2009
quarta-feira - 31/dezembro/2008
Esta é minha alma. Minha alma é uma pequena bailarina. Diante do mundo encantador e justo em que vivemos, minha pequena alma bailarina se prepara para começar a viver 2009.

Esta é minha alma. Minha alma é uma pequena bailarina. Diante do mundo encantador e justo em que vivemos, minha pequena alma bailarina se prepara para começar a viver 2009.

Sinceramente, eu acho que 50 dias de cadeia para a pichadora da Bienal de Artes de São Paulo foi demais. E eu digo que foi demais pelo que a gente vê neste país, onde criminosos violentos, gente corrupta e mais uma porção de outros delinqüentes fazem o que bem entendem e nada lhes acontece.
Tem patife por aí que matou, premeditou o crime, deu dois tiros na Sandra Gomide, um na cabeça, depois que ela já estava caída no chão. Esse até hoje ficou três ou quatro dias na cadeia. Até o Natal dele deve ter sido feliz.
Faz quase dez anos. Não lhe aconteceu nada. Essa é a Justiça do Brasil. De recurso em recurso, a lei não pune um assassino confesso, que goza de boa vida, enquanto minha amiga foi morta, covardemente. Dois tiros. Um nas costas. Ela caiu. O assassino se aproximou dela caída e deu-lhe um tiro na cabeça. O que aconteceu depois ? Nada. Até hoje está livre.
Mas voltemos à pichadora da Bienal de Arte de São Paulo. Ela foi solta, mas continuará a responder pelo processo em liberdade. Está certo: já que assassinos que tiram a vida de uma pessoa friamente pode gozar desse belo benefício das leis brasileiras, porque ela não ?
É preciso lembrar aqui que a pichadora gaúcha Caroline Pivetta, de 24 anos, pichou a Bienal num andar em que a população podia se manifestar do jeito que quisesse. Ela se manifestou pichando as paredes do andar e foi presa.
É… é assim, a lei é severa. Mas só para alguns. Agora a moça pichadora diz que é incompreendida e vai voltar para Porto Alegre.
Não pensem vocês que estou aqui defendendo pichadores, esse bando de vândalos que não tem amor nenhum pela cidade e destrói tudo que vê pela frente. Essa gente não merece respeito nenhum. Pelo menos de mim, que gosto de falar as coisas abertamente.
No caso da pichadora da Bienal, ela já é conhecida por sua delinqüência de destruir obras de artes em galerias que invade com seu spray. Não é assim tão inocente como parece. Não. Ela está acostumada a isso. Gosta de uma baderna. Os arruaceiros são assim mesmo.
A cidade é uma vítima desse bando de delinqüentes impunes. Gente desclassificada que destrói tudo. Vou citar só um exemplo, um só: vejam o que eles fizeram da avenida Santo Amaro… A avenida Santo Amaro está destruída. A avenida Santo Amaro morreu. É um amontoado de lixo de tanta pichação indecente que envergonha os que ainda conseguem pensar.
Um país civilizado, ou mesmo uma cidade civilizada, encontraria uma maneira de dar um paradeiro nisso. Mas parece mesmo que todas as coisas pertencem aos vândalos e aos delinqüentes. Picham até monumentos históricos, porque coisas assim não lhes dizem nada.
Quanto à pichadora da Bienal, vai mesmo para Porto Alegre, minha filha. Volta para lá. Vai pichar as ruas e as paredes de lá, que é o que você sabe fazer muito bem.
E olha, vai logo. Vai com seu spray, suja tudo por lá, que aqui em São Paulo você já virou uma espécie de heroína. Vai logo, é um vândalo a menos da cidade. Um a menos. Já vai tarde. Tchau. Até nunca mais!
O que é pungente e que comove profundamente, é ver um velho homem maltrapilho, morador de rua, dizer a você: “Obrigado, meu filho, que Deus te ajude sempre”. Esse “meu filho” dói demais. Depois, o abraço não consegue expressar essa emoção, esse sentimento que corre pelo sangue e bate no coração apressado, um sentimento e desejo de arrebentar tudo, especialmente aqueles que usam os palanques para falar, falar, falar, falar, falar, falar, mentir, mentir, mentir, mentir, mentir, falar, falar, falar, falar, mentir, mentir, falar, falar, falar, falar, falar, falar, falar e por fim dizer que nunca antes na história deste país as coisas estiveram tão bem. E enquanto eles falam e mentem, as pessoas que não têm nada “sifu”, para usar a palavra chula utilizada pelo presidente da República. É pungente essa cena no meio da noite. O coração bate forte, mas eu sinto um ódio que não nego a essa gente que decide o meu destino. São pessoas circunstanciais. Só circunstanciais. Poderiam até ser circunstanciais, mas que fossem sinceras, não mentirosas como são. Devem ter vivido um lindo Natal. É pungente e também doloroso. Eu só não queria chorar.
Fim de tarde do dia de Natal. Chove um pouco. O sonho acabou. Em alguns dias, as pessoas - quase todas as pessoas ou grande parte delas - estarão novamente envolvidas na brutalidade de sempre. Dentro de alguns dias as luzes da cidade vão se apagar. E a violência estará de volta em quase todos os gestos, ou grande parte deles. Dentro de alguns dias, tudo, ou quase tudo, passará definitivamente. Restará, para guardar, talvez uma carta de amor. Talvez o abraço do amigo. É bom saber que nem tudo se perderá. Nem tudo se perderá. Mas o sonho destes últimos dias acabou. Agora, só em dezembro do ano que vem, quando quase todas as pessoas - ou grande parte delas- voltarão a ser cordiais, voltarão a sorrir, voltarão a ter gestos delicados. Agora, só em dezembro do ano que vem, quando o sonho renascerá. O sonho sempre renascerá. Haverá sempre de renascer. Agora acabaou. Dentro de alguns dias, tudo voltará ao normal. A brutalidade, a agressão gratuita, a palavra seca. Fim de tarde do dia de Natal. Chove um pouco.
Fugindo da tristeza que me significa o Natal, tenho visto alguns programas de televisão. E ontem vi a figura de Carla Bruni, que é a esposa do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que está no Brasil. Ela veio junto e cumpriu uma agenda paralela ao encontro empresarial Brasil-União Européia. Não estou interessado em nada disso. Absolutamente nada. Quero mais é que a crise afunde o mundo de vez, completamente. Estou pouco me lixando para a crise e para o mundo. Por que não falam em crise naqueles países em que as crianças, milhares delas, morrem de fome todos os dias ? Desse encontro, o que me interessou mesmo foi a figura de Carla Bruni, por quem me apaixonei imediatamente. Até já ouvi o mais recente CD que ela gravou. Enlouqueci de vez. Mas como é que eu posso me apaixonar deste jeito pela mulher do presidente da França ? Eu acho que não posso escrever isto aqui. Alguém pode me processar. Mas eu quero falar de meu amor por Carla Bruni, na esperança de não criar nenhum incidente diplomático por absoluta falta de responsabiliade. Até porque Carla Bruni deve estar acima de tudo isso. Ela é casada com o presidente da França, mas eu sei que gosta de poesia. Talvez até goste de poetas. Eu sou um ex-poeta brasileiro. Por ela eu voltaria a escrever os poemas mais alucinados do mundo. Ontem eu vi pela TV o andar de Carla Bruni. Os olhos de Carla Bruni. A boca de Carla Bruni. O vestido de Carla Bruni. Depois entrei na Internet e vi muito mais coisas de Carla Bruni. Perdidamente apaixonado pela mulher do presidente da França, devo viajar para Paris em janeiro. Vou enfrentar o frio de lá, que não suporto. Janeiro é o pior frio que existe em Paris. Mas vou até lá por amor. Quero me declarar em praça pública, quero dizer poemas que vou escrever para ela, mesmo sendo um ex-poeta. Só me faltava isto a esta altura da vida. Apaixonar-me pela mulher do presidente da França. Provavelmente sofrerei muito por esse amor. Mas também não será a primeira e nem a última vez que vou sofrer por amor. O que importa é que Carla Bruni me despertou uma paixão absolutamente explosiva e irresponsável. Talvez, por esse motivo, o Natal não me seja tão triste como constuma ser. E este ano será ou seria pior. Quero ouvir todas as canções de Carla Bruni e quero pedir desculpas ao presidente francês por me apaixonar repentinamente por sua mulher. Dizem que o amor é assim mesmo. Eu não sei. Nem me interessa saber.
Eu o encontrei numa rua escura. Não sei exatamente onde. Numa rua escura. Muita escura. Tão escura como a maior escuridão do mundo. Estava, sim, vestido de vermelho, como todo o Papai Noel que se veste de vermelho. Olhei-o bem. Aproximei-me. Ele me observou em silêncio. Perguntou-me:
-O que você quer ganhar de presente ?
Resondi que não queria nada. Queria apenas observá-lo. Apenas olhá-lo para não esquecer. Ele voltou a perguntar:
-Mas me peça alguma coisa… Qual é o seu maior desejo ?
Fiquei quieto. Eu sempre fico quieto no meu canto. Sempre fico em silêncio. Quase sempre ausente de mim mesmo. Quase sempre distante de mim, para não ver-me.
Voltou a me perguntar:
-Qual é o seu maior desejo ?
Continuei quieto dentro de mim. Eu estou sempre quieto. Às vezes esqueço como é a minha voz. E também o meu rosto. E também minhas mãos envelhecidas. E também da dor que às vezes sinto.
Voltou a perguntar:
-Qual é o seu maior desejo ?
Então eu olhei para ele, no fundo dos olhos, tão fundo dos olhos, que parecia o mar, de tão fundo que era o olhar, como uma ave que vôa sempre, como o aceno que se desenha nas mãos:
Respondi:
-Eu queria que o senhor existisse.
O Papai Noel então me olhou com alguma tristeza. Vi que tinha um ar de decepção. Olhou para mim, sem saber ao certo o que dizer. Então ele ajustou as luvas brancas nas mãos, acarinhou suas seis renas, subiu no trenó e foi embora.


Pelo menos o Natal tem esse poder de transformar as pessoas. Quase todos ficam mais generosos, solidários. As pessoas se aproximam mais. Parece que se querem mais. As pessoas até chegam a sorrir. Algumas choram. Muitos choram. Tudo fica mais branco nessas cores escuras que quase sempre cercam quase tudo. E a cidade também se transforma com as luzes do Natal. Mas as maiores transformações ocorrem mesmo nas pessoas. Todos se abraçam, se mostram afetivos. É um tempo bom. De mãos abertas. De braços abertos. Essa ciranda em que a gente volta no tempo e se deixa existir, se deixar querer bem, se deixa descobrir. As pessoas rodopiam numa valsa desconhecida como se tudo fosse música numa paisagem toda azul, daquele azul tão azul que o próprio azul se confunde com o azul e se transforma no azul mais profundo do mundo, onde vive a alma. O Natal tem esse poder. As pessoas ficam mais juntas. As pessoas passam a se querer bem. Até se respeitam. As pessoas se abrigam umas nas outras. Se querem mais. As pessoas sonham o sonho que sempre esquecem de sonhar. Depois tudo volta ao normal…

Certo, meu blog já tem nome: é Blog do Poeta, se não me falha a memória. Mas a memória sempre me falha, o que, na verdade, não significa nada para mim. Até porque não tenho memória. Mas se eu tivesse de dar outro nome e este blog, daria o nome “Blog do desencantamento”. Por que ? Porque é isso que vejo em todo lugar. Os caras me chamam de amargo. Eu só fico olhando. E qual é o problema em ser amargo ? O que a gente vê em todo lugar não é fácil calar por dentro. Por isso eu volto àquela crônica “Fado”, que alguns entenderam que eu generalizei. Não generalizo nada. Sempre existem as exceções. Mas agora a gente vive só nas exceções. O mundo é essa coisa que a gente vê por aí. As pessoas, a maior parte delas, ou pelo menos boa parte delas, são apenas um poço de egoísmo, gente que não se importa com ninguém, com nada. Mas, sinceramente, sinceramente mesmo, eu acho que essa gente é feliz. Acho mesmo. É uma gente que não está nem aí para nada, mas é feliz. No entanto, eu, particularmente, não quero esse tipo de felicidade. Prefiro mesmo cultivar o meu jardim de flores tristes. Sei que um dia elas vão florescer. Serão tão bonitas como ninguém nunca viu iguais. Serão como o sol, como um girassol, como as margaridas, que são girassóis pequenininhos. A crônica “Fado” tem mesmo que incomodar muita gente. Mas eu quero incomodar mesmo. Eu quero incomodar. Meu negócio e gritar enquanto eu posso. Já houve um tempo neste país em que eu fui proibido de gritar. No entanto, esse tempo passou. Hoje eu grito meu silêncio no meu canto, com um pássaro do meu lado. Três anjos passeiam comigo todos os dias pelas ruas que não conheço e depois desaparecem. É assim que eu vivo. Não me levem muito a sério.
Faz 100 anos que morreu Machado de Assis, tido como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Mais de 50 livros foram publicados este ano no Brasil em homenagem ao escritor que era negro, embora, não se sabe porque, os historiadores literários não falem nisso. O grande e importante crítico literário norte-americano Horold Bloom diz que Machado de Assis, escritor brasileiro afro-descendente, se alinha às figuras de um Shakespeare, de um Dante. A Rede Globo de Televisão apresentou a série Capitu, também em homenagem a Machado de Assis. Só que a Globo criou uma outra Capitu, num espetáculo de circo. Não estou criticando o circo, não. Muito pelo contrário. Tenho pelo circo um encantamento absoluto. O circo da Rede Globo, no entanto, é circo rico, riquíssimo. Tem muito dinheiro para gastar. Tudo bem com o figurino lindíssimo, com os atores, as atrizes, a interpretação. Tudo bem. Nada a reclamar. Mas e Capitu ? No final de tudo, um espetáculo que nada tem a ver com a obra de Machado de Assis. Tem coisa que não dá para ser “moderninha” demais. Não dá. Tem de se seguir o texto. E o texto é o que é e ponto final. Se fosse um delírio sobre a figura de Capitu, sinceramente, eu até aceitaria e aplaudiria. Mas não foi delírio, não. Foi mesmo querer mexer numa obra que tem de ser respeitada em tudo. Gravei um vídeo para Jovem Pan Online sobre a série Capitu de Rede Globo. Gostaria que meus 19 leitores assistissem.