Arquivos para novembro, 2008

A BOLA DE BORRACHA VERMELHA

sexta-feira - 28/novembro/2008

meninogif.gifEu me lembro de um menino que ganhou uma bola de borracha vermelha num natal. Três dias depois, a bola de borracha vermelha desapareceu.

No natal seguinte, esse mesmo menino tornou a ganhar uma bola de borracha vermelha, igualzinha à bola de borracha vermelha do natal anterior. Três dias depois, a bola de borracha  vermelha desapareceu.

No terceiro natal, esse mesmo menino ganhou mais uma vez uma bola de borracha vermelha, igualzinha, igualzinha à bola de borracha vermelha dos dois natais anteriores. Mas a bola de borracha vermelha dessa vez desapareceu no mesmo dia de natal, porque um carro passou por cima e ela estourou.

Então nunca mais esse menino ganhou uma bola de borracha vermelha no natal.

Só alguns anos depois eu descobri que o menino ganhava sempre a mesma bola, que era guardada por sua mãe para o natal do ano seguinte.

Eu me lembro hoje desse menino com muita ternura.

E também me lembro com muita ternura de seu pai e de sua mãe, que nada tinham senão a pobreza.

Eu me lembro desse menino e tenho vontade de voltar no tempo, onde ele ainda vive cuidando de plantas ao lado de um cão a quem um dia ele escreveu o seu primeiro poema.

Ele ainda existe em mim. Embora eu não mereça, ele ainda existe em mim. 

 

NATAL

quinta-feira - 27/novembro/2008

natal.jpgOs primeiros enfeites do natal já estão visíveis. Nas árvores, nos prédios, nas casas. Pequenas luzes, como pequenas estrelas.

Sinto-me triste nesta época. E essa tristeza é inevitável. Tudo fica mais claro, uma paisagem que não pertence a todos. Nunca pertencerá.

Mas é assim desde que o mundo é mundo. No entanto, isso não ameniza a dor. A cidade fica mais bonita, mas a dor aumenta. A ferida se abre mais. Essa ferida das pessoas esquecidas. Das pessoas que nem sabem que existem. Até porque não existem mesmo.

As pessoas tristes, que não têm natal. Os idosos calados nos asilos. Os moradores de rua. A criança sem lar. Sem pai. Sem mãe. A criança. Aquela criança abandonada por tudo.

As luzes de natal começam a surgir na cidade. Já vi até Papai Noel. Um Papai Noel também triste, sem palavras, sem gesto, sem brinquedo nenhum.

Não existe brinquedo nenhum.

Este é, para mim, um tempo de muita tristeza. Mas os meus 19 leitores deverão compreender que o natal existe para que, pelo menos um dia, as pessoas se sintam felizes. Todo mundo tem esse direito. Todo mundo tem de ter esse direito. Todo mundo tem de exigir esse direito.

DRAMA

terça-feira - 25/novembro/2008

corredor.jpg

Os meus 19 leitores devem ter notado que meu blog estava com um problema. Deu um nó no blog. Deu também em nó em mim. Mas eu já estou acostumado com isso. Sumiu tudo, especialmente os comentários. Fui no departamento que trata desses assuntos, já que não entendo absolutamente nada disto e nunca entenderei. Nem quero. O meu blog existe porque apareceu uma fada na minha vida que se chama Priscila. Ela vê tudo, faz tudo. Eu só olho. Então falei com o pessoal. Tudo gente que pertence a um universo que desconheço. Fiquei ouvindo o que eles falavam e sai correndo, tendo a impressão de que estava numa outra galáxia. No final, eu entendi mais ou menos o que estava acontecendo e cheguei à seguinte conclusão: eu sou um homem sem comentários, sem suporte técnico e, para piorar tudo, com problemas no provedor. Fiquei em pânico diante da situação dramática. Sem comentários, sem suporte técnico e ainda com o provedor falhando. Assim não dá. Pensei em me matar ou entrar para um convento de freis. Mas desisti. Fui aconselhado a desistir. A vida é assim mesmo. Meu cachorro está cansado de me dizer que eu tenho que me acostumar com as adversidades. É o que estou tentando fazer.  

A BRUTALIZAÇÃO COMEÇA EM CASA

segunda-feira - 24/novembro/2008

20060919205434450.jpgSabem que eu sou apenas um cachorro. Minha alma é de vira-lata. Eu sei de cada coisa do ser humano que é de arrepiar. Por exemplo: eu soube que dois jovenzinhos, jovenzinhos, assim no diminutivo para ficar bem carinhoso… dois jovenzinhos de 13 e 16 anos foram detidos pela polícia, sob a suspeita de serem eles - os jovenzinhos - responsáveis por uma página na Internet que fazia brincadeiras grosseiras com o acidente do avião da TAM, que matou 199 pessoas no ano passado. Não é lindo?! Não é uma beleza?! Os dois jovenzinhos, tão bonitinhos, moram na Vila Maria, aqui em São Paulo. Eles foram detidos, chamados, apreeneidos - sei lá como se fala isso - por policiais da Delegacia de Meios Eletrônicos do Departamento de Investigação sobre Crime Organizado. A polícia diz que os dois jovenzinhos tão bonitinhos, de tão boa índole, tinham uma comunidade num site de relacionamento no qual divulgavam fotos das vítimas do acidente, criando textos engraçadinhos sobre a tragédia. Não é lindo?! Que maravilha! A página dos dois jovenzinhos foi tirada do ar. Isso é injusto! Os dois jovenzinhos têm o direito de brincar com a dor alheia. Isso é injusto. Os dois jovenzinhos da classe média alta têm direito de continuar fazendo gracinhas com as fotos dos mortos no acidente. Por isso é que eu gosto do ser humano. O ser humano é o máximo. Vejam o exemplo dos dois jovenzinhos. Com que é que eles vão se divertir agora, eles e mais um montão de amiguinhos ? Coitadinhos deles! Tiraram deles a única diversão que tinham. De brincar com as fotos das pessoas mortas no acidente do avião. O ser humano é maravilhoso.   

FIM DE HISTÓRIA

quarta-feira - 19/novembro/2008

cao.jpg

 Eu sou um cão abandonado.

Vivia pelas ruas dia e noite, noite e dia. Só comia lixo.

Meu dono me abandonou, mas eu ainda gosto muito dele. Nunca vou esquecê-lo.

Sou um cachorro abandonado e estou doente.

Daqui a pouco eles vão me matar na câmara de gás.

Eu não fiz nada para ninguém.

A CONVERSA DO CÃO COM A MENINA DAISY

segunda-feira - 17/novembro/2008

04_03_cao1.jpgEstava com tanta saudade de você, Daisy.

Você viajou e eu fiquei sozinho, andando pelo jardim sem saber direito o que devia fazer.

As pessoas são muito complicadas, Daisy, elas não entendem nada. Muitas também são ruins. Outras são egoístas demais para ver e sentir o que vive ao seu redor. Muitas viram o rosto para os que estão perdidos no mundo.

Eu gosto muito de você, Daisy. Quero que você fique sempre perto de mim. Eu também quero ficar sempre perto de você. Quero sempre lamber seu rosto, seus cabelos, quero sempre rolar com você na grama, quero sempre pegar a bola que você joga longe para brincar comigo.

Eu gosto de brincar com você, Daisy. Eu gosto muito de você. Você é a pessoa que eu mais gosto no mundo inteiro. E eu sei que você também gosta de mim. As pessoas são injustas umas com as outras. São esquisitas. As pessoas, muitas vezes, são maldosas demais. São maldosas com tudo. Por isso, Daisy, você deve se afastar de algumas pessoas que não conhecem nenhum valor da vida. Que não sabem o que é um gesto de amor, de solidariedade, que não conhecem a chuva, que nunca escreveram uma carta, que nunca pediram perdão. Pessoas que se esquecem facilmente de tudo. O que era ontem, hoje não vale mais. O que existia ontem, hoje não existe mais. São pessoas que nunca vão ver uma paisagem e nunca saberão do significado do brilho de uma estrela cadente.

Eu sou apenas um cachorro, Daisy. Eu sou apenas um cachorro, mas eu sempre vou fazer o possível para que você seja feliz. Para que você possa sorrir sempre. Mas se um dia você chorar, eu vou estar perto de você. Eu vou lamber as suas mãos e seu rosto. Sempre que você chorar, você pode me chamar que eu ficarei com você o tempo que você quiser. Eu ofereço a minha vida para você.

Eu sei que quase ninguém dá valor a um cachorro. Mas não é o seu caso. Por isso eu senti tanta saudade, quando você saiu à tarde para dar uma volta no parque. Você demorou pouco, mas parecia uma eternidade. Ainda bem que você chegou. Eu acho que vai chover daqui a pouco. Eu gostaria muito que chovesse. A gente poderia andar na chuva. A gente poderia conversar uma porção de coisas que as pessoas não entendem.

Agora eu quero dormir um pouquinho encostado em você. E quero sonhar um sonho bem bonito para você. Um sonho que as pessoas não têm. Só eu posso ter. Eu sou apenas um cachorro. Só um cachorro. É tão bom saber que você gosta de mim como eu gosto de você.

  

DAR UM TEMPO

segunda-feira - 17/novembro/2008

Estou a fim de dar um tempo.

Ando meio cansado das coisas que me cercam.

Sou neurótico suficiente para chutar tudo para o ar, de repente.

Estou a fim de dar um tempo com as palavras.

As palavras me cansaram.

A poesia me cansou. 

Sinto profunda claustrofobia. Mas não me refiro a multidões, elevador, avião, essas coisas.

Não.

Eu me refiro ao mundo.

Estou a fim de dar um tempo.

Quero sair de cena.

Palhaço de mim mesmo, quero outro circo para brincar de ser um cão, minha única identidade absolutamente correta, meu retrato mais fiel.

Estou a fim de dar um tempo. Uma amiga diz que talvez eu me exponha demais. Mas eu sou assim mesmo. Ou a gente fala ou não fala. Não dá para dizer só a metade das coisas. Tem que se dizer o que de fato se sente. Sempre foi assim, não será agora, a esta altura da vida, que vou mudar. E depois: mudar para o quê ?

Dar um tempo. Ou então chutar tudo para o ar, definitivamente. Ficar livre de mim. 

O BRASIL MARAVILHA

domingo - 16/novembro/2008

O leitor Petra me deu uma lição do Brasil. É uma maravilha. Pena que tudo que ele falou eu já sei de cor e salteado. O marketing é forte. Ele ainda não percebeu que quando falo mal do Brasil, não me refiro ao país, Nação. Falo das enganações. Falo dos acertos. De qualquer maneira, Petra, você tem razão. Você vive no país certo. Faça bom proveito dele. Quero a Monarquia, mas você, por certo, não seria meu rei. A propaganda oficial é uma coisa, a realidade é outra.  De fato, o Brasil é uma maravilha. É um país potência mundial. Sirva-se dele à vontade. Lamento ter de lhe escrever isto, mas, sinceramente, não se preocupe mais com este blog que um vira-lata que apenas sonha com um país melhor, mais justo, menos ordinário, menos calhana. Sou apenas uma vira-lata que sonha com um país de todos. Não um páis onde vivem mais de 50 milhões de pessoas abaixo da linha da miséria. Desse contingente, muitos recebem alguns trocados do bolsa-família que, numa eleição, representam mais de 30 milhões de votos. Sou um vira-lata que apenas deseja um país onde as pessoas sejam honestas. Que não sejam essas pessoas que fizeram um mesmo discurso por 20 anos e quando chegou-se ao poder não era bem aquilo que diziam. Aliás, muito pelo contrário. Portanto, meu caro Petra, esqueça este espaço aqui, por favor. Agradeço sua aula, mas, como já disse, eu sei disso tudo, até pela profissão que exerço. Se você desejar mais alguma informação “positiva” sobre o Brasil eu posso lhe fornecer. O Brasil é mesmo uma maravilha. Nossos governantes não dão orgulho. Tudo gente correta. É tudo lindo. Lamento muito dizer: mas esqueça a existência do vira-lata. Não se preocupe mais em ler o que escrevo aqui. Esqueça, por favor, esqueça.

15 DE NOVEMBRO

domingo - 16/novembro/2008

A data pouco me importa. Nem me interessa. Dela só me lembro por seu aniversário de minha filha Daysi de Fátima.

Quero de volta a Monarquia.

Prefiro ser vassalo de um rei, de uma rainha.

Na República sou apenas um cidadão de quinta categoria o que, para mim, sinceramente, não tem qualquer importância.

Só não quero mais ser obrigado a servir a quem não me merece respeito nenhum.

O QUE RESTA DE TUDO

domingo - 16/novembro/2008

Nada.