Dia de aniversário

9/fevereiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

anjo

Não é muito fácil fazer aniversário. Acho que não é muito fácil nascer num dia 9 de fevereiro. Fico alheio de mim. Distante de mim. Como Manuel Bandeira, ao saber-se doente e achando que morreria com 20 anos escreveu: “Tudo que poderia ter sido e que não foi”. Meus 20 anos estão longe de mim. Parece que não existiram. Hoje faço aniversário como se não fizesse, porque me escondo. Não sei dizer palavras. Quase sempre me bate um desejo de chorar por alguma coisa. São três datas que tenho tristes: Natal, Ano Novo e Aniversário. Faço o que posso para passá-los. Quase nunca consigo, porque me deixam marcas. Tudo que poderia ter sido e que não foi. O tempo é longo, mas não existe. Não me sei. Me olho no espelho e converso comigo as palavras possíveis, como se assim pudesse enganar-me. Mas a imagem se move ao contrário de mim. E me aceno o aceno impossível de acenar. Gostaria de ter sonhado um aniversário quando era criança, mas nunca tive. Nem sabia. O dia 9 de fevereiro passava como se não existisse. E não existia. Hoje lembro disso, mas não sinto raiva. Sinto uma espécie de amargura que me faz crescer a alma. Tantas crianças não têm nada. O dia amanhece com sol. Penso coisas que não sei bem explicar, em tantas coisas que passaram para sempre, as coisas que se descobrem agora, mas não sei se é tarde demais. O dia de aniversário é triste, mas talvez me sinta feliz, um pouco feliz, por saber esquecer do amor que tantas vezes me matou, do gesto que tantas vezes mutilou minhas mãos, do coração que tantas vezes parou de bater, principalmente no final das tardes. Mas talvez me sinta feliz, pela descoberta do mar. Pela descoberta da vida que tantas vezes me negou. O tempo escorre num azulejo azul. Escorre numa caravela que atravessa o oceano. Escorre na face oculta que me guarda. Nasci num dia 9 de fevereiro, na rua Frei Caneca, quando as casas ainda tinham um jardim na frente. Não me sei muito o que dizer. Então chamo Pablo Neruda que poderá dizer por mim: “Hoje é hoje com o peso de todo o tempo ido/ com as asas de tudo que será amanhã/ hoje é o Sul do mar, a velha idade da água/ e a composição de um novo dia”.

Pequeno bilhete aos meus 19 leitores

8/fevereiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

patriciaEu e a atriz Patrícia Rizzo, também apresentadora da Rádio Jovem Pan, decidimos mudar aquelas gravações que vínhamos fazendo todas as sextas-feiras na Jovem Pan Online. Apresentávamos sempre dois poemas de um poeta brasileiro ou estrangeiro. Eu falava sobre o poeta e Patrícia interpretava dois poemas, com a direção de Nilton Travesso e as imagens de Zé Ricardo. Vamos mudar, acredito que por uma causa que representará um trabalho que queremos dos mais sérios. De agora em diante, a Patrícia Rizzo só vai interpretar poemas meus, de vários livros e várias fases vividas ao longo desses anos todos, nessa luta diária pela poesia que esteja ligada à vida do homem e não apenas meros exercícios de palavras, quase sempre de uma inconseqüência que agride aqueles que ainda conseguem pensar neste país. O objetivo desse novo trabalho é fazer um DVD, mostrando a Patrícia interpretando poesia com aquela seriedade que vocês já conhecem. Vamos começar depois do carnaval. No meio do ano escolheremos, então, as gravações que farão parte do DVD poético. Sempre com a direção de Nilton Travesso, temos certeza de que será um trabalho especialmente honesto em relação à poesia que dizem ser necessária à vida das pessoas. Este é um recado para abrir a segunda-feira. A semana é de carnaval, no qual estarei envolvido desta vez. Mas essa é outra história que conto amanhã.

O blog do poeta em Paris

4/fevereiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

parisPasso aos meus 19 leitores um artigo que o escritor e crítico de arte elevergois (assim com “e” minúsculo) escreveu para seu blog pessoal e sua coluna no jornal francês “Le Monde”. elevergois - a quem agradeço a generosidade - entrou em contato comigo há algum tempo pedindo permissão para traduzir um texto meu, que autorizei. Depois passou-me um recado misturando português e espanhol, explicando que não conseguiu dar à tradução a sonoridade que o texto exigia. Pelo menos é assim que compreendi. O recado é o seguinte:

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ESSO ES MIM ARTICULO NA PRENSA FRANCESA - SITO REPUBLICA DAS LETRAS DA LE MONDE. NAO PUEDO TRADUCIR A MUSICA, OS SONIDOS E SEGRETOS DE MINHA UMILE PROSA PARA VOCE E SOLAMENTE PUEDO OFERECER MI ALMA POETICA NA LENGUA DE MOLIERE (DESCULPE) :

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O artigo assinado por elevergois é o seguinte:

LE BLOG DU POETE ALVARO ALVES DE FARIA

S’il y a des joies dans la vie qui ne dépendent pas de la littérature, il y en a quand même de belles et de rares qui ne dépendent que de la rencontre avec un poète, un poète vrai, un poète agissant, remuant le ciel de sa plume et de sa pensée avec ces accents auxquels on reconnaît sans se tromper un poète-né! Un magnifique poète, un être ivre de littérature, un navigateur infatigable de la beauté qui possède la douleur et la science des mots qu’une étincelle magique invente, et qui illumine l’intelligence de ses lecteurs parce qu’on sent que sa présence dans ce monde est une intense fatalité littéraire. Je voudrais dire aussi à mes trois ou quatre lecteurs que vous, homme courageux, homme qui a risqué sa peau et sa liberté dans des temps difficiles — en lisant chaque jour, dans des heures politiquement douloureuses, avec des haut-parleurs rebelles clamant votre poésie sur un viaduc de Sao Paolo, ce qui me paraît beau, noble et subtil comme un acte de Fabrice del Dongo — vous écrivez chaque jour sur un blog qui s’appelle “O blog do poeta Alvaro Alves”, et que vous le faites avec sérénité, avec amour, avec tendresse, avec un puissant talent qui quelquefois rugit comme la voix d’un lion — mais en poésie il est préférable d’être lion et de montrer ses griffes et toute la puissance que les lectures, la vie, les ans, ont accumulé en vous. Je suis allé à présent une quinzaine de fois depuis décembre lire “o blog do poeta” et je me suis émerveillé simplement de ça: qu’un poète écrive de la poésie en prose, ou même un poème, et tous les jours, arrachant du ciel un rayon d’étoile errante ou des larmes de vraie joie ou de vraie tristesse poétique, dans un dialogue continué où la magie ne diminue jamais. D’ici, de France, (je suis tenté de critiquer ces landes avec la méchanceté d’un liseur de Baudelaire, mais il faut peut-être rester serein dans les petites époques: nous ne les avons pas faites, et elles ne nous ont pas défait), je peux vous dire que vos textes me paraissent un peu un miracle, une source de joie bien inconnue et bien émouvante. Vous me donnez l’impression de voir, avec votre stature forte, un tableau semblable à ceux du Titien, où la vaillance des hommes éclate lumineusement comme un reflet sur une épée ou une dague, et parfois aussi, déchiffrant (pardonnez-moi) lentement Camoes et ses pairs, j’imagine que je suis devant un de ces héros d’un autre temps qu’un prince capricieux eût remercié en lui offrant un palais de marbre, un coffre rempli de belles pièces d’or, ou encore mille arpents de falaises du Portugal pour qu’il console ou trempe sa mélancolie dans la rumeur de l’océan.Heureux le Brésil s’il y vit des hommes pleins de talent et de générosité tels que vous, qui donnez sans compter, à tous ces lecteurs et lectrices aux noms de duchesses, une part de votre coeur et de votre inspiration quotidienne, en tendant à ceux que la poésie vraie inspire et réconforte, une main savante et secourable. Oui, trois fois bienheureux le Brésil (poussé sur la terre poétique du Portugal) d’où nous provient chaque jour cet admirable rayon de poésie, pour ne pas perdre lout à fait le nord dans ses brumes, et surtout pour réinventer jour après jour, mélodieusement, le Sud que vos mots réenchantent à l’infini. Merci! Merci! Merci

*******!

croyez sincèrement que je regrette de ne pas avoir plus de mots magiques pour vous saluer, mais si ces quelques phrases donnent à quelque lettré curieux l’idée d’aller vous lire, une partie de ce que je ressens pour la poésie sera comblée, et pour moi, j’accomplirai ce que vous avez déjà accepté que je fasse, avec la générosité des vraies “grandes personnes” de la littérature - bien respecteusement à vous –elevergois.

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elevergois - (traductor letarario de italiano, profesor de la Allianca de Paris, Jornalista, critico de arte, e todo el tiempo que se puede perder para
o culto das coisas sublimes de este mundo: baudelaire, dante, (agora camoes) — dificilmente — e um grande abraço a tudos e muitas congatulaciones sinceras por O grande (nao “ex-poeta” para nada!) poeta na verdade da Poesia, la Universal Magia que tonifica nossos suenos para un mundo melhor e encantado!)

*******

Tentei fazer uma tradução sofrível do texto de elevergois, que também passo aos meus 19 leitores, pedindo desculpas pelas imperfeições na tentativa de “adaptá-lo para o Português como o compreendi:

BLOG DO POETA ALVARO ALVES DE FARIA

Se existem alegrias na vida que não dependem da literatura, ainda existem belas e raras que só depende do encontro com um poeta, um verdadeiro poeta, um poeta de se doar, que mexa n céu sua caneta e com seus pensamentos, que se pode reconhecer sem erro um poeta nato! Um poeta maravilhoso, um inebriado literário, um belo navegador incansável que tem a dor e a ciência de palavras mágicas que inventa a luz e ilumina a inteligência de seus leitores, porque ele sente que a sua presença no mundo é um destino intenso na literatura. Gostaria também de dizer aos meus três ou quatro leitores que o homem corajoso, que arriscou sua vida pela liberdade em tempos difíceis - a leitura de cada dia, em horas politicamente dolorosas, um rebelde que reivindicava com sua poesia num viaduto em São Paulo, um nobre e delicado como um ato de Fabrice del Dongo - que escreve a cada dia em um blog chamado “O Blog do Poeta Álvaro Alves”, com serenidade, amor, ternura, com um talento poderoso que, por vezes, na poesia a voz ruge como um leão, mas é melhor ser um leão e mostrar as suas garras e todos os valores de potência, a vida, anos que se tem acumulado. Passei a ler o blog do Poeta desde dezembro e estou simplesmente maravilhado ao ver um poeta escrever poesia em prosa, ou mesmo um poema, e cada dia mostrando um céu de estrelas errantes ou lágrimas de verdadeira alegria e tristeza poética, em um diálogo contínuo, no qual a magia nunca termina. A partir daqui, da França (estou tentado criticar os mouros com a maldade de um leitor de Baudelaire /…//?//…………./) posso dizer que seus textos parecem um pouco de um milagre, uma alegria bem conhecida e muito comovente. Ao ver sua estatura elevada, você me faz sentir um quadro semelhante aos de Ticiano, onde a bravura dos homens surge de forma brilhante como o reflexo de uma espada ou de um punhal, e às vezes, lentamente lembrando (perdoe-me) Camões e os seus pares /…/, eu imagino que sou um dos heróis da outra era, um príncipe caprichoso que agradeceu, oferecendo-lhe um palácio de mármore, uma arca cheia de moedas de ouro bonito, ou mil hectares das terras de Portugal, em que ele mergulha em seu consolo ou ao som melancólico do oceano. Heureux Brasil viu homens talentosos e generosos como você, que oferecem liberdade a todos os leitores/…/ e os nomes das duquesas, uma parte do seu coração e sua inspiração de todos os dias, tendendo para aqueles que realmente inspiram poesia e alívio, a mão sábia e útil. Sim, três vezes bendita Brasil (cultivada nas terras poéticas de Portugal) de onde nasce todos os dias esta maravilhosa série de poesia /…/ está em suas névoas do norte, especialmente para reinventar a cada dia, melodiosamente, South réenchantent suas palavras até o infinito. Obrigado! Obrigado! Obrigado!

*****

Eu acredito sinceramente e lamento não ter mais do que palavras mágicas para cumprimentá-lo, mas se estas frases lhe oferecerem /…/ a idéia do que você vai ler uma parte do que eu sinto por poesia já me sinto compreendido e, para mim, vou realizar o que você já aceitou que eu faça, com a generosidade do real “ser maior” da literatura - respeitosamente a você - elevergois.

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Texto final não traduzido:

elevergois - (traductor letarario de italiano, profesor de la Allianca de Paris, Jornalista, critico de arte, e todo el tiempo que se puede perder para
o culto das coisas sublimes de este mundo: baudelaire, dante, (agora camoes) — dificilmente — e um grande abraço a tudos e muitas congatulaciones sinceras por O grande (nao “ex-poeta” para nada!) poeta na verdade da Poesia, la Universal Magia que tonifica nossos suenos para un mundo melhor e encantado!)

O primeiro livro, a primeira leitura

3/fevereiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

photo-0043Um país que de fato almeje ser uma grande Nação, não pode descuidar nunca da Educação e da Cultura. Todas as áreas são importantes, é claro, mas a Educação é fundamental. Quer dizer: é fundamental a qualquer país que de fato queira ser uma grande Nação. Não é o caso de alguns países que conheço, especialmente um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Educação nesse país é coisa secundária, supérflua. O abandono é quase total, embora o discurso oficial seja outro. As crianças, tantas, tantas, têm de trabalhar já pequenas e a escola fica para depois. Já a escola, infelizmente para todos nós, se transformou um reduto da bandidagem, pelo menos em São Paulo e não me venha alguma autoridade do setor me dizer o contrário. Não me venha. Nas salas de aula o professor é um refém. Apanha e não pode reagir para não morrer. Adolescentes passam o tempo todo discutindo, falando no celular, essas coisas…

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Entram e saem da classe sem pedir licença. Uma farra. Hoje a escola, pelo menos em São Paulo, é isso. Ninguém repete de ano, assim não precisa estudar. Há alunos do segundo grau que não conseguem ler uma frase. Lêem palavras, mas não conseguem juntá-las numa leitura para dar sentido a um texto de duas linhas.

E assim vai indo o país tropical em busca de seu grande destino. Mas falo tudo isto só para passar o dia com raiva. Costumo doar livros a pequenas bibliotecas de escolas públicas na periferia da periferia da cidade, onde não existe nada. E também há crianças que receberam de mim seu primeiro livro e digo isso com orgulho, que me perdoem meus 19 leitores por estar fazendo discurso em causa própria. Por exemplo: a Rafaela (Rafinha), filha da Aninha (1ª.foto) recebeu seu primeiro livro de mim, sem dizer que ela começou a andar dentro da minha casa, quando tomávamos um vinhozinho numa tarde de domingo. Até então a Rafinha só gatinhava porque era muito pequenininha, mas de repente se levantou e saiu andando para ir atrás do Guga, meu pequeno cão que infelizmente já partiu para as estrelas. A Aninha deu um grito, mas a Rafinha começou a andar. Na 2ª.foto, a Mariana e sua mãe Ivonete. A Mariana também recebeu de mim seu primeiro livro, e continua recebendo novos livros com histórias lindas que a Ivonete lê para ela.

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Depois, na 3ª.foto, o Lucas (Luquinha), com sua mãe Alessandra. Não sei quantos livros já dei ao Luquinha, mas sei que ele quer ouvir as histórias todos os dias. Eu me orgulho de ter dado a essas crianças e muitas outras o primeiro livro.

Espero muito que eu tenha conseguido criar nelas o hábito da leitura. E que mais tarde elas possam ajudar o país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza a não ser o que é hoje, um país de discursos oficiais falando de coisas que não existem, com aqueles números que só mentem e morrem no papel, porque na rua a realidade é bem outra, que essa gente não conhece, porque só vive nos seus gabinetes com ar refrigerado, ignorando as cenas deprimentes de um cenário cada vez mais lastimável.

Tarde de luz

1/fevereiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

Não choveu. Quando o dia amanheceu, no sábado, olhei bem para o céu e vi um tempo cinzento. Saí  então para buscar Aline no aeroporto de Congonhas. E enquanto seguia para o aeroporto, pensava: “Bom seria se não chovesse!”. Pensei em um pouco de luz, de sol, para o lançamento do livro da Aline Bernar sobre o meu

“O Sermão do Viaduto”. Não dormi bem de sexta-feira para sábado, pensando no lançamento. Meus amigos já conhecem a minha neura quando há lançamento me envolvendo. Enlouqueço. Uma preocupação excessiva. Aquele pensamento de que tudo tem de sair direito. Entro em desespero.poesiaE no lançamento de sábado teria de ser tudo especial, porque era o lançamento da Aline, de um livro que escreveu sobre mim e minha poesia. Não podia chover para não atrapalhar uma tarde que sonhei feliz para todos.

O lançamento consistia, também, numa homenagem a Aline e à Nelly Novaes Coelho. Cheguei cedo no aeroporto e fiquei lá conversando comigo. Uma moça veio falar comigo, chama-se Cecília. Timidamente, perguntou-me se eu era o poeta. Eu respondi brincando que eu era um ex-poeta. Ela ficou sem saber o que falar. Eu he pedi desculpas. Ela então me falou primeiro no blog, depois nos vídeos da JP Online e finalmente do Pintim. E disse que me amava. Quase chorei, porque vi nessa moça, uns 25 anos, uma mulher sensível que procura as coisas que ainda existem no mundo, conforme me falou. Então me coloquei entre as coisas em que ela acredita. Abraçou-me de uma maneira comovida. Ela estava indo para Brasília, se não me engano. Então pensei: “Mas por que essas coisas acontecem comigo, eu que sou uma pessoa sem nenhuma estrutura, nem física nem psicológica, de uma fragilidade que está sempre desmoronando?”. A moça foi-se prometendo que vai me ligar, quandovoltar. Logo depois chegou Aline. Então senti que meu amor ainda possível e que me resta explodiu. Depois, foi depois. Até o lançamento. A maior parte de meus 19 leitores presente, além de outras pessoas que conheci. Foi possível ver uma luz no meio da tarde, uma imensa luz de poesia, e toda a tarde se fez de poesia, e toda a poesia se fez de mais poesia. Então pensei que ainda talvez seja possível sonhar. Nada acontece por um acaso. Não existe coincidência em nada. As pessoas amigas, que se fazem amigas, formam uma família espiritual. E no caminho essas pessoas vão se encontrando. Penso assim no caso de Aline. Uma pessoa que não me conhecia, que foi para Portugal escrever um estudo sobre um livro meu. Exatamente num período em que procurei Portugal para achar minha vida que sinto perdida. E foi Aline que me fez dar a forma definitiva aos poemas de O Sermão do Viaduto, que teve edições de todo jeito em São Paulo, nem sei quantas. Poemas escritos à mão. Poemas mimeografados, quando ainda existia mimeógrafo. Cada poema saía escrito de um jeito. Nunca consegui dar a forma gráfica ideal para os poemas. Aline também me ofereceu isso: com seu estudo consegui, tantos, tantos, tantos, tantos, tantos anos depois, dar ao Sermão do Viaduto a forma que sempre desejei para os poemas. Depois o recital de poesia. Depois as palavras. Depois, o depois. E a tarde de luz.

Mas faltou tanto a dizer. Faltou tanto. E é tanto preciso dizer. Ando triste, mas existem ainda momentos em que me sinto feliz. Como o de sábado. Esse sábado para sempre inesquecível. Como disse quando falei iniciando o lançamento: “Aline, nunca mais vou esquecer na minha vida”. E passo isso para todos que estiveram no Lugar Pantemporâneo. Não se trata somente de um evento literário. Não. Comigo não é assim. Nunca foi assim. As coisas todas vão além das coisas. É preciso sentir. Observar. Calar no ser mais profundo que existe dentro de cada um. No domingo de manhã levei Aline para o aeroporto. Quando ela desapareceu no portão de embarque para voltar ao Rio de Janeiro, fiquei ali sozinho observando as pessoas. Fiquei ali com três margaridas invisíveis nas mãos. Tinha também um girassol no bolso. E uma estrela no coração. Tinha uma alma dentro de mim. Sempre que estou muito triste demais, além do limite suportável, costumo ir para o aeroporto, fico sentado olhando as pessoas. Sempre faço isso. E me vi assim no domingo de manhã. Saí depois do aeroporto e vi que o domingo estava vazio. Mas havia poesia nele. Havia uma dor dentro de mim, que não sei explicar. Uma dor doendo lentamente. Uma dor de lembrar. Uma dor muito amorosa. De muito afeto. Alguma coisa que ainda não sei. Nem nunca saberei. A gente nunca sabe da poesia. A gente nunca sabe do amor. As pessoas se reencontram. A vida é muito longa de muitas outras vidas, de tantas outras vidas, de tantas outras passagens, de tantas outras eras. Nada é por acaso.

O Sermão do Viaduto, sábado

27/janeiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Gostaria de contar com a presença de meus 19 leitores no lançamento no sábado, dia 30, do livro de Aline Bernar, sobre o meu “O Sermão do Viaduto”, os poemas que eu dizia no Viaduto do Chá, nos anos de escuridão. Será no “Local Pantemporâneo”, na Avenida Nove de Julho, 3.653, a 50 metros da Rua Estados Unidos, às 15,30 horas.

(Subindo a Nove de Julho em direção ao Centro, na esquina com a Estados Unidos há uma agência do Banco Real. A seguir, é o Espaço Pantenporâneo).

O livro foi publicado pela Escrituras Editora e já foi lançado no Rio de Janeiro.

Na primeira parte, o livro traz o trabalho da Aline, tese de doutorado em Letras na Universidade de Coimbra; na segunda, todos os poemas de “O Sermão do Viaduto”; e na terceira parte, um longo ensaio sobre O Sermão de Nelly Novaes Coelho.

Haverá um recital de poesia com Eunice Arruda, Celso de Alencar, Raimundo Gadelha e Helena Armond.

A atriz Marisa Carnicelli interpretará alguns poemas meus.

  • Foi através de uma de suas cadeiras curriculares no doutorado – Poética e Cidadania – que Aline Bernar teve contato com a obra do poeta paulista Álvaro Alves de Faria. O Sermão do viaduto foi amor à primeira vista e, mais tarde, tornou-se objeto de investigação que dialoga Poesia de Imigração, Ciências Sociais e Filosofia.O estudo foi tema de seu doutoramento pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – (UERJ), junto à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal, sob orientação da professora doutora Graça Capinha, e resultou no livro O Sermão do Viaduto de Álvaro Alves de Faria (Escrituras Editora). Aline Bernar mostra o ato poético desempenhado por Álvaro como um ato público e político, voltado para questões político-sociais, visto então como um ato contestador, desde o cenário escolhido até o público, o povo oprimido e desprivilegiado, incluindo as prostitutas, os desempregados, os vendedores ambulantes, os desabrigados. Viaduto que aos olhos do poeta era um “local apaixonante”, para uma poesia que representava um manifesto, resistente e militante.Os poemas de O Sermão do Viaduto foram lidos pelo poeta Álvaro Alves de Faria, no viaduto do Chá, no centro velho da cidade de São Paulo, com microfone e quatro alto-falantes, em plena ditadura militar. O poeta fez nove recitais no local, em meados dos anos 1960, sendo preso cinco vezes pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), acusado de subversão. A última prisão ocorreu na noite de 9 de agosto de 1966, quando os recitais de O sermão do viaduto foram proibidos definitivamente.Nas palavras de Álvaro Alves de Faria: “Eram poemas escritos em linguagem bíblica, não religiosa (…) Era um discurso público. Um comício poético num tempo que começava a revelar as sombras da ditadura que se instalou no país e deixou a situação ainda mais grave com a edição do AI-5 (…) O Sermão do Viaduto constituiu, na época, o início do movimento de recitais públicos de poesia em São Paulo”.

    Sobre a autora:
    Aline Bernar nasceu em 6 de outubro de 1977, no Rio de Janeiro. Licenciada em Letras (Português-Inglês) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), cursou Mestrado em Cognição e Linguagem pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e, no momento, termina seu doutorado em Linguagem, Identidades e Mundialização pela Universidade de Coimbra (UC) – Portugal. Um trabalho mais aprofundado sobre a rica poemática de Álvaro Alves de Faria, acrescido de um conhecimento maior dos diversos cenários/contextos pertinentes à sua obra, já faz parte dos rumos acadêmicos que Aline Bernar traça agora para o futuro. Um futuro apoiado na “memória” de um poeta/pastor contemporâneo, seus poemas quase líricos, seus sermões num Viaduto e suas canções para Coimbra. É assim que um olhar brasileiro – de Coimbra para o Viaduto do Chá – encontra pelo caminho um poetar também brasileiro, que voa para suas origens lusófonas.

    Sobre Nelly Novaes Coelho:
    Ensaísta e crítica literária, é Doutora em Letras, Livre-Docente e Titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa.

Mais três poemas de meu novo livro publicado em Portugal

21/janeiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Coloco hoje no blog mais três poemas de meu novo livro lançado em Portugal, “Este gosto de sal” - (Mar português), publicado pela Editora Temas Originais, de Coimbra. Essa poesia que Portugal me oferece, com o sentimento de uma terra onde me deixei ficar para sempre. Ontem coloquei no blog o último poema do livro. Coloco hoje outros três para dar uma idéia do que é “Este gosto de sal”. Mais um livro lançado em Portugal, que tem em mim um sentido existencial que significa descobrir-me cada vez mais, como se estivesse a caminhar ao meu encontro. E é assim. Passo aos meus 19 leitores o que escreveu Affonso Romano de Sant´Anna na quarta-capa de “Este gosto de sal”: “Álvaro Alves de Faria, pelo seu lirismo, talvez seja o mais português dos poetas brasileiros”. Eu sei bem como essas palavras de Affonso Romano de Sant´Anna calam em mim. Talvez só eu saiba. Quando deixei de ser poeta brasileiro, sabia bem o que estava fazendo. Fui em busca de mim. Na existência, do espírito e da poesia real, verdadeira, sem o viés da impostura. Acho que estou conseguindo caminhar. Acho que ainda tenho alma.


121

Falta-me a alma: queria ser apenas um poeta lírico,

que usasse às vezes em seus versos a exclamação

ah!

e que a seguir escrevesse o poema

como uma carta ou uma quase elegia

das marinhas de Portugal

dissesse

ah! mar português que me engole em segredo,

guardo de ti a memória do que não és,

mas deixa-me bater nas pedras

para que me possa sentir.

No entanto, falta-me a alma,

essa que se perdeu nos percursos,

quando era preciso multiplicar a palavra

no poema que se diz,

a que sempre faltou

na poesia que não quis.

116

Só  teria esse direito de falar em mim em relação às coisas

se de mim pudesse espelhar-me

ou se fosse um poeta, que não sou mais.

Mas me falo no poema colhendo em torno de mim

o que ainda resta

das marinhas dessa poesia que me cerca,

se poeta fosse poderia dar-lhe melhor tratamento,

por temer em mim a possibilidade

do retrato de um poeta desaparecido

no universo submerso,

como se assim fosse mais cruel sentir-me em mim

para poder dizer-me como digo,

sobre o que desaparece,

o dia que nasce claro

nessa noite que anoitece,

nesse tempo que se desvenda,

nessa luz que escurece,

nesse navegar o poema,

como se não devesse.

96

Rainha Santa Mafalda,

percorro o rio Tinto onde morrestes

e entro para vos ver no Mosteiro de Arouca,

onde me encontra a sina do mar:

a vós, Senhora Santa,

peço salvar-me de mim

para que me possa penitenciar nos oceanos,

a calar um tal silêncio

que me ceifa o que tenho por meus danos.

Senhora Rainha Santa Isabel,

dessas rosas de Coimbra deixai-me sentir meu destino,

assim como se pudesse viver

sem saber de mim, meu desatino,

o pranto que me cala em meu percurso,

como se não houvesse razão para partir,

ir-me de mim entre as igrejas

e a tal sorte me descobrir.

Que me seja protegido na viagem que me faço

em volta de mim, onde não mais me estou,

a imagem que não me resta, apagada,

no que quero a seguir-me dentro de mim escondido,

espelho da minha face a mim negada,

no outro de mim, meu preterido.

Meu novo livro em Portugal

20/janeiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

Eu quero dividir com meus 19 leitores a alegria de ver mais um livro meu publicado em Portugal,  “Este gosto de sal”, que tem o subtítulo “Mar português”, publicado pela Editora Temas Originais, de Coimbra. A distribuição do livro às livrarias portuguesas começou ontem. Assim segue esta trajetória pela poesia que almejo escrever, a que está dentro de mim, de minha história pessoal, na minha própria memória, onde vivem meus passos incertos. A poesia também é incerta, como incerto é o destino. Em setembro sairá a novela “Cartas de abril para a Rainha Júlia III do Reinado de Argamasilha”, quando lá estarei para o lançamento e leitura de poemas em algumas cidades de Portugal. “Este gosto de sal” é uma viagem dentro de mim, diante do mar português e seu significado na minha vida redescoberta na terra de meus pais. Uma terra que me comove e me envolve, em que a poesia é palpável, está na pele, na respiração, nos monumentos, nas paredes, nos azulejos azuis, nas igrejas, nas ruas de Coimbra, nas ruas de Lisboa, nas calçadas que sempre me levam a um poema por fazer. Vejo “Este gosto de sal” e não sei explicar bem o que sinto, porque não é uma coisa somente literária, vai além, muito além da própria existência em mim. Este ano vou reunir todos os livros publicados em Portugal desde 1999 num único volume que vai chamar-se “Alma gentil-raízes”, a sair pela Escrituras. Mais um passo nessa trajetória poética que me faço. Vou colocar no blog, nos próximos dias, alguns poemas do novo livro em Portugal. Começo hoje com o último poema do livro, de número 124, que pode dar a idéia do que é “Este gosto de sal”.

POEMA 124

63-to-este_gosto_de_sal_alvaro_alves_de_faria

Escorre em mim este mar,

águas de gaivotas

que me percorrem por dentro

com o sal de meu tempo,

a gente destas aldeias,

o som das ruas,

as velas antigas,

este mar que em mim se fez,

o poema que me lamenta,

esse mar em sua tez,

esse mar nessa tormenta,

esse mar de águas secas

que a secar só se aumenta,

esse mar que me divide

no pecado que me isenta,

que se guarda em minha casa

e na morte que me acalenta,

que me tira o pão à mesa

e da poesia me alimenta,

esse mar de Portugal

que me escolhe como servo

e dos sonhos me inocenta,

que me mostra em suas sombras,

mas não é o que aparenta,

esse mar que se debruça

nesse porto que ostenta,

dos navios que partem sempre

nos destinos que inventa,

esse mar que se apaga

nesse verso que se tenta,

o poema que se perde,

mas por dentro de acrescenta,

nesse mar que em pressa foge

a poesia é sempre lenta,

esse mar que me preenche

quando a alma se ausenta,

este mar que me habita,

como um deus desconhecido,

que me percorre em silêncio

a amargura que me detém,

que ao destino me amarra,

o fado que me entristece,

a viagem que me faço

por dentro de Portugal,

a busca desse poema

que me faz tanto mal,

essa dor em que me busco

na poesia verdadeira

que em mim não se contém,

que ao fazer-me esse mal,

só  consegue fazer bem,

esse mar que me devora,

que caminha em minha sina,

esse mar de Portugal

que me cala e me alucina,

esse mar a levar-me distante,

que vive dentro de mim

com as palavras esquecidas

no meio de meu fim,

esse tempo, essa fúria, esse dia,

essa sombra que me para,

por tal sorte, tal poesia,

que de mim não se sapara,

e que por mim ser destinado,

nesse canto de uma mulher,

o meu canto que está calado,

na canção que não se quer,

esse mar que me esquece

ao levar-me para sempre,

neste sonho que se tece,

no mergulho que me dou,

porque ainda me busco

nas ondas que se perderam,

o tempo que se esquece

nas águas que já morreram,

a vida que se enaltece

nos destinos que não há,

a alma que se enternece

sem estar aonde está,

a nau que me aguarda

nesta dor do esquecimento,

o que tenho por minha prece

no poema que lamento,

este mar de Portugal,

que me habita e me espera

e que em mim me faz morrer,

que me chama nas aldeias

me fazendo mais viver.

Os mortos não ouvem discursos

19/janeiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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As cenas continuam cada vez mais bárbaras. Diante da televisão observo estas imagens dantescas, violentas, do terror absoluto no Haiti. Na verdade não há o que dizer, senão observar e ouvir aquelas palavras de sempre. Como escrevi no texto anterior, devo estar doente, enlouquecido, necessitando de internação urgente num hospício. Não acredito em quase nada. Em quase nada. Acredito, sim, na miséria que o mundo descobriu. Estão agora marcando reuniões para os próximos dias, como se aquelas pessoas pudessem esperar mais. O presidente brasileiro já comunicou que comparecerá a todas as reuniões que forem necessárias. Os mortos esperaram a vida inteira. E ainda estão esperando. Acredito em pouca coisa. Há gente e países que de fato querem ajudar, eu sei. Sou mais ou menos bem informado. Mas não vamos esquecer nunca os oportunistas sempre de plantão. O Brasil, por exemplo, achou que seria ele (o seu Governo) o organizador de todas as ações de socorro e auxílio. A hipocrisia machuca. A hipocrisia é uma espécie de tremor por dentro. E ainda fazem os discursos costumeiros. Os mortos não ouvem discursos. Os mortos são jogados numa vala comum. A violência cresce cada vez mais. A violência não ouve discursos de ninguém. Quero ver toda essa gente, inclusive o Brasil, depois que as câmeras de televisão forem embora de lá. Depois que não existir mais esse palco de horror. Quero ver toda essa gente depois que o palco acabar.

Haiti

18/janeiro/2010 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Relutei muito em escrever sobre o horror do Haiti. Acompanho essas cenas de pavor desde o início. Desde a pequena primeira notícia de cinco linhas que me chegou às mãos, informando sobre o terremoto. Alguns minutos depois, uma outra pequena notícia dizendo que o terremoto poderia ter atingido a região onde estão os soldados brasileiros que lideram as forças da ONU para dar ordem ao país. Pedi então a um repórter que ligasse para o embaixador do Brasil em Porto Príncipe. Foi nessa instante que tivemos a idéia do que ocorrera. Toda a comunicação com Porto Príncipe estava interrompida. Não era possível saber nada. E as notícias continuaram chegando, cada vez piores. Mas nunca imaginamos, na redação da Jovem Pan, que e extensão do terremoto seria a que estamos vendo agora. E à medida que as horas foram passando, as informações chegavam cada vez mais dramáticas. Falou-se, então, pela primeira vez, já de madrugada, em morte de soldados brasileiros. Ouvir quem ? Como ? E a madrugada se arrastou já com muitas informações, um drama brutal, cada vez mais brutal. Conseguimos alguns entrevistados que nos falaram sobre o Haiti, seu povo, especialmente um cientista brasileiro que vive em Porto Príncipe e que estava em Porto Alegre. Descreveu-nos a capital do Haiti e a angústia de um povo pobre, o desemprego que atinge a 60 por cento dos trabalhadores, cerca de 200 mil órfãos. Já amanhecendo o dia, as primeiras imagens pela Internet, pela televisão, por alguns fotos. E durante o dia, a realidade cruel de um povo que contava seus mortos e que cavoucava a terra e os escombros com as mãos, na tentativa de salvar alguma vida. As imagens são brutais. Em minha vida de jornalista profissional nunca vi coisas assim como estou vendo. Nunca vi. Nunca vi tanta angústia, tanta tristeza, tanto desespero. Um repórter da CNN, senão me engano, que não conseguia descrever o que estava vendo, que soluçava. Um outro, acho que da TV francesa, que pegou nos braços uma criança que, três dias depois do terremoto, foi tirada dos escombros. Ele a abraçou como se fosse a um filho e não conseguia falar. É comovente ver aqueles homens e mulhers cantando. É comovente ver as crianças cantando. Uma enfermeira diz que tinha de suturar um grande ferimento em uma mulher, mas não havia anestesia. Fez sem anestesia, enquanto a mulher cantava. A enfermeira explicou: cantava para não sentir dor, conforme disse a própria mulher. Essas cenas revelam ao mundo uma miséria que esse mundo desconhecia. Alguns, de cara, sem saber de fato o que ocorria, procuram faturar em cima do desespero de um país destroçado em sua própria história. Como se fossem eles a salvação do mundo.  Mas entraram outros países nessa história de horror, entrou praticamente o mundo. Vejo agora aviões de tantos países chegando em Porto Príncipe com comida, medicamentos, médicos, bombeiros, gente especializada em casos assim. Mas nada disso chega ao centro do horror. Isso me aflige diante da TV, que me mostra imagens terríveis, que me fazem fechar os olhos. O ministro da Defesa do Brasil desembarcou em Porto Príncipe vestido de militar, como salvador da pátria. É provável que essas cenas sejam usadas na campanha eleitoral que se aproxima. Eu devo estar doente. Eu devo ter enlouquecido. Não acredito em nada. Mas, de qualquer maneira, o horror do Haiti despertou o mundo para um gesto de solidariedade que há muito não se via. Desespera-me ver os enterros coletivos, de pessoas mortas, sem nome, sem idade, sem nada, sendo jogadas em valas comuns. Mas pode ser diferente ? Não pode. Não dá para ser diferente. Sinto por dentro de mim que o pior ainda está por vir. Há muita gente morta ainda sob os escombros e isso poderá provocar uma epidemia de doenças violentas. Choro diante das imagens de ver tanta gente andando de um lado a outro sem saber o que fazer, a quem pedir socorro, a quem pedir água, a quem pedir comida. A maior aflição são as crianças que, sozinhas, estão à espera do nada. Nunca vi horror tão grande, tão intenso, tanta dor, tanta angústia, tanto infortúnio. Por isso relutei muito em escrever sobre o Haiti. Não sabia o que escrever. Escrever o que diante disso tudo? Que palavra poderá descrever essa dor ? E no meio desse desespero, surge o nome do digníssimo, nobre senhor cônsul do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, um branquelo engomadinho. Ia dar uma entrevista coletiva sobre o terremoto, fornecendo à imprensa as últimas notícias que recebera de seu governo, por meio dos Estados Unidos. Mas antes de começar a entrevista, esse senhor, representante do Haiti em São Paulo, no Brasil, esse senhor conversava com outra pessoa, com os microfones de todas as rádios e emissoras de TV brasileiras em cima da pesa. Só que o SBT não desligou seu microfone, enquanto a entrevista não começava. Esse representante do Haiti no Brasil disse textualmente o seguinte, à pessoa com quem conversava: “A desgraça lá está sendo boa para a gente… fica mais conhecido. Acho que de tanto mexer com macumba… não sei o que é aquilo. O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano é f…!”. Essas palavras do branquelo encardido vazaram. No outro dia o cônsul do Haiti pediu desculpas, dizendo que tem dificuldades com a língua portuguesa. Mas ele vive aqui há 35 anos. No consulado há fotos dele ao lado do ex-presidente Collor e do ex-presidente Figueiredo. Explicou, explicou, explicou e não explicou nada, revelando, sim, o caráter de uma gente sem caráter nenhum, que bendiz a tragédia e põe a culpa nos cultos religiosos dos haitianos. Se o Haiti tiver governo – e tem – esse homem não pode mais ser representante de seu povo em lugar nenhum. Mas esse é um fato fora do horror, mas também dentro do horror. Na verdade, tudo é horror. A miséria é muito mais do que se imagina. A miséria atinge também a alma. A miséria se mostra inteira na lágrima de uma criança com o rosto sangrando, os olhos muito grandes, o medo, o medo, o medo. A miséria se mostra aí, num futuro que não há, num rosto que aos poucos morre e se transforma em nada.

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