DA PERVERSIDADE
domingo - 31/agosto/2008O plantão está acabando. A pequena Helena, de olhos azuis, chega-se a mim, o que faz todos os dias, para me informar sobre os acontecimentos que ela descobre. O plantão está acabando. Estou cansado e quero sair para encontrar meu destino em algum lugar. Minha sombra que fugiu de meus pés. Andar um pouco na rua, torcendo para chover. A pequena Helena me diz: “Poeta, tem uma notícia aqui ruim para você”. Pergunto: “Ruim para mim, por que ?”. A pequena Helena responde: “Eu conheço você, eu sei como você é”. A notícia é a seguinte: A Polícia levou 32 pessoas para a Delegacia do Embu porque promoviam rinhas de passarinhos. Foram apreendidos 138 canários da Terra, 79 gaiolas e 14 maletas para o transporte dos passarinhos. Os donos dos canários apostavam nas rinhas. O dono do pássaro vencedor ganhava de 20 a 30 reais. Os passarinhos lutam até um matar o outro. O dono do pássaro que sobrive então recebe o dinheiro da aposta. A pequena Helena me diz isso falando baixinho. Os olhos azuis estão em silêncio. Eu olho para ela e digo: “Está bem”. Fico quieto comigo e penso na crueldade do ser humano. A crueldade do ser humano consigo mesmo, com os velhos, com as crianças, com os mendigos, com os que dormem nas ruas, com as plantas, com os bichos, com tudo. O ser humano e sua perversidade. O ser humano e sua desumanidade. Humanidade ? Eu quero ser bicho. Quero ser um caracol. Quero poder ainda observar a possibilidade de um arco-iris. Só não quero ouvir notícia assim. Das crianças perdidas para sempre, sem destino. Das mulheres tristes. Dos homens calados. A pequena Helena me olha. Eu escrevo este texto para meus 19 leitores e saio. A noite está mais escura. Faz muito frio.











O poeta Alexei Bueno me liga do Rio e me dá a informação. O poeta Alphonsus de Guimaraens Filho faleceu. O Glauco Matoso me passa um e-mail também informando da morte do poeta. Eu pergunto: Onde está esse jornalismo cultural vagabundo deste país que sequer deu a notícia ? A gente mede um país por coisas assim. Morre um poeta do porte de Alphonsus e o jornalismo cultural medíocre sequer dá uma notícia. O jornal O Globo, do Rio de Janeiro, deu hoje uma nota absolutamente ridícula e vergonhosa, constrangedora em todos os sentidos. As coisas são assim. Amigo de Alphonsus, Alexei se diz indignado. Uma das últimas publicações de Alphonsus de Guimaraens Filho é de 2003, quando ele reuniu sua obra poética no livro “Só a noite é que amanhece”. Alexei escreveu, então, que essa obra propicia ao leitor um verdadeiro reencontro com a história da poesia brasileira no século 20, através de mais de 20 livros e de seis décadas de atividade de um de seus principais protagonistas. Alexei Bueno acentuou: De “Lume de estrelas” (1940) até “O Tecelão do assombro” (2000), “delineia-se uma das trajetórias mais longas e coerentes do lirismo brasileiro”. Não dá para entender como sequer se noticia a morte de um poeta como Alphonsus de Guimaraens Filho. Se fôssemos um país civilizado, o jornalismo cultural seguiria o mesmo caminho e, claro, o poeta morto seria lembrado por sua obra e sua vida em favor da literatura brasileira, da poesia, especialmente. Mas não. Só a mediocridade desse jornalismo cultural, dessa crítica ridícula, pode ignorar a morte de um poeta desse porte, em favor de nomes insignificantes que habitam os suplementos culturais, especialmente do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nomes que não resistem a qualquer crítica razoável. Mas estão sempre aí, com uma “obra” absolutamente inócua, vazia e de uma inconsistência espantosa. Isso ocorre na prosa e na poesia, excetuando-se alguns nomes que não preciso citar. Mas a maior parte é de uma desimportância que dói, especialmente aqueles que, não faz muito tempo, apresentaram-se como “trangressores”. Dá vontade de dar gargalhadas. Mas, na verdade, esse é o cenário triste de um país que trilha sempre pelos rumos incertos em quase tudo. O jornalismo não poderia ser diferente. É ausente. É distante. É inconsequente. O poeta Alphonsus de Guimaraens Filho morreu no Rio de Janeiro. Com raras exceções, os críticos literários, os analistas da literatura, os que fazem jornalismo cultural, não morreram agora. Eles estão mortos há muito tempo. E ainda não sabem.
É muita incompetência. Vejam os meus 19 leitores como funciona a Prefeitura de São Paulo em relação ao meio ambiente. Pego matéria da Folha de S.Paulo assinada pelo repórter José Ernesto Credendio, que é a seguinte: A construtora responsável pelo Golf Village, um megaempreendimento imobiliário na zona sul de São Paulo, foi multada em 500 mil reais pela Prefeitura por ter provocado a morte de 50 árvores e cortado outras 206 no terreno, uma das maiores áreas ainda desocupadas ao longo da marginal Pinheiros. A Secretaria do Verde e Meio Ambiente afirma que a construtora Bueno Netto não tinha autorização para fazer o corte dessas árvores. Um dos apelos dos empreendedores para vender os apartamentos é justamente a preservação do ambiente, de acordo com o material de divulgação. A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente diz que além da multa de 500 mil reais, a empresa terá de reparar os danos causados. A empresa já recorreu. Então é assim, resumindo: A Prefeitura Municipal de São Paulo multou a construtora em 500 mil reais por ter causado a morte de 50 árvores e cortado outras 206. Essa mesma Prefeitura multou, há alguns dias, um colégio de Moema em 260 mil por ter PLANTADO 13 árvores e colocado uma plaquinha de identificação. Dá para compreender um absurdo desses ? Isso chama-se desmando, desleixo ou o que mais se encaixar nisso. É uma falta de lucidez espantosa. Uma empresa leva 50 árvores à morte e mata outras 206 e é multada em 500 mil reais. Um colégio PLANTA 13 árvores e é multada em 260 mil reais. É incompetência demais. Esta cidade não merece esse descaso, esse desmando, essa falta de critério, de equilíbrio, de sensibilidade administrativa para lidar com um assunto assim. Incompetência é incompetência. É só incompetência. E nisso os tecnocratas são ótimos. São excelentes. Tecnocrata que se preze tem de ser assim mesmo, senão não é tecnocrata. Já a cidade é apenas um detalhe nas mãos dessa gente.
Dá pena ver algumas regiões de cidade pelo abandono absoluto. Dá pena ver a degradação, a deterioração de tudo. Dá pena da cidade tantas vezes entregue à própria sorte. Para exemplificar, a prefeitura paulistana tem coragem de multar quem planta árvore na cidade. É isso. E tem gente que ainda tenta explicar essa conduta. As leis têm de se emoldurar à realidade das coisas. A lei não pode ser opressiva, embora seja. A lei tem de procurar o bem-estar das pessoas. Mas no Brasil a impressão que se tem é que as leis estão sempre contra o cidadão. Em São Paulo é assim. Até plantar árvore dá multa. E multa pesada. Sem dizer a indústria das multas do trânsito caótico, cada vez pior. A tal indústria de que se fala há décadas. Muda o que ? Nada. Orientar o trânsito ? Para que ? A ordem é faturar em cima do caos e do desmando. Mas eu dizia que dá pena ver esta cidade maltratada, esquecida, destruída em si mesma, sem identidade. Claro que nem tudo é assim. Mas há áreas da cidade que parecem um local de guerra. Cito, por exemplo, o corredor da Avenida Santo Amaro. A partir do túnel da São Grabiel, é uma angústia. Os prédios todos pichados por vândalos que não respeitam nada. Pichações grotescas, sujas, insuportáveis. Como é que existe gente assim, gangues que competem entre si, para ver quem picha mais alto ? E nisso vale tudo, paredes, muros, fachadas de prédios, monumentos. Uma parte da Avenida Santo Amaro que parece ainda civilizada é que vai do cruzamento da Avenida Roberto Marinho em diante. Pois o trecho que vai até o início da avenida Morumbi está todo sujo de inscrições ridículas, de uma gente que não sabe o significado da palavra cidadão, gente que não respeita a cidade, que nunca vai respeitar a cidade. E ao lado das inscrições grotescas em várias fachadas, um aviso dos vândalos: “Estamos de volta”. A cidade é esta. Tem-se que aprender a conviver com ela, dentro dela, diante dela. Os vândalos sempre vencem. Se forem presos, nada lhes acontece. Voltam às ruas e voltam a destruir a cidade entregue à própria sorte. Veja-se, por exemplo, a nova calçada da avenida Paulista, obra que a Prefeitura acabou de realizar. Está dando nojo e desculpem-me os meus 19 leitores pela expressão. A nova calçada está cheia de chicletes. Parece uma coisa prosaica, mas não é. Não é. Nada tem de prosaico nisso. Eu penso comigo: ninguém tira delicadamente um chiclete da boca com os dedos e joga na calçada. Não deve ser assim, suponho. A pessoa que joga o cliclete na calçada faz cuspindo. Não é uma beleza ? Resultado: a nova calçada é um nojo, especialmente nas partes mais claras. Um nojo. Um nojo que está aumentando. Vai chegar o dia em que a nova calçada será apenas uma mancha de sujeira provocada pelos chicletes nela cuspidos. A cidade é assim. É a cidade do desamor. É a cidade indefesa que não tem como lutar contra vândalos que fazem o que bem entendem. E tudo fica por isso mesmo.
Todos os dias vejo-os numa das ruas do Brooklin Velho, que muitos chamam de Vila Cordeiro. São três mendigos que vivem numa esquina. Estão sempre lá, misturados a cobertores, pedaços de papelão, maltrapilhos. É um local um pouco ermo, distante do grande movimento do bairro. Com eles, vejo sempre perto de dez ou quinze pombos. Estão sempre juntos. Descobri que os mendigos se alimentam de comida que sobra de alguns restaurantes daquela área. Ganham essa alimentação todos os dias. Ontem, quando passei por eles, vi que os três mendigos alimentavam os pombos, dando-lhe pedaços de pão e outros tipos de alimentos, pedaços de legumes, arroz, verdura. Então percebi porque os pombos estão sempre ali. Os mendigos dividem o pouco que comem com os pombos. E enquanto se alimentam com a sobra dos restaurantes, os pombos ficam perto, aguardando um pouco dessa sobra. É comovente. Dez, quinze pombos. Três mendigos. Uma esquina no Brooklin, debaixo de uma árvore. Sol, chuva. Estão sempre ali. Fazem parte dessa paisagem perdida numa cidade bruta. Violenta. Uma cidade com figuras assim. Essa é a paisagem. Que quase ninguém vê.
O presidente da República costuma, infelizmente, usar palavras das mais chulas nos seus discursos inflamados. Certamente eu sou um puritano. Acho que não ficam bem certas palavra na boca de um presidente. Desta vez, o senhor presidente usou duas vezes a palavra “babacas” para se referir aos seus adversários.
É difícil achar livros de poesia nas livrarias. Na Saraiva do Shopping Morumbi eu sei onde estão. Um espaçozinho lá escondido com alguns livros e ponto final. Ontem estive na Fnac, aqui na Paulista. Fui em busca do espaço reservado à poesia. Decidi que não pediria ajuda para ninguém. E fiquei na Fnac 40 minutos. Vi de tudo, menos a estante dos livros de poesia. 40 minutos caminhando dentro da Fnac, para lá, para cá, para lá, para cá. Nada. Vi tudo quanto é tipo de livro. Tudo quanto é gênero. Poesia, nada. Onde estará o espaço dos livros de poesia ? Decidido a não pedir ajuda aos funcionários da Fnac, fiquei lá dentro 40 minutos. E não encontrei. Deve ser um espaçozinho pequeninininininininho, bem pequenininininho. E além de bem pequeninininininininho, deve estar escondido num canto qualquer. Isso mostra bem como as próprias livrarias traram os livros de poesia. Poesia não existe. Digo isso aos meus 19 leitores com muita tristeza. Não existe, simplesmente não existem. Os livros de poemas são simplesmente escondidos nas próprias livrarias, como se fossem proibidos. Ou como se fossem lixo literário, arte menor, qualquer coisa assim. Quando uma livraria como a Fnac apresenta essa dificuldade, a gente sente bem o que representa a poesia num país sem rumo como é este. É um país em que uma escola que planta árvores, por exemplo, é multada pela prefeitura municipal. Pelo menos na cidade de São Paulo é assim. O tecnocrata entende bem da realidade das coisas. É um país que destrói tudo. Arrebenta tudo. Violenta tudo. Os livros de poesia nas livrarias são peças jogadas em qualquer lugar. De vez em quando, as livrarias fazem o favor de aceitar alguns volumes sem exposição nenhuma. Saí da Fnac da Paulista derrotado. Com a sensação de que a poesia é mesmo desnecessária em tudo. Poesia não serve para nada. É coisa descartável. Não existe. Só isso. Como produto literário, é livro de quinta classe. E os poetas são aqueles seres que insistem em escrever para ninguém. As pessoas são muito práticas. Poesia é coisa de gente que não pertence a este mundo.