Meu homão da porra

Conheci meu homão da porra trabalhando. Estávamos participando de um programa de TV. Quando acabou a gravação, ele entregou um cartão com seus contatos e pediu meu telefone.

Mandei uma mensagem. Ele me chamou para sair.

Homão da Porra=Mulher Porreta= Ser Gente

 

Era quarta-feira à noite. Por isso, propus que saíssemos na sexta – expliquei que era minha única noite livre na semana. “Sexta não posso: janto com meus filhos”, foi a resposta.

 

Com a sexta ocupada, decidimos que tudo bem sairmos na quinta mesmo. Saímos na quinta, no sábado, domingo… seguimos nos vendo pelos próximos meses.

Nosso primeiro jantar em casa foi na casa dele porque ele cozinhou para mim (o segundo, o terceiro, o quarto… também).

Ele me contou que aprendeu a cozinhar de verdade quando se separou: “não quero ser aquele pai separado que pede pizza para os filhos”. Também contou que a primeira vez que fez um feijão para os meninos pensou “Nossa, isso sim é realizar um feito difícil!” (detalhe nada pequeno aqui: ele é correspondente de guerra).

Meu homão da porra tem lá suas confusões; por um ano ficamos juntos sem exclusividade. Fomos, voltamos, demos espaço um ao outro, respeitando o tempo de cada um.

Nisso, quase nos perdemos. É que estar junto não é questão apenas de paixão e amor. É ainda questão de timing.

Por um período, eu quis namorá-lo, ele não estava pronto. Houve outro tempo em que ele quis me namorar, eu queria namorar outro alguém. Ele respeitou.

Meu homão da porra não faz crochê; mas lava, cozinha, passa as camisetas da escola dos filhos e me leva ao trabalho – quando não está cobrindo uma eleição na França, fazendo o Ramadã em Gaza, vivendo a guerra na Venezuela.

Ele faz declarações de amor, me mostra canções que combinam com a gente.   Ele também dá mancadas, nunca me deu flores e diz coisas que às vezes me entristecem. Fala do mundo, dos mais de 60 países que já conheceu com a mesma naturalidade com que conta sobre a consulta da Capitu na veterinária.

Só que ele não é um  homão da porra vivendo numa bolha isolada: perdeu a mãe aos 14 anos. Junto de duas irmãs porretas, aprendeu a se virar.

Uma delas, é motoqueira, tem uma alma linda de quem luta por igualdades. Outra trabalha o dia inteiro, dá conta de um de ser mãe, companheira e irmãe e ainda acha tempo para as viagens que tanto ama.

Meu homão da porra só é um homão da porra porque tem algo lindo que se chama empatia.

E, eu não sei vocês, mas, para mim, parece que nossa surpresa com a existência de empatia masculina é um alerta de que algo vai muito mal.

Afinal, se colocar no lugar do outro não deveria ser coisa de homão da porra nem de mulher porreta. Deveria ser coisa de gente.

Moço, eu não quero seu cavalheirismo. Obrigada (explicando, didaticamente, o porquê)

Estou chegando aqui na Jovem Pan, quando um colega segura o elevador para mim e outras duas mulheres e comenta:

– Se não sou eu para segurar este elevador…O cavalheirismo morreu neste mundo.

Eu respondo:

– Ainda bem!

Nisso, ele e as duas mulheres me olham atravessado.  E começa o debate:

Colega: Como assim ainda bem?

Eu: Eu não preciso de cavalheirismo. Porém, não dispenso a gentileza. Se você segurasse o
elevador para ele, pode segurar para mim. Ou  seja, a diferença é: o que você faz pelo outro, pelo simples fato de fazer pelo outro, independentemente do gênero eu aceito. Mas, se você  segurou a porta porque eu sou mulher,  é cavalheirismo e isso não me agrada.

Colega:  Mas, as mulheres precisam ser protegidas.

Eu: De minha parte, dispenso.

Colega:  Se é assim, vocês não precisam de Maria da Penha.

Neste momento, uma das mulheres que assistia o embate diz:

– Por mim, o senhor pode continuar sendo cavalheiro.

Conto isso para um amigo e ele responde:

– É por isso que o feminismo tem tão baixa audiência, porque a maior parte das mulheres gosta destes gestos. E outra, está na hora de vocês decidirem se são ou não o sexo frágil. Porque eu fui sair com uma feminista, paguei a conta e a menina teve um pity “você acha que não sou capacitada para trabalhar e pagar minhas contas?”. Depois disso, sai com outra feminista, sugeri dividirmos a conta e ela surtou “que falta de cortesia! No primeiro encontro quer rachar a conta.” Depois disso, decidi não sair mais com feministas .  ((claro, isso até ele me conhecer <3<3 ))

Deste nosso diálogo (obrigada Baby) , pensei que talvez pudesse ser útil esclarecer esta questão de forma didática.  Aqui um alerta: estou partindo do MEU ponto de vista.

No feminismo que eu me alinho entendemos que homens e mulheres NÃO são iguais. Temos diferenças biológicas. Temos diferenças psíquicas. Temos N diferenças. Essas diferenças não nos fazem melhores nem piores. Apenas diferentes. Portanto, o que queremos é respeito  às diferenças.

Assim sendo, se eu estou carregando uma mala super pesada, e eu tenho 1,62cm, peso 56Kg, e meu irmão tem 1,92, e pesa 82 Kg, é obvio que é educado da parte dele se oferecer para carregar a mala. Ele treina, tem maiores condições físicas de suportar o peso e é isso.

Dividir a conta: a independência financeira é algo fundamental  para todas as outras independências. Para mim, por exemplo, foi a chave para a manifestação da minha identidade, para a livre expressão. Portanto,  ao sair com alguém, dividir a conta é  uma questão de justiça  e também uma forma de dizer que estamos juntos, porém, cada um irá ajudar manter e respeitar a individualidade do outro. Afinal, nós dois trabalhamos, nós dois temos nossas liberdades, nossas idiossincrasias e, nós dois dividimos este momento de um jantar juntos, assim sendo, juntos pagaremos por ele.

Agora, minha gente, as coisas podem – e devem – ser mais leves:  vamos supor que eu ganho um salário x e  o meu namorado ganha um salário  3x ( o que, infelizmente, é bem comum no Brasil, país em que mulheres ainda ganham, em média, 30%  menos que seus pares masculinos, exercendo as mesmas funções) . É justo, por exemplo,  que as contas sejam divididas meio a meio?  Talvez seja justiça dividi-las de forma proporcional. Enfim, cada casal terá seu acordo. Não existe regra para isso. Um dia eu vou querer levar o meu namorado para jantar e o meu presente para ele será eu pagar a conta, por que não? Ou o contrário.

Outro dia, uma amiga pontuou o seguinte; eu não divido conta porque, antes de sair, gasto R$ 200,00 em depilação, R$60,00 em manicure/pedicure; R$150,00 em lingerie nova. Logo, acho justo que ele, no mínimo,  pague o jantar. E , ok!  É um ponto de vista. Que também é correto. (Aliás, eu nunca tinha pensado nisso. quanto investimento a gente faz em um date hein!)

Maria da Penha:  se eu assediar um homem, ele provavelmente, saberá se desvencilhar deste assédio que não o agrada. Mais do que isso, ele não terá medo de ser estuprado por mim. Minha compleição física dificultaria o ato, a minha historia de mulher representa menor agressividade e, portanto, menor potencial para isso. Se for o contrário… qualquer mulher sabe o que é viver uma situação de assédio e o medo que essa situação passe para a esfera física.  Qualquer mulher sabe das dificuldades de se desvencilhar de um ataque desses. Assim sendo, a  Lei Maria da Penha surge em uma sociedade que ainda tem a  mulher como vítima frequente da violência.

Abrir porta do carro, puxar a cadeira, carregar bolsas: nós meninas, muitas vezes, somos ensinadas a gostar desses gestos.  “Se ele realmente gosta de você, irá mimá-la
abrindo a porta do carro, puxando a cadeira para você sentar”. O problema é  a “conta” que pagamos por eles. Em geral,  não são gestos genuínos. Eles vêm imbuídos de um pensamento de que somos “incapazes de”, ou, de uma cobrança, “ eu fiz isso por você, logo, você me deve algo”.  Pior, intrinsecamente, aprendemos a valorizar tais gestos mais do que o respeito por nossas ideias, mais do que a valorização pela nossa independência, o gosto pela nossa liberdade. E, muitas vezes, acabamos engolindo alguém que nos desrespeita nessas outras esferas porque “ele é um gentleman

Este, portanto, é motivo pelo qual o cavalheirismo é ruim. É pela carga que está nele. Assim sendo, eu sempre preferi e continuo preferindo a gentileza.  A mim, não ofende, não magoa,  que abram a porta do carro, que paguem a conta, ou, que ela seja dividida, não ofende segurar a porta do elevador.  Desde que tudo isso seja feito de forma genuína – pelo fato de eu ser humana e não pelo fato de eu ser mulher. 

Não ofendem gestos generosos, gentis – que venham acompanhados de honesta admiração pela minha pessoa, pelas minhas ideias, pelo meu sorriso. Que venham junto do respeito a minha liberdade, a minha individualidade. Isto é, prefiro um companheiro que me respeite e considere intelectualmente, que demonstre isso em gestos e palavras. Só que mais do que isso – que o faça também pelos outros, sejam eles meninos ou meninas.

A culpa é de quem?

Segunda-feira, 26 de dezembro. Um calor de 36ºC em São Paulo. E eu passo a tarde matando minha saudade do pé no barro, dando plantão em um distrito policial. Minha missão: tentar entender como dois homens são capazes de espancar até a MORTE o vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas, nas imediações da estação Pedro II do metrô.

Ouço relato das duas primeiras vítimas (um gay e uma travesti), ouço relato da mulher do Luiz Carlos. Ouço relato de testemunhas, de fregueses dele …

No desenrolar do caso, um delegado adapta o relato de uma das testemunhas e explica o crime da seguinte forma:

“E tudo aconteceu porque, segundo ele, ele foi vítima de uma infidelidade da sua esposa, ele saiu nervoso com todo mundo, brigando com seus vizinhos (…) tudo isso porque comentaram com ele que a esposa teria ido embora com outra pessoa e ele saiu nervoso, brigando com todo mundo” .

A frase é tão absurda que, quando eu a relatei para um amigo ele perguntou “mas foi o advogado dos agressores quem falou isso?”

Não, não foi o advogado – foi o delegado. Perpetuando e justificando a violência. Porque, afinal, se o Alípio foi “vítima” da mulher dele; ele, coitado (ironia), só poderia sair por aí afogando as mágoas e espancando pessoas (ironia). Na verdade, a mulher dele é praticamente a mandante do crime (ironia).

Tudo bem, você pode dizer que o delegado aqui apenas relatava o que foi dito por testemunhas. o problema está no uso da palavra vitima e na naturalidade com que se reproduz essa justificativa. Seja você autoridade, familiar tentando entender uma atrocidade praticada por seu filho, primo, sobrinho…

Até quando seguiremos culpabilizando a mulher? O Alípio é um homem (ironia), tem 26 anos. Ele não tem racionalidade para lidar com uma frustração amorosa? Ao ser traído, ele se torna um ser frágil e incapaz de distinguir o certo do errado? O acordo do pé dela na bunda dele o fez perder a capacidade de empatia? Coitado, estava sofrendo demais! Aquela mulher virou a cabeça dele!

O que me preocupa nesta declaração – infeliz – do delegado é que não foi um, não foram dois, nem três relatos de despreparo da polícia para lidar com mulheres vítimas de assédio, violência, vulnerabilidade. Aliás, tenho feito esta narrativa na minha trajetória jornalistica com uma triste frequência. (Isso em um País que, no último ano,  registrou 18.115 óbitos de mulheres por causas violentas, como acidentes de trânsito, afogamentos, suicídios, homicídios e quedas acidentais é bem preocupante).

Declarações como estas colocam para fora aquele pensamento enrustido, mas sempre nutrido, que perpetua a cultura do “alivia para ele” porque afinal ele só se perdeu assim “por causa dela“. Declarações como estas tornam os homens eternos meninos, sempre incapazes de arcar com as consequências dos próprios atos.

Não é a filha mulher que amadurece primeiro. É que a gente trata o filho homem como incapaz. Não é a menina que é mais madura na relação. É que o homem dificilmente aprende a tomar responsabilidade pelos próprios gestos. Não é a mulher que cuida da casa. É que o homem, quando é impedido de assumir as consequências de seus atos, é também separado da empatia. O Alípio (o agressor traído) não foi vítima de uma traição. Ele foi vítima da própria incapacidade de lidar com o mundo real, com a vida adulta, com as frustrações. Ele foi vítima da própria irracionalidade, imaturidade. O que por si só já deve ser bem dolorido. Afinal, nada mais frustrante do que se descobrir um adulto antes de se descobrir gente.

 

Sobre como caminharmos juntos: coisas de menino x coisas de menina

Hoje no Morning Show  usamos a hashtag  #xômachismo  como tema do programa porque falamos da nova pesquisa feita pelo Instituto Avon  sobre  “O papel do homem na desconstrução do machismo”.

Não demorou muito para que eu começasse a receber mensagens como :

“Se o machismo é ser ruim com as mulheres, por que vocês dizem que o feminismo é lutar por direitos iguais?”

Então, vamos lá:

Feminismo NÃO é o oposto de machismo.

Brincando de boneca de verdade
Brincando de boneca de verdade

O correto neste caso é o Femismo. Uma forma de defender que as mulheres deveriam fazer com os homens o que eles sempre fizeram com elas – subjugar, colocar em posição inferior…

O Feminismo (que, na verdade, não é um e sim vários movimentos) tem como pressuposto a IGUALDADE de gêneros.  Ou seja – não é que eu vou ficar acima, à frente  do meu colega homem. Nós dois estaremos juntos, andando lado a lado. Em igualdade de condições.

E sim – nós reconhecemos que não somos iguais; pode ter diferença de força física (o que ocorre entre um homem e outro e entre uma mulher e outra), temos ciclos biológicos diferentes…  A questão é nos respeitarmos TAMBÉM  nessas diferenças.

Aí vem outra mensagem  com uma simplificação também recorrente (e equivocada):

“Querem direitos iguais? Então por que não se alistam no exército e se aposentam com o mesmo tempo de trabalho?”

Bom, caso vocês não saibam, eu não desejo OBRIGATORIEDADE de alistamento para ninguém – nem meninos, nem meninas.  Mas, se uma menina quiser servir, ela tem que ter este direito porque NADA – NADA a coloca em posição inferior.  E, neste sentido, Israel

A velha kombi que serviu de palco para as brincadeiras da minha infância
A velha kombi que serviu de palco para as brincadeiras da minha infância

parece que tem uma boa colaboração com a questão: uma mulher  vestida em uniforme militar e rifle na mão já é uma coisa bastante comum para os israelenses.

 

 

 

 

 

 

Quanto a aposentadoria: Por que as mulheres, que em geral vivem mais, se aposentam mais cedo?

Bem, tem aí nisto, que alguns consideram “privilégio”, o dedinho  do “seo machismo”: A  lei brasileira considera  que toda mulher  realiza trabalhos domésticos paralelamente  à vida profissional.  Ou seja, trabalha o dia inteiro fora de casa, e, quando chega em casa, tem roupa para lavar, comida para fazer, filhos para cuidar. Isso não é novo, foi decidido lá na década de 70, quando foram definidas as idades mínimas para a aposentadoria. E só permanece por um motivo.

Adivinha???

Nossos  legisladores ainda têm a mentalidade da dupla jornada de trabalho. Portanto,  só quando entendermos que  o homem não “ajuda” a mulher em casa e sim divide com ela as tarefas é que criamos condições para o fim disso.

“Eu não sou machista MAS não posso concordar com esse pode tudo que anda por aí. Meu filho não brinca de boneca”.  

Bem, nesta daí eu vejo o cerne mesmo de tudo.  É fácil reconhecermos o machismo num estupro,  em um salário 30% inferior ao do colega homem que desempenha a MESMA função que você. Difícil é percebermos como ele se cria e aparece no cotidiano.

Dica: quando suabrincadeira afirmativa vem acompanhada de um “MAS” é um bom sinal de que temos por trás desse mas um a cultura machista.

Fui às ruas perguntar para pais e mães sobre as brincadeiras dos filhos. Em geral, meninas até podiam jogar vídeo game ou futebol. Já os meninos… Não podem chegar perto das bonecas!

Na minha família, somos três irmãos. Quando meu irmão do meio nasceu, eu tinha três anos de idade. Assim, brincamos juntos nossa infância inteira. Eu (tentava) jogar taco com ele e os amigos, batíamos corridas de bicicleta, e eles,  por sua vez, participavam de todas as festas de “aniversário” e “batizado” das bonecas minhas e de minhas amigas.

Um ritual na minha rua, era chegar o final do dia e entrarmos todos na Kombi do meu pai, nos dirigindo à margem do Rio Gravataí para brincarmos de esconde-esconde. Íamos todos juntos – meninos e meninas – e era sempre a maior diversão.

 

A mesma Kombi que, desde os meus dois anos de idade, servia para nos levar

Joana, a nossa Kombi Gremista
Joana, a nossa Kombi Gremista

ao Estádio Olímpico Monumental. Porque meu pai, felizmente, me incluía sempre na  caravana de tios  e primos que iam ver os jogos do Grêmio. Afinal, futebol também é coisa de menina. O que isso gerou? Cumplicidade entre eu e meu pai. Entre eu e meus primos.

Quando eu tinha 14 anos e o meu irmão 11, nasceu a caçula. Como meus pais têm padaria (ou seja, trabalham sem folga, férias, etc), eu e meu irmão acabamos cuidando da caçula juntos. Dávamos banho, trocávamos a fralda, colocávamos para dormir, dávamos mamadeira, ensinávamos… Em nada, isso diminuiu a virilidade dele. Assim como jogar taco e trepar em árvores não fez de mim uma mulher menos feminina.

Então, traduzindo; a brincadeira traz em si aprendizados. Quando eu brinco de boneca, imito com as bonecas as ações dos meus pais – de dar banho, trocar fraldas, ninar, eu estou aprendendo mesmo é como CUIDAR.

Se eu – como adulto e referência para meus filhos – desprezo ou proíbo essa brincadeira, o que eu estou exemplificando?

Então, é isso: a brincadeira não vai definir o gênero, nem as escolhas sexuais de ninguém. Agora, ela vai sim ensinar (da única forma de aprendizado possível que é a prática) como repartir a vida com mais equidade. Sem contar, é claro, que o mundo com essa cumplicidade, parceria entre meninos e meninas fica bem melhor.

Relatos de violências

Na última quinta-feira, me deparei com as imagens que seguem neste post. Uma aluna, muito querida, machucada , com olho inchado, sangue…  O relato de se segue não é de uma, mas, de várias violências sofridas pela Kelly, pela mãe dela…

Essa é a kelly e a lesão no olho dela
Essa é a Kelly e a lesão no olho dela

A Kelly foi minha aluna. Guria forte, dedicada, e com uma pitada de doçura. Sempre identifiquei no olhar dela algo que despertou em mim sincera empatia  – uma presença forte que, ao mesmo tempo que era muito real, escondia certa fragilidade, certa solidão (certo abandono?).

Conversei com ela, me coloquei a disposição para o que fosse necessário. E, como o que faço melhor na vida é contar histórias, perguntei se ela queria que eu contasse a dela. Porque repartir essas histórias é uma forma de mostrar o que é REAL. É uma maneira de alertar que a violência não está lá longe, em alguma periferia  que não nos atinge. Acima de tudo, é a melhor forma que conheço para despertar a compaixão e a compreensão de que não somos seres separados uns dos outros.

Seguem os relatos :

“A relação (com meu padrasto) sempre foi conturbada. Eu nunca entendi o real motivo.

Nunca ficou claro para mkelly-2im, o que ele realmente pensa ao meu respeito ou que tipo de risco oferecia.kelly-3

Na madrugada de terça para quarta, ele deixou o cachorro no quintal abaixo do meu quarto. Como o cachorro latia demais e eu não conseguia dormir, bati na porta do quarto da minha mãe, e pedi que dessem um jeito  – achando que ele o faria.

No entanto,  foi minha mãe quem levantou.

Fiquei  possessa porque, duas noites atrás, eu sai de madrugada em busca de remédios porque  ela gemia de dor nos ossos (ela terminou há pouco a quimioterapia).

Então, eu disse a ele:

“Quem tem que levantar e dar um jeito, é você e não minha mãe, cheia de dores. E eu não posso porque  o cachorro me estranha.”

Foi o suficiente para ele descer as escadas me mandando tomar no cú e afins. Fui atrás perguntando se eu era alguma coisa dele para ele me chamar assim e ele novamente falou: vai tomar no cú sua filha da puta!

Meu sangue subiu, e eu dei um tapa na cara dele.  Ele revidou com um soco voraz na minha boca, quando eu voltei a mim, tentei dar outro nele mas, ele tem o dobro do meu tamanho e desferiu um no meu olho que me fez perder completamente as forças. Ai,  ele agarrou no meu pescoço enquanto minha mãe gritava desesperada para ele me soltar. Quando ela viu que ele não me soltava, foi pra cima dele e o mordeu. Foi quando ele me soltou e eu consegui respirar.

Por questão de segundos, minha mãe se pôs entre nós e gritava: Me bate se você for homem, mas, ele é esperto e sabia que se batesse em uma mulher com câncer nenhum policial perdoaria…

Então me agarrou pelos cabelos com tanta força que eu ajoelhei de dor. Comecei a gritar por socorro e minha mãe novamente avançou nele.

Foi quando ele me soltou e eu peguei o telefone e consegui ligar pra minha tia. Neste momento, ele já tinha ido para o quarto trocar de roupa, e eu gritava: vou chamar a policia seu covarde.

Ele fugiu e, até o presente momento, não deu as caras. Depois da briga, eu comecei a sentir fortes dores nas costas e só me lembro de sentar no chão e ver muito sangue, convulsionei e só me lembro de vozes como da minha tia pedindo para apertar a mão dela, mas, eu estava esgotada e, cada vez que tentava falar, sentia o gosto de sangue.

Não houve nenhuma perfuração dos órgãos internos, graças a Deus. E o médico disse que o sangue foi por conta do nariz (pelo murro que ele desferiu) e minha garganta (pelos gritos que dei).

Na quinta-feira,  ele ligou para uma das minhas tias e disse que apenas se defendeu e que não pensa em voltar para casa.

Eu fui a vitima física, mas, minha mãe, não só neste momento, como também em quatorze anos,  foi a vitima psicológica.

Por ver isto tudo acontecendo, e não poder fazer muito pela sua limitação física momentânea (com o câncer).

Eu vou até o fim não descanso enquanto não vê-lo atrás das grades pode ter certeza.

*******

Depois de tudo isso, a Kelly começou a peregrinação por atendimento:

E aí, a constatação de mais violências…

Foram 10 hkelly-4oras no hospital Pedreira para pegar os exames, uma fratura diagnosticada e me mandaram para o regional Sul,  pois não havia profissional competente para uma possível cirurgia – detalhe ainda estou com a fratura sem tratamento.

Depois de correr de delegacia em delegacia, próximas ao meu bairro, descubro que:

Delegacias têm horário e até senha para atendimento.

Ao passar pela 98º DP do Jardim Miriam, um escrevente grita:

‘Eu sou apenas um para 3 delegacias, e os casos mencionados não são prioridade (sendo que, haviam pelo menos 5 mulheres vítimas de homens violentos, inclusive, eu e uma criança de dois anos com o olho inchado por conta de um soco dado pelo pai dela).’

Agora pergunto:

Quando a agressão contra as mulheres será uma prioridade?

Estou em casa, me recuperando na companhia da minha mãe guerreira Vera Regina. Aos poucos, a vida volta ao normal e, após 7 horas no hospital HC,  fiz um saldo do dia de exames.

Apesar de um sábado de frio, ao chegar fui atendida por pessoas muito simpáticas inclusive minha médica Dra.Caroline que, além de muita charmosa, era extremamente competente inclusive na hora de falar:

-Kelly o procedimento é simples mas você precisa ficar quieta na cadeira!

Eu:

-Desculpa Dra. mas eu tô com medo.

Conheci uma “Maria”, é engraçado como existem tantas Marias no mundo com histórias parecidas.

Conversávamos –  como se já nos conhecêssemos – e no fim eu perguntei:

-Maria, você não é Paulista não, né?

Maria:

– Não Kelly, eu sou de Crateús no Ceará. (engraçado como os conterrâneos se reconhecem).

Descobri que dilatação da visão, é uma viagem da hora.

Conheci um segurança que contava histórias de terror e assim conseguiu fazer com que uma criança de 5, 6 e uma de 32 (eu), ficassem quase sem respirar enquanto ele contava os causos de terror do HC na madrugada.

Foi um dia de dor, afinal colocar o nariz no lugar não é para qualquer um, mas, muito proveitoso pelas pessoas que conheci e pelas histórias que ouvi.

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As imagens me causaram ânsia, como sempre ocorre quando ouço, leio histórias de assédio, violência, desrespeito.  A dor que dói em uma, dói em todas. E deve ser assim.  Deviríamos compreender melhor que, diferentemente do que nos fazem acreditar desde criancinhas, não somos inimigas, rivais, não competimos.  Estamos juntas. E é juntas que somos fortes.

 

Nenhuma garota é invisível

Alerta de evento bacana para você participar:

Começa nesta terça-feira uma campanha para lá de importante: o #DesafioDaIgualdade. Uma série de iniciativas para a gente começar a pensar – em 2016, quase 2017 –  já é mais do que hora de tratarmos com igualdade guris e gurias.

E o que você pode fazer para isso?

Primeiro, a gente precisa enxergar essa desigualdade e começar lá pelo comecinho mesmo, ou seja, pela infância.

Para isso, um nesta terça-feira, às 19h30min aqui em São Paulo vai debater como a gente pode dar a nossa pitada de colaboração para que esse mundinho fique um tantinho mais respeitosa conosco – gurias.  O evento é gratuito, mas vagas são limitadas. Para confirmar a presença, é preciso preencher esse formulário aqui: http://bit.ly/2eM6ZLN

Mais sobre o evento:

– Dia 22.11, terça-feira
– Horário: 19:30 às 22:30
– Local: Centro cultural B_arco
Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, n. 426
Pinheiros, SP 

Mais sobre quem está promovendo a campanha você encontra aqui:,

 

 

O polêmico beijo técnico, ou, será que nós éramos assim?

A pergunta deste título eu anotei na noite de sábado (03/09), enquanto conversava com amigas  sobre a repercussão do beijo técnico que o Arthur Aguiar protagonizou comigo na Jovem Pan. E o questionamento em questão era: será que, nos nossos 20 e poucos anos, nós éramos tão imaturas e passionais quanto as meninas que hoje vemos nesta idade?

Arthur Aguiar e eu no #JPMorningShow
Arthur Aguiar e eu no #JPMorningShow

Para quem não sabe, a história foi essa: Ao entrevistarmos o ator e cantor Arthur Aguiar, no Morning Show da Jovem Pan,  o Edgar Piccoli, chefe da bancada, perguntou ao Arthur se existia efetivamente o tal beijo técnico. Como ele afirmou que sim, com bastante convicção, o Ed o desafiou a comprovar e demonstrar como era o tal beijo.

A sortuda da vez fui eu. Entramos na brincadeira – tanto ele quanto eu. E tudo bem, não foi nada demais.  Até porque, se em 2016, um beijo técnico tem algo de tão lascivo, precisamos definitivamente retornar algumas casas no tempo e aprender com ícones incríveis como Hebe Camargo.

A questão é que, jornalismo, meus caros, é uma profissão cruel. Mais ainda se você for picado pelo bichinho da reportagem.  Você trabalha duro, ganha prêmios, investiga, checa informações, se preocupa com a integridade das suas fontes, escreve e reescreve o seu texto… e absolutamente ninguém parece notar e/ou comentar.  Mas, vá fazer alguma m., cometer um equívoco, ou,  ser personagem de algum  fait divers para você ver o que acontece!

Em menos de 24 horas, eu era manchete na “Quem”, “O Fuxico, etc.

Eu? A intelectual, feminista, sarcástica, seriona, agora tinha virado protagonista do primeiro beijo técnico do rádio. E, mais do que isto, havia virado protagonista do ódio  mortal das adolescentes e jovens adultas que nutrem uma paixão platônica pelo lindo ator global.

Os comentários nas redes sociais iam desde “bem que ele disse que gosta mesmo de velha” (oi? Eu tenho 30 anos, 10 a mais que você, gata!), ao mais assustador ainda: “Depois essa daí vai querer fazer que nem a outra do MC Biel”.

Aí, me bateu uma angústia danada porque fiquei pensando: será que eu era assim? Será que meu horizonte era não limitado? Não posso deixar de falar sobre isso:

Acontece que, quando eu era adolescente, eu era “um dos caras”. Não tinha muita referencia feminina. Não me identificava com as colegas que necessitavam manifestar inferioridade e fraqueza para serem aceitas por eles.  Então, eu agia como eles: falava palavrão, saia com quem queria, não ligava para o que diziam e, se alguém comprava briga, tinha que ouvir ( o que é claro fez e faz com que muitos evitem comprá-las). As outras – meninas -, portanto, eram inimigas.

Acontece que a gente evolui. E, felizmente, quanto mais abre a mente, quanto mais estuda, quanto mais conhece o mundo, vai entendendo o universo que nos cerca, os limites que nos são impostos (ainda que não nos digam que estão nos impondo estes limites) e começamos a ganhar forças para tornar isso público e brigar por aquilo que é nosso de direito, leia-se: para sermos tratadas como gente. Porque, caso vocês não tenham percebido, ao nos impôr limites e dizer o que uma menina deve ou não fazer, o que estão fazendo é nos colocar  em posição inferior, de menor poder, de necessária obediência e, até, passível de “domesticação”. É claro que, se para ser mulher eu precisava ser submissa e reconhecer “o meu lugar”, eu não iria aceitar. O meu lugar é onde eu quero estar.

O problema é que ser mais um da turma não é e nunca será verdade. Você, enquanto mulher, só está na turma. Mas não é dali. Mulheres e homens são sim diferentes.  O que não implica em relação de superioridade x inferioridade.

Um dos feminismos (que é o que eu simpatizo) preconiza que, para convivermos, temos apenas que reconhecer e respeitar essas diferenças. Mas, quando vejo menininhas pagando pau para assediadores (como foi Biel no episódio com a jornalista), ou, defendendo e reproduzindo ideias da nossa sociedade machista (como – uma mulher de 30 e poucos é uma velha que já não tem mais utilidade), fico realmente boquiaberta.

Entendo: elas não são criadas em bolhas. Entendo: se a sociedade que as cria é machista, é muito possível que elas reproduzam os valores do machismo sem perceber. Mas é muito cruel pensar que há toda uma geração que, em tese, tem acesso a boas referências, a mais conteúdos do que tínhamos na minha geração e que insiste em reproduzir valores e estereótipos atrasados, burros  – sem questionamentos.

Lembro de um amigo que tive daqueles que é o clichê ambulante: na crise da meia idade, ele insistia em andar com meninas de 20 e poucos anos. Uma vez, ele estava apresentando mais uma dessas menininhas para nosso grupo de amigos. A menina  (que tinha os braços todos cortados, por causa da auto-mutilação) passou a noite toda no celular, sem conseguir conversar conosco, sem, sequer, conseguir olhar para os demais presentes. E, quando tentamos incluí-la na conversa, com uma brincadeira do tipo “qual é a música?”, ela  simplesmente “boiou” – não entendeu a piada.

Uma colega observou:  triste isso né;  porque ela não tem repertório.  

A questão toda passa também por aí: que tipo de repertório estamos apresentando a essas meninas? Com um universo tão vasto de referências, permitimos que elas tenham acesso ao quê?

A menina de 20 e poucos que pensava namorar o meu amigo cinquentão não tinha culpa: ela já estava suficientemente imersa no universo dos problemas que a pouca idade lhe acarretava. Ela estava iludida como fato de que, tendo ao seu lado um homem de meia idade, alguma estabilidade a vida poderia lhe trazer. Porém, como ela chegou até ali tão despreparada?  Como ela chegou até ali tão iludida?

Não é possível que essas meninas não entendam a letra de uma música como “baile de favela”.  Porque, se entendem, elas com certeza não irão reproduzir. Não é possível, que olhemos umas para as outras sem compreender que somos todas parte de um mesmo universo. Não é possível que sigamos nutrindo uma guerra contra todas as outras (vagabundas, velhas, feias, oportunistas) sem entendermos que “as outras” não existem – nós somos as outras.  Não é possível que estejamos criando seres com tamanha falta de empatia.

Sei  lá se nós éramos assim…  De toda forma, agradeço ter mudado; e só posso ter esperanças de que  caminhamos rumo a alguma evolução.  Porque ninguém merece permanecer na ignorância  e no apego que temos durante nossos 20 e poucos anos.