Arquivos para julho, 2008

BANANA, O NOVO PROBLEMA FUNDAMENTAL

quinta-feira - 31/julho/2008

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Nova lei sancionada pelo governador José Serra proíbe a venda da banana por dúzia. Agora tem de ser por quilo. O governador jura que essa é a medida mais justa. Não importa o tamanho da banana. Feirante e supermercados tem que vender a banana na balança. Vai ter fiscalização especial. A banana é o novo problema fundamental do Brasil, especialmente de São Paulo.

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SÓ RINDO

quarta-feira - 30/julho/2008

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Presidente da Câmara convoca, por telegrama, os 512 deputados para votação na semana que vem. O presidente da Câmara garante: deputado que faltar será descontado no salário. Você acredita nisso? Só dando muita risada.

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CACCIOLA

terça-feira - 29/julho/2008

bpoeta290708.jpgO ministro já Justiça diz não estar nem um pouco preocupado com a decisão da Justiça Federal de suspender o processo contra o ex-banqueiro Salvatore Cacciola. O ministro diz que a suspensão do processo é uma coisa normal. Normalíssima. O ex-banqueiro, aquele que jura que não era foragido da Justiça brasileira, está preso no Rio. A audiência que já estava marcada foi suspensa e será realizada numa outra data, não se sabe quando. O poeta comenta o assunto no seu bar, no meio da tarde paulistana. O poeta bebeu um pouquinho só e agora não sabe se pode ou não dirigir sua bicicleta de uma roda só, como aquelas usadas pelos palhaços nos circos da periferia.

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MARCAS

segunda-feira - 28/julho/2008

postmarca3.jpgQue marcas são estas que habitam minha pele, em que me escondo de mim, para abreviar-me ? Que marcas fazem essa imagem quase apagada do tempo que caminha lento entre montanhas ausentes ? Que marcas são estas que trago na bolsa onde dormem algumas estrelas e três luas novas ? Que marcas são estas que saltam da boca como gafanhotos aflitos na planície desnecessária ? Que marcas são estas que não me dizem e se deixam silenciar um tal silêncio que ouço por dentro, como se não fosse ? Que marcas me fazem sentir o tempo inexistente ? Que marcas são estas ? Que marcas são estas que me preenchem no espelho, onde meu rosto desapareceu ? 

LEI SECA

segunda-feira - 28/julho/2008

hpoetapresobar280708.jpgPreso mais uma vez. Isso não é justo. Sempre tem um problema. Da outra vez foram aqueles quadros que eu roubei na Pinacoteca, que ainda estão aí. Ninguém veio buscar. Agora é por causa da Lei Seca.

Eu não sei que Lei Seca é essa. Toda noite eu desço para tomar um café envenenado e vejo lá uma porção de gente bebendo sem parar. Bebem de tudo, até água. Eu tomo meu café com leite envenenado e fico observando aquilo e penso na Lei Seca.

Num destes dias o ministro da Saúde disse que o Governo não vai arredar pé nem um milímetro em relação à lei seca. O ministro disse assim: “Quem não pretende cumprir a lei vai mudar de opinião rapidamente quando for preso”.

É o meu caso. Eu sou um cidadão que acato as leis. Eu sou uma ilha cercada de leis por todos os lados. Obedeço a todas elas. Trabalho cinco meses por ano só para pagar impostos. Mas eu não reclamo, porque tenho retorno em serviços públicos, principalmente na área da saúde que o presidente disse ser de primeiro mundo.

Mas vejam bem a injustiça. Bebi um xarope para a tosse. Estava tossindo muito e isso incomodava o meu cão que não conseguia dormir. O cão me disse assim: “Ô, vai ver isso que assim não dá para viver”. Eu obedeci. Fui comprar um xarope e tomei na farmácia mesmo. Mas antes dei uma passada num bar para comemorar um casamento desfeito.

Aí um policial me parou. E disse para eu soprar o bafômetro. Mas eu não conseguia. Não conseguia nem ficar de pé. O policial começou a gritar: “Sopra aí, sopra aí esse negócio”.

Respondi que não conseguia porque estava com falta de ar. Se eu soprasse o ar que eu ainda tinha eu não sei o que poderia me acontecer. Resultado: me levou para a Delegacia.

Lá quiseram tirar meu sangue para fazer exame. Os policiais disseram que acharam 46 latinhas de cerveja comigo, vazias. Eu disse que era de uma amiga minha que tinha pulado da Ponte de Cidade Jardim no rio Pinheiros para se matar.

Não acreditaram em mim. Aí veio um cara lá com uma seringa. Eu falei que o Brasil me chupa o sangue todos os dias e que não tinha mais sangue para o exame. Não acharam a veia e eu acabei adormecendo. Eu não conseguia ficar em pé.

Eu voltei a explicar que tinha tomado um xaropinho. Fui preso por desacato e por dirigir embriagado, segundo eles. Mas eles ficaram furiosos mesmo quando eu perguntei, antes de ir para cela, onde é que eu podia guardar meu patinete.

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JOÃO UBALDO RIBEIRO

segunda-feira - 28/julho/2008

A poeta e escritora Cida Sepulveda lembrou-me a palavra que eu tanto queria usar no comentário que fiz sobre o Prêmio Camões a João Ubaldo Ribeiro. Eu sabia o que queria dizer, mas a palavra não me vinha à cabeça. “Pedante”. É essa a palavra que eu queria usar, mas não me ocorreu. Então volto a escrever sobre o assunto, utilizando a expressão que me faltou: a reação de João Ubaldo Ribeiro ao receber a notícia de que tinha sido distinguido com o Prêmio Camões foi de um pedante. E põe pedantismo nisso. Um pedante que quis passar a idéia de que está acima de qualquer coisa em relação à literatura. O prêmio Camões - o mais importante para escritores de língua portuguesa - devia ser respeitado, especialmente por quem o recebe. Ou então recuse. Desde que escrevi o comentário, passou a noite. E essa decepção que a reação que teve não me sai da cabeça. Muito pedantismo demais. Um pedante que fez gênero, só isso. Suas palavras, no fundo, mas no fundo mesmo, foram de desprezo ao prêmio que lhe anunciaram. Um desprezo que não cabe na própria literatura que produz. Para resumir: um boboca.   

PRÊMIO CAMÕES A JOÃO UBALDO RIBEIRO

domingo - 27/julho/2008

Confesso-me um pouco decepcionado com a reação do escritor João Ubaldo Ribeiro ao saber que foi distinguido com o Prêmio Camões de Literatura, o mais importante para escritores de língua portuguesa. Uma reação assim bem baiana, como quem está pouco se lixando com o prêmio e com a notícia do prêmio. Li pelo menos os principais livros de João Ubaldo Ribeiro, a começar por “Sargento Getúlio”, depois “Viva o povo brasileiro”, “O sorriso do lagarto” e finalmente “A casa dos budas ditosos”. Não chega a ser um Jorge Amado - que aliás também recebeu o Prêmio Camões - mas João Ubaldo, nascido na Ilha de Itaparica em 1961, é um excelente escritor brasileiro. O Prêmio Camões foi criado pelos governos do Brasil e de Portugal. Para sentir sua importância, basta lembrar que seu primeiro ganhador, em 1989, foi o grande Miguel Torga. E no ano passado, o Prêmio Camões foi entregue a Antonio Lobo Antunes, o maior escritor português atual. Ao receber a notícia, João Ubaldo Ribeiro não foi nada modesto: “Acho que ganhei porque mereço”. Eu acho que mereceu. Por que não ? Mas me confesso decepcionado com essa pose não sei de quê, coisa assim como a dizer que não está nem aí, essas bobagens que soam ridículas aos que ainda conseguem pensar neste país. João Ubaldo pertence a Academia Brasileira de Letras desde 1993. Não acho que ao saber-se vencedor do Prêmio devesse sair por aí dando cambalhotas e gritando. Não. Não acho isso. Mas que não mostrasse tanta indiferença, só para fazer gênero. Essa reação me decepcionou porque ele me parece ser gente séria. É um grande escritor, tenho certeza disso. Seus livros provam que não existe só leviandades na literatura brasileira. Provam que ainda existem escritores e poetas sérios no país. Mas a sua reação foi ridícula. Coisa assim que não cabe num autor como ele. Uma reação inócua. Não cabe nele nem na literatura que produz. Talvez tenha querido mesmo dar a idéia de que não está nem aí. Tem esse direito. Mas não queira dar a idéia de que está desfazendo do Prêmio. Não. A reação que teve me deu a impressão de que ele não vai aceitar. Vamos ver então se é gênero ou se ele revelou o que de fato sente em relação ao prêmio que que lhe foi distinguido.    

PRISCILA

domingo - 27/julho/2008

priscilarenascentista.jpgPriscila é uma menina. Trabalha na Jovem Pan Online. Devo a ela a realização de meu blog. Não entendo nada disto, não compreendo nada, não sei mexer em nada. O computador é uma das coisas que conseguem me enlouquecer. Fujo dele. Mas ele também foge de mim. Então a Priscila, que é uma menina, faz todas estas coisas para mim. Coloca os textos. Coloca os vídeos que gravo para a Jovam Pan Online. Coloca as figuras renascentistas no blog, atendendo aos meus pedidos. Só gosto de rostos renascentistas, de anjos, mulheres, homens, crianças. Tudo renascentista. Eu sou um cara renascentista. Por isso é que eu tenho tantas dificuldades com a modernidade. As coisas modernosas me desequilibram. As mulheres modernas demais me assustam. Principalmente as mulheres. Amores modernos demais de assustam. Acenos modernos demais me assustam. Pessoas modernas demais me assustam. Guardo em mim um mundo renascentista. E não quero dele sair. A Priscila, que é uma menina, me ajuda nisto. Por isso eu quero nesta manhã de domingo, em nome dos meus 19 leitores, agradecer a Priscila por todas estas coisas que ela faz por mim. Por todo esse gesto de ternura e de beleza que me dedica. Eu até pediria a ela que ela colocasse uma fotinho sua neste texto. Mas não sei se ela vai me atender. Acho que não, embora eu gostasse que sim. Talvez procure um rosto renascentista. Se for assim, esse rosto renascentista será o dela, de outra vida que viveu em outra época. Será ela. Como ela foi um dia, em algum lugar. E a gente já se conhecia. Deixarei que ela decida. Sem a Priscila este blog não existiria. Priscila é uma menina. Uma menina de um sorriso imenso. De uma alegria imensa. De um arco-iris imenso que traz no rosto.      

O AMOR, DE NOVO

sábado - 26/julho/2008

omulherrenas26.jpgSe não me enganho hoje é sábado, de manhã. Não sei ao certo. Eu quero pedir aos meus 19 leitores que leiam o comentário da Patrícia Cicarelli sobre O AMOR, que escrevi há alguns dias. Suas palavras fizeram o dia nascer em mim. Dei arroz aos mais de 100 pássaros que me visitam todos os dias e a seguir li as palavras da Patrícia. Ela sentiu meu texto. Cultivou as sílabas. E depois escreveu seu comentário. Estou emotivo demais nesta manha de sábado. Acho que hoje é sábado. Tenho receio de mim quando me sinto assim sensível a todas as coisas. Temo por mim. Temo por todas as coisas. (Que coisa incrível, as duas  vezes que escrevi “temo” saiu “tremo”. Corrigi, mas é a mesma coisa). Temo pelo que não existe, pelo rosto que se tornou invisível.  Nesta noite fui a uma festa. Casamento da filha de um amigo meu de muitos anos. Quando ela nasceu eu e ele fazíamos testes em carros que eram lançados no mercado brasileiro, para escrever em revistas especializadas. Era uma caminhonete. Um carro avançadíssimo para o mercado na época. Fizemos o roteiro de viagem até Gramado e Canela, no Rio Grande do Sul, para “sentir” o carro. E depois escrever sobre seu desempenho. A Camila tinha nascido havia alguns meses. Foi junto. Pequenininha. Minha filha Daysi de Fátima, também pequenininha foi também. Em Gramado, me lembro, ficamos num hotel chamado “Cavalinho Branco”. Fazia muito frio e muita chuva. Não me lembro bem, mas ficamos uns 40 dias testando o carro para a fábrica. Pois a Camila casou. Eu fui à festa. Sentei-me num canto e fiquei observando. Fiquei feliz por meu amigo, pela minha amiga mãe da Camila, pela Camila, por tanta gente que encontrei lá. Temo por minha emotividade. Temo quando a sensibilidade está assim à flor da pele, como se gritando. Abracei Camila. Ela é pequenininha até hoje. Lembro das fotos entre as hortênsias. Hortência (com S ou C) é nome de uma flor e também nome de mulher. Tive uma tia em Portugal que se chamava Hortência. Esteve uma vez em São Paulo e ficou encantada com o Museu de Arte Sacra. Não sei porque me lembrei dela agora. Fiquei na festa até quase o fim da madrugada, exatamente eu que não sei ficar numa festa. Deu-me tanta saudade de tanta coisa. Tanta saudade. Tanta saudade de coisas que nem sei ao certo. Tanta saudade. Lembrei-me de Manuel Bandeira que, ao saber que estava tuberculoso, com 22 anos de idade, escreveu, achando que ia morrer: “Tudo que poderia ter sido e que não foi”. Depois o poeta foi tratar-se numa cidade no Sul de Minas Gerais chamada Campanha, uma antes de Lambari, onde costumo ir e onde me sinto um pouco feliz. A cidade de Lambari faz parte de minha vida.  Henriqueta Lisboa nasceu lá. Fiz amizade com algumas pessoas de sua família que ainda vivem lá, especialmente uma professora chamada Lúcia. Mas não era nada disto que eu queria falar. Vou escrevendo sem saber ao certo o quê. Os meus 19 leitores devem me desculpar. Temo por mim quando sinto que a poesia é a respiração. Temo por mim quando a emotividade passa da conta. A alma chora.    

MÁRIO QUINTANA

sexta-feira - 25/julho/2008

hpoeta25.jpgPouquíssimas palavras. O que tem de ser dito a poesia diz. E a poesia está aqui, na voz de minha querida atriz Patrícia Rizzo. Ela fala os poemas do poeta Mário Quintana. A poesia fala mais. A poesia diz. A poesia mostra. Faz o retrato.

Mário Quintana, o que dizer de Mário Quintana ? Nasceu no dia 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, na fonteira oeste do Rio Grande do Sul. Estaria completando 102 anos. Mudou-se para Porto Alegre em 1919.

Mário Quintana é um caso a parte na poesia brasileira. Um caso a parte que começou em 1940, quando publicou seu primeiro livro “A rua dos cata-ventos”. Um poeta da simplicidade, mas essa simplicidade que só os grandes escritores sabem alcançar no despojamento de sua linguagem.

Construía seus poemas como quem escreve uma carta, num estilo que sempre se marcou pela ironia e especialmente a perfeição na estrutura do poema. Mas não foi só poeta: é preciso ressaltar seu trabalho de tradutor, quase sempre esquecido.

Mário Quintana traduziu mais de 130 obras da literatura universal, autores como Virgínia Woolf, Marcel Proust e Giovanni Papini.

O poeta praticamente nunca teve uma casa. Viveu quase a vida inteira em hotéis. O último, por muitos anos, o Hotel Majestic, no centro velho de Porto Alegre, que foi tombado e transformado em Centro Cultural, batizado como Casa de Cultura Mario Quintana.

Por três vezes Mário Quintana tentou se eleger membro da Academia Brasileira de marioquintana1.jpgLetras. Nunca conseguiu o número de votos necessários. Mas poderia haver uma quarta tentativa, quando seu nome era unanimidade. No entanto, Mário Quintana recusou e nunca escondeu seu ressentimento. E ao recusar candidatar-se pela quarta vez, quando de fato seria eleito, escreveu seu famoso “Poeminha do Contra”, que é assim:

   Todos esses que aí estão
   atravacando meu caminho
   eles passarão…
   Eu passarinho.

Um grande poeta brasileiro de muitos livros e muitos belos poemas. Sempre disse que sua vida está em seus poemas: “Meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”, dizia ele. Afirmava que idade só existem duas: a do nascimento e a da morte. Não se conformava que as pessoas consideradas tristes ou introspectivas tivessem que fazer tratamento médico.

O poeta é considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira do século 20, com livros memoráveis, a expressão é essa mesma, memoráveis. Um poeta que cultivou a palavra e como homem viveu uma vida que poucas vezes ultrapassou os limites de Porto Alegre, onde morreu aos 88 anos, no dia 5 de maio de 1994.

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