Pedacin e esquema: dá trabalho demais

A primeira história terminou no carnaval. Uma amiga vinha curtindo um affair há cerca de dois meses, com um cara aparentemente bacana até que foi obrigada a aderir ao hit da folia “Você partiu meu coração” depois que ele decidiu desaparecer durante a festa. Sem mais, nem menos, ele sumiu.

Na verdade, ele não desapareceu completamente, em um dos dias, resolveu dar um “oi”, atacando ela com mensagens agressivas e malucas, em meio a um surto psicótico. O que sei da narrativa: os dois se conheceram em um app e relacionamentos. Tinham afinida
des. Ela titubeou por alguns instantes achando que poderia ser fria mas, pesando prós e contras, achou que teria mais prós: idades, regulavam; ideias, convergiam; assuntos, sobravam; sexo dava para o gasto; enfim, aparentemente, valia a pena o investimento de tempo, energia, lucidez.

Depois do carnaval, ele ressurgiu, com a desculpa de que o desaparecimento
era normal. Os dois não tinham compromisso,aliás, segundo ele, ela sequer poderia chamá-lo namorado, e ele estava “apenas curtindo a esbórnia com os amigos”. Conclusão, minha amiga decidiu não mais chamá-lo de coisa alguma e sim mandá-lo caminhar.

A segunda história foi comigo. Por um ano, fiquei em uma das relações mais legais
que já tive. A gente se conheceu trabalhando. Eu levei um puta susto quando ele me chamou para sair porque era um cara que eu lia na faculdade e pensava “nossa, quando eu for gente grande, quero fazer isso”.  O tipo do jornalista que sempre sonhei ser.  Quando terminou o programa que estávamos fazendo, ele pediu meu telefone. Achei que era alguma pauta, ou, uma piada mesmo mas, na verdade, o que ele queria era me chamar para sair.

E chamou. E a gente saiu. E foi tudo muito rápido. E, porque foi rápido, não deu certo. Separamos-nos por uns dois meses. E, depois, nos reaproximamos. Seguimos compartilhando vinhos, pautas, problemas, alegrias, por um bom tempo. A rotina dele é viajar a trabalho, a minha é uma dupla jornada de trabalho. Por isso, o cotidiano nunca permitiu que tivéssemos uma relação “normal”. Nunca houve amarras. E não sentíamos necessidades delas. Estávamos ali no presente e isso nos bastava. Até o momento em que deixarmos de estar.

O problema é que o momento em que deixamos de estar foi aquele em que ele decidiu formalizar tudo isso. E foi aquele também em que, no ditado popular, “a fila andou”.

Olhando para estas duas histórias lembro da conversa que tive esta madrugada:

Eu: Será que o fato de os homens estarem meio “perdidos” com seus papeis é que tem feito com que eles se tornem tão imaturos e irresponsáveis?

Outra Pessoa: Mas não são os homens. São as pessoas que estão imaturas e irresponsáveis em termos de relacionamentos.

(…)

Vou ter que concordar.

Não são apenas os homens. Muito embora eu veja isso com maior frequência no universo masculino.

Estamos todos deliberadamente imaturos e irresponsáveis com as outras pessoas quando o assunto é criar laços.

Olhando para as duas histórias que contei, vejo claramente que não tem uma fórmula de re
lação correta. Só que todas, sem exceção, exigem dedicação. E isso dá trabalho. Exige transpiração.

Olho para a minha amiga que achava estar fazendo tudo certo ao investir em uma relação.  Parecia a primeira aluna da classe de um lama budista que prega compaixão. Esqueceu apenas que até no altruísmo pode haver uma pitada de egoísmo. Sim, porque ajudar quem não está pedindo pode ser muito mais uma forma de auto-ajuda.

Minha amiga, coitada, esqueceu o básico: relação é  via de mão dupla. É impossível relacionar-se com quem não tem empatia.

Olho para minha ex -relação que sofreu de timings diferentes, porque não tínhamos tempo suficiente para dedicar  um ao outro e penso – esse negócio de criar laços  é tão old school.

Agora entendo, assim como minha amiga, o tal hit do carnaval. É mais fácil distribuir o coração em pedacinhos, porque pedacinhos são fáceis de juntar. A gente pode até dar desculpas, desaparecer, pode esquecer um pedacinho aqui e outro ali que talvez nem sinta falta.

O coração inteiro – daquele jeito que a gente dispõe com toda coragem p
ara ser partido – precisa ser trabalhado, estimulado. São necessárias horas de dedicação, afinco, paciência.

É atirar-se de cabeça em algo que, sabemos, pode dar errado. Que dando errado pode gerar novos traumas, novos esforços. Mais do que isso, você entra  em uma história sabendo que coisas mais tentadoras podem vir e que você terá que recusá-las porque está ali, comprometido.

Assim, fica fácil entender porque o preço do “pedacin” sai mais em conta. Só não dá para esquecer que, quando os “esquemas” acabarem, dá trabalho também preencher o vazio deixado por tantos pedacins...

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