essa ordem. 

Quando eu conversei com a Chefe do Serviço de Oncologia pediátrica do INCA, Sima Ferman, ela disse uma frase que está até agora martelando aqui:

” A criança entende muito bem que ela vai perder o cabelinho e depois ele vai crescer e vir mais bonito ainda. E ela encara isso com um astral muito bom.”

Essa compreensão das crianças – como a Clarinha – de que o cabelo só não está ali por um tempo é tão bonita e tão difícil de mantermos conosco quando crescemos. Porque parece que, quando a gente cresce, tudo fica muito mais definitivo na nossa visão.

Quando lidamos com uma doença com esta o sofrimento que, assim como o cabelinho que cai e volta, é temporário, nos endurece tanto que parece não ter fim. E é humano isso.

Mas não podemos esquecer que é uma perspectiva, é um momento. E é nesse momento que não estar só é fundamental. Quem está passando por isso,  quem já passou, talvez possa usar este sábado para doar ou buscar solidariedade, compaixão e sentir que estamos juntos: pacientes, familiares, profissionais da área da saúde nos apoiando, reconhecendo a batalha e ajudando a fazer ver que aluta também é fluída e fica menos dura quando estamos lado a lado.

 

Meu pedido de aniversário: Não dá para controlar

Reconhecer nossos defeitos. Eis uma das maiores qualidades da tal maturidade.  Faltando uma semana para meu aniversário e, em meio à tempestade que o inferno astral traz,  isto tem feito o maior sentido.

É que inferno astral que se preza, precisa de ingredientes de todas as partes:  você  vê seu salário sem reajuste , em uma briga sindical/judiciária que não tem fim; acumulam as contas do final do ano com os impostos do início do ano;  as datas das férias mudam e você não consegue mais conciliar as férias dos dois empregos;  começo  uma dieta maluca que deixa o meu tradicionalmente humor ácido com um PH próximo de 1 e, quando parece que o cenário não pode ficar mais desfavorável, resolvo me apaixonar.

Mas não é uma paixão dessas “tranquilas com sabor de fruta mordida, nós na batida no embalo da rede…” . É tudo exatamente o avesso.

O que fazer?

Até aqui, sempre fiz o mesmo: entro  no turbilhão, me rasgo, tento agarrar as coisas de uma forma desesperada para  “fazer dar certo”.  Em um prazo que varia de um a três meses o resultado disso, inevitavelmente, é eu já ter deixado este turbilhão de lado, esquecido tudo o que passei e estar prestes a cair em outro vendaval (e haja alertas para que Dorothy saia de perto da linha do trem).

Por isso, e só por isso, decidi que iria tentar fazer um pouco diferente.  Vou colocar em prática algo que, na teoria, o Gerson (o terapeuta mais maravilhoso e viajandão do universo) tenta me ensinar  há uns 8 anos:  Não vou controlar.

Sim, neste mês de inferno astral eis que, finalmente, consigo enxergar um de meus maiores defeitos – sou uma pessoa controladora.  (ok, quem me conhece neste momento deve estar gargalhando porque provavelmente já sabia disso).  Só que eu não.

Conheço minha teimosia. Conheço meu lado blasé. Mas nunca tinha enxergado essa imensa necessidade de controle – e o quanto isso faz sofrer.

Neste ponto entra a “viagem”.  Ocorre que, não controlar na vida real é difícil para caramba.  Um exemplo:  eu gosto das coisas programadas. Na segunda-feira, quero saber se irei jantar em algum lugar especial, ir ao cinema, ou, se, ao sair do trabalho, irei para a casa na sexta à noite.  (Isso, na segunda-feira preciso saber o que farei  na sexta-feira seguinte).

Quando a gente está sozinho isso é fácil. Mas, quando tem outra pessoa na história, começa a ficar complicado. Sobretudo, se você e esta outra pessoa estão se conhecendo.

Cada um carrega consigo uma série de entendimentos sobre como é se relacionar com outro. (Na regra geral, uma pessoa que na segunda à noite quer confirmar o que vocês farão na sexta é considerada um pouco “excêntrica” ).

Por outro lado, se você curte a pessoa e ela curte você, parece meio obvio que a sexta à noite é uma noite para curtir com quem você gosta (Friday I’m in love, não é isso?).

Aí,  tem mais uma série de teorias que a gente aprende ao longo da vida:

Se uma pessoa está interessada em outra, ela irá procurar, ela irá demonstrar interesse, fazer planos. Ela não vai deixar para chamar você na sexta às 23h ( dando aquela ideia de que já convidou a agenda inteira para sair e, diante da negativa, você foi a que restou).  Ela também não vai deixar você horas, dias sem notícia, sobretudo em tempos de whatsapp. Afinal, relações exigem investimento (de tempo, de carinho, de dedicação).

Com tudo isso na cabeça – como você fica quando o encontro não foi marcado, o recado não foi lido, a resposta não foi dada?

Se eu me proponho a não controlar, eu não vou  enlouquecer com tudo isso. É fácil? Nem um pouquinho.  Só que a verdade é que a gente começa a entender que todo este esforço  de controle – que a gente faz sobre os dates, os amigos, o trabalho é uma grande ilusão porque  tudo isso independe de nós.

Ou seja, eu posso sofrer pela mensagem não lida imaginando em que cenário ela não foi lida;  “Ele está ocupado com outra pessoa?” , “Não está interessado em mim?” , “Está simplesmente dormindo” ,“ Está com os amigos e não viu”…  Seja qual for o cenário,  minha vontade de controle e meu sofrimento não irão mudar os fatos.

Então, eu posso  ficar angustiada, triste, preocupada, ou, simplesmente, seguir  meu dia sem esperar pela resposta, pelo convite.

A verdade é que, olhando assim  este apego todo, soa até meio idiota o tempo que eu perdi tentando controlar uma completa ilusão – uma bolha incontrolável.

Então, no apagar das velinhas deste 2017, já tenho meu pedido: Não quero mais controlar! E isso é tão libertador.