Da série certas coisas que só acontecem com certas pessoas (ou, de como nos conformamos com a desgraça alheia)

Quarta-feira, cai aquela chuva de final de tarde em São Paulo – na forma líquida e sólida. A cidade vira um caos, falta luz, alaga tudo, o estrago está feito.  Por causa da falta de energia e, principalmente, porque a Eletropaulo não dava previsão da volta dela, as aulas foram suspensas.

“Vou para casa  mais cedo”.  No caminho de casa, trânsito engarrafado. “Normal” – É São Paulo. Estamos na Zona Sul. Choveu.

O problema é que o engarrafamento começou a demorar um pouco mais que o normal na já travada Avenida Giovani Groncchi. “Vamos desviar por Paraisópolis”, peço para o taxista, já que NENHUM agente de trânsito está ali para dizer o que está ocorrendo.

Obvio, mais pessoas tiveram a mesma ideia.

Paraisópolis, como toda comunidade, tem as ruas estreitas, e repleta de carros estacionados, outros desovados mesmo, dos dois lados da via.  Com isso, quem entrou ali para desviar, teria que seguir em fila indiana.

Uns 40 minutos parada, desisti e decidi seguir a pé. Começaram os rumores “mataram dois na favela”. 

Nesta altura, percebo que os principais acessos ao extremo sul da cidade estão bloqueados e não há ninguém para informar nada. Ligo para a rádio, aviso que a situação está periclitante, digo que vou checar o ocorrido para entrar no ar.

Pego meu crachá de jornalista, me aproximo da polícia e pergunto “O que está acontecendo?”

  1. O gerador de uma obra na Giovani Groncchi pegou fogo
  2. Este gerador fica ao lado de um tanque de óleo diesel.
  3. Para evitar uma explosão a Giovani ficará bloqueada por tempo indeterminado.
  4. Dentro de Paraisópolis, dois homens que teriam tentado cometer um assalto foram mortos. Ou seja, a  “alternativa” para o motorista estava bloqueada porque era a cena do homicídio.
  5. Todos os veículos que tentaram desviar pela comunidade ficaram “presos” por ali.

Assim, para chegar em casa, eu tive que passar pelo incêndio, a ameaça de explosão, os dois homicídios, e andar entre 2 e 3 km por dentro de Paraisópolis.   Em uma noite em que eu avaliava que chegaria mais cedo.

Nisso, uma senhora simpática se aproxima e pergunta “Posso seguir com você?”

Fico contente, acho que nós mulheres devemos seguir juntas, porque é sempre uma segurança a mais.

Uns minutos de caminhada depois, ela quebra o silêncio e diz:

– A gente reclama, mas, vai ver que é Jesus livrando de algo pior, né?
Minha senhora, nós passamos por 1 incêndio, 1 explosão, 2 homicídios, vamos ter que subir ladeira feito 2 camelas dentro de Paraisópolis à noite para chegar em casa depois de um dia trabalho… A senhora está esperando o quê de PIOR?!

((WTF! ))

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