CARNAVAL - 2
sexta-feira - 30/janeiro/2009

Gostaria de escrever sobre todas as formas de encantantamento, todas. Seu eu pudesse, falaria do encantamento de algumas coisas que ainda ne tocam. Falaria talvez das manhãs, se elas ainda existissem. Falaria talvez de um poema, se eu lembrasse de algum. Lembraria a figura de algum poeta, se eles ainda estivessem no mundo. Gostaria de falar de encantamentos. Gostaria de falar dos sonhos dos moradores de rua, mas eu não sei se eles sonham. Sei que sofrem. Eu não sei se existe encantamento nas pessoas que sofrem como eles. Gostaria de falar das imagens que passaram por mim e que hoje são apenas um profundo esquecimento na minha memória. Gostaria de escrever sobre todas as formas de encantamento. Gostaria de falar sobre as palavras, mas as palavras estão gastas, quase todas perderam o sentido. Gostaria de falar de uma tarde num circo, mas os circos desapareceram. Uma tarde de domingo, escondida em algum lugar da infância. Gostaria de escrever sobre encantamentos, como andar de mãos dadas, como fazer juras de amor, como escrever uma carta, como caminhar junto ao mar, como andar entre as árvores, como mexer na terra, como colher sementes, como tomar um copo de vinho ou como rezar uma prece desconhecida. Gostaria de escrever sobre encantamentos. Gostaria de ser encantador de serpentes. Gostaria de tocar flauta. Gostaria de andar descalço mais vezes. Gostaria de caminhar na chuva. Gostaria de ser apresentado a mim mesmo. Gostaria de escrever sobre encantamentos. De falar uma linguagem que ninguém entendesse. Gostaria de ver mais as gaivotas que nunca vejo. Gostaria de passear sentimentos entre as pedras. Gostaria de escrever sobre encantamentos. Gostaria de colher as estrelas cadentes. Gostaria também de guardar as luas cheias que nascem no teto de meu quarto. Gostaria de mexer nas plantas, com o cuidado de um monge que chora. Gostaria de cantar para as aves. Gostaria de escrever sobre encantamentos, mas eu sei que não conseguiria.
A morte é uma coisa que me impressiona muito. Fico muito abatido com notícias sobre alguém que vai embora para sempre. Foi assim com meu amigo Renato Consorte, ator de primeira grandeza deste país, militante político nos anos mais perversos da história recente brasileira, um homem bom, do bem. Foi embora. E a seguir, recebo a notícia da morte de um primo meu, que morava na Avenida São Gabriel, no Jardim Paulista. Foi-se. Ficou doente e foi-se. Estava sempre em Portugal. Era um cientista. Era engraçado um cientista falar de poesia. Mas falava de poesia. Foi-se embora o Zeca, partiu com as asas de um anjo triste, desses que habitam os becos, que não aparecem durante o dia. A morte de impressiona. Fico abatido e não devia ser assim, até pelas coisas que praticamente sigo a vida inteira . Mas é assim. E a morte de meu primo revela-me uma vergonha desta cidade que fez 455 anos no domingo, uma cidade feita de medo e desespero, angústia e descaminhos. Uma vergonha inaceitável. Não dá para aceitar uma coisa assim e calar-se. Saio da rádio perto da meia-noite e sigo para o velório. Mas não há velório. A administração do cemitério tem de fechar os velórios à meia-noite por causa dos assaltos que ocorrem praticamente todos os dias. Quer dizer: à meia-noite a família e os amigos dos mortos têm de ir para casa e voltar na manhã seguinte. Essa é a lei. A lei do bandido. Se não for assim, de repente entra um bando de ladrões nos velórios e roubam tudo de pessoas indefesas em todos os sentidos, fragilizadas emocionalmente. Então é assim: como não existe segurança, o melhor é fechar o velório. A cidade devia fechar suas portas e deixar um cartaz com letras grandes informando que não existe mais. A cidade acabou.
Neste domingo, caminhando por meu bairro, notei uma coisa que me comoveu. Tanta gente passeando com seu cão, uns soltos, outros na coleira. Meninas contentes no domingo pela manhã, com o cão a caminhar, a conversar. As pessoas conversam com seus cães e ele conversam com seus donos. Vi dezenas de moças, mulheres, homens idosos, todos caminhando com seu cão pelas ruas cheia de árvores. De repente tive a sensação de que todo mundo tem um cão em casa. Mexo em todos eles. Os donos permitem. Pergunto se é “menino” ou “menina”. Pergunto o nome. Mexo neles como se fossem meus. Não posso mais passear com meu cão, o Guga, porque, infelizmente, ele perdeu a visão. Tentei tudo que me foi possível para evitar. Não consegui. Ele só sabe andar dentro de casa. Mas adora sair na rua, de sentir que está na rua, embora na rua ele não consiga dar um único passo porque tem medo. Tenho então um carrinho parecido com o dos bebês e levo meu cão às vezes para passear. Ele quer cheirar tudo. Às vezes ele brinca com meu porquinho da Índia, menina, que pelo tratamento que recebe, é completamente diferente, conforme diz a veterinária amiga que cuida dela e do Guga. Chama-se Belinha. Também vive solta dentro de casa e some de vez em quando. A veterinária diz: “Não é possível o que vejo nesse pequeno bichinho, um bichinho que lambe o rosto do dono. Porquinho da Índia não faz isso!”. Mas o meu faz. A veterinária viu isso quando precisei levar Belinha à clínica, porque se mostrava doente. Ela tremia de medo. Os animais sabem quando vão ao médico. Choram que nem crianças. Depois do exame, agarrou-se a mim e me lambeu o rosto muitas vezes. A veterinária não acreditou no que estava vendo. Mas voltando ao início: tenho a sensação de que todo mundo tem um cão. Sinceramente, fiquei feliz em ver tantos cães com seus donos no domingo pela manhã, caminhando pelas ruas. Para mim, o cão é parte da família. E a propósito, para concluir esta pequena crônica, nesta semana o jornalista Ricardo Noblat utilizou um poema meu no seu blog, um dos mais lidos no país, por suas informações exclusivas especialmente na área da política. O “Blog do Noblat”, do jornal O Globo Online, é fonte de informações preciosas, uma referência. Pois o Noblat me honrou ao usar um poema meu em seu blog, motivo de orgulho para mim. O poema chama-se “Noite” e pertence ao meu livro “À noite, os cavalos”. É o seguinte:
Melhor é ter um cão
com quem se possa conversar,
especialmente à noite.
Melhor é ter um cão
para em silêncio ser ouvido,
como se as palavras não existissem,
nem conversas,
nem dizeres.
Com um cão as palavras
são desnecessárias.
Nesta sala vivemos quietos
diante da janela
e isso nos basta.
A vida separa as pessoas. Não estou falando nada de novo. Absolutamente nada. Mas também nada de novo tenho a dizer. Aliás, nada tenho a dizer. Neste domindo resolvo dar uma volta no bairro onde vivo há tantos anos, a vida inteira. Encontro um amigo que não via há muito tempo, amigo da adolescência, do time de futebol, o Grêmio Desportivo Monções. Encontro o amigo Heitor Iório, o Heitor, meia direita, camisa 8. Caminhamos juntos. Ele me diz: “Eu sou um de seus 19 leitores”. E nos lembramos das coisas que há tanto passaram, as vidas que se separaram, uns pelos caminhos da própria vida, outros, infelizmente, para sempre. Infelizmente. Falamos de futebol. Heitor me diz: “P. time o nosso, poeta, p. time, se lembra?”. Então ele me dá a escalação inteira de nosso time. “Você era o seca-ponta, se lembra ? O adversário não conseguia jogar contra a gente. P. time era o nosso!”. É verdade. Que belo time da várzea daquele tempo, quando todos éramos adolescentes, todos ou quase todos éramos estudantes. Depois, a vida. E a vida levando um para cada caminho. Heitor me diz dos caminhos que seguiu. E me informa que acompanhou o meu, por ser no jornalismo, na literatura. Tem sempre alguma notícia em algum lugar. Conversamos sobre a morte de meu irmão. Tudo se vai. Tudo vai desaparecendo. Não me sinto triste, mas não sei como me sinto. Os amigos da adolescência que de vez em quando a gente encontra numa esquina, numa rua, numa igreja, num estádio. O abraço. E depois aquela emoção de ver a paisagem antiga de nós mesmos, os rumos, uns certos, outros incertos. Nos despedimos com um abraço comovido. Resta sempre aquela amizade e amor que não desaparecem, embora as pessoas não se vejam mais. Mas estão lá guardados, no estojo das lembranças, está lá guardado o gesto nunca esquecido dos que se querem bem. É o que nos resta: querer bem, para que o mundo seja um pouco melhor.
Esperei alguns dias para ver o comportamento da imprensa brasileira sobre o assunto. A repercussão foi pífia. É uma palavra horrível, essa. Mas foi pífia. Eu me refiro à jogadora de futebol feminino Marta, Marta Vieira da Silva, 22 anos, considerada a melhor jogadora do mundo por três anos consecutivos. Recebeu o prêmio da Fifa há alguns dias. Até agora, só Ronaldo tinha conseguido isso, ser o melhor do mundo três vezes para o Brasil. Zidane também conseguiu. Marta já jogou como profissional, digamos assim, 189 vezes. Marcou 191 gols. Uma marca incrível, difícil de se conseguir. O técnico Renê Simões, hoje no Fluminense, além de técnico estudioso do futebol, diz que Marta tem a habilidade de Ronaldinho Gaúcho, o domínio de bola de Kaká, a velocidade do jogador português Cristiano Ronaldo, driba como Robinho e tem faro do gol como o Ronaldo. Pois essa jogadora brasileira, a melhor do mundo, pouco é festejada no país do futebol, o país do futebol para homens, claro. Mulher não tem vez. Não devia ser assim. Não pode ser assim. Marta veio daqueles becos de sempre, como é a origem de quase todos os atletas brasileiros. Nasceu em Dois Riachos, em Alagoas. Quando ela recebeu pela terceira vez o seu troféu de melhor do mundo, no Ópera House, em Zurique, na Suiça, teve anunciada sua transferência para o time dos Los Ângeles Sol, que pertence à liga americana de futebol e quer se tornar o melhor time feminino do mundo. Contratou bem. No Brasil, Marta não teria onde jogar, a exemplo das outras jogadoras brasileiras que defendem a seleção e depois vivem de esmolas o tempo todo. Aqui o futebol é masculino. Marta não merece apenas as palavras simples que escrevo aqui. Não. Merece muito mais. Fosse este um país civilizado, Marta seria uma espécie de heroína, seria chamada a dar entrevistas na televisão, falaria de sua vida, de seus anseios, de seus sonhos. Mas aqui, não. Aqui não há homenagem nenhuma. Três vezes a melhor jogadora de futebol do mundo. Certamente, nos Estados Unidos reconhecerão o seu valor. Que ela merece. Aqui ela não teria chance nenhuma, bailarina que é no palco dos estádios.
No final dos anos 60, eu frequentava lugares clandestinos que constavam do index do regime militar. Considerado um “agitador”, expressão muito usada na época, não era fácil viver. Nesse tempo, mereci a amizade generosa do então deputado Cid Franco, pai do compositor e cantor Valter Franco. Por seu intermédio, passei a desenhar cartazes para o Partido Socialista Brasileiro, os mesmos desenhos que Cid Franco conhecera numa exposição que fiz no Movimento Graal, na rua Cardoso de Almeida, na época freqüentado pelo pessoal da esquerda ligado aos freis dominicanos, da Igreja das Perdizes. Era uma época em que a ordem era odiar os Estados Unidos. Ordem que em cumpria inteiramente. Cumpria, é bom dizer, por convicções políticas e ideológicas. Confesso que hoje meu olhar é outro, embora as restrições aos Estados Unidos estejam acesas dentro de mim, mas não com esse discurso fácil e vazio de algumas “lideranças” latino-americanas. É um país que não me desperta interesse nenhum. Conheço Nova York de passagem. Parei lá alguns dias antes de seguir para Portugal. Não pretendo voltar mais. Nada me interessa nos Estados Unidos. Nada. A agonia atual do mundo começou lá, pela ganância de sempre. Eu, particularmente, quero que o mundo afunde de uma vez. Mas não vou sair por aí com um discurso idiota atacando os norte-americanos com aquela linguagem manjada dos anos 60. Tem gente que ainda fala em “imperialismo ianque”. Faço essa pequena introdução para falar da posse de Barack Obama. Emocionei-me, sinceramente. Toda aquela cerimônia, aquelas palavras, aquelas cenas de gente chorando, negros e brancos, todos misturados com bandeirinhas nas mãos, crianças, homens, mulheres. O presidente negro dos Estados Unidos. Muita gente tem lembrado o livro “O presidente negro”, de Monteiro Lobato. O grande escritor brasileiro está sendo chamado por alguns desavisados de “visionário”. É preciso não esquecer o outro lado de Monteiro Lobato. Esse livro, “O presidente negro”, é nazismo puro. É duro ter de falar isso, mas não pode ser diferente. Por causa das idéias nazistas, os amigos do escritor foram se afastando dele. Agora citam o livro sem conhecê-lo. Nazismo puro. É de doer na alma que um livro assim tenha sido escrito por Monteiro Lobato. Bem, mas eu estava falando sobre a cerimônia de posse de Obama. Coisa igual só vi em Brasília no dia primeiro de janeiro de 2002. Foi emocionante ver um metalúrgico assumir a Presidência do Brasil. Toda a festa foi emocionante. Uma festa democrática. Uma lição de democracia. Depois, infelizmente, com o passar do tempo, as coisas todas sonhadas naufragaram amargamente. Lembro-me agora que, há alguns anos, passei um dia inteiro com Rachel de Queiroz, no seu apartamento no Leblon, Rio de Janeiro, na rua Rita Ludolft, na quadra da praia. O prédio em que vivia tinha seu nome escrito com enormes letras douradas na porta de vidro. Ela ocupava o segundo andar inteiro do prédio. Fiz com ela uma grande entrevista para a revista “Caros Amigos”, depois inserida no meu livro “Palavra de Mulher”, publicado pela Editora Senac, de São Paulo, em 2003. Rachel de Queiroz lembrou de sua decepção com o Partido Comunista. Traduzia, então, nos anos 30-40, os livros de Trótski. E como trotskista, foi perseguida e enfrentou problemas duros em sua época. Fala-se que Rachel de Queiroz conspirou contra o presidente João Goulart e que ela apoiou o golpe de 64. Ela não usava a palavra golpe, para se referir a 64, e sim “revolução”. Perguntei-lhe, então, se isso era verdadeiro. Conversamos mais de duas horas só sobre esse assunto. Uma aula de história brasileira. E tudo, para mim, se resumiu na palavra “decepção”. Pediu-me, digo agora, cinco anos depois, que não explorasse esse episódio na minha entrevista. Eu a atendi. Mas escrevi o que me foi possível, diante de seu pedido pessoal. Negou que tenha conspirado contra Goulart e que tenha apoiado a “revolução” de 64, embora fosse amiga pessoal do marechal Castelo Branco, o primeiro presidente do regime militar. Tanto que Castelo Branco a convidou para ser ministra da Cultura, cargo que ela não aceitou. De toda essa vida, Rachel guardava uma grande decepção. Lembrei-me disso agora, ao ver as cenas da posse de Barak Obama. No Brasil, a emoção foi a mesma em 2002. Depois foi aquilo tudo que a gente já sabe. Escândalos e mais escândalos. E a palavra “decepção” de Rachel de Queiroz começou a habitar meu pensamento e especialmente o meu coração. Então foi para isso ? Tudo que sempre se combateu, em mais de 20 anos, era exatamente o que mais passou a ser feito. Tudo igual. Igual, não. Pior. Pior pelo descaramento. Pior pela falta de compostura. O partido do presidente deixou de ser partido e se transformou numa espécie de seita. O presidente já sinalizou o que vem pensando ultimamente, ao apoiar a intenção do presidente de Venezuela em ser candidato eterno à presidência do país. A reforma política, por exemplo, foi entregue a um deputado enterrado até o pescoço no dinheiro do mensalão. Num país civilizado, isso jamais aconteceria. E as manobras já estão sendo elaboradas. Manobras, manobras, manobras. Vejo as cenas da posse de Obama. Lembro-me da posse em Brasília no dia primeiro de janeiro de 2002. Guardo essa emoção, embora tudo, depois, tenha sido desfeito, embora, depois, o sonho tenha sido destruído pela mentira. Que Barack Obama não traia sua biografia. Que Barack Obama não traia quem nele confiou. Que Barack Obama não traia seus ideais. Que Barack Obama não traia sua vida.
Era uma vez um poeta. Ele acreditava na palavra e até no mundo. Ele amava os pássaros e os animais. Amava também as pessoas. Ele acreditava nas pessoas. Ele acreditava que era possível viver. Um dia esse poeta acordou de um longo sono e olhou em sua volta. Só viu coisas destruídas. As árvores arrancadas. Os pássaros distantes. Então esse poeta se procurou também pelas ruas. E tudo estava invisível. Era o nada. Depois que adormeceu, tudo se transformou em nada. Era uma vez um poeta. Um poeta que parecia ter nascido no século 18. Que parecia viver ainda no século 18. Era uma vez um poeta que um dia acreditou. Era uma vez um poeta que escrevia poesia. Que gostava de ver o arco-iris. Era uma vez um poeta que gostava de andar na chuva, especialmente junto aos rios de sua infância. Era uma vez um poeta que todos os dias conversava com anjos. Era uma vez um poeta que saía à noite com uma bolsa cheia de estrelas e uma lua no coração. Era uma vez um poeta que se deixou esquecer. Era uma vez um poeta que nunca mais abriu a janela nem nunca mais quis ver o mar. Era uma vez um poeta. Era uma vez.
Algumas pessoas me ligaram para perguntar porque parei de escrever no blog. Ontem foram três ligações. Três mulheres. Uma delas me disse que necessita do que escrevo. Achei demais. Expliquei a todos que me ligaram estou cansado. Estou cansado de escrever. O mundo continua o mesmo. Aquele mesmo mundo sem saída. Aquele mesmo mundo feito só de egoísmo povoado, em boa parte, por gente ruim. Expliquei a todos que estou cansado. Alguém sugeriu uns dias de descanso. Não é isso. Não é isso. Estou cansado das palavras. Estou cansado da poesia. Estou cansado da literatura. Estou cansado do jornalismo, no qual não acredito mais. Estou cansado das ruas. Estou cansado dos automóveis. Estou cansado dos prédios. Estou cansado dos temporais. Estou cansado dos discursos que sou obrigado a ouvir todos os dias. Discursos de gente que não me merece nenhum respeito. Há espíritos que me cercam. Uns fazem mal, outros tentam me proteger. É assim. Sempre foi assim. Às vezes me misturo com uns, outras vezes me envolvo com outros. As feridas doem. Sangram. A palavra por dentro emudece. Estou cansado das calçadas. Estou cansado do cansaço. Estou cansado da angústia. Estou cansado do desespero. Estou cansado de andar a esmo. Estou cansado dos bares, dos restaurantes, dos cinemas, dos teatros. Estou cansado das letras. Estou cansado das farmácias. Estou cansado da música. Estou cansado da pintura. Estou cansado de minhas mãos. Estou cansado dos meus óculos. Estou cansado de meu paletó de veludo. Estou cansado da minha alma. Parei de escrever porque estou cansado. Estou cansado de escrever. Estou cansado de procurar-me. Estou cansado de não me achar. Estou cansado. Estou cansado. Estou cansado. Estou cansado de mim.