Há novidade na velha Rússia ?

Sede da Copa do Mundo em 2018, a Rússia voltou a chamar a atenção como protagonista no combate ao terror e também com seu Estado de repressão política.

O país viveu, durante os anos 1990,  sua década perdida com queda na qualidade de vida e perda do poder de consumo  como consequências da  perestróika.  Foi nesta época que o  povo russo acabou frustrado com a democracia e fazendo uma certa analogia entre ela e o fracasso.

Nos anos 2000, a Rússia ressurge. Com um líder centralizador, Vladimir Putin,  os russos voltam a sonhar com dias melhores, já que a economia passa a ser beneficiada com o preço das commodities.

Putin refaz a promessa da Rússia Grande. Primeiro, dentro do próprio território, depois, com políticas mais ousadas de interesses externos.

Só que, agora , jovens conectados ao mundo pelas redes sociais, vivendo em um país que enfrenta abalos econômicos começam a questionar a repressão e corrupção no kremlin.  Esse panorama sobre a Rússia você ouve aqui.

Quer creche? Entra na justiça

Em março de 2015, eu falava da adaptação que a Defensoria Publica de São Paulo precisou fazer para atender exclusivamente pais e mães que entravam na justiça para tentar uma vaga nas creches paulistanas. A gestão irá mudar. Será que alguma coisa aqui mudou??

Não é mérito; é privilégio


Ontem,  li a postagem de um colega jornalista sobre os bastidores da cobertura que ele fez para os dados do Enem 2015. Sempre preciso, o Luiz Fernando Toledo  relatava as visitas que fez às escolas privadas que apareceram em destaque neste ranking. E fazia uma reflexão importante sobre a disparidade da qualidade do ensino no País.

Depois de trabalhar o dia inteiro, é assim que muito aluno se sente em sala de aula
Depois de trabalhar o dia inteiro, é assim que muito aluno se sente em sala de aula

O Luiz, assim como eu e boa parte dos jornalistas na ativa, vem da classe média. Nos dias de hoje, é praticamente inviável conseguir atuar como jornalista em uma redação se você não tem uma família que possa arcar com os gastos da sua faculdade e bancar sua vida durante seus estágios.  Tanto o Luiz como eu tivemos uma boa formação. Não foi em uma destas escolas do topo, que têm até aula de robótica – mas foi em uma escola privada.

No meu caso, a melhor da minha cidade. Assim como no relato do Luiz, eu me lembro de ter uma formação num colégio em que nunca faltou professor. Todo início de ano, tínhamos cadernos, lápis, borrachas e livros novinhos. Como filha do padeiro, eu tinha uma padaria inteira a meu dispôr para escolher minha merenda. Usávamos uniformes, mas, dávamos um jeito de incrementá-los com um tênis da moda, um acessório descolado.

A escola fica no centro da cidade – ótimo acesso, próxima aos bairros ditos nobres, perto de bons restaurantes. Nunca tivemos goteira na sala de aula. No máximo, alguns morcegos apareciam repousando no pátio.

Tínhamos um ginásio, laboratório de biologia. Laboratório de química. Sala de geografia. Tinha até uma capela, sala de televisão e salão nobre para eventos.

Eu tocava na banda do Colégio. Lá também eu fiz aulas de violão. Minha irmã (um pouco menos descoordenada que eu) optou pela patinação artística.

Além da escola, eu estudei inglês desde os meus 07 anos, num curso privado. Dancei ballet clássico, sapateado, fiz curso de tricô, datilografia, informática… Meus pais nunca tiveram uma vida fácil, no entanto, a prioridade deles  sempre foi dar uma boa formação aos fihos.

Mas aí começou a faculdade: eu fui fazer jornalismo na PUCRS (que no último ranking da Folha de São Paulo aparece entre as 10 melhores escolas de comunicação do País). No primeiro semestre de Famecos (nome da faculdade de comunicação da PUCRS) entrei em desespero; inglês era o mesmo que português para os meus colegas – que estudaram em escolas bilíngues, ou, construtivistas, ou, montessorianas, ou, waldorf.; nas quais eles também aprendiam francês, alemão, latim (gente eles ainda ensinam latim? Sim, tem escola que ainda hoje ensina latim!!!). Eu sequer tinha ouvido falar em diferença de linhas pedagógicas.

Meus colegas  tinham viajado muito mais do que eu, que passava as férias na aprazível praia de Oásis, cuja maior atração era ir ao “centrinho” tomar sorvete e poder voltar pra casa depois das 21h. Eles tinham visitado museus  na Europa; eu só conhecia o museu de Gravataí; e,  para apreciá-lo por inteiro, devo ter levado no máximo 30 minutos. Eles sabiam que a música da Legião Urbana que falava dos “filmes do Godard” se referia ao período da Nouvelle Vague. Eu nem sabia se Jean-Luc Godard era artista, ou, diretor. Meus pais, que ainda hoje acordam ás 05h, e trabalham de domingo a domingo com o intuito de promover uma melhor formação para mim e meus irmãos, sequer concluíram o Ensino Médio. Portanto, não tinham referências teóricas para me passar. Os pais dos meus colegas – médicos, engenheiros, juízes – tinham em casa bibliotecas que lhes garantiriam um repertório invejável.

Fiquei tão descolada de tudo aquilo que acabei trancando a faculdade e jurando que jamais voltaria para o jornalismo. O meu sentimento ali era de impotência, revolta, ignorância (no sentido real do desconhecimento). Eu enxergava um abismo de conhecimentos entre eu e meus colegas.  Era muita coisa nova para aprender, enquanto eu ainda tinha que administrar dois empregos durante o dia, antes de chegar à noite nas aulas. Havia uma urgência para colocar em dia o conhecimento que parecia ter  anos de atraso.

Minha reação quando alguém vem "pregar" a meritocracia
Minha reação quando alguém vem “pregar” a meritocracia

Bom, se acabei virando jornalista muito foi por teimosia mesmo. Mas, tudo isso (que não era nada fácil) se passou em um cenário em que NUNCA me faltou café da manhã, almoço e jantar (com uma mãe que faz a melhor comidinha do mundo). Eu não deixei de ir para a aula porque não tinha o dinheiro da passagem. Eu posso não ter comprado todos os livros da faculdade, mas, conseguia pagar a cópia de materiais didáticos pedidos pelos professores e pegar os livros na biblioteca. No período final do curso, eu dormia apenas 3 horas por noite para poder conciliar estágio e dois cursos de graduação (também fazia Ciências Sociais na UFRGS). Só que eram três horas em uma cama confortável, com cobertas limpinhas, na qual eu me aninhava depois de um banho quentinho.

Eu trabalhei muito desde cedo. E assim passei todo meu período acadêmico tendo um ou dois trabalhos durante o dia e estudando à noite. Porém, essa era uma ESCOLHA minha por maior independência e liberdade, não era uma NECESSIDADE.

Consegui bons estágios que, como quase todo estágio na área de comunicação, pagavam miseravelmente mal. Mas foram fundamentais para meu aprendizado e minha inserção na profissão. Eu não poderia fazê-los se eu dependesse do meu salário para pagar a mensalidade da faculdade.

Eu me destaquei profissionalmente cedo. E as pessoas ao meu redor sempre admiraram minha maturidade profissional precoce. Isso é fato. Não acho que deve haver falsa modéstia sobre nossas conquistas, sobretudo, porque me empenhei muito e me comprometi demais com o trabalho para isso. Todavia, os três colegas negros que tive (numa turma que formou mais de 70 pessoas) não eram menos comprometidos ou batalhadores do que eu. Apesar disso, demoraram mais para ingressar no mercado de trabalho (72% dos jornalistas atuando em redação hoje são brancos).

Eu me formei com um sonho que eu não contei para ninguém até alcançá-lo: chegar aos 30 anos, morando em São Paulo, tendo o meu apartamento e trabalhando em uma emissora nacional de radiojornalismo. Aos 30 anos, meu objetivo foi atingido. Só que, para isso, minha família precisou ajudar quando decidi mudar para São Paulo. E, desde que aqui estou, se os baixos salários do jornalismo (quase 60% dos jornalistas recebem até cinco salários mínimos) e do magistério apertarem, eu sei que não vou passar fome porque posso contar com meus pais.

Eu não viajei muito, mas, já conheci alguns países a trabalhou ou lazer. Eu não sou poliglota, mas, falo inglês fluentemente, entendo bem o espanhol e arranho o francês. Conclui meu Mestrado com  31 anos de idade, depois de já ter trabalhado nas principais emissoras de rádio do País e de ter experiência como correspondente internacional. Ainda assim, em todas as redações pelas quais passei, ganhei salário menor do que muitos colegas homens que desempenhavam funções iguais ( no jornalismo brasileiro, as mulheres são maioria em todas as faixas até 5 salários mínimos e minoria em todas as faixas superiores a 5 salários mínimos). Porém, estou empregada nas áreas que escolhi que busquei qualificação para atuar.

Não sei como teria sido se eu não fosse branca. Se eu não tivesse olhos verdes. Se não fosse gaúcha. Se meu sobrenome não fosse de origem europeia. Se minha família não tivesse como me dar suporte. (Assim como não sei como seria se eu fosse homem, ou, se tivesse escolhido profissões com melhores remunerações).

Só que eu sei bem que, mesmo com todos os privilégios que tive, eu consegui  enxergar – e sentir – o buraco da disparidade social, intelectual e econômica.

Por tudo isso, não posso ser, por exemplo, contraria à política de cotas. Por tudo isso, não consigo deixar de pensar que, quem defende a meritocracia, ou atua no completo
desconhecimento da realidade, ou, deseja que nosso sistema faça um giro de 360º. O que na verdade significa a defesa de uma falsa mudança para que tudo permaneça exatamente como está. Não há como falar em meritocracia, se as bases são tão distintas.

Se o seu avô não estudou e conseguiu virar um mega empresário bem sucedido, se você conhece o primo do vizinho que era gari e virou médico, ótimo. Mas saiba que essas são exceções e não regras  da nossa sociedade.  Quando nós da imprensa fazemos narrativas de casos heroicos, vendemos uma ilusão; a de que qualquer um pode chegar lá.

Porém, a verdade é que, no cenário em que vivemos, com pontos de partida tão distintos, “chegar lá” não é para qualquer um; não é sinônimo de mais inteligência; esforço, ou,competência: é privilégio. 

Parafraseando meu conterrâneo, somos todos iguais, mas, uns são mais iguais que os outros…

Sobre relacionamentos abusivos e escolhas: fui eu quem decidiu

A data de hoje (11.09) é simbólica. Há 15 anos, o mundo acompanhava, em tempo real, um atentado terrorista. No momento em que o primeiro avião acertou o World Trade Center, eu estava dando aula de inglês. Logo que sai da aula, peguei carona com a mãe de uma aluna e fomos para casa ouvindo rádio – o segundo avião se chocava contra as Torres Gêmeas.

Passei o tempo livre que tive naquele dia em frente à TV, acompanhando a cobertura. Lembro-me da narração da Ana Paula Padrão – então na TV Globo – e lembro-me do debate que tivemos sobre o atentado à noite, na aula da Professora Louise Lage.  A mais forte recordação, porém, foi o frio na barriga que senti ao ver aquela cobertura frenética, começando a entender o que era jornalismo.

Quando me perguntam como  fui parar no jornalismo, eu sempre conto a seguinte história:

Noiva em fuga - é tipo autobiográfico
Noiva em fuga – é tipo autobiográfico

Extremamente indecisa sobre o que fazer na faculdade, fui visitar diversas coordenações de cursos de graduação. Ficava extremamente chateada porque todos diziam coisas do tipo: “Ah, desde criança eu brincava de medir a febre das bonecas e aí sabia que seria médica”; “eu ainda era menina quando ligava o meu primeiro gradiente e gravava todo mundo – jornalista, sem dúvida”. A única coisa que eu conseguia concluir de tudo isso era: putz, eu não tenho absolutamente nenhuma coisa como referencia de “eu gosto disso desde criança”.

Isso traduz como entrei na faculdade: insegura, imatura. “Cai” no jornalismo completamente sem querer.  Fiz um ano de curso e – odiei! Eu trabalhava o dia inteiro, dava aulas de inglês, chegava à faculdade à noite mega cansada, e precisava aguentar uma turma imatura de gente que atendia telefone celular em sala de aula! Com muita dificuldade, disse a meu pai que eu iria trancar a faculdade e voltar para o cursinho.

Fiz isso: por um ano, fiquei dando aulas de inglês, fazendo cursinho e cursando ciências sociais. Depois desse um ano, eu decidi que já estava “velha demais” para não saber o que queria da vida (detalhe: eu tinha apenas 19 anos), e que eu precisava “tomar um rumo”. Por isso, voltei para o jornalismo, afinal, era mais fácil estagiar como jornalista do que como cientista social.

Neste  ponto um parênteses: a acolhida da Universidade faz TODA a diferença na formação do aluno.  Minha nova turma era mais madura. Muitos, assim como eu, trabalhavam ao longo do dia e se preocupavam em extrair o máximo das aulas à noite.

Neste período, conheci aquele que viria a ser meu segundo noivo (caso vocês não saibam, eu fui noiva três vezes).  Depois de três meses juntos, eu sabia que aquela relação deveria ter acabado. Porém, eu havia descoberto que ele sofria de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e avaliei que seria demasiado cruel da minha parte abandoná-lo no momento do diagnóstico.

Primeira lição: nunca fique com alguém se você não está 100% seguro de que realmente deseja isso. Afinal, se você não está bem, com certeza não será uma boa companhia para  o outro.

A relação que deveria ter durado três meses, acabou sendo levada adiante por quatro anos. E foi, sem sombra de dúvidas, uma das transformações mais fortes da minha vida. Acontece que eu me tornei a parte “obsessiva” daquele transtorno obsessivo compulsivo.

No (primeiro) casamento da minha melhor amiga, eu levantei da mesa para ir ao banheiro. Durante os cinco ou dez minutos em que eu fiquei no banheiro, ele me ligou, simplesmente, ONZE vezes. Neste período,  eu comecei a estagiar na Rádio Gaúcha. Foi em meu primeiro dia na reportagem que eu tive a certeza: eu nasci para fazer isso. De lá para cá, nunca mais quis abandonar meu ofício de repórter (embora, eventualmente, tenhamos crises, como em toda relação).

Acontece que, para quem não conhece, a vida de jornalista é um tanto cruel: você está à mercê dos fatos. E isso faz com que você se torne um péssimo companheiro em muitos momentos – já que, com certeza, você não poderá comparecer àquele jantar romântico se um avião se atirar contra as Torres Gêmeas.

Neste período, muitas e muitas vezes eu tinha o horário de saída dos meus plantões previsto para, por exemplo, às 20h. No entanto, eu acabava saindo da rádio às 23h. Jornalismo é isso: temos horário de entrada, nunca, de saída.  Por isso mesmo, evitava combinar alguma coisa após o plantão. Todavia, o tal noivo insistia em ir me buscar. Lembro de incontáveis vezes em que ele ficava no carro, na esquina da rádio, me ligando  incessantemente e eu, desesperada, tendo que fechar reportagens.

Não é preciso descrever muito mais para que vocês entendam o quanto minha vida virou um verdadeiro inferno. O problema é que, como meu pai sempre pontua , “quando a gente compra uma porca, leva os leitões juntos”. Para quem não entende gauchês, essa expressão quer dizer – não adianta esse papo de que a relação é só entre os dois,  as famílias sempre se envolvem.

E, neste  caso, se envolveram muito. Nem a minha família, nem a dele aceitavam um término. Vejam: eu não estou falando de uma pessoa ruim. Ao contrário, se tratava de uma pessoa ética, correta, boa. Porém, era uma pessoa doente. E minha opção por ficar ao lado dele somente por causa da doença corroborou – e muito – para que tudo o que era ruim nessa enfermidade se agravasse.

Quando eu percebi, já estava  evitando conversar com meus colegas para não chateá-lo; já não falava alto nem ria demais porque ele não iria gostar, já não vivia a vida de universitária – com suas típicas festinhas  – porque poderia gerar algum tipo de crise; já trabalhava em pânico porque sabia que, qualquer atraso, poderia irritá-lo.

Isso significa – e hoje eu sei – que eu havia entrado em uma relação abusiva. Com muito esforço, consegui terminar o namoro. A pressão familiar foi tão grande, que aceitei voltar. Neste período foi que ele, com uma surpresa, me pediu em casamento.  Era um natal em família (natal na minha família  significa ter mais de 40 pessoas reunidas na casa da minha avó). Como dizer não  na frente de tanta gente? Lembro que comecei a chorar. E meu primo, artista, cochichou em meu ouvido “você está chorando é desespero e não de emoção né?”. Sim, era.

Ele comprou apartamento, na frente da padaria dos meus pais. Fizemos planos para o casamento. E eu, ali, naquela angústia danada.  Foi então que ouvi da minha irmãzinha (na época com uns 6 anos de idade) uma das maiores lições que já aprendi:

Lição número dois: Mana, a cabeça da gente é assim: quando ela cresce, nunca mais volta ao tamanho que era antes.

Era isso: meu universo havia expandido. Eu já era jornalista. Nutria o sonho de me dedicar a uma carreira, sem precisar fincar raízes. Meu horizonte não  voltaria mais a ficar pequeno. Um fato: a ignorância é uma benção!

O conhecimento cobra um preço. No meu caso, foi o preço de ver meus pais frustrados com o fim do noivado e o sonho de me ver casada com um verdadeiro cidadão de bem. Foi ver a família dele desapontada comigo.  Foi deixar o aconchego do lar dos pais, para morar em uma pensão moquifo e chegar no dia 20 de cada mês com a grana contada para poder comer apenas dois cachorros quentes por dia.  O preço foi desconstruir o cenário que todos aqueles que me rodeavam criaram para mim.

Decidi contar essa história aqui porque hoje li um texto lindo de uma mulher muito especial, contando sobre  as mudanças que ela viveu após a separação dos pais.  Com  a generosidade dela, de compartilhar esse episódio, me dei conta de que é importante falarmos sobre as expectativas que criam em torno da gente. E de como essas expectativas podem ser o primeiro passo para grandes frustrações.

Depois desse episódio, eu me formei em jornalismo, morei na Rússia, mudei pra São Paulo, fiz mestrado, amei minha profissão, odiei minha profissão, encontrei um grande amor, perdi  este grande amor, construo uma carreira que, além de muito orgulho, na maior parte do tempo, me enche de alegrias. Ele casou, tem uma filha linda. A família dele me perdoou. (ou, eu acho que pelo menos compreendeu que eu fiz o que deveria ter sido feito). Depois deste noivado, passei a entender que relações não podem existir por piedade, convenção social, ou, medo. E tive a certeza de que relacionamentos abusivos não escolhem classe social, nível intelectual e nem perduram porque “elas gostam disso”.

Entendi  que, para vivermos em paz, é preciso que sejamos suficientemente corajosos para arcar com as consequências das nossas escolhas. Quando vejo uma sociedade tão arraigada na justificativa de que  “o problema está nos outros”, me dou conta que, em geral, ainda é mais fácil atribuir a terceiros as responsabilidades por nossas  frustrações.

às vezes, é preciso ligar o foda-se
às vezes, é preciso ligar o foda-se

Isso não existe. Nós somos os únicos responsáveis por nossas escolhas. Afinal, o que enxergamos no outro nada mais é do que uma projeção daquilo que temos dentro de nós mesmos.

Ligar o foda-se nem sempre é egoísmo. Ao contrário: pode ser um ato de grande generosidade.

Sim, meus caros, o conhecimento cobra um preço alto. Mais alto ainda quando falamos de auto-conhecimento, afinal, aquilo que está dentro da gente normalmente é assustador. Mas uma coisa eu garanto: não há nada mais libertador do que ser fiel àquilo que você é de verdade.

 

 

Capítulo 2 : Dobro pozhalovat! Bem-vindo, tovarish.

“Olá ouvintes! Meu nome é Helen Braun e eu sou a mais nova integrante da equipe de correspondentes da Voz da Rússia. Atuo na redação de língua portuguesa da emissora. E, daqui para frente, serei a responsável por estabelecer o contato entre a Rússia e o Brasil. Atualizarei as informações sobre nossas relações bilaterais e sobre a ligações entre estes dois países. E a partir de agora, você está acompanhando a primeira edição do programa “Uma Brasileira na Rússia”. 

Era desta forma que eu me apresentava aos ouvintes da Voz da Rússia, hoje, SputinikNews .

Vodka time...
Vodka time…

Se no primeiro capítulo sobre meus goles de vodka russa, a gente falou de amor, eu agora quero falar um pouco da minha chegada efetiva à Moscou, em dezembro de 2008. Portanto, esclareço aqui que os relatos russos não serão necessariamente em ordem cronológica.

Eu deveria ter chegado em Moscou num domingo, quando minha futura colega de emissora, Marsha, e o marido dela iriam esperar por mim no aeroporto. O problema é que, depois de um atraso no aeroporto Charles de Gaulles, minha conexão Paris – Moscou foi suspensa e eu tive que dormir na Capital Francesa.

Começava aí meu primeiro desespero: lembram que eu não falo russo não é? Mas eu teria que ligar para Moscou avisando que não chegaria no domingo, conforme previsto. E também deveria ligar para casa para avisar o imprevisto.

Por causa do atraso, a companhia aérea  teve que arcar com os custos das ligações, a hospedagem em Paris e, como indenização, uma passagem aérea no valor de € 500,00, válida por um ano (vocês irão descobrir que esse ticket foi de extrema importância).

Vencidos os primeiros desafios – descobrir como se faz ligação internacional para tantos códigos diferentes – era hora de tentar dormir um pouco para, no dia seguinte, embarcar para Moscou. Embarque que, caso vocês não recordem , eu planejava há mais de um ano.

O voo era em um avião da Aeroflot. Quem já viveu a experiência  sabe que ela é realmente peculiar. Digamos que a aeronave tem um aspecto “antigo”, que te dá uma sensação de estar embarcando na guerra fria.

Desembarquei em Moscou na segunda-feira, 15 de dezembro. E, enquanto sobrevoava a cidade, ficava imaginando o que estaria a me esperar neste período de grandes desafios em uma terra em que tudo, inclusive o idioma, seria novidade para mim. Conforme o avião ia se aproximando, o sol sumia do horizonte e eu via uma cidade, predominantemente, marrom e vermelha. Os toques de branco era a neve que se encarrega de dar. Minha sensação? Parecia que eu voltava no tempo e vivia a cena de um filme de Guerra…

Já na recepção, uma longa fila para passar pela imigração. Primeira constatação: exceto pelos funcionários da Air France, dali para frente o inglês não seria exatamente um idioma que eu iria ouvir com frequência. Sim porque, mesmo aqueles que sabem falar inglês, não fazem questão.

Ao deixar a imigração (depois de me comunicar sei lá eu em que idioma com a funcionária), fui abordada por diversos taxistas oferecendo seus serviços. Na linguagem universal dos sinais, consegui comprar um cartão telefônico, trocar algum dinheiro, e avisar o pessoal da redação que eu já estava por na cidade. Um dos tais taxistas auxiliou na comunicação. A cena (que iria se repetir algumas vezes) era a seguinte:

Eu ligo para o número da redação e, quando alguém atende, passo o telefone para o russo ao meu lado poder fazer a comunicação. Neste caso, o taxista tomou nota do endereço que meu colega de redação ditava.

Claro, este auxílio não saiu muito barato e, já na chegada, foram dois mil e 500 rublos para poder ir para o local que agora passava a ser minha casa.

Durante aproximadamente duas horas no táxi, pude ver uma Moscou de contrastes: prédios grandes e imponentes e outros bastante pobres. Por um momento, ao deixar o aeroporto, visualizei uma espécie de favela às margens da rodovia. Em seguida, esta favela russa começava a ser  encoberta por tapumes.

Lição aprendida: gringos, nem tudo é para ser visto.  

Se na arquitetura há contrastes, o mesmo ocorre com os carros: alguns modelos são tão antigos que até o Passat 1980 do meu primeiro noivo, o André, parecia melhor conservado. – E olha que o Passat do André costumava ficar semana sim, semana não na chapeação! Enquanto isso, novas marcas de carros, que pareciam ter acabado de sair de fábrica, também circulavam ao nosso lado.

Um detalhe importante: se você já foi enrolado por um taxista ao descer em Congonhas, Guarulhos, Galeão…, não queira saber o que é tomar táxi no desembarque do Sheremetyevo International. Aliás, não queira saber o que é tomar táxi em Moscou em geral, se você não combinar ANTES o preço da corrida. Isto porque não há taxímetro nos veículos.
Logo de início, a poluição da cidade chamou minha atenção: os carros todos têm uma mistura de poeira com neve. As roupas ficam sujas rápido por causa do pó. As árvores estão mortas por causa do frio – então têm aquele aspecto de natureza morta…Pelo menos, se você escolher o inverno para desembarcar por lá.

Chegar ao prédio em que eu iria morar foi um grande desafio. Depois do longo período rodando no táxi, foi gasto ainda mais tempo, rodando pelos estacionamentos da vizinhança. Comecei a aprender ali uma lição: estacionamento como aqueles que conhecemos no Brasil, garagens cobertas e destinadas especificamente para colocar carros, parecem não fazer muito sucesso em Moscou. Isto porque os carros ficam abandonados em absolutamente qualquer lugar.
Achar meu prédio, também não foi fácil, já que há muitos prédios exatamente iguais na vizinhança.

E a chegada ao meu apartamento foi mais uma surpresa. A primeira vista, o prédio em que morava dava um certo susto. Uma construção antiga, de azulejos verdes e brancos. O tom do azulejo verde é algo que sempre me lembrou hospitais… Na entrada, uma porta velha e, pelo que eu imaginava, estavam reformando o prédio por dentro porque haviam muitos entulhos e restos de obra.

O meu apartamento tinha sido recém-reformado. Um dos motivos para a demora de minha ida à Moscou se dava, também, por causa desta reforma. O que me fazia imaginar que eu chegaria lá para viver em algum lugar muito interessante, afinal, quase um ano de reformas! Não foi bem isso.

Ao abrir a porta de entrada,  a gente dava de frente para a porta do quarto – que tinha cama de casal e um guarda-roupas. Guarda-roupas, aliás, que era bem pequeno e lembrava muito uns armários antigos que minha avó materna tinha.

À esquerda, ficava a cozinha (bem pequena), onde tinha uma pia, fogão (elétrico) e geladeira, além de uma mesa com dois bancos. Também à esquerda, estava o banheiro – em uma porta está o vaso sanitário, na outra, a banheira (que tinha uma grande torneira para enchê-la e uma ducha – porém, não tinha um chuveiro, propriamente dito).

Havia também uma pia – sem torneira. Para escovar os dentes e lavar as mãos, usava-se a pia da cozinha, ou, a torneira da banheira. Antes de você ficar com nojinho, lembre-se do conceito de alteridade: eu estava na Rússia, logo, precisava incorporar alguns hábitos.

À direita, ficava a sala: com dois armários, que eu acabei usando como guarda-roupas, um sofá, uma mesa pequena e seis cadeiras. Na casa tinha ainda um telefone – tão antigo que eu desconfio que tenha pertencido à redação do Granma.

Aqui uma observação: meu apartamento, para padrões russos, era gigantesco! Ocorre que, em geral, meus amigos moravam em apartamentos financiados pelo Governo Russo. Era praticamente “gratuito”. No entanto, o metro quadrado era distribuído de acordo com o número de habitantes do imóvel. Muitas amigos, que tinham a mesma idade que eu, viviam em apartamentos de apenas um quarto com os pais e um avô ou avó.  Como, além do quarto meu apartamento tinha uma sala, ele era considerado um “dois quartos” gigante.
A me esperar, estava Yuri Chupin, – pessoa que foi meu contato no Brasil e que se responsabilizou por minha vinda. Yuri era a única pessoa de referência que eu tinha na Rússia. Quando cheguei, era aproximadamente 16h, de uma segunda-feira. Até hoje, não sei como ele conseguia parar em pé – tamanho o grau etílico que se encontrava. (Sim: começou aí minha danação!).

Além dele, aguardavam-me ainda, duas garrafas de vinho, mas, nenhum saca-rolhas. Como Yuri tinha bastante  prática, conseguiu abrir o vinho com uma chave – dessas que a gente usa para abrir a porta de casa mesmo. Assim, celebramos minha chegada à Moscou, em grande estilo russo: com um brinde: “Vache zdoróvie!

Tovarish, devo alertá-los que, daqui pra frente, esta também é uma história etílica.