Arquivos para maio, 2008

OS ÓCULOS DE DRUMMOND

sexta-feira - 30/maio/2008

drummond2.jpg         

A Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro decidiu que a estátua de bronze em tamanho natural do poeta Carlos Drummond de Andrade ficará sem óculos. Não dá mais para colocar óculos no poeta, sentado solitariamente num banco no calçadão da praia de Copacabana. É colocar os óculos, os ladrões levam embora. Então é desistir. A civilização se mede por coisas assim.

         A estátua de Carlos Drummond de Andrade ficou sem óculos de janeiro até a semana passada. Até que a Prefeitura colocou de novo os óculos no rosto do poeta, um dos maiores que este país já produziu.

          Os óculos foram novamente furtados no dia seguinte, mesmo tendo sido soldados em vários pontos: de cada lado do rosto, na orelha e na testa. Mesmo assim os ladrões conseguiram tirar.

         A polícia acredita que os óculos furtados rendem cerca de 3 mil reais aos ladrões. O Rio de Janeiro é mesmo uma cidade sem lei. A cidade dos bandidos, a exemplo de São Paulo, que não fica atrás em nada. A Prefeitura tentará instalar uma câmera para monitorar a estátua de Drummond dia e noite.

         Os vândalos do Rio de Janeiro também gostam de pichar a estátua de Drummond, a exemplo de outros monumentos. Igualzinho ao que ocorre aqui em São Paulo, que é também uma cidade sem lei.

         Num país civilizado, uma estátua de um poeta como foi Carlos Drummond de Andrade seria cercada de todo respeito. Aqui não. Eu imagino a cena dos ladrões furtando os óculos do poeta.

         -E aí tio, viemos buscar a armação de novo. Fica frio que não vai doer. E depois o senhor está de costa para o mar, não precisa enxergar nada. Fica frio, tio, que isso passa logo.

         O poeta fica imóvel no seu corpo de bronze e os ladrões agem livremente em plena praia de Copacabana. Nem sabem quem foi Drummond. Certamente nunca saberão. Sabem apenas que lá tem uma estátua que usa  óculos e que esses óculos valem 3 paus.

         O país se mede por aí também. Se não fosse de bronze, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade já teria sido assassinado algumas vezes. Mas podem esperar e não estou exagerando: um dia os ladrões levam a estátua inteira e até o banco. Drummond simplesmente desaparecerá de Copacabana.

         Sinceramente, se eu fosse ele eu fugiria não da praia onde está, mas do Brasil.

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ENTREVISTA COM PADRE VIEIRA

quinta-feira - 29/maio/2008

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Meu querido amigo escritor Deonísio da Silva me envia uma entrevista que fez com o Padre Vieira. É isso mesmo. Entrevistou o Padre Vieira. Coloco no meu blog aqui na Jovem Pan, pelo texto inteligente. A essa entrevista, Deonísio da Silva deu o título “Uma conversa sobre o Sermão do Bom Ladrão”.

            Vamos, então, à entrevista com o Padre Vieira:

Introdução

O Paiaçu, o Grande Padre, como o chamavam os índios, há muitos anos habita minha casa, como tantas outras que têm biblioteca, e hoje residimos na Barra da Tijuca, no Rio.

Faz vinte e um anos que não o entrevisto. Por muito apreciá-lo, entrevistei-o apenas uma vez, em 1986, nas páginas de um romance, A cidade dos padres, no qual fez, como de hábito, a defesa dos judeus e dos índios, propôs a criação da Companhia Ocidental, da Companhia Oriental, a fundação de um Banco como o de Amsterdam, além de condenar a Inquisição, que tanto o perseguiu.

Sei que nossos irmãos portugueses o consideram uma de suas maiores glórias literárias de todos os tempos, ao lado de Camões. Mas, embora nascido em Lisboa, em 6 de fevereiro de 1608, filho dos fidalgos Cristóvão Vieira Ravasco e Maria de Azevedo, em 1614, aos seis anos, emigrou com os pais para o Brasil, onde veio a morrer, na madrugada de 18 de julho de 1697, aos 89 anos. Portanto, se Vieira é escritor português, Clarice Lispector[1] é escritora ucraniana.

Vieira acreditava piamente na volta de Dom Sebastião, pois, para Deus, nada sendo impossível, sendo necessária a volta do rei português, por que o monarca deixaria de voltar? Só porque tinha morrido pelas mãos dos mouros, na Batalha de Alcácer Quibir, na África? A morte não é motivo para interromper nada, a não ser esta vida terrena, um breve intervalo, se comparado com o tempo que Vieira permanece entre nós e, mais ainda, com a eternidade.

De seus perseguidores, diz certa vez o defensor do Quinto Império: “não me temo de Castela, temo-me desta canalha”.

Na biografia que dele fez André de Barros[2], apresentou-o como de “pequena estatura”, “cor morena”, “olhos sobremaneira vivos, que parecia cintilavam”. Disse também ter sido um gênio humaníssimo, urbano e cortês, de memória prodigiosa e grande erudição e de uma conversa arrebatadora no convívio com os colegas.

Nunca mais o tinha entrevistado, para não chatear o, mais que gênio, oxigênio. Mas, se a primeira entrevista fiz de livre vontade, para esta fui convocado por professores universitários que, sendo amigos, a eles não se pode deixar de atender.

Foram duas sessões de perguntas e respostas. Uma, em minha casa; outra na Universidade Estácio de Sá, onde trabalho. Ali o Padre Antônio Vieira é bibliografia obrigatória, não apenas no curso de Letras, mas numa disciplina de Língua Portuguesa, que é ministrada em todos os cursos. O Padre Antônio Vieira é imortal, pois é a obra, mais nada, que dá imortalidade a um autor.

Confesso que vacilei entre dois sermões para escolher o tema solar desta entrevista: o da Sexagésima, pregado em 1655, mas na Capela Real, ao passo que o do Bom Ladrão, no mesmo ano, foi pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa.

Encanta-me no Sermão da Sexagésima a força da palavra. Absolutamente genial ao manipular no melhor estilo barroco as sutis complexidades e semelhanças que vê entre o ato de lançar sementes na terra e palavras nos homens, ele abre com a parábola do semeador e conclui: “Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum”.

Contudo, nesta entrevista, limitei as perguntas ao Sermão do Bom Ladrão, de leitura sempre indispensável, porém, no Brasil atual, mais pertinente do que em outros tempos.

As perguntas são minhas. As respostas são dele e foram todas extraídas do Sermão do Bom Ladrão. Vieira falou muito, como é de seu costume, e eu pouco, pois quanto mais silencioso fico, mais aprendo com ele. Entretanto, é sempre preciso interrogá-lo, pois é isso que fazemos quando lemos um autor: fazemos perguntas e obtemos respostas, que levam a novas perguntas, em vertiginosas espirais. Ler, para mim precede escrever, beber vinho e ouvir música, quatro prazeres que muito prezo, três deles podendo ser usufruídos simultaneamente. Por isso, mesmo para um escritor, é mais importante ler do que escrever.

                                                           ******

Deonísio - Todos os que hoje lêem seus escritos, destacam entre os que mais apreciam o Sermão do Bom Ladrão. Qual é a primeira idéia que o senhor nele desenvolve e ilustra com o episódio bíblico ali narrado?

Padre Vieira - Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: “Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum”. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: “Hodie mecum eris in Paradiso”. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: “Mecum”. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria.

Deonísio - E a segunda?

Padre Vieira - Suposta esta primeira verdade certa e infalível, a segunda coisa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio, sob pena da salvação, não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso.

Deonísio - E em que filósofo o senhor se apóia para afirmar que é preciso restituir o que foi roubado e não apenas perdoar o ladrão?

Padre Vieira - Santo Tomás. O qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: “Terrarum principes multa a suis subditis violenter extorquent, quod videtur ad rationem rapinae pertinere; grave autem videtur dicere, quod in hoc peccent, quia sic fere omnes principes damnarentur. Ergo rapina in aliquo quo casu est licita”. Quer dizer: A rapina ou roubo é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque, se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam: “Fere omnes principes damnarentur”. Diz Santo Tomás que se os príncipes tiram dos súditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição, como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto é mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.

Deonísio - Mas Santo Agostinho também condenou o roubo…

Padre Vieira - O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que entre os tais reinos e as covas dos ladrões - a que o santo chama latrocínios - só há uma diferença.

Deonísio - E qual é a diferença?

Padre Vieira - E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos: “Sublata justitia, quid sunt regna, nisi magna latrocinia? Quia et latrocinia quid sunt, nisi parva regna?”.

Deonísio - O senhor, neste mesmo Sermão do Bom Ladrão, como costumava fazer em tantos outros, conta um diálogo ocorrido entre um pirata e Alexandre Magno, o rei da Macedônia que foi educado por Aristóteles. Que episódio foi este?

Padre Vieira - Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e, como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. - Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? - Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.

Deonísio - Mas não foram apenas autores cristãos que reprovaram o roubo e os ladrões. Sêneca disse que tanto faz ser o pirata como o rei; o resultado do roubo só muda em quantidade, causando muito mais repulsa os ladrões com poder.

Padre Vieira - Quando li isto em Sêneca[3], não me admirei tanto de que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloqüentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem, porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar.

Deonísio - O senhor fala de muitos ladrões e de muitos tipos de roubos no Sermão do Bom Ladrão. Quais são os ladrões mais perigosos?

Padre Vieira - Os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: “Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam”. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno[4]: “Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt”: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. - Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

Deonísio - Qual foi o filósofo grego, citado no seu aludido sermão, que disse que, quando os pequenos ladrões são punidos, quem os está punindo são mais ladrões do que eles?

Padre Vieira - Diógenes[5], que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas!

Deonísio - Na Grécia Antiga, então, tão democrática, puniam os pequenos ladrões e nem levavam a julgamento os grandes. E em Roma, como é que era?

Padre Vieira - Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: “Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere”: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. - Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

Deonísio - Já vimos que o Céu foi inaugurado por um ladrão, ainda que o Bom Ladrão, título e tema deste sermão, pois Jesus, que morre crucificado entre dois ladrões, Dimas e Gestas, diz ao primeiro, que lhe pediu perdão: “hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. É verdade que a roubalheira já começou com Adão e Eva? Afinal, o fruto do furto não foi apenas uma fruta, foi roubo de biodiversidade, de tecnologia e de ciência, pois nossos primeiros pais furtaram o fruto do conhecimento, da árvore da ciência do Bem e do mal, não?

Padre Vieira - Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepto somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher - que muitas vezes são as terceiras -, aquela só coisa que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com ofício, já o temos ladrão.

Deonísio - Mas eles pagaram caro pelo furto. Ou alguém mais também foi indiciado?

Padre Vieira - E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. O mesmo Deus o disse assim, referindo o muito que lhe custara a satisfação do furto e dos danos dele: “Quae non rapui, tunc exolvebam”. Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci, vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei. Adão foi o que furtou, e eu o que paguei: “Quae non rapui, tunc exolvebam”.

Deonísio - O microfone está à sua disposição para um recado aos brasileiros. Que prece o senhor faz, além da prece da decifração do que o senhor escreveu?

Padre Vieira - Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão, e o primeiro a quem prometestes o Paraíso foi outro ladrão, para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que, não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impeçam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam, ao inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como vós fizestes hoje: “Hodie mecum eris in Paradiso”.

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[1] Clarice Lispector (1920-1977): escritora nascida na Ucrânia. De família judaica, emigrou para o Brasil quando tinha apenas dois meses de idade. Começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade de Recife. Em 1944, publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. A literatura brasileira era nesta altura dominada por uma tendência essencialmente regionalista, com personagens contando a difícil realidade social do país na época. Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, quer pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, quer pelo estilo solto elíptico, e fragmentário, reminiscente de James Joyce e Virginia Woolf, ainda mais revolucionário. Seu romance mais famoso embora menos característico quer temática quer estilísticamente, é A hora da estrela, o último publicado antes de sua morte. Neste livro a vida de Macabéa, uma nordestina criada no estado Alagoas e vai morar no Rio de Janeiro, e vai morar em uma pensão, tendo sua vida descrita por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M. Sobre Clarice Lispector, a IHU On-Line 228 realizou uma edição especial, intitulada Clarice Lispector. Uma pomba na busca eterna pelo ninho, de 16-7-2007. O material está disponível na nossa página eletrônica (www.unisinos.br/ihu <http://www.unisinos.br/ihu>) (Nota da IHU On-Line)

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[2] André de Barros: escreveu a primeira biografia de Antônio Vieira, em 1746, intitulada Vida do apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. (Nota da IHU On-Line)

[3] Sêneca (4 a.C. - 65d.C.): estadista, escritor e filósofo estóico romano. De suas obras, restam 12 ensaios filosóficos, 124 cartas, um ensaio meteorológico, uma sátira e nove tragédias. Suas tragédias têm por tema assuntos explorados por dramaturgos gregos, mas são melodramas intensos e violentos, fixando-se na crença estóica de que a catástrofe é resultado da destruição da razão pela paixão. Essas peças influenciaram bastante a tragédia na Itália, na França e na Inglaterra elisabetana. Sua filosofia moral, inspirada na doutrina estóica, está expressa nos diálogos, tratados e cartas, Epístolas morais a Lucílio, que escreveu. As tragédias Medéia, As troianas, Agamenon e Fedra são, geralmente, atribuídas a Sêneca.(Nota do IHU On-Line)

[4] São Basílio Magno (330 - 379): fundador da Ordem dos Basilianos. Estudou filosofia, astronomia, geometria, medicina e atuou como professor. Tornou-se sacerdote e em 370 d.C. tornou-se bispo. (Nota da IHU On-Line)

[5] Diógenes (413-323): filósofo grego e um dos maiores representantes do cinismo. (Nota da IHU On-Line)

INDIGNAÇÃO

quarta-feira - 28/maio/2008

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Estou preso novamente. Desta vez por indignação. Indignação excessiva, conforme me disseram. Indignação demais não pode. Está na Constituição do país do faz-de-conta, do país da mediocridade absoluta.

       Vocês estão acompanhando o caso da menina Isabela, assassinada brutalmente, jogada pela janela de um sexto andar de um prédio. Minha indignação, entre tantas outras, vem daí, nesta nova prisão.

       Dá nojo. Desculpem-me a palavra. Dá nojo. Vocês viram o que disse aquele legista que foi agora contratado lá de Maceió ? Uma pessoa distante dos fatos, mas que gosta muito de notoriedade.

       Pois esse legista vem de longe e critica duramente os laudos da polícia de São Paulo, como se fosse ele o senhor de todas as verdades, como se fosse ele o verdadeiro sabedor de todas as coisas, como se fosse ele a voz definitiva sobre esse caso hediondo.

       Na menina Isabela ninguém fala. Eu começo a ter dúvidas se de fato a menina existiu. Deve ser tudo ficção. Laudos, advogados, declarações, movimentação ininterrupta, declarações, declarações, declarações, versões, outras versões, mais versões, e da pequena Isabela ninguém mais fala nada.

       Agora, o senhor legista contratado para questionar os laudos da polícia de São Paulo, como se ele estivesse aqui, acompanhando tudo.

Quanta ética, meu Deus! É muito difícil viver num mundo assim. É sórdido. É muita sordidez.

       Já uma perita também contratada, diz que a menina foi jogada do sexto andar de cabeça para baixo, para contradizer as conclusões da Polícia Científica de São Paulo, como se isso trouxesse a menina de volta.

       Estou preso novamente, desta vez por indignação excessiva, como reza a Constituição do país da mentira. Preso por indignação excessiva. Não se pode indignar excessivamente, por mais escabrosos que sejam os fatos. A indignação está proibida.

       Então fica assim: Vem lá de longe um perito contratado para questionar o laudo da Polícia de São Paulo sobre o crime. Eu chego à conclusão que nada disso aconteceu. Todos são inocentes. Todos. Menos a pequena Isabela, assassinada de maneira covarde e insana, com crueldade, coisa de gente perversa.

       Daqui de dentro da cela, onde estou preso novamente por indignação, eu quero dizer o seguinte: Está tudo errado. A menina se suicidou. Ela se atirou sozinha do sexto andar. Ela abriu um buraco na rede da janela e se atirou. Todos são inocentes. Todos são inocentes. A menina Isabela, se é que ela existiu algum dia, a menina Isabela se matou.

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JORNALISTAS MULHERES

quarta-feira - 28/maio/2008

A esta altura da vida, quase sempre perdida em inutilidades, cheguei à conclusão que Jornalismo é profissão de mulher. Devia haver só mulher no Jornalismo. Aliás, elas já são maioria nas redações. Felizmente. Felizmente mesmo. Homem devia existir no Jornalismo só para algum servicinho extra. As mulheres deveriam tomar conta de tudo. De absolutamente tudo. Especialmente no Jornalismo. São mais cuidadosas e capazes. Principalmente capazes. Têm mais observação. Mais sensibilidade para notar as coisas que os homens não notam. Nem sabem que existem. O homem é ridículo. É uma pedra bruta que necessita de muita lapidação. Por isso, gostaria mesmo que as mulheres tomassem conta de tudo. Que fossem todas rainhas de tudo. Todo o Governo brasileiro devia ser de mulheres. Pelo menos daria para acreditar. Pelo menos - tenho certeza - não haveria tanta mazela. As mulheres deveriam tomar conta de todas as coisas. Falo no Jornalismo particularmente porque sou jornalista. Ainda. Ainda me entrego ao Jornalismo até com algum zelo. Mas eu cansei. A esta altura da vida eu cansei. E a cada dia em vejo o número de mulheres aumentando nas redações. Felizmente. Que seja assim em tudo. Para que o mundo seja um pouco melhor. Do jeito que está não dá mais para aguentar.  

SAUDADE, UM POEMA

terça-feira - 27/maio/2008

 Recebi este poema de meu amigo querido Deonísio da Silva, escritor brasileiro que enobrece a literatura deste país. Recebi e coloco no meu blog, que merece.

Saudade

Saudade é um parafuso
Que na rosca quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque batendo num vai
E enferrujando dentro
Nem distorcendo num sai.

Saudade tem cinco fios
Puxados à eletricidade,
Um na alma, outro no peito,
Um amor, outro amizade,
O derradeiro, a lembrança
Dos dias da mocidade.

Saudade é como a resina,
No amor de quem padece,
O pau que resina muito
Quando não morre adoece.
É como quem tem saudade
Não morre, mas adoece.

Adão me deu dez saudades
Eu lhe disse: muito bem!
Dê nove, fique com uma
Que todas não lhe convêm.
Mas eu caí na besteira,
Não reparti com ninguém.

(Antônio Pereira de Moraes, poeta analfabeto, autor de Minhas Saudades, seu único folheto, publicado por amigos que guardaram na memória o que ele lhes dizia. Nasceu em 1891 e morreu em 1982. Não vivia de escrever, era agricultor).

AMAZÔNIA: O COMEÇO DO FIM

terça-feira - 27/maio/2008

Numa madrugada destas eu vi o ministro de Assuntos Estratégicos falando na TV da Câmara, uma reprise. Vocês sabem, eu passo a madrugada inteira andando pela casa, que nem um fantasma. Antes eu andava na rua, mas depois de ter sido assaltado 34 vezes, desisti. Então fico andando em casa mesmo. Até que vi o ministro.

       O jeito de falar do ministro me impressiona. E o jeito que ele fica na cadeira, se mexendo sem parar, como se estivesse sentado num formigueiro. O ministro Mangabeira Unger fala como se estivesse discutindo, com raiva, com um palavriado dos anos 30 mais ou menos. Os gestos dele eu não sei definir.

       Interesso-me pela figura do senhor ministro dos Assuntos Estratégicos porque ele foi a última armadilha que o presidente colocou diante da ex-ministra Marina Silva. O presidente deu a ele a coordenação do Plano Amazônia Sustentável. A ex-ministra Marina Silva, como ministra do Meio Ambiente, não suportou o golpe. Saiu do Governo. Aliás, o Governo não merecia a ministra. Ela está muito acima da mediocridade reinante.

       Fiquei então vendo o ministro coordenador da Amazônia Sustentável e no final de sua palestra tive a sensação de que a Amazônia está com os anos contados. Ele deixou isso claro. Ele quer indústrias na região. Ele prevê uma Amazônia com ou sem a floresta. Aliás, isso para mim também ficou claro: a floresta na Amazônia é só um detalhe.

       O ministro fala da Amazônia como se estivesse falando de uma coisa qualquer. O hoje ministro Mangabeira, não faz muito tempo, cansou de desancar o Governo e o presidente Lula, especialmente, com palavras das mais agressivas. De Lula ele só não xingou a mãe. E acabou virando ministro. É nisso que o presidente me enganou. Pelo menos a mim.

       O ministro falou muito em “desenvolvimento de tecnologias apropriadas para o manejo de florestas tropicais”. Falou também em cidades dentro da floresta. O ministro quer “um modelo produtivo que associe o Governo e os produtores agropecuários”, aqueles que destroem tudo. O ministro também definiu a Amazônia como uma fronteira da imaginação, mas eu não sei o que ele quis dizer com isso.

       Mas eu entendi bem quando ele disse que é impossível manter a região como um santuário. Dá para compreender essa sutileza paquidérmica aí ? Só não se sabe ainda o que o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, pensa das idéias de 1930 do ministro Mangabeira. Aliás, os dois já estão em rota de colisão. Mangabeira já descartou completamente a idéia de uma guarda especial para a região, como quer o ministro Carlos Minc. Descartou e já criticou o novo ministro do Meio Ambiente. Afinal, quem manda ? 

       Sempre se mexendo sem parar com gestos indescritíveis, o ministro foi discorrendo sobre seus planos. De repente se levantou, disse que tinha outro compromisso e foi embora, deixando os deputados irritados. Cada deputado tinha algumas perguntinhas para fazer. Aquelas bobagens de sempre. Mas o ministro foi embora. Bem feito! Não sei não, eu acho que daqui a alguns anos, Amazônia só em fotografias. O que já será muito.

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PARADA GAY

segunda-feira - 26/maio/2008

parada-gay.jpg Claro que eu fui ver de perto. Me enfiei no meio de todo mundo e saí caminhando junto com toda aquela gente colorida, até passei debaixo da bandeira com as cores do arco-iris.

            A ministra do Turismo participou, como das vezes anteriores. Ela dizia assim:

            -Eu sempre disse que esta Parada do Orgulho de Gay de São Paulo seria a maior do mundo. Eu sempre disse isso, desde que participei pela primeira vez, quando eu era prefeita. Sabe, é muito glamour, é muita beleza, é muita purpurina. A festa está linda. Está linda. Hoje eu falo como ministra do turismo: o segmento gay é muito significativo economicamente.

            A ministra comandou o Trio Elétrico do Ministério do Turismo, animada, distribuindo beijos calorosos, dançando, distribuindo bandanas do Governo. Foi uma glória.

            A Parada Gay de São Paulo é o maior evento do gênero em todo mundo, de projeção internacional. Mais de 3 milhões e meio de pessoas. Não sei se tudo isso é gay, mas tinha isso de gente. Falavam até em 5 milhões. Milhares de turistas estrangeiros.

            Mas eu fico meio deslocado nessas coisas, eu sou muito antigo. Por exemplo: Eu estava lá caminhando observando as coisas quando um cara chegou perto de mim e perguntou:

            -”Ô, você é homem, mulher, gay, travesti, drag queen, bissexual, lésbica, transsexual ou transgênero?” Olhei bem para ele e respondi: “Ó, sinceramente, não sei mais”.

            -”O que é que você está fazendo aqui ?”, me perguntou de novo. Eu respondi que estava olhando toda aquela gente alegre, livre, leve e solta. Então o cara me abraçou e me deu um beijo na boca. Ainda bem que eu não fechei os olhos… Aí ele sumiu e disse que teve imenso prazer em me conhecer.

            Teve de tudo. Os gays, com razão, reclamavam dos ladrões que faziam arrastões, roubavam tudo. Teve também muita droga e até traficante vendendo maconha nas calçadas. Muita bebida também.

            Os gays diziam que está acontecendo agora algo bastante importante. Falavam que cada vez mais as mulheres estão saindo do armário.

            Gostei da primeira escola de samba gay de São Paulo, a Grêmio Arco-Iris. Logo logo vai vencer o carnaval no Anhembi. Se eu for jurado eu dou nota dez em todos os quesitos.

            Ah, mas eu gostei mesmo foi da Marilyn Monroe naquele longo vestido vermelho, com fendas de lado, mostrando as belas pernas, e também com um decote mostrando os seios…seios ? Bem não sei bem, mas eu gostei da Marilyn. A boca vermelha e os cabelos louros, a pele sedosa. Tinha até a pinta no rosto. Eu fiz de tudo para falar com ela, quem sabe um chá de jasmim para descontrair…

            Pena que vou vê-la novamente só no ano que vem…  

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CIDA SEPULVEDA

segunda-feira - 26/maio/2008

  O nome de Cida Sepúlveda foi o que de melhor ocorreu na literatura brasileira nos últimos tempos. Deu alento a uma paisagem tantas vezes árida. Isso já se viu claramente no livro de poemas “Sangue de Romã” (2004) e confirmou-se nos contos de “Coração Marginal” (2007). Uma literatura que não dá margem a qualquer dúvida: estamos diante de uma escritora na mais absoluta e correta acepção da palavra. Este “Fronteiras” mostra a poesia em sua grandeza. Não é à toa que ela escreve para abrir seu livro apenas uma frase, ou verso, título de uma parte do livro: “Escrever é infinito”. É. Especialmente no seu caso. Um infinito que vai mesmo além da palavra e do poema, porque mostra a alma em retratos poéticos guardados no fundo de uma memória cultivada ao longo do tempo com esmero e com o zelo dos que têm no ofício de escrever uma razão para a própria vida. É pungente um poema que começa assim: “No início era o Pai. Depois, o silêncio do Pai. Depois, a falta”. E o desfecho do poema: “Depois vieram as palavras”. A poeta Cida Sepúlveda diz num poema que é preciso não forçar nada e explica que “a vida tem seu tempo”. A seguir: “Estamos em compasso de espera/Não é desespero, é alegria existencial”. E nisso tudo, a constatação: “Tempo é faca de dois gumes”. O livro feito de imagens marcadas especialmente pela Beleza, mostra instantes profundamente poéticos numa poesia limpa: “Foi há tanto tempo que morreu/ Mas deixou pássaros no quintal”. No final, deve ser a poesia “a linguagem que inventamos/ Para enganar a dor/ De ser”. Sim, na contramão, os destinos. Ou a poesia. Ou o poema. Ou a palavra. Quem sabe tudo na contramão. Esta é uma poesia que não dá trégua à sua verdade, que é ela mesma. É sua revelação. É o que está guardado num segredo e de repente salta do silêncio para fazer-se. Será sempre preciso acordar, como diz ela num poema oferecido a Manoel de Barros, “reabrir pântanos à visitações/ livrar as palavras dos hábitos/ Caminhar de olhos baixos/ Para não despertar sandices”. Cada poema é o registro de uma poesia rara. E a poesia rara é o que mais se deseja num tempo desfeito. Este é um livro raro. E verdadeiro. Como verdadeiro, um retrato fiel do que é este “Fronteiras”, o que a poeta revela no poema “O poeta e a verdade”: “O poeta vai fundo na alma/Não for assim, é mentiroso/ A poesia revela o impensável”. 

                                                                    

GUGA

domingo - 25/maio/2008

guga.jpgAcabo de ver pela TV a última partida de Guga, em Paris. Sinto-me emocionado. Vejo um brasileiro sendo aplaudido de pé. E penso comigo que este país poderia ser feliz, não fossem tantos patifes habitando esta paisagem cada vez mais ferida. Guga recebe uma homenagem. Ergue seu troféu. Chora. Cobre a cabeça com uma toalha para chorar sozinho, ali, dentro de si mesmo, com a cabeça coberta. A cena comove a todos que estão lá. Guga marcou sua história no tênis do mundo. Do país eu não sei, porque este país é dado ao esquecimento fácil de sua própria memória. Mas seguramente, Guga sempre será lembrado no mundo, como o grande atleta que foi. Não é mais o atleta, mas é o ser humano que sempre se mostrou. Ele ergue as mãos, as pessoas aplaudem de pé. Estou diante da televisão e diante do choro de Guga. Estou comovido. Guga merece essa homenagem e muito mais. Eu ainda sou uma pessoa que se comove. Eu ainda sou uma pessoa.

LIVRO DE SOPHIA

sábado - 24/maio/2008

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Recebi neste sábado as provas de meu próximo livro a sair em Portugal, no mês de setembro, um longo poema dedicado à poeta Sophia de Mello Breyner Andresen. Vai chamar-se “Livro de Sophia”. Quando ela morreu, no dia 2 de julho de 2004, eu estava em Lisboa. Soube da notícia pela televisão, no hotel. Emocionei-me. E passei o dia inteiro escrevenco num caderno. Em todo lugar. Cafés, restaurantes, praças. O dia inteiro até à madrugada escrevendo. Era preciso escrever. O longo poema se transformou num livro. Um livro de um poeta português, já que nada tenho a ver com a poesia brasileira o que, entre nós, não tem significado prático ou literário nenhum. Mas pelo menos tenho a sensação de me livrar desta mediocridade de país em que sou obrigado a viver. Alguém pode dizer: “Cai fora, então!”. Infelizmente não dá. Então sinto-me num cárcere. O Brasil é um grande cárcere de mediocridades de todos os tipos reinando absolutas. Principalmente no que diz respeito à cultura e particularmente em relação à poesia, descontadas as exceções. A bem da verdade, não posso generalizar. Não faria isso. Há bons poetas no Brasil, com os quais me dou muito bem. Mexo nas provas de meu próximo livro em Portugal e me comovo. Sinceramente, eu me comovo. Eu sou um cara que ainda se comove, o que já não é normal. Um cara fora de seu tempo. Sai lá em setembro. Os seis livros meus publicados em Portugal estão sendo reunidos pela Editora Escrituras num único volume que terá o título “Alma Gentil: Raízes”, que terá a apresentação de Carlos Felipe Moisés, Nelly Novaes Coelho e Miguel Sanches Neto, além de uma espécie de manifesto assinado por mim, no qual tento explicar minha postura como poeta neste país de faz-de-conta e de cartas marcadas no cenário cultural, no qual vale mesmo a alegria festiva de alguns delinquentes sem compromisso com nada. Também não mudo de profissão porque a esta altura da vida não dá mais. Mas tenho em mim a sensação de reagir ao medíocre, à mentira. Este é o país da mentira. Em tudo. O país dos discursos. Como me disse Ferreira Gullar: “Estou farto de ler artigos sobre Baudelaire, escritos por pessoas que nunca leram um único verso de Baudelaiere”.

Coloco a seguir um trecho do longo poema, que dá a idéia do que será o “Livro de Sophia”:

Por estas alamedas de ciprestes e árvores desconhecidas

vais a colher os frutos amadurecidos, a maçã que cai ao chão,

a cereja com gosto vermelho de açúcar

e a concha fechada em si no universo que não ousas.

A poesia nada muda na face pálida que me mostras neste dia,

quando vais de ti na tua penumbra de acasos

para achares o que te falta

no resíduo de todas as coisas que desaparecem.

Parco é o espaço do poema dentro do homem,

porque a alma é pequena nesse lugar onde vive a palavra,

local de abandonos e crueldades,

esse fio de licor que escorre pela boca

e cai pela face dos azulejos.