Há novidade na velha Rússia ?

Sede da Copa do Mundo em 2018, a Rússia voltou a chamar a atenção como protagonista no combate ao terror e também com seu Estado de repressão política.

O país viveu, durante os anos 1990,  sua década perdida com queda na qualidade de vida e perda do poder de consumo  como consequências da  perestróika.  Foi nesta época que o  povo russo acabou frustrado com a democracia e fazendo uma certa analogia entre ela e o fracasso.

Nos anos 2000, a Rússia ressurge. Com um líder centralizador, Vladimir Putin,  os russos voltam a sonhar com dias melhores, já que a economia passa a ser beneficiada com o preço das commodities.

Putin refaz a promessa da Rússia Grande. Primeiro, dentro do próprio território, depois, com políticas mais ousadas de interesses externos.

Só que, agora , jovens conectados ao mundo pelas redes sociais, vivendo em um país que enfrenta abalos econômicos começam a questionar a repressão e corrupção no kremlin.  Esse panorama sobre a Rússia você ouve aqui.

A juventude anti-Putin

Alexei Navalny,principal figura de oposição ao governo de Vladimir Putin preso por convocar protestos esta semana

A onda de protestos na Rússia levou mais de 500 pessoas à prisão e trouxe uma novidade à oposição do governo de Vladimir Putin: Jovens  que driblam a repressão midiática e descobrem um país bem diferente daquele vivido por seus pais. Alexei Navalny,principal figura de oposição ao governo de Vladimir Putin preso por convocar protestos esta semana

Denis Bilunov, jornalista russo e líder de partido de oposição, participa de manifestação contra Vladimir Putin

Capítulo 04 : Salsa e merengue nas gringa

Toda experiência de troca cultural gera expectativas:

Se eu for aos Estados Unidos, por exemplo, é provável que meu estômago comece a se preparar para receber alguns Big Macs e muita Coca-Cola. É possível também que eu imagine todo francês como um devorador compulsivo de queijos e vinhos. Ou que eu pense que todo argentino dança tango.

O problema das expectativas culturais é que elas nem sempre são reais. E a gente pode se surpreender quando descobrimos que elas não passavam de desconhecimento.

Quando morei nos Estados Unidos, tive que responder a perguntas como “Dá para beber água no Brasil?”, “Vocês dormem em árvores?”.  Você deve estar pensando “Quanta ignorância!”. Mas fecha os olhos aí e me diz o que você sabe sobre a África.

Pois bem, ao mudar para Moscou, minhas expectativas culturais também eram grandes. E o mesmo ocorria com meus colegas de emissora que esperavam uma brasileira com bronzeado natural e muita ginga. Ou seja, frustração na certa!

Desfilando todo meu rebolado nas gringa
Desfilando todo meu rebolado nas gringa

A convite de um amigo brasileiro que vivia na Rússia, fui conhecer um clube latino-americano. Eu adoro musicas Latinas, embora dançá-las não seja exatamente o que eu faço de melhor. Meu novo amigo brasileiro chamava-se Rico. Baiano, ele foi para Moscou trabalhar na cozinha de um restaurante. Porém, como todo brasuca que ruma mundo afora para “fazer a vida”, o Rico fazia de tudo um pouco. E, entre as muitas habilidades do menino estava o rebolado – grupos de dança latina, aulas de dança, tudo ele mandava bem.

Fomos apresentados por Egor, um colega que trabalhava nas redações de língua portuguesa e espanhola da Voz da Rússia. Na verdade, fomos apresentados apenas virtualmente.

Havíamos nos falado apenas por telefone e marcamos de nos encontrar em uma estação de metrô. Começou aí a primeira novela da noite; eu não sabia como ele era fisicamente. Nem ele sabia como eu era.

Passamos quase 40 minutos nos procurando na estação do metrô e, depois, que nos encontramos, o Rico disse que já havia passado por mim algumas vezes, mas, pensou que eu fosse russa e, por isso, nem desconfiou que era por mim que estava procurando. (Assim vemos que criamos expectativas dentro do nosso próprio país). 

Ao sair do metrô, percebemos que estávamos perdidos, por isso, decidimos pegar um táxi. O problema é saber o que é um táxi em Moscou. Porque qualquer veículo pode ser um. Há uma grande quantidade de táxis clandestinos que circulam sem placas de identificação e que podem, a qualquer momento, fazer ultrapassagens perigosas, cortar a frente dos motoristas e dar freadas bruscas assim que perceberem um potencial cliente parado na calçada.

A comunicação com o taxista foi um tanto quanto precária, já que ninguém falava russo de fato: nem nós, nem o taxista, que parecia ser um imigrante oriundo do cazaqui ou uzbequistão. Como o táxi não era oficial, também não havia taxímetro e o preço da corrida é discutido no final da viagem. Mas é bom não esperar muito sentido de direção destes motoristas que, quase sempre, estão tão perdidos quanto seus clientes.

Devido a tudo isso, o tal taxista resolveu que nos largaria não onde pedimos, mas, no local onde ele julgou ser o fim da corrida. Por sorte, ficava a pouco menos de um quilômetro do clube e conseguimos chegar ainda antes de começar o show da noite.

O clube que fomos chama-se Havana. De um lado, fica um restaurante, onde naquela noite apresentava-se um grupo de shows do Brasil: meninas vestidas com plumas e paetês verdes e meninos com calças que tinham a bandeira do Brasil, mostravam um pouco do nosso samba e capoeira (e reforçavam, é claro, o estereótipo bunda, samba e futebol).

Do outro lado, ficava o bar: com imagens de santos dispostas como se fosse um congá. Nos aparelhos de TV, passavam imagens do nosso carnaval, e das praias do Rio de Janeiro. No palco, um grupo de músicos apresentava canções Latinas, com especial ênfase à Salsa. É então que  começa a parte da decepção que posso ter causado nos gringos. Na minha família, costuma-se dizer que dançar com Braun e arrastar um armário é quase a mesma coisa. Assim, quando começo a ensaiar meus primeiros passos de salsa, viro a atração do salão (e não por um bom motivo).

Na primeira parte da aula (porque antes de começar a festa em si há uma espécie de mini curso), tenta-se mexer os pés. Com uns quinze minutes de treino, os pés estão ok. Depois, o tronco e os braços, mais um tempinho de treino e dá para enganar.

O problema é que depois desses dois passos chega a hora em que se tenta juntar pés, tronco, braços e cintura: não teve jeito! Não mexeu!  Pior; impossível encontrar coordenação entre uma parte e a outra.

Confesso que o esforço foi grande, mas, o resultado… Infelizmente, não foi satisfatório.

Nem o Rico, com toda a sua habilidade de professor e bailarino conseguiu me ensinar os segredos do rebolado. (e olha que vi muita russa aprendendo com ele ali).
Naquela noite, descobri onde vão os latino-americanos que vivem em Moscou: brasileiros, cubanos, panamenses, argentinos, boleiros de todas as nacionalidades… Todos estavam por lá. O bar lotou. E não eram apenas os latino americanos que estavam na festa não: muitos russos e muitas russas mostravam que gostam do nosso requebrado. E se eu, que sou brasileira, fiz feio no salão, as russas, por sua vez, mostraram que gringo pode sim ter suingue.

Chamou minha atenção a desenvoltura com que as russas faziam os passos mais complexos de salsa. Fui me informar, e descobri que estes ritmos como salsa, merenguereggaeton, samba fazem grande sucesso na Rússia.

Uma hora de aula pode custar 400 rublos ou mais. Isto equivalia, na época a mais de dez dólares por aluno. E quem ensina, costuma ter classes lotadas.

Mas a moral da história é que tive que cruzar o oceano para começar a tomar lições de samba que, obviamente, ainda hoje, não fazem muito efeito…

Capítulo 3. Burocracias (des) necessárias e mais ( i) lógicas

No Brasil, reclamar da burocracia é lugar comum.  Precisa da segunda via de algum documento? Reserve 3 dias da sua semana para peregrinar por cartórios. Quer regularizar um segundo casamento? Convide uma amiga de verdade para  ser testemunha, porque só ela para suportar o tempo que vocês perderão batendo pernas atrás de certidões. Quer abrir uma micro empresa?  Prepare-se para apresentar até o seu teste do pezinho!

Mas se você, seu ingrato leitor, gosta de reclamar destes detalhes (nem tão pequenos de nós dois – e por nós dois aqui eu digo o cidadão e o Estado Brasileiro – pode parar já, já.  Vou lhe contar o real conceito de burocracia.  Ou, de como criar dificuldades para vender facilidades.

Se você quer fazer algo na Rússia – e por algo eu digo desde ser um turista levando dólares ao país, até ser um investidor, ou quem sabe se tornar um funcionário público em Moscou, será sempre necessário ter um carimbo e um papel. Porém, no dia-a-dia, a coisa vai bem além disso. Porque, não bastasse as inúmeras regras oficializadas, há regras que são extra-oficiais, leis que cada um faz a seu próprio modo e cabe aos demais se adequar.

Acho que era assim que o pessoal do RH ficava quando eu saia da sala
Acho que era assim que o pessoal do RH ficava quando eu saia da sala

 

Mesmo com ruas e avenidas extremamente largas, Moscou consegue ter um trânsito terrível. Em grade parte isto se deve a dois fatores: os responsáveis por fiscalizar este trânsito e fazê-lo fluir, normalmente, estão mais ocupados na sua burocracia pessoal. Ou seja, eles ficam nas esquinas procurando, ou, muitas vezes, inventando problemas com os condutores para, via de regra, faturar um extra. Já os condutores que, segundo as leis, devem passar por auto-escolas e prestar exames antes de tomar o volante, até o fazem. Porém, ninguém se torna, digamos assim, um aluno aplicado. Isto porque o senso comum informa que, caso você não pague taxas extras oficiais, não vai conseguir tirar sua habilitação. (Leia-se, sem suborno, não tem CNH). Agora, pagando, ninguém vai lhe questionar muito sobre seu real conhecimento do trânsito.

 

Minha vinda para Moscou pode ser um ótimo exemplo desta burocracia. O processo de seleção e preparação para a viagem iniciou em 2007. Ou seja, praticamente dois anos antes de eu chegar efetivamente à Rússia, já se sabia de minha ida. Mesmo assim, depois de três meses ainda não haviam formalizado um documento sequer. Durante três meses já havia feito exames, tradução de passaporte, entreguei cópias de diversos documentos – que, quase sempre, são perdidas, tive que ir à Finlândia trocar o visto.

Só nesta brincadeira foram-se mais de U$1.500,00  e você fica vendo o tempo passar à mercê da tirania, que sempre acompanha burocracia. De acordo com o departamento de imigração da rádio, as leis para regularizar os estrangeiros mudaram sete vezes entre janeiro e novembro de 2007. E, diziam meus colegas,  uma nova mudança estava ocorrendo enquanto eu me adaptava. Como ninguém sabe ao certo o que é válido ou não, cada um cria suas leis.

Agora, um dos melhores exemplos desta burocracia estava presente no meu cotidiano: para entrar no prédio da Emissora (Voz da Rússia), era preciso apresentar um documento que provasse que realmente eu trabalhava lá.

Se você não tem o documento, precisa ligar para alguém que trabalha na emissora e avisar que você está “de castigo” em uma salinha que fica na recepção da Voz da Rússia. E você fica na tal salinha, esperando que alguém vá lhe resgatar. Por cerca de dois meses, eu tinha que fazer este procedimento toda vez que chegava à rádio. Já que, sem os documentos prontos, eu ainda não poderia obter a credencial de funcionária da Voz da Rússia.

Um dia, finalmente, Irina – a secretária da nossa redação – conseguiu uma espécie de autorização provisória. Válida durante um mês, esta autorização deve ser apresentada aos guardas que ficam na recepção SEMPRE que eu chegava à emissora, junto com meu passaporte.

Eu acreditava que, indo lá cinco vezes na semana por três meses, os tais

Acho que isso traduz bem 1 "repartição pública" russa
Acho que isso traduz bem 1 “repartição pública” russa

guardas até já me conheciam. Mesmo assim, não dispensavam a formalidade.

Mas, a prova de que isso não passa de uma formalidade desnecessária, foi o dia em que um dos guardas, após olhar minha credencial, começou a folhear meu passaporte. Ele conferiu o visto, como se estivesse lendo atentamente o mesmo. Devolveu os documentos e mandou subir. O detalhe, é que o visto que ele analisou era o primeiro, vencido há mais de um mês!

E, como eu já disse, cada um faz suas regras. A autorização para entrar na rádio deve ser apresentada na entrada e na saída. Só que, para entrar no corredor onde ficam os estúdios da rádio, você irá passar, novamente, por outro guarda. A regra geral é: se você estiver acompanhado, apenas um precisa mostrar a credencial. No entanto, os guardas mudam e, dependendo de quem está de plantão, todos que entram no corredor devem mostrar credencial, documento e, se bobear, um dia vão pedir até carteira de vacinação e atestado de bons antecedentes.

Uma destas guardas não deveria gostar muito de mim. Já que, cada vez que eu entrava no corredor, ela criava uma regra nova sobre algum documento que deveria apresentar. Por isso, houve uma semana em que,  ao subir para o estúdio, decidi levar a credencial da rádio, o passaporte e minha carteira internacional de jornalista. Assim, seria impossível ela inventar alguma complicação. Atentamente, ela analisou a credencial, a carteira e o passaporte. Maria  ( minha melhor amiga Russa) estava comigo e eu já olhava para ela com aquele sorriso de quem conseguiu driblar um entrave; aquela satisfação de vencedora… Só que não passou de um engano. Não satisfeita, a burocrata dispara: “tenho dúvidas quanto a estes documentos- afinal, a cor do teu cabelo nesta foto do passaporte está diferente e, no retrato, você está SEM óculos!”

Ok, acho que, depois de ser barrada por estar sem óculos na foto do passaporte, eu desisti de brigar com os tais trâmites burocráticos. Afinal, se não dá para vencê-los, junte-se a eles.

Capítulo 2 : Dobro pozhalovat! Bem-vindo, tovarish.

“Olá ouvintes! Meu nome é Helen Braun e eu sou a mais nova integrante da equipe de correspondentes da Voz da Rússia. Atuo na redação de língua portuguesa da emissora. E, daqui para frente, serei a responsável por estabelecer o contato entre a Rússia e o Brasil. Atualizarei as informações sobre nossas relações bilaterais e sobre a ligações entre estes dois países. E a partir de agora, você está acompanhando a primeira edição do programa “Uma Brasileira na Rússia”. 

Era desta forma que eu me apresentava aos ouvintes da Voz da Rússia, hoje, SputinikNews .

Vodka time...
Vodka time…

Se no primeiro capítulo sobre meus goles de vodka russa, a gente falou de amor, eu agora quero falar um pouco da minha chegada efetiva à Moscou, em dezembro de 2008. Portanto, esclareço aqui que os relatos russos não serão necessariamente em ordem cronológica.

Eu deveria ter chegado em Moscou num domingo, quando minha futura colega de emissora, Marsha, e o marido dela iriam esperar por mim no aeroporto. O problema é que, depois de um atraso no aeroporto Charles de Gaulles, minha conexão Paris – Moscou foi suspensa e eu tive que dormir na Capital Francesa.

Começava aí meu primeiro desespero: lembram que eu não falo russo não é? Mas eu teria que ligar para Moscou avisando que não chegaria no domingo, conforme previsto. E também deveria ligar para casa para avisar o imprevisto.

Por causa do atraso, a companhia aérea  teve que arcar com os custos das ligações, a hospedagem em Paris e, como indenização, uma passagem aérea no valor de € 500,00, válida por um ano (vocês irão descobrir que esse ticket foi de extrema importância).

Vencidos os primeiros desafios – descobrir como se faz ligação internacional para tantos códigos diferentes – era hora de tentar dormir um pouco para, no dia seguinte, embarcar para Moscou. Embarque que, caso vocês não recordem , eu planejava há mais de um ano.

O voo era em um avião da Aeroflot. Quem já viveu a experiência  sabe que ela é realmente peculiar. Digamos que a aeronave tem um aspecto “antigo”, que te dá uma sensação de estar embarcando na guerra fria.

Desembarquei em Moscou na segunda-feira, 15 de dezembro. E, enquanto sobrevoava a cidade, ficava imaginando o que estaria a me esperar neste período de grandes desafios em uma terra em que tudo, inclusive o idioma, seria novidade para mim. Conforme o avião ia se aproximando, o sol sumia do horizonte e eu via uma cidade, predominantemente, marrom e vermelha. Os toques de branco era a neve que se encarrega de dar. Minha sensação? Parecia que eu voltava no tempo e vivia a cena de um filme de Guerra…

Já na recepção, uma longa fila para passar pela imigração. Primeira constatação: exceto pelos funcionários da Air France, dali para frente o inglês não seria exatamente um idioma que eu iria ouvir com frequência. Sim porque, mesmo aqueles que sabem falar inglês, não fazem questão.

Ao deixar a imigração (depois de me comunicar sei lá eu em que idioma com a funcionária), fui abordada por diversos taxistas oferecendo seus serviços. Na linguagem universal dos sinais, consegui comprar um cartão telefônico, trocar algum dinheiro, e avisar o pessoal da redação que eu já estava por na cidade. Um dos tais taxistas auxiliou na comunicação. A cena (que iria se repetir algumas vezes) era a seguinte:

Eu ligo para o número da redação e, quando alguém atende, passo o telefone para o russo ao meu lado poder fazer a comunicação. Neste caso, o taxista tomou nota do endereço que meu colega de redação ditava.

Claro, este auxílio não saiu muito barato e, já na chegada, foram dois mil e 500 rublos para poder ir para o local que agora passava a ser minha casa.

Durante aproximadamente duas horas no táxi, pude ver uma Moscou de contrastes: prédios grandes e imponentes e outros bastante pobres. Por um momento, ao deixar o aeroporto, visualizei uma espécie de favela às margens da rodovia. Em seguida, esta favela russa começava a ser  encoberta por tapumes.

Lição aprendida: gringos, nem tudo é para ser visto.  

Se na arquitetura há contrastes, o mesmo ocorre com os carros: alguns modelos são tão antigos que até o Passat 1980 do meu primeiro noivo, o André, parecia melhor conservado. – E olha que o Passat do André costumava ficar semana sim, semana não na chapeação! Enquanto isso, novas marcas de carros, que pareciam ter acabado de sair de fábrica, também circulavam ao nosso lado.

Um detalhe importante: se você já foi enrolado por um taxista ao descer em Congonhas, Guarulhos, Galeão…, não queira saber o que é tomar táxi no desembarque do Sheremetyevo International. Aliás, não queira saber o que é tomar táxi em Moscou em geral, se você não combinar ANTES o preço da corrida. Isto porque não há taxímetro nos veículos.
Logo de início, a poluição da cidade chamou minha atenção: os carros todos têm uma mistura de poeira com neve. As roupas ficam sujas rápido por causa do pó. As árvores estão mortas por causa do frio – então têm aquele aspecto de natureza morta…Pelo menos, se você escolher o inverno para desembarcar por lá.

Chegar ao prédio em que eu iria morar foi um grande desafio. Depois do longo período rodando no táxi, foi gasto ainda mais tempo, rodando pelos estacionamentos da vizinhança. Comecei a aprender ali uma lição: estacionamento como aqueles que conhecemos no Brasil, garagens cobertas e destinadas especificamente para colocar carros, parecem não fazer muito sucesso em Moscou. Isto porque os carros ficam abandonados em absolutamente qualquer lugar.
Achar meu prédio, também não foi fácil, já que há muitos prédios exatamente iguais na vizinhança.

E a chegada ao meu apartamento foi mais uma surpresa. A primeira vista, o prédio em que morava dava um certo susto. Uma construção antiga, de azulejos verdes e brancos. O tom do azulejo verde é algo que sempre me lembrou hospitais… Na entrada, uma porta velha e, pelo que eu imaginava, estavam reformando o prédio por dentro porque haviam muitos entulhos e restos de obra.

O meu apartamento tinha sido recém-reformado. Um dos motivos para a demora de minha ida à Moscou se dava, também, por causa desta reforma. O que me fazia imaginar que eu chegaria lá para viver em algum lugar muito interessante, afinal, quase um ano de reformas! Não foi bem isso.

Ao abrir a porta de entrada,  a gente dava de frente para a porta do quarto – que tinha cama de casal e um guarda-roupas. Guarda-roupas, aliás, que era bem pequeno e lembrava muito uns armários antigos que minha avó materna tinha.

À esquerda, ficava a cozinha (bem pequena), onde tinha uma pia, fogão (elétrico) e geladeira, além de uma mesa com dois bancos. Também à esquerda, estava o banheiro – em uma porta está o vaso sanitário, na outra, a banheira (que tinha uma grande torneira para enchê-la e uma ducha – porém, não tinha um chuveiro, propriamente dito).

Havia também uma pia – sem torneira. Para escovar os dentes e lavar as mãos, usava-se a pia da cozinha, ou, a torneira da banheira. Antes de você ficar com nojinho, lembre-se do conceito de alteridade: eu estava na Rússia, logo, precisava incorporar alguns hábitos.

À direita, ficava a sala: com dois armários, que eu acabei usando como guarda-roupas, um sofá, uma mesa pequena e seis cadeiras. Na casa tinha ainda um telefone – tão antigo que eu desconfio que tenha pertencido à redação do Granma.

Aqui uma observação: meu apartamento, para padrões russos, era gigantesco! Ocorre que, em geral, meus amigos moravam em apartamentos financiados pelo Governo Russo. Era praticamente “gratuito”. No entanto, o metro quadrado era distribuído de acordo com o número de habitantes do imóvel. Muitas amigos, que tinham a mesma idade que eu, viviam em apartamentos de apenas um quarto com os pais e um avô ou avó.  Como, além do quarto meu apartamento tinha uma sala, ele era considerado um “dois quartos” gigante.
A me esperar, estava Yuri Chupin, – pessoa que foi meu contato no Brasil e que se responsabilizou por minha vinda. Yuri era a única pessoa de referência que eu tinha na Rússia. Quando cheguei, era aproximadamente 16h, de uma segunda-feira. Até hoje, não sei como ele conseguia parar em pé – tamanho o grau etílico que se encontrava. (Sim: começou aí minha danação!).

Além dele, aguardavam-me ainda, duas garrafas de vinho, mas, nenhum saca-rolhas. Como Yuri tinha bastante  prática, conseguiu abrir o vinho com uma chave – dessas que a gente usa para abrir a porta de casa mesmo. Assim, celebramos minha chegada à Moscou, em grande estilo russo: com um brinde: “Vache zdoróvie!

Tovarish, devo alertá-los que, daqui pra frente, esta também é uma história etílica.

 

 

 

Capítulo 01: quando a coisa começa a ficar russa

Para começar a falar sobre a Rússia, eu preciso voltar  um pouco no tempo – na verdade, tenho que ir lá para outubro de 2007. Foi neste momento, que minha ida para Moscou foi frustrada pela primeira vez.

É sempre amor mesmo que mude

Eu trabalhava na Rádio Guaíba, em Porto Alegre  que, no ano de 2007, foi vendida ao Grupo Record. Como muitas emissoras no Brasil, a Guaíba tinha uma parceria com redações internacionais, entre elas, a Voz da Rússia.

Estamos falando aqui de uma emissora estatal russa (mais ou menos no modelo de uma EBC) que transmite notícias da Rússia em diferentes idiomas. Para ter uma ideia, quando eu morei lá (2008/2009), a emissora tinha transmissões em 37 diferentes idiomas – praticamente, uma babel.

Um dia, ao chegar na redação da Rádio Guaíba, vi um cartaz em que era anunciada uma vaga para trabalhar na redação de Língua Portuguesa  da Voz da Rússia. Vamos lá: eu não falo russo. O máximo de frio que eu havia conhecido até então era o frio de Indiana (EUA), que pode chegar a uns cinco, dez graus negativos. Ah, e,  claro, o frio de renguiar Cusco lá do Sul.

Meu aniversário de 25 anos, ou, de onde a partida para Moscou começou

Só que, como sempre fui uma figura inquieta, decidi enviar um e-mail me candidatando para aquela doideira. Mandei meu
currículo, algumas matérias que havia feito … E comecei a travar um diálogo com o Yuri – que, por tudo que eu podia compreender, era  uma espécie de chefe de redação, responsável pela seleção.

No mesmo momento, nós acompanhávamos no Brasil aquele que era um dos maiores escândalos do
futebol: o caso Media Sports Investment (MSI) x Corinthians  (reparem como o tempo passa e as coisas mudam porque, diante dos escândalos de hoje, os R$ 70 milhões de dívidas que o Corinthians acumulou na época ficam quase como o troco da pinga).

Resumidamente: a MSI, uma empresa formada por um grupo de investidores britânicos e russos, era representada no Brasil pe
lo iraniano Kia Joorabchian. O problema é que, na verdade, o irianiano era uma espécie de  um “testa de ferro” do magnata russo Boris Berezovsky. Além de real proprietário da empresa,  Berezovsky era um dos maiores desafetos de ninguém menos que Vladimir Putin.

Com o óbvio interesse da emissora nos desdobramentos do caso, eu acabei fazendo matérias aqui do Brasil para eles.  O que, até eu chegar efetivamente na Rússia, sempre achei que fora definiti
vo  para eu ser aprovada entre os  mais de 300 malucos que quiseram disputar a vaga.

O senão – e na minha vida tudo tem um senão – é que minh
a alegria de ir para a Rússia e, finalmente, fazer correspondência, trabalhar numa redação estrangeira e todo esse sonho (irreal) de glamour que um estu
dante de
jornalismo tem parecia ir por água abaixo em outubro de 2007.

É que, de quando fui selecionada, em julho de 2007, até outubro, fiquei em tratativas com a emissora que me informava que estava abrindo oficialmente a vaga. Mas, no fim deste mês, recebi uma lig
ação em qu
e o Yuri  dizia (um tanto quanto irritado) que o funcionário que seria demitido para que eu assumisse a vaga,  não poderia mais ser desligado. Detalhe: foi a primeira vez que eu soube que alguém deveria ser demitido para só então a vaga efetivamente existir.

Como a mudança já havia sido construída em minha
mente, acabou sendo inevitável fazê-la.

Lição Número UM: aquela história de que, quando a gente quer muito uma coisa ela acontece mesmo, é fato. O que ninguém nos conta é que nem sempre ela ocorre da maneira que a gente desejou.

Portanto, ao invés de ir para a Rússia, acabei mudando alguns bairros – ao deixar a Rádio Guaíba e ir para a RBS TV. E alguns quilômetros, ao sair do apartamento  que eu dividia com duas amigas na Capital Gaúcha e voltar para a casa dos meus pais, em Gravataí (região metropolitana de Porto Alegre).

Quem já teve a experiência de retor
nar à casa dos pais vai entender o quanto esse foi um momento frustrante
: eu voltei a ter horários controlados (mesmo estando com 24 anos de idade), tinha que “viajar”  novamente para me deslocar de casa para o trabalho, estava sem um pingo de privacidade (eis uma palavra que, definitivamente, não existe no dicionário da minha família – sim, sou de uma c
asa em que as pessoas entram sem bater até no banheiro!), voltava a dividir meu quarto com minha irmãzinha mais nova, ah: e trocava um emprego CLT, por um em que eu era freela.

Deixo claro aqui que todas essas foram escolhas minhas. Motivadas por problemas familiares e pessoais. O momento era mesmo um turbilhão.

Tenho uma amiga que eu gosto muito, mas, procuro evitar desde que percebi que a energia dela é muito baixa: tudo na vida dela está SEMPRE ruim. O trabalho? Vai mal. O salário? Não paga as contas. Os namorados? Não existem. As amigas? São traíras. Agradeço muito a ela porque foi essa amiga que me ensinou que ninguém aguenta ficar ao lado de uma pessoa assim. Gente, pelo menos um ladinho da vida da gente tem que ter algo que presta, tá? #Ficaadica

Por isso, enquanto minha vida andava nessa m…, lá em outubro de 2007, eu percebi que alguma coisa  boa deveria acontecer. E aconteceu:

Neste período, duas amigas foram de fundamental importância: R., a louca e F. a doce. Juntas, compomos aquilo que chamamos de Santíssima Trindade (que de santa não tem nada). Para me tirar da bad vibe, as meninas me arrastavam para o único bar aberto no centro de Gravataí. E foi lá que  eu conheci C.

Tirando a paixão pelo Grêmio, nós dois não tínhamos absolutamente nada em comum. Eu, anarquista; ele, coxinha. Eu jornalista, ele administrador. Eu, a nerd que dormia cedo; ele, curtia  rave e David Guetta (aliás, foi a primeira vez na minha vida que eu descobri que alguém, efetivamente gosta de David Guetta. Mais: que alguém acredita que David Guetta é tipo -música!). Eu; defensora dos direitos humanos; ele… vota naquele cara que elogia o Ustra.

É aí que eu começo a contar uma história de amor. Um amor que perdura até hoje, independentemente do tempo, das diferenças,das divergências, dos afastamentos. Até porque, antes de conhecer C. eu sempre achei que amor era aquela relação que o tempo (e a convivência) não tinham conseguido  destruir. Ou seja, eu pensava que o amor era, na vida real, a expectativa do amor. Depois de conhecê-lo, descobri que amor é  um sentimento que, depois de vivido, a gente nunca, nunca mais deixa de sentir. Ele pode mudar. Os dois podem ter a certeza de que não haverá mais ali uma relação carnal, desejo… Mas o respeito, o carinho e a consideração por  tudo o que  vocês viveram seguirão sempre com você. E se, numa madrugada fria e chuvosa, aquele grande amor ligar, precisando da sua ajuda, você estará lá por ele.

Ou seja, é exatamente isso que vocês entenderam: amor é  a única praga que realmente pega e não tem macumba que desate este ebó.  Aqui, porém, faço um alerta: essa não é uma história com final feliz. Até porque não existem finais felizes –  a gente só pode reinventar a felicidade no nosso cotidiano, enquanto não houver o único final que é definitivo.

É aqui, neste ponto, que a coisa começa a ficar russa.

Notícias russas

Toda vez que o assunto “morei em Moscou” vem à tona, sempre vejo o ar de perplexidade, misturado a curiosidade das pessoas. Como assim? Moscou? E o que você fazia lá? Fala russo? Era frio?

De lá para cá, quase oito anos já se passaram. Os conhecidos ouviram algumas histórias sobre a peculiaridade cultural, o trabalho. Mas, só os amigos muito próximos conheceram detalhes de uma trajetória que começou com a realização do sonho de ser correspondente internacional, passou pela perda de um grande amor e terminou com uma fuga (sim eu fugi da Rússia) memorável.

Por isso, a partir de hoje, abro a categoria “A coisa ficou russa” por aqui. Conforme as lembranças forem surgindo, vou compartilhando com vocês.

Kremlin
Moscou, 2008

Antes de mais nada, acho bom explicar porque não fiz isso antes:

Quando voltei da Rússia, com uma depressão que me fez perder 10 Kg em um mês e passar alguns dias sem conseguir levantar da cama, iniciei uma terapia. Como já conhecia a rotina, uma vez que fiz os mais diferentes tipos de terapia desde os meus 15 anos (aqui um P.S: recomendo a todos viu? A humanidade seria mais feliz com mais terapia e menos rancor), imaginei procurar algum ortodoxo freudiano.

Porém, meu pai, que era do tipo “terapia é coisa pra louco”, indicou um cara da minha cid
ade chamado Gerson Jung. O Jung (predestinado) é junguiano. E budista! Porém, eu pensei: se meu pai curte esse cara, ele deve ter alguma coisa de muito foda. Na primeira consulta, eu pensei: não vai rolar, essa coisa de abraço no fim da consulta é muito “era de aquarius” pra mim. De lá pra cá, toda vez que vou a Gravataí, eu tento fazer uma visitinha ao meu terapeuta junguiano mais querido – e o único que me colocou nos eixos.

Tudo isso pra dizer, que foi o Gerson que teve a ideia de que eu deveria escrever sobre a Rússi
a. Exteriorizar tudo aquilo que eu tinha vivido poderia, segundo ele, me ajudar a seguir adiante.  O problema, é que era dolorido demais para mim reler minhas trocas de e-mails com amigas  e, sobretudo, com aquele amor que eu deixei no Brasil, quando mudei para a Rússia.

Depois de tanto tempo, a história cicatrizou. O problema é que cicatrizes são que nem essa qbabuskhaue eu tenho no meu rosto: eu nem lembro mais do dia em que ela foi feita, mas, ela vai seguir para sempre aqui como uma marca inconfundível de quem eu sou.

Então,  um episódio que ocorreu ontem ( o ressurgimento deste

ex amor em uma de minhas redes sociais), aliado à  leitura da coluna do Contardo Calligaris de hoje (O que faz que, apesar da separação dos amantes, um amor não acabe?) me convenceram a abrir o bauzinho de correspondências e compartilhar estas histórias por aqui…