Arquivos para setembro, 2008

CARTA - RESPOSTA

terça-feira - 30/setembro/2008

Comunico aos meus 19 leitores que respondi à pessoa que me enviou uma carta com críticas em relação ao texto “Eleições no reinado tropical”.

Minha resposta é a seguinte:

Caro senhor Álvaro Alves de Faria: li sua cartão com atenção. A mesma atenção que o senhor dedicou ao meu texto apresentado neste blog. O senhor tem razão quando sugere que eu releia os textos que escrevo, colocando em dúvida minha relação com a Língua Portuguesa. Eu sou mesmo meio analfabeto. Quanto a ir embora do Brasil, a decisão compete apenas a mim. Não a divido com o senhor. Não sei exatamente quem o senhor é. Não o conheço e também não quero conhecê-lo. Peço, na verdade, que me esqueça. Não perca seu tempo lendo as coisas que escrevo aqui. Quanto a tomar veneno, julgo não ser necessário. O país me mata aos poucos, todos os dias. O senhor percebeu que utilizei a expressão “caro senhor” para dirigir-me ao senhor. Mas não foi por educação. Apenas repeti o tratamento que me deu. Vou repetir: peço que me esqueça e não perca seu tempo comigo. Na verdade, sou apenas um poeta que, no Brasil, não passa de um ser insignificante. Eu sou insignificante. Pretendo mesmo deixar o país pois, a bem da verdade, me considero sim - como o senhor deixa claro - um mau brasileiro. Um péssimo brasileiro. Espero não merecer qualquer outra palavra do senhor. Não o conheço nem quero conhecê-lo, repito. Concordo com o senhor: se eu for embora, já vou tarde. Já vou tarde mesmo. Mas não me curvo a essa falta de caráter quase generalizada deste país. Não me curvo a essa conversa de todos os dias. Aos discursos de todos os dias. Às mentiras de todos os dias. Passe muito bem.

                                 Assinado: Poeta

   

CARTA

segunda-feira - 29/setembro/2008

Recebi uma carta me criticando por causa do texto “Eleições no Reinado Tropical”. Uma carta que mostro aos meus 19 leitores. É a seguinte:

“Caro poeta: Li, com atenção, sua crônica sobre as eleições que se aproximam em nosso país. Confesso que mais uma vez me senti indignado com sua posição sempre contra o Brasil e nossas autoridades. Primeiro, aconselho-o a reler seus textos escritos no seu Blog, para corrigi-los. Acredito que alguns erros são consequência da falta de uma revisão quando concluí-los. Ou então o senhor não conhece mesmo a Língua Portuguesa. Fora isso, sugiro que o senhor vá embora do Brasil. Ame-o ou deixe-o. Estou cansado de ler suas críticas que considero absurdas a um país que cresce cada vez mais. Estou cansado de vê-lo criticar as autoridades brasileiras de forma irônica e até mesmo cínica. O senhor é um cínico. Vá embora do Brasil e nos deixe em paz. O senhor termina o texto sobre as eleições dizendo ter medo de tomar veneno. Pois eu acho que o senhor devia mesmo tomar veneno. Ou então desapareça e deixe o Brasil em paz. É o melhor que o senhor tem a fazer. Os incomodados que se mudem. Espero que o senhor decida por ir-se embora do país. E que tenha uma boa viagem. Utilizei a expressão “caro poeta” no início desta missiva por educação. Mas o senhor não me merece respeito. Vá embora do Brasil. Deixe-nos em paz. Espero que o senhor desapareça. Já vai tarde.

                                    Assinado: ÁLVARO ALVES DE FARIA

ELEIÇÕES NO REINADO TROPICAL

sábado - 27/setembro/2008

sacos280908.jpgEra uma vez um reinado. Um reinado nos trópicos. O rei vivia sempre no que o povo acostumou-se a chamar de “a ilha da fantasia”. O rei viajava muito e sempre fazia discursos. O rei sempre tinha uma novidade para comunicar aos seus súditos. E o fazia de forma magistral. O rei tinha muitos conselheiros. Quase todos de má índole. Esses conselheiros mudaram a vida, depois que o trono do reinado passou às suas mãos. Mas, na verdade, quase nada mudou, embora o povo tivesse esperança de que, conforme as promessas feitas, as coisas iriam mudar. Não haveria mais corrupção nem troca de favores, que o rei - quando não era rei - considerava ser crime hediondo. Mas como rei, sua opinião mudou da noite para o dia. A decepção com a história que começou a crescer em muitos súditos perplexos. Os súditos perplexos perceberam que tudo era mesmo igual. Tudo que se atacava antes com veemência e paixão passou a ser uma prática comum, de maneira até mesmo mais contundente e acintosa. Entre os súditos perplexos havia um poeta - e esta historinha lembra dele apenas por delicadeza - que tinha 19 leitores. Era um súdito que passou parte de sua vida se dedicando a uma causa em que acreditou. Esse súdito percebeu, de repente, que parte de sua vida, na verdade, se perdeu. Irreversivelmente. Foi uma parte dele arrancada até mesmo com a violência dos que se dizem uma coisa, mas eram outra. Sentindo-se traído, esse poeta desistiu. Passou e gritar por dentro uma angústia que não tinha limite nem tamanho. A começar pela figura do rei e suas novidades diárias, em suas viagens espetaculares, no comportamento que ele próprio tantas vezes combateu. E combateu até mesmo, por exemplo, num balcão de bar, quando o poeta de 19 leitores ainda acreditava. O poeta de 19 leitores chegou à conclusão de que, de fato, não valia a pena sofrer tanto por um reinado que nada tinha de diferente dos reinados anteriores, onde valia tudo, compra votos, compra gente, favorecimento ilegalmente, como se tudo, no centro do reinado, não passasse de um negócio, mais nada. (Neste trecho da história, passemos a usar o verbo no presente):  Agora haverá eleições no reino tropical. O reinado é dividido em vários outros pequenos reinos constituídos de aldeias - digamos assim. O poeta desiludido vive numa dessas aldeias, a mais rica do reinado. O poeta que escreve sempre para 19 leitores, incluindo ainda poesia, tem acompanhado a propaganda política dos candidatos nessa aldeia mais rica do reino. Ele vê os programas e fica, depois, por longo tempo pensando em matar-se. Mas ele não pode matar-se, porque, por exemplo, 100 passarinhos dependem dele para viver, já que ele os alimentas com arroz todos os dias. Então ele procura permanecer vivo, mesmo sabendo que não dá mais para remar contra a maré. Os candidatos nessa rica aldeia do reinado são incríveis, no dizer do poeta desiludido que, quando não aguenta mais, foge para Portugal a fim de respirar um pouco. A candidata do rei peca por uma arrogância que machuca os que ainda conseguem pensar. Cansado de tanta hipocrisia, dela o poeta lembra apenas um episódio marcante e inesquecível, que ele escolheu para fazer o seu retrato sempre que for preciso. Numa noite emaonorosto.jpgm que um temporal inundou várias regiões da aldeia mais rica do reinado, principalmente as áreas dos súditos mais pobres, que não tinham nada e perderam o nada que tinham, a candidata comemorava seu aniversário metida num vestido cor-de-rosa, bebendo champanhe num cálice delicado num dos locais mais ricos da aldeia. Sendo do povo, como dizia,  ela sabia o que estava ocorrendo na aldeia, mas a champanhe estava deliciosa. Então o povo que se vire. Há um outro candidato, com cara insignificante, que só entra nessas disputas para desagregar e criar todo tipo de problemas. Com fala mansa, ele procura nem sabe o quê, diante do que ele mesmo cria em sua volta. Há também um candidato que quer continuar administrando a aldeia. Desse pouco se sabe. Dele, o poeta de 19 leitores também guardou no seu arquivo sentimental uma cena que não esquecerá, quando, aos gritos e xingamentos, expulsou de um hospital um pobre homem sem emprego, que reclamava do mau atendimento e teve de retirar-se aos empurrões chamado de vagabundo. Esse candidato mostra uma humildade franciscana, mas não se sabe ao certo se essa humildade é mesmo verdadeira. Os especialistas no assunto da aldeia dizem que o jogo político é de violência brutal. Então cada um utiliza a arma que tem. Ou a alma que tem. Outro dos candidatos é velho conhecido da aldeia, acusado de todos os crimes que podem ser praticados numa administração. Há também uma candidata moderninha, que anda de tênis, vai aos seus compromissos eleitorais de bicicleta. Entrou na disputa com olhos no futuro. Com o nome em voga, quem sabe um cargo eletivo com mais destaque mais tarde. Moderninha, ela abandonou o partido do rei, no que ele fez muito bem. Isso ela fez muito bem, mesmo tendo tomado essa atitude por esperteza e não por convicção ideológicia. Passou para outro partido a fim de conseguir ser candidata. Moderninha, moderninha. Nesse reinado tropical há uma grande escritora chamada Lygia Fagundes Telles que diria “modernosa”. Mas o poeta diz “moderninha” mesmo, assim no diminutivo, para ficar melhor. A moderninha, que era uma cara nova, caiu na vala comum dos debochados. E como dói escrever isto. Tudo é uma jogada, já que o reinado inteiro é o reinado dos espertos. Há muitos outros candidatos que nem vale a pena citar. Nesse reino tropical vale tudo. Por exemplo: numa outra aldeia do grande reinado, chamada Rio de Janeiro, existem 100 candidatos homicidas. Cem candidatos que já mataram gente. O grande reinado tropical aceita tudo, já que a Justiça Eleitoral diz que nada pode fazer por causa das leis que imperam no reino. O que, aliás, ocorre no Judiciário inteiro. Esta não é uma história fácil de contar. O poeta de 19 leitores não sabe que eu estou escrevendo isto, usando o seu blog. Também não sabe que, indevidamente, estou usando seu nome para ilustrar esta história no reino do faz-de-conta. Um reino em que os bandidos se transforam em heróis e os heróis não têm lugar na história. Aliás, o reinado tem duas histórias: a oficial e a verdadeira. Um reinado onde tudo parece ser brincadeira. Um reinado feito de palavras e de mentiras. Dizem que o reinado tropical passa por um momento excelente. O reinado está blindado de todas as tormentas internacionais. É uma maravilha. Acho que vou dormir. Tenho medo de tomar veneno.

VOLTA

quinta-feira - 25/setembro/2008

opalhaco.jpgSe tudo der certo, volto a gravar na Jovem Pan Online na terça-feira que vem. Estou ausente, mas observando as coisas. Tantas coisas inúteis. Os discursos são os mesmos. Iguaizinhos. A superpotência brasileira. As palavras são as mesmas. O que me impressiona é a inflamação do discurso. Gestos inflamados. Como me machuca a hipocrisia! Enquanto estive afastado li nove livros. O bastante para me deixar mais louco do que já era. Tive de me ausentar por causa da loucura. Me levaram embora enfiado numa camisa de força. Foram delicados, é verdade. Mas não precisava camisa de força. Era só dizer o que estava ocorrendo com o meu comportamento que eu iria para casa descansar um pouco. Aquela velhinha que eu assaltei na Paulista, enquanto eu ajudava ela a atravessar a avenida foi apenas  um acidente. Roubei o broche dela. E roubei também um lencinho de seda que ela tinha no bolso do casaco. Um lencinho amarelo. Uma graça. Me arrependi. Quero devolver tudo. Mas não sei onde encontrar a velhinha. Penso entregar-me à polícia, mas pode ser pior. Já fui aconselhado pelo meu psiquiatra a deixar tudo como está. Tá certo que eu também mordi o braço da Sheila, na recepção. Mas foi sem querer. Foi uma mordidinha de nada. A Alessandra Jarussi e a Carla não precisavam me bater daquele jeito. Se não fosse a Cris eu estaria morto. A fúria feminina é fulminante. O que quero dizer é que daria para eu continuar trabalhando em paz. E quando eu começasse a chorar na redação, que ninguém falasse nada. Que me deixassem lá chorando o quanto quisesse. Quando eu começasse a gritar também. De qualquer maneira, fui afastado. Eu sonho demais. Mas se tudo der certo eu volto a gravar meus quadros na JP Online na terça-feira que vem. O Nilton Travesso está em Berlin. Acho que ele regressa no domingo. Vou esperá-lo no aeroporto de Cumbica, se a Michele deixar. E vou dizer a ele que já estou pronto para a volta. Tenho até mesmo um assunto que tirei de um dos nove livros que li, porque me preocupou muito. Ando preocupado com o que esse livro me passou. Estou assustado. Não devia ter lido. Trata da vida do homem e da mulher. As diferenças. Os hormônios. Agora estou com isso na cabeça. Mas o Diretor de Jornalismo não precisa preparar a camisa de força de novo. Prometo que vou me comportar. Eu estou calmo. Zen. Continuo falando sozinho, é verdade. Mas isso em mim é normal. Não devia ter lido aquele livro. Acho que as coisas são mais simples. De qualquer maneira, na minha volta tratarei desse assunto. À minha maneira, é claro. Não sou cientista para discutir questões assim com a seriedade que me pedem as pessoas sãs. Voltarei com a minha loucura de sempre. A vida inteira foi assim, porque eu haveria de mudar agora ? Vamos ver no que vai dar. 

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

quinta-feira - 25/setembro/2008

mariadorosariopedreira.jpgA melhor poesia do Brasil, atualmente, é escrita por poetas mulheres. São as mulheres que sabem da poesia. O resto, com algumas pouquísssimas exceções, não existe. Só leviandades. Coisa descartável. Que nem chega a existir. Pois a essa poesia das poetas mulheres brasileiras vai somar-se a poesia de uma poeta de Portugal, Maria do Rosário Pedreira. Acabo de escrever o prefácio de seu livro “O Canto do  Vento nos Ciprestes”, a sair no Brasil brevemente, pela Editora Escrituras. Meus olhos brilham a ler este livro. Deixei-me levar por essa poesia de Maria do Rosário, para escrever o que me vinha da alma. Um prefácio sentimental ? Pode ser, mas sem excluir a análise do poema como texto literário. O que me encanta nas poetas mulheres é o toque feminino. Nem todas as mulheres conseguem deixar essa marca feminina em seus poemas. O que, a bem da verdade, não é nenhum desmérito. Mas a poesia com esse toque feminino me encanta. Caso de Maria do Rosário, que nasceu em Lisboa em 1959, tem vários livros publicados, incluindo romances, poesia, ensaios literários e crônicas. “O meu amor não cabe num poema - há coisas assim/ que não se rendem à geometria deste mundo”, escreve ela num poema. Continua: “O meu amor é maior que as palavras; daí inútil/ a agitação dos dedos na intimidade do texto”. Como ela afirma num poema, “é no momento que encerra a beleza de um gesto/ que se prolonga a vida”. Um dos poemas de seu livro diz assim: “Que é das palavras ? Como chamar/ por quem se esconde se, sem elas/ nem o silêncio tem nome ?”. Escrever esse prefácio me faz mais leve. Me faz até acreditar. “O Canto do Vento nos Ciprestes” diz que Deus tem as mãos grandes e que o amor não tem memória. É assim essa poesia que encanta, como a de tantas outras mulheres poetas do Brasil, que fazem a melhor poesia neste vale de lágrimas e enganos. Some-se a elas a poesia dessa mulher de Portugal, com a palavra poética de magia e encantamentos. É preciso encantar-se. Encantar-se sempre. É o que nos resta.   

O ESCRITOR NEGRO MACHADO DE ASSIS

quarta-feira - 24/setembro/2008

machado_de_assis1.jpgA universitária Alessandra Mirna, de São Paulo, escreveu à Jovem Pan depois de assistir a um vídeo que gravei na Jovem Pan Online, já há algum tempo. A mensagem de Alessandra é a seguinte: “Sou estudante do curso de Letras e hoje, pela primeira vez, ouvi alguém se referir a Machado de Assis como o maior escritor negro da história da literatura brasileira. Geralmente ouço referências a ele como mulato ou mestiço, mas como negro é a primeira vez. E isto me proporcionou uma grata e satisfeita alegria, não pela negritude até então negada a este escritor, mas pela justiça feita à história desse negro e de muitos outros que espero sejam contemplados com a mesma medida de justiça, ainda que tardiamente”. Alessandra Mirna tem mais do que razão. Infelizmente, este é o país do faz-de-conta, o país dos equívocos e sobretud0 da mentira. Não me canso de dizer isso. E vou continuar repetindo. O país da mentira em praticamente em todos segmentos, especialmente na Literatura. Vou sempre repetir o que penso escrevendo ou fazendo meu quadro na Jovem Pan Online. Não é à toa que fugi para Portugal em busca da poesia que me falta aqui. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Alessandra tem razão. É verdade: sempre que se fala ou se escrecre sobre Machado de Assis, referem-se a ele como mestiço ou mulato. Isso ocorre comumente na crítica literária brasileira vagabunda, com algumas exceções, nos livros de história da literatura, no ensino, em tudo. Sabem o que ocorre: é hipocrisia demais. O que reina ainda é muito preconceito, muita gente preconceituosa  que parece ter receio de dizer as coisas como as coisas de fato são. A hipocrisia é isso. E hipocrisia num país surrealista soa como impostura pura e simples. Machado de Assis era negro, sim. Um escritor brasileiro negro. Que mal há em se dizer isso ? O que essas figuras que escrevem nos livros de história querem afinal esconder, se é que cabe tal expressão ? Um escritor negro. Merecedor de todos os elogios por ser considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Negro. Negro. Vou repetir: um escritor brasileiro negro. É preciso parar com essa coisa ridícula e preconceituosa. Mesmo em vários livros que estão saindo agora, quando se comemora o centenário da morte do escritor, nenhum autor o chama de negro. Quando a ele se referem vêm as palavras chaves: “mulato” ou “mestiço”. Na verdade, muitos já estão se tocando. Mas preferem não dizer nada em relação ao negro Machado de Assis. Podem não usar nem mestiço nem mulato. Mas também não dizem negro. Não. Há muito tempo o crítico norte-americano Harold Bloom escreveu que Machado de Assis foi o maior escritor afro-descendente de todos os tempos, comparando o escritor negro brasileiro a Dante, Shakespeare e Cervantes. Quer dizer: um crítico do peso de um Harold Bloom diz o que este país evita dizer. O que é que, afinal, se esconde atrás disso ? Mulato, mestiço ? É absolutamente vergonhoso que este país ainda se esconda num preconceito que não se pode admitir. Machado de Assis deve ser respeitado. Era negro. E assim deve ser chamado em sua grandeza, tido coomo o dono da maior literatura que este país já produziu.   

PETRA

quarta-feira - 24/setembro/2008

fada.jpgQuero dizer aos meus 19 leitores que este “blog do poeta” tem recebido, em média, de 400 a 500 acessos por dia. Há dias em que as visitas passam de 500. Isso me deixa envaidecido. E espero que envaidecer-se não seja nenhuma coisa fútil, neste caso particular. Por isso eu agradeço a algumas pessoas que se manifestam sempre, como a Zuleika dos Reis, a Patrícia Cicarelli, o Rogério, a Cida Sepúlveda,  Petra e algumas outras, além de alguns desafetos que - vejam bem - chegam a escrever até mesmo para a direção da JP a fim de criticar-me, sugerindo meu afastamento. Eu conheço bem a empresa em que trabalho. E a empresa em que trabalho conhece bem seu funcionário. Mas essas criticas raivosas e insanas só ocorrem mais quando escrevo sobre política e sobre alguns políticos que não me merecem respeito nenhum, ou quando coloco no blog alguns dos vídeos que gravo para a Jovem Pan Online, dirigido por Nilton Travesso. Eu sou um cara dirigido por Nilton Travesso. Isso basta. Não entendo nada disto de blog. Só escrevo. Minha parceirinha é a Priscila, uma fada que surgiu no meu caminho, e que faz este blog existir. Ela cuida de tudo. Por isso peço aqui mesmo que ela coloque uma fada para ilustrar este texto. Mas escrevo este texto para chamar atenção ao que escreveu Petra, como comentário ao texto anterior, “Valorizar a vida”. Sinto-me comovido. Peço que meus 19 leitores leiam. Meus 19 leitores são pessoas especiais. Todas as pessoas são especiais. Todas têm um ramo de flores nas mãos. Até os que estão perdidos debaixo dos viadutos. Pena que nem todos conseguem ver.

VALORIZAR A VIDA

terça-feira - 23/setembro/2008

caravaggio_st_paul.jpgOuvi uma entrevista que o jogador Pierre, do Palmeiras, deu ao meu amigo Luiz Carlos Quartarollo, da Jovem Pan. Pierre está ainda vivendo momentos aflitos em sua vida. Primeiro, contundiu-se gravemente e teve de ficar afastado do futebol por longo tempo. A seguir, morreu-lhe o pequeno filho. O jogador disse que com tudo isso ele aprendeu a amar mais a vida, a valorizar todo o instante de alegria, por mínimo que seja. Aprendeu a não dar tanta importância a pequenas contrariedades. Afirmou que o importante é viver e ser feliz. Eu sei bem como é isso. Tomo a liberdade de dizer aos meus 19 leitores que minha vida mudou completamente por duas ocasiões. Uma quando, num assalto, levei um tiro no ouvido. Doze dias de coma. Tenho a bala calibre 38 na cabeça até hoje. Sei bem por onde andei quando minha vida estava presa a um fio muito frágil, que podia se quebrar para sempre num momento qualquer. Sei o que isso significou para mim. Ao nascer de novo, como me diziam os médicos do Hospital das Clínicas, comecei a ver o que nunca tinha visto antes. As cores, as ruas, as pessoas, a música, o silêncio. Comecei, sim, a valorizar coisas que antes eu nem percebia que existiam. A segunda mudança ocorreu no final do ano passado, quando passei por duas cirurgias dramáticas em apenas três dias. Ao deixar o hospital e enquanto me restabelecia, comecei a sentir novamente o mundo de uma outra maneira. Digo todas estas coisas - e nem sei se tenho esse direito - para explicar como é preciso, sim, valorizar a vida, todos os instantes da vida. Valorizar o gesto bom. Valorizar o aceno que quase ninguém vê. Valorizar todas as formas de amar as coisas, as pessoas, os animais, as plantas, os idosos, as crianças, os que não têm nada, os que estão à margem. Valorizar especialmente os momentos em que se é feliz, por pouco que seja. É preciso, sim, viver a intensidade da vida, a intensidade de tudo. É preciso, sim, alargar mais o sentimento de solidariedade. É preciso abrir os braços e acolher a possibilidade da vida, valorizando todas as pequenas coisas que passam esquecidas, que quase ninguém sente nem vê. Como disse acima, não sei se tenho o direito de lembrar coisas assim tão pessoais. Mas quem sabe estas palavras ajudem alguém em alguma circunstância desfavorável. É preciso descobrir as pequenas coisas. Descobri-las e amá-las muito. Descobrir o abraço a um amigo, uma carta de amor, uma declaração de carinho. É preciso tudo. Especialmente é preciso abrir o coração e a alma.

PALHAÇO

terça-feira - 23/setembro/2008

palhaco2309.jpg

 Sou exatamente esse palhaço, mas sem a dignidade necessária para ser o palhaço que sou.

CARA COMPLICADO

segunda-feira - 22/setembro/2008

opalhaco230908.jpgA jornalista Patrícia Cicarelli está escrevendo um livro sobre mim. Como se eu merecesse isso. Mas ela está escrevendo. Não é uma simples biografia. Não. Vai além. Não sei exatamente até onde vai, mas vai além. Vai além da minha literatura. Acho que vai além da minha vida. Nós nos encontramos sempre para conversar. Ela leva o gravador minúsculo dela e eu vou respondendo às suas perguntas. Um gravador menor que uma caixinha de cliclete. Nem sei ao certo onde ela coloca o gravador. A gente fica conversando e a coisa vai gravando. Fico meio assustado porque sou um homem muito antigo. Eu tenho a impressão, até, que não existo mais. Mas a Patrícia acredita que eu existo. Até me dá provas disso. Ocorre que exatamente nessas entrevistas descobri que sou um cara totalmente complicado. Sei que muita gente sabe disso, mas eu só desconfiava. Complicado demais. Estou sempre em crise. Sempre em crise. E a Patrícia vai suportando minhas crises existenciais, espirituais, sociais, radicais e outros ais que possam existir e que não convém lembrar. Um dia desses, a conversa caiu para o esoterismo. Falei que nem um monge desesperado. Geralmente os monges não dizem nada. Mas comigo é diferente: quando me transformo em monge, falo até cair desmaiado. Quando eu desmaiei de tanto falar, a Patrícia ligou para um médico amigo dela. Ele veio me ver, ali na Casa das Rosas, conversou alguma coisa comigo e eu me levantei. Só sei que falei, falei, falei. Falei de ocultismo, das escolas esotéricas que frequentei, citei Fernando Pessoa, falei, falei, falei. A Patrícia escrevia alguma coisa de vez em quando e o gravadorzinho dela gravando tudo. Depois a gente foi até um shopping, que ela precisava comprar um presente. Foi no shopping que eu entrei em crise. Uma crise esotérica. Fiquei vendo uma bailarina numa vitrina e a crise crescendo dentro de mim. Nos despedimos. Fui andando sozinho pela Paulista, sábado à noite, e a crise comendo solta por dentro. Crise esotérica. Vejam os meus 19 leitores. Crise esotérica. No domingo liguei para ela. “Patrícia, esquece tudo aquilo que lhe falei ontem à noite. Eu não podia falar tudo aquilo que falei. Aquilo não me é permitido dizer. Esquece tudo. Esquece. Esquece”. Do outro lado da linha ela disse: “Tá bem, esqueço, mas só me diga porquê”. Eu não sabia exatamente porquê. Essa parte das entrevistas está guardada. Não sei como será usada no livro que ela escreve sobre mim e sobre minha literatura. Sou mesmo um cara complicado. Nem sei como a Patrícia aguenta. Estando sempre em crise, não tenho muitas condições de falar com ela. E ela já me comunicou que o livro está atrasado, dentro de seu planejamento. Mas como é que vou falar de mim estando nesta crise permanente e ser louco e dar aos outros a impressão que sou normal ? Normal, não. Isso também não. Isso eu não quero. Tanto que sempre que vou ao médico tratar da minha depressão, eu peço para ele somente me equilibrar. Não quero sair pelas ruas mordendo as pessoas. Mas normal, não! Definitivamente, não!. “Doutor, o senhor dá uma equilibrada em mim e está tudo bem. Só uma equilibrada. O resto deixa que eu vou levando”. De forma que estou em dívida com a Patrícia Cicarelli. Na verdade, estou longe de tudo. De todas as coisas. Mas escrevo aqui, para pedir desculpara à Patrícia que está fazendo um trabalho do qual não sou merecedor e eu talvez não esteja colaborando como ela gostaria. Descobri que além de estar em crise permanente, sou mesmo um cara complicado. Por isso que, às vezes, passo um mês inteiro sem dizer uma única palavara. Até no trabalho só falo por mímica. Atendo telefonemas e não digo nada, até que a pessoa do outro lado da linha me xinga e desliga. Agora estou fazendo exercícios para também deixar de ouvir. Também vou deixar de pensar. E vou usar um óculos para não ver nada. Acho que será mais fácil viver.