Meu homão da porra

Conheci meu homão da porra trabalhando. Estávamos participando de um programa de TV. Quando acabou a gravação, ele entregou um cartão com seus contatos e pediu meu telefone.

Mandei uma mensagem. Ele me chamou para sair.

Homão da Porra=Mulher Porreta= Ser Gente

 

Era quarta-feira à noite. Por isso, propus que saíssemos na sexta – expliquei que era minha única noite livre na semana. “Sexta não posso: janto com meus filhos”, foi a resposta.

 

Com a sexta ocupada, decidimos que tudo bem sairmos na quinta mesmo. Saímos na quinta, no sábado, domingo… seguimos nos vendo pelos próximos meses.

Nosso primeiro jantar em casa foi na casa dele porque ele cozinhou para mim (o segundo, o terceiro, o quarto… também).

Ele me contou que aprendeu a cozinhar de verdade quando se separou: “não quero ser aquele pai separado que pede pizza para os filhos”. Também contou que a primeira vez que fez um feijão para os meninos pensou “Nossa, isso sim é realizar um feito difícil!” (detalhe nada pequeno aqui: ele é correspondente de guerra).

Meu homão da porra tem lá suas confusões; por um ano ficamos juntos sem exclusividade. Fomos, voltamos, demos espaço um ao outro, respeitando o tempo de cada um.

Nisso, quase nos perdemos. É que estar junto não é questão apenas de paixão e amor. É ainda questão de timing.

Por um período, eu quis namorá-lo, ele não estava pronto. Houve outro tempo em que ele quis me namorar, eu queria namorar outro alguém. Ele respeitou.

Meu homão da porra não faz crochê; mas lava, cozinha, passa as camisetas da escola dos filhos e me leva ao trabalho – quando não está cobrindo uma eleição na França, fazendo o Ramadã em Gaza, vivendo a guerra na Venezuela.

Ele faz declarações de amor, me mostra canções que combinam com a gente.   Ele também dá mancadas, nunca me deu flores e diz coisas que às vezes me entristecem. Fala do mundo, dos mais de 60 países que já conheceu com a mesma naturalidade com que conta sobre a consulta da Capitu na veterinária.

Só que ele não é um  homão da porra vivendo numa bolha isolada: perdeu a mãe aos 14 anos. Junto de duas irmãs porretas, aprendeu a se virar.

Uma delas, é motoqueira, tem uma alma linda de quem luta por igualdades. Outra trabalha o dia inteiro, dá conta de um de ser mãe, companheira e irmãe e ainda acha tempo para as viagens que tanto ama.

Meu homão da porra só é um homão da porra porque tem algo lindo que se chama empatia.

E, eu não sei vocês, mas, para mim, parece que nossa surpresa com a existência de empatia masculina é um alerta de que algo vai muito mal.

Afinal, se colocar no lugar do outro não deveria ser coisa de homão da porra nem de mulher porreta. Deveria ser coisa de gente.