Sobre mulheres maravilhosas e relacionamentos conturbados

Minha convivência com o universo feminino tem sido mais intensa nos últimos anos. Nem sempre foi assim:
eu era a guria na turma dos moleques.
Talvez porque me ensinaram que ser moleque é que era legal. Ser moleque é que demonstrava força. Ser moleque era o que realmente importava. Coisa de menina era ofensivo ( e não é que O Segundo Sexo segue sempre atual!), era menor, era coisa para ser desprezada.
Felizmente, conforme fui crescendo, fui entendendo o rico universo feminino e o quanto ele era colorido, múltiplo, repleto de idiossincrasias. Fui compreendendo que, o que diziam ser menor, era, na verdade, o incompreendido, àquilo que os outros desconheciam (e por isso muitas vezes temiam).
E é aí o ponto que tem me intrigado; o medo do desconhecido nos leva a atitudes esquisitas e,quase sempre, estúpidas.
Mulheres fortes, mulheres competentes, mulheres independentes relatam histórias cada vez mais duras de suas relações. O cara com quem ela tem um filho registra a criança, aparece uma vez por ano e justifica dizendo “quando olho pra ele, enxergo minhas frustrações”. Outro namorava a menina há mais de um ano, quando ela descobriu que o filho dele sequer sabia da existência de um namoro na vida do pai. Teve aquele que simplesmente desapareceu – não ligou, não mandou mensagem no celular (espero que o corpo inteiro esteja em estado de putrefação e não apenas o coração deste indigente). Um sujeito reclamou com a mina porque ela “trabalhava demais”. E tem também o que achava minha amiga “too much” – sorri muito, tem muita personalidade, mostra demais as pernas (lindas por sinal). Ah, claro, e o que, em não aceitando que a relação estava indo pro buraco, decidiu partir para atitudes mais agressivas como perseguição, crises de ciúmes e,obviamente, agressões verbais/psicológicas (você tá feia, ninguém vai te querer, você é leviana…).
Quando vejo tantas mulheres sofrendo em relações doentias com homens imaturos, inseguros e bobões fico pensando onde a cultura do machismo, do meu filho tem que ser “comedor”, do “mulher pra casar X mulher pra transar” está nos levando.
Amores que deixaram de existir, neuroses que nunca precisariam ter aparecido. Tudo isso fazendo um mundo de menos amor, mais desconfiança, mais mágoas e amarguras.
Seria mais fácil aceitar que somos seres diferentes. Compreender que essas diferenças merecem respeito e não julgamento. Que temos direitos e obrigações iguais, que ser honesto não exclui ser educado, e essas duas coisas são sempre melhores do que a covardia. “Aceita que dói menos”, diz minha irmã adolescente. E é exatamente isso: aceita que quando estamos juntos, é porque, simplesmente, algo ali nos faz bem. Não é necessidade. Não é obrigatoriedade. É só um exercício diário de escolha – que precisa de uma boa dose de lucidez pra dar certo

Pátria educadora?

Antes de me tornar jornalista, fui professora da rede pública municipal. Era 1 atividade que eu exercia pra ajudar a pagar as despesas com a faculdade. Mas, até hoje, sempre digo que foi o período em que mais aprendi sobre jornalismo. Gostei tanto que, quase tive que deixar meu amor pela reportagem um pouco em stand by pra poder voltar a sala de aula (felizmente, agora posso conciliar os 2). Só que foi também nesta prática diária da sala de aula que entendi a falácia que era o tal discurso de que a “educação é o caminho pra mudar este país”. Falácia pq os que pregam isso olham para os professores com ar de “loser”: não conseguiu passar num vestibular mais concorrido, por isso fez licenciatura. Meu filho não respeita limites e a culpa é do professor (e não da péssima educação que damos em casa). To pagando, é tua obrigação me ensinar. Isso sem contar nos governos que, “para completar carga horária”, colocam a professora de matemática pra dar aula de geografia. E o professor de história pra quebrar o galho na língua inglesa.
Aí vejo o Estado tratar professores/trabalhadores como questão de segurança pública.
Então, sejamos honestos: essa não é, nunca foi a pátria educadora. Cagamos pra educação. Os únicos líderes que realmente acreditaram nisso foram hostilizados, boicotados e desrespeitados pelo mesmo Estado e sociedade (Brizola talvez seja o maior exemplo).
Desculpa o desabafo ai- só acho que reconhecer os problemas é o primeiro passo pra soluciona-los. E, no dia de hoje, um abraço muito forte nos maravilhosos professores e colegas que tive no magistério. – com a admiração e reconhecimento que vocês merecem.

Sobre perder a ingenuidade

Em meio à mudança, a inocência perdida
Em meio à mudança, a inocência perdida

Vinhamos conversando com as famílias que habitavam uma ocupação em Osasco para uma matéria sobre obras de urbanização no Jardim Rochdale (bairro composto por 13 diferentes favelas). Por termos sido uma das primeiras emissoras a olhar para o caso, os moradores nos comunicaram antes que, hoje pela manhã, haveria a retirada dos barracos (120 segundo eles, 150 conforme a prefeitura).
A situação é complicada: uma área de risco, invadida por famílias – na sua maioria com idosos, crianças, gente com necessidades especiais. Mas tinha também gente que não tem mais o que fazer da vida (como em qualquer lugar do mundo, inclusive ai no seu escritório). A prefeitura alega que o grupo invadiu o lugar sabendo das obras previstas para a região e, assim, querendo “passar na frente” dos já inscritos em programas de moradia.
Os moradores dizem que não faziam ideia da proposta e que estão ali há mais tempo do que o que é dito pelo poder público. A verdade é que pouco importa. A alegação do poder público “de que ocuparam para furar fila” parece ser uma justificativa para a forma de passar por cima (literalmente) do problema:
Não imagino gente vivendo em barracos precários, com privadas que despejam seu conteúdo direto num córrego fedido; crianças correndo ao redor de ratazanas, vento entrando pelas frestas, mosquito invadindo a carne (mesmo diante de um friozinho que apareceu nos últimos dias)… enfim, não imagino alguém vivendo nestas condições por escolha. Se tentaram passar na frente, ainda assim, é porque não têm para onde ir. Porque em algum lugar seguem desamparados.
Um morador me mostrou a foto dele com o prefeito – que esteve nos mesmos barracos durante a campanha pedindo votos. Não sei o que pensar de tudo isso. Não sei o que pensar da mãe de 17 anos, com o bebê de 3 meses no colo, que chorava ao assistir a retroescavadeira passar por cima do seu barraco. Não sei exatamente como agir ao ver os cuscos perdidos na mudança. Não sei bem qual o julgamento sobre o fato de haver 25 vagas em abrigos da cidade e 150 famílias no local onde a ação ocorreu. Não sei bem como reagir quando um guarda civil desabafa comigo e com um outro colega “to qui com a cabeça. Porque, com o coração, não dá pra fazer isso não”. Mas, daí, em meio a tudo isso, vejo um pequeno objeto perdido no chão da mudança e a cena traduz um pouco do que é o jornalismo: perder a inocência – cada dia um pouco mais

Um lar para chamar de seu

Eu já morei em uma pensão só para meninas, na primeira vez em que sai de casa. Já dividi quarto com a Priscila Oliveira, no tempo em que também dividíamos o apartamento (e as angústias) com a Rachele Delazeri S. Couto. Morei com o Otto quando a gente decidiu que já dava pra se suportar mais do que somente aos finais de semana. E fui pra uma pensão muquifo quando eu e ele mudamos de ideia e achamos melhor continuar nos vendo somente no trabalho mesmo. Vivi em um JK no centrão de Porto Alegre, com direito a cupim caindo sobre a gente e com trilha sonora da Caiçara nas tardes, quando as donas de casa faziam suas faxinas e eu tentava estudar.

Morei no apartamento, lá do lado da Padaria, onde a Luiza Braun esperava o barulho da porta toda noite pra levantar da cama e seguir pé ante pé para a cozinha, me acompanhar no jantar “só pra saber como foi meu dia”. Vivi ainda no apartamento onde cortei meu rosto. E também na casinha velha do Parque, lá onde minha mãe fazia “caminha na sala” pra que eu e meu Bah víssemos os filmes da Mônica aos domingos, e onde eu ralava os joelhos tentando andar de bicicleta, correndo na rua ou subindo em árvores.

Morei numa casa grande de dois andares, com pátio, cachorro e piscina – maior sonho dos meus pais para poder, finalmente, curtir as crianças – e que, quando conseguiram realizá-lo, já não eram mais crianças. Morei em casa de família, quando fiz meu primeiro intercâmbio nos Estados Unidos, e num apartamento antigo, coberto de pó e que sempre me fazia acreditar que eu estava num filme de guerra, quando vivi na Rússia.

Morei no apartamento de Perdizes, que me dava direito a acordar com os passarinhos cantando e a dormir vendo a lua cheia – uma maneira de acalmar a alma e a saudade no meio do espanto que São Paulo me causava. Hoje moro num apartamento que fica em um lugar que a especulação imobiliária convencionou chamar “Vila Andrade”. Tenho vista para Paraisópolis e para todo o contraste de uma cidade que comporta, de um lado da rua varandas gourmet, e do outro a laje do churrasco.

Cada um destes lugares não era apenas a minha casa: era meu canto no mundo, um espaço de memórias. Só quem entende isso (sem caretas, ou limitações humanas) pode compreender cada um destes relatos. Um canto não é só um canto: é uma marca que a gente deixa, é o aconchego e o acolhimento, é um pedacinho da nossa história. É pra ele que a gente foge quando fica cansado, com medo ou simplesmente quando precisa de sossego. É no canto que recebemos os amigos, vemos nossos filmes, lemos nossos livros e curtimos nosso gato. É por aqui que eu posso passar argila no rosto, creme no cabelo, cantar no banho, chorar quietinha e ninguém me julgar por isso. É o espaço de ser eu mesma- nas minhas qualidades, defeitos e até esquisitices.
Mas, e quando a gente fica sem isso?http://http://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/na-comunidade-nelson-mandela-10-mil-pessoas-vivem-26-dias-da-reintegracao.html