Dói. Acho que não sirvo mais para esta profissão. Meu tempo passou. Não sirvo mais. Fui jornalista a vida inteira, acredito que não sou mais, por minha absoluta falta de condições de encarar alguns fatos que não consigo mais.
Eu me refiro ao caso do sequestro em Santo André. Assustam-me a brutalidade, a crueldade, a perversidade. Isso parece fazer parte das coisas. De todas as coisas. Mas eu acho que sou uma pessoa muita antiga. Eu não consigo mais conviver com isso.
Os sonhos da menina Eloá estão perdidos. Esse namoro começou, pelo que compreendo, aos 12 anos de idade. Aos 15, a menina decidiu dar outro rumo à sua vida. Mas seu ex-namorado não aceitou. Alguns homens, quase todos, pensam que a mulher é apenas um objeto para sua coleção de objetos. Alguns homens, a maioria, acreditam piamente que a mulher lhes pertence como se fosse uma mercadoria, um produto que pode se comprar numa loja.
Assim foi com a menina Eloá.
Vi uma entrevista de uma promotora de justiça especializada em crimes passionais. Já escreveu livros a respeito. Não me lembro o nome dela neste momento, manhã de chuva e de tristezas.
Ela disse que quando o ex-namorado invadiu o apartamento de Eloá foi para matá-la. Só isso. Mais nada. Só não o fez porque a menina dos sonhos perdidos estava estudando em companhia de amigos da escola. Diante disso, o ex-namorado, que pensava ser dono da menina, fez todos reféns, mas não recuou de sua intenção.
Primeiro libertou dois adolescentes e no outro dia uma amiga de Eloá que, surpreendentemente, retornou ao cativeiro depois. Uma coisa incompreensível. Mas não de pode fazer juízo precipitado das coisas. A amiga retornou com o consentimento da polícia numa tentativa de resolver a situação, conforme promessa do ex-namorado. Não cumpriu o que prometeu.
A promotora de justiça assegura que o ex-namorado iria matar Eloá mesmo, não tinha saída.
A menina dos sonhos perdidos está entre a vida e a morte. Quinze anos. Os sonhos talvez se foram para sempre.
Não duvidem se aparecerem agora algumas entidades, comissões e coisas assim, condenando a ação policial, especialmente quando pegou o ex-namorado que, como a maioria dos homens, pensava-se dono da menina Eloá.
Dirão que houve brutalidade. Por certo os policiais deveriam convidar o criminoso a acompanhá-los, oferecendo-lhe um buquê de flores.
Não é assim. Esse ex-namorado, que se pensava dono da menina que perdeu todos os sonhos, ficou mais de 100 horas torturando sua vítima com um revólver. Deu entrevista para televisão, saiu em todos os jornais. Na entrevista na TV, por meio de celular, ao vivo, falou como uma espécie de herói do avesso. Um jornalismo que não aceito. Coloca em evidência o bandido, aquele que quer matar. E tudo se transforma num grande espetáculo, ao vivo e a cores. A entrevista ao vivo na TV é prova dessa inversão de valores que parece, agora, conduzir todas as coisas. Inclusive o jornalismo. Ou o pretenso jornalismo. O que vale é o espetáculo.
Voltando a mim. Não sirvo mais para tudo isto. O jornalismo não me serve mais e eu também não sirvo mais ao jornalismo. Não tenho mais condições de encarar fatos assim.
Olho a fotografia de Eloá, menina dos sonhos desfeitos, com sua amiga Nayara, também ferida, e não sei definir o que sinto. Sei que dói. Dói pela perversidade. Pela crueldade do crime. Pelo plenajemanto frio e calculado de tudo que seria feito contra a menina dos sonhos perdidos.
Cercado por três policiais que o seguravam fortemente, certamente o criminoso terá comissões e entidades ao seu favor, explicando que foi maltratado pelos policiais. Também dirão que a polícia agiu com brutalidade ao explodir a porta para entrar no apartamento.
Agora vão fazer analisar as balas. Porque já estão dizendo que as balas partiram das armas dos policiais. É, de fato: os policiais entraram atirando e acertaram exatamente as duas meninas, não o bandido. O bandido saiu ileso, sem nenhum ferimento.
Há homens, a maioria deles, que pensam ser a mulher uma espécie de objeto que eles podem fazer o que bem entendem. A menina dos sonhos desfeitos não aceitou esse destino. Aos 15 anos quis novos rumos para sua pequena vida. Não conseguiu. Ela era um objeto. Um objeto que tinha dono. Que tinha de agir de acordo com as ordens e determinações de seu dono.
É assim. Está preso. Só isso. Está preso. Uma prisão que terminará logo. Ao sair da prisão, e isso, pelas leis brasileiros, ocorrerá num tempo breve, arrumará por certo outro objeto para seu prazer e dele fazer o que bem entender.
A menina dos sonhos perdidos está entre a vida e a morte. Está ainda ligada à vida por um pequeno fio. Se sobreviver, não se sabe qual será se destino.
A menina dos sonhos desfeitos só queria viver.