Era uma vez um reinado. Um reinado nos trópicos. O rei vivia sempre no que o povo acostumou-se a chamar de “a ilha da fantasia”. O rei viajava muito e sempre fazia discursos. O rei sempre tinha uma novidade para comunicar aos seus súditos. E o fazia de forma magistral. O rei tinha muitos conselheiros. Quase todos de má índole. Esses conselheiros mudaram a vida, depois que o trono do reinado passou às suas mãos. Mas, na verdade, quase nada mudou, embora o povo tivesse esperança de que, conforme as promessas feitas, as coisas iriam mudar. Não haveria mais corrupção nem troca de favores, que o rei - quando não era rei - considerava ser crime hediondo. Mas como rei, sua opinião mudou da noite para o dia. A decepção com a história que começou a crescer em muitos súditos perplexos. Os súditos perplexos perceberam que tudo era mesmo igual. Tudo que se atacava antes com veemência e paixão passou a ser uma prática comum, de maneira até mesmo mais contundente e acintosa. Entre os súditos perplexos havia um poeta - e esta historinha lembra dele apenas por delicadeza - que tinha 19 leitores. Era um súdito que passou parte de sua vida se dedicando a uma causa em que acreditou. Esse súdito percebeu, de repente, que parte de sua vida, na verdade, se perdeu. Irreversivelmente. Foi uma parte dele arrancada até mesmo com a violência dos que se dizem uma coisa, mas eram outra. Sentindo-se traído, esse poeta desistiu. Passou e gritar por dentro uma angústia que não tinha limite nem tamanho. A começar pela figura do rei e suas novidades diárias, em suas viagens espetaculares, no comportamento que ele próprio tantas vezes combateu. E combateu até mesmo, por exemplo, num balcão de bar, quando o poeta de 19 leitores ainda acreditava. O poeta de 19 leitores chegou à conclusão de que, de fato, não valia a pena sofrer tanto por um reinado que nada tinha de diferente dos reinados anteriores, onde valia tudo, compra votos, compra gente, favorecimento ilegalmente, como se tudo, no centro do reinado, não passasse de um negócio, mais nada. (Neste trecho da história, passemos a usar o verbo no presente): Agora haverá eleições no reino tropical. O reinado é dividido em vários outros pequenos reinos constituídos de aldeias - digamos assim. O poeta desiludido vive numa dessas aldeias, a mais rica do reinado. O poeta que escreve sempre para 19 leitores, incluindo ainda poesia, tem acompanhado a propaganda política dos candidatos nessa aldeia mais rica do reino. Ele vê os programas e fica, depois, por longo tempo pensando em matar-se. Mas ele não pode matar-se, porque, por exemplo, 100 passarinhos dependem dele para viver, já que ele os alimentas com arroz todos os dias. Então ele procura permanecer vivo, mesmo sabendo que não dá mais para remar contra a maré. Os candidatos nessa rica aldeia do reinado são incríveis, no dizer do poeta desiludido que, quando não aguenta mais, foge para Portugal a fim de respirar um pouco. A candidata do rei peca por uma arrogância que machuca os que ainda conseguem pensar. Cansado de tanta hipocrisia, dela o poeta lembra apenas um episódio marcante e inesquecível, que ele escolheu para fazer o seu retrato sempre que for preciso. Numa noite e
m que um temporal inundou várias regiões da aldeia mais rica do reinado, principalmente as áreas dos súditos mais pobres, que não tinham nada e perderam o nada que tinham, a candidata comemorava seu aniversário metida num vestido cor-de-rosa, bebendo champanhe num cálice delicado num dos locais mais ricos da aldeia. Sendo do povo, como dizia, ela sabia o que estava ocorrendo na aldeia, mas a champanhe estava deliciosa. Então o povo que se vire. Há um outro candidato, com cara insignificante, que só entra nessas disputas para desagregar e criar todo tipo de problemas. Com fala mansa, ele procura nem sabe o quê, diante do que ele mesmo cria em sua volta. Há também um candidato que quer continuar administrando a aldeia. Desse pouco se sabe. Dele, o poeta de 19 leitores também guardou no seu arquivo sentimental uma cena que não esquecerá, quando, aos gritos e xingamentos, expulsou de um hospital um pobre homem sem emprego, que reclamava do mau atendimento e teve de retirar-se aos empurrões chamado de vagabundo. Esse candidato mostra uma humildade franciscana, mas não se sabe ao certo se essa humildade é mesmo verdadeira. Os especialistas no assunto da aldeia dizem que o jogo político é de violência brutal. Então cada um utiliza a arma que tem. Ou a alma que tem. Outro dos candidatos é velho conhecido da aldeia, acusado de todos os crimes que podem ser praticados numa administração. Há também uma candidata moderninha, que anda de tênis, vai aos seus compromissos eleitorais de bicicleta. Entrou na disputa com olhos no futuro. Com o nome em voga, quem sabe um cargo eletivo com mais destaque mais tarde. Moderninha, ela abandonou o partido do rei, no que ele fez muito bem. Isso ela fez muito bem, mesmo tendo tomado essa atitude por esperteza e não por convicção ideológicia. Passou para outro partido a fim de conseguir ser candidata. Moderninha, moderninha. Nesse reinado tropical há uma grande escritora chamada Lygia Fagundes Telles que diria “modernosa”. Mas o poeta diz “moderninha” mesmo, assim no diminutivo, para ficar melhor. A moderninha, que era uma cara nova, caiu na vala comum dos debochados. E como dói escrever isto. Tudo é uma jogada, já que o reinado inteiro é o reinado dos espertos. Há muitos outros candidatos que nem vale a pena citar. Nesse reino tropical vale tudo. Por exemplo: numa outra aldeia do grande reinado, chamada Rio de Janeiro, existem 100 candidatos homicidas. Cem candidatos que já mataram gente. O grande reinado tropical aceita tudo, já que a Justiça Eleitoral diz que nada pode fazer por causa das leis que imperam no reino. O que, aliás, ocorre no Judiciário inteiro. Esta não é uma história fácil de contar. O poeta de 19 leitores não sabe que eu estou escrevendo isto, usando o seu blog. Também não sabe que, indevidamente, estou usando seu nome para ilustrar esta história no reino do faz-de-conta. Um reino em que os bandidos se transforam em heróis e os heróis não têm lugar na história. Aliás, o reinado tem duas histórias: a oficial e a verdadeira. Um reinado onde tudo parece ser brincadeira. Um reinado feito de palavras e de mentiras. Dizem que o reinado tropical passa por um momento excelente. O reinado está blindado de todas as tormentas internacionais. É uma maravilha. Acho que vou dormir. Tenho medo de tomar veneno.