Arquivos para fevereiro, 2009

CARNAVAL - 22

quarta-feira - 25/fevereiro/2009

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 ACABOU

CARNAVAL - 21

terça-feira - 24/fevereiro/2009

oanjo

Voltei há pouco da Lua. Devia ter viajado com as informações da Patrícia Cicarelli.
Voltei e o pouco tempo foi o suficiente para me refazer.
Já conversei com todos os orixás e as divindades do mar.
Com os santos e os anjos que estão parados nas esquinas.
Já também conversei comigo e com minha alma tantas vezes inquieta.
A viagem foi longa, mas tudo passa depressa.
Como passa depressa a poesia que quase ninguém vê.
Há uma palavras para os iniciados, que é a ordem que vem do cosmo.
Talvez de um lugar que fica atrás da Lua.
Também conversei com os duentes e com as pombas.
Também com as plantas.
Agora é só esperar e deixar que as coisas sigam seu percurso.
O tempo se apaga, mas o tempo não existe.
Como não existe a imagem.
O dia nasce, mais um dia.
Amanhã.
Esta viagem com as figuras do carnaval está mergulhada no infinito que engole tudo.
Os acenos, as mãos, o olhar, as palavras.
O que não existe mais.

CARNAVAL - 20

segunda-feira - 23/fevereiro/2009

ofada230209

Eu sou uma pequena fada.

O poeta pediu que eu agradecesse por ele pelo desfile de ontem, no início da noite.

Ele disse que foi tudo muito bonito.

O poeta afirmou também que foi tudo um sonho, um sonho que pareceu uma estrela brilhando no céu.

O poeta chorou ao ver todas as pessoas iguais e solidárias, caminhando de mãos dadas.

Também chorou quando outras pessoas se juntaram ao grupo e foram recebidas sem nenhuma discriminação.

Eu sou uma pequena fada, não entendo muito dessas coisas.

O poeta pediu que eu agradecesse por ele.

Disse que sempre será possível construir uma fantasia.

O poeta anda meio perdido, mas ele pediu para dizer que um sonho vale muito e por isso será sempre preciso sonhar, para que a vida não passe em vão. Mas falou que junto com o sonho será sempre preciso lutar pelo próprio sonho, para transformar essa realidade triste que está em todo lugar.

Eu sou uma pequena fada, não entendo muito disso.

Não sei se estou dando o recado direito.

Ele foi para a Lua com seu cachorro.

Pegou um foguete logo depois do desfile e foi embora.

Ele disse que é preciso viver.

Que é preciso cultivar a vida.

Não sei direito se a palavra é essa, mas ele disse isso.

Falou também das canções que todos cantaram, canções que ninguém conhece, porque fala do povo, dos que estão distantes, dos que estão perdidos, dos que estão à margem, dos que não têm nada.

Eu sou uma pequena fada, não sei se estou falando direito o que ele pediu.

Ele disse que todos têm o direito à felicidade.

As crianças das ruas, os idosos abandonados, os bichos, as plantas.

Ele disse também que é possível transformar o mundo.

Mas é preciso querer.

Eu sou uma pequena fada, uma fada criança, eu não compreendo bem essas coisas.

O poeta pediu que todos dessem as mãos.

Depois ele disse que a poesia pode não salvar o mundo, mas ajuda.

Depois ele me deu um poema que eu guardei num estojo azul.

CARNAVAL - 19

sábado - 21/fevereiro/2009

casal      

      Atenção meus 19 leitores do blog do poeta.

      Sairemos domingo, perto do anoitecer, num desfile de silêncio na Avenida Paulista.

      O desfile começará no Paraíso.

      Descansaremos um pouco no vão do Masp.

      Poderemos então cantar as canções antigas do carnaval, a marcha-rancho que nos marcou e que não existe mais, porque o carnaval também

não existe mais.

      Juro que seremos felizes.

      Um dia todos serão felizes.

      Todos.

      Todas as pessoas poderão chorar ou sorrir, poderão abraçar o amigo,

o amor, a ausência.

      Um dia todos serão iguais.

      O mundo não será uma fantasia, mas com certeza será dos homens.

      Ninguém fará discurso, não por ser uma proibição, mas porque os

discursos são desnecessários, especialmente os discursos mentirosos.

      Sairemos em silêncio. Invisíveis.

      Ninguém precisará nos ver.

      Mas acenaremos e levaremos trinta pombas brancas.

      Os pássaros serão levados nas mãos, não nas gaiolas.

      E os cachorros poderão andar livres entre nós.

      Todos devem levar uma estrela no bolso, ao lado do coração.

      E todos devem ter uma lua cheia nos olhos.

      Todas as pessoas serão iguais nesse desfile.

      Todos serão generosos e solidários.

      Todos vão repartir o pão e as uvas e os figos.

      Todos saberão um poema de cor.

      Todos lembrarão de Maiakovski com o risco vermelho de sangue na

sua camisa amarela.

      Todos nós seremos guardadores de rebanhos, nós que nunca guardamos rebanhos.

      Sairemos de mãos dadas.

      Sem que ninguém nos veja.

      Ao anoitecer.

CARNAVAL - 18

sexta-feira - 20/fevereiro/2009

pierro

 Eu quero ter o direito de ser feliz. Nem que seja só no carnaval.

CARNAVAL - 17

quinta-feira - 19/fevereiro/2009

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Para cada dia, um silêncio novo. E uma dor nova também.

Para cada dia, o que não há mais.

Para cada dia, uma figura que me faz existir por quatro minutos.

Essa mulher que observa não sei o quê, uma paisagem que não vejo nem verei.

Faltam cinco dias para a Quarta-Feira de Cinzas, quando me deixarei calar.

Meus 19 leitores também não sabem mais o que escrever.

Eu acho que nada mais precisa ser escrito.

Nada mais precisa ser falado.

Todas as fantasias se perderam, dou-me conta disso.

As fantasias definitivamente não existem mais.

Nem rainhas, nem reis, príncipes, piratas, anjos, arcanjos,

e as figuras que sempre fizeram a face do carnaval.

Impossível encontrar essas figuras nas ruas.

Os tempos são brutais, de sonhos massacrados.

O espelho me mostra um homem triste que tenta dizer algumas palavras que se perdem nas primeiras sílabas.

Quero, sim, dançar uma valsa vienense, eu que não sei dançar,

que nunca fui a um baile na minha vida.

Vou, sim, vestir-me do que sou, para não me reconhecer.

Não quero encontrar comigo em lugar nenhum.

Nada tenho a me dizer.

CARNAVAL - 16

quarta-feira - 18/fevereiro/2009

pierrot

Estou diante de uma bela figura do carnaval.

Belíssima figura do carnaval.

Mas não sei ao certo o que escrever.

Talvez nada haja para escrever. As palavras morreram.

Certamente, também se foram as figuras do carnaval.

Mas é uma bela figura de um carnaval que talvez exista apenas dentro de mim, que invento coisas que não existem para poder viver um pouco mais.

E nem sei se isso é importante.

Uma bela figura: percorro seu rosto, suas mãos, o colorido, suas feições que me tocam. Mas não sei o que escrever. Acredito que nada haja para escrever.

Ocorre-me agora, neste instante, a lembrança de um poema de T.S.Eliot que tem dois versos definitivos. Não sei ao certo como são esses versos, mas acho que os guardei como são dentro de mim há muito tempo. Não tenho ânimo de consultar livros agora.

Os versos do poema de Eliot são estes, que me servem bem: 

Abril é o mais cruel de todos os meses,

Mas ainda estamos em março… 

A única coisa que sei é que estou diante de uma bela figura do carnaval e não sei o que devo escrever. É uma figura viva que se mexe e respira à minha frente, com suas cores azuis e seu rosto pálido. Ela caberia bem no romantismo do século 18, onde vivi até as últimas conseqüências.

CARNAVAL - 15

terça-feira - 17/fevereiro/2009

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Definitivamente, já decidi e já mandei fazer minha fantasia para o carnaval.
Sairei vestido de poeta, ou seja, de nada.

CARNAVAL - 14

segunda-feira - 16/fevereiro/2009

opierrot160209      Entramos na semana do carnaval.

      Já na 6ª.feira as Escolas de Samba de São Paulo estarão desfilando um ano inteiro de sonho e fantasia.

     Depois do texto anterior (Carnaval 13), que só me trouxe dissabores, sinto, sinceramente, que eu não sirvo para isto aqui. Não sirvo mesmo. A gente se expõe para pessoas que não conhece nem sempre civilizadas, pessoas ruins mesmo, gente que vive para magoar outras pessoas, de maneira gratuita, inconseqüente.

     De forma que não me sinto muito à vontade para escrever. No entanto, seguirei tentando. Hoje eu gostaria de escrever sobre as marchinhas de carnaval de Lamartine Babo e também Braguinha, aquelas marchinhas ingênuas, de um país que não existe mais. Nem nunca mais vai existir. Não vi esse carnaval, evidentemente, mas conheço suas canções, especialmente aquele estilo de marcha-rancho que desapareceu.

     Tudo desaparece.

     A semana do Carnaval, o Bloco do Poeta, de pessoas invisíveis que vão caminhar pela madrugada e sonhar com a possibilidade do sonho talvez ainda possível. Definitivamente, a fantasia acabou. Definitivamente. Acabou tudo. Imagino aquelas marchinhas de carnaval que eram verdadeiras declarações de amor ou sátiras inteligentes. Nada disso existe mais.

     Os caras dizem que eu sou saudosista, como se isso me fosse pejorativo. Sou saudosista, sim, tenho saudade da Beleza. Tenho saudade de tudo. Tenho saudade de mim. Tenho saudade da saudade, aquela que dói fundo, bem fundo.

     Por exemplo, estes versos de Lamartine Babo para uma canção que nem era de Carnaval, era para as festas juninas brasileiras, mas que dão a idéia de uma época que nem na memória existe mais: 

     Chegou a hora da fogueira

     É noite de São João

     O céu fica todo iluminado

     Fica o céu todo estrelado

     Pintadinho de balão

     Pensando na cabocla a noite inteira

     Também fica uma fogueira

     Dentro do meu coração. 

     Esses versos dão a idéia da poesia de um tempo que envolvia, também, o carnaval que ainda não era uma indústria, mas sim a manifestação de um povo que apenas queria ser feliz.

     Assim, penso, também, na marcha-rancho “Pastorinhas”, uma beleza que chega a doer dentro da gente. Mas quem fez a canção ? Noel Rosa e Braguinha. Precisa dizer mais para a mediocridade reinante atual neste país em praticamente todos os setores ? Não, não precisa dizer nada. Braguinha e Noel Rosa. Coloco a letra, e deixo que ela fale por si mesma dessa poesia que se foi para sempre: 

     A estrela d´alva

     No céu desponta

     E a lua anda tonta

     Com tamanho esplendor

     E as pastorinhas

     Pra consolo da lua

     Vão cantando na rua

     Lindos versos de amor. 

     Linda pastora

     Morena da cor de Madalena

     Tu não tens pena

     De mim que vivo tonto com o teu olhar

     Linda criança

     Tu não me sais da lembrança

     Meu coração não se cansa

     De sempre e sempre te amar. 

     Era assim. Era só isso. Era só a palavra da Beleza, quando o carnaval, além da manifestação do povo, era também uma maneira de ser um pouco feliz e ter alguma esperança para viver. Acabou. 

CARNAVAL - 13

sexta-feira - 13/fevereiro/2009

colombina1     Eu imagino que ninguém, em algum momento, possa pensar que eu já gostei do carnaval e dele participava ativamente. Com toda a honestidade, a festa não me interessa mais. Já me interessou e muito, especialmente quando eu era um jovem repórter dos Diários Associados e quando esta cidade não era nem de longe o que é hoje. Isso não quer dizer que eu tenha 140 anos de idade. Não. Infelizmente quase tudo se transformou para pior num tempo muito curto. No Brasil, o tempo é sempre curto para tudo. Quando menos se imagina, já aconteceu.

      Eu sou de um tempo em que a gente podia ir jantar no “Um dois, feijão com arroz” às duas horas da manhã, andando tranqüilamente pela Sete de Abril, atravessando a Praça da República até chegar no restaurante, na rua Aurora. E isso – acreditem! – sem ser assaltado por ninguém. Não faz tanto tempo assim, como parece.

     Eu gostava de conversar com as putas da rua Aurora. E a palavra “puta”, aqui, não tem qualquer sentido ofensivo. Não. Elas faziam questão de ser chamadas assim. Escrevi um livro para essas mulheres, chamado “Lindas mulheres mortas”. O título era “Putas”, mas o editor não aceitou, disse que teria dificuldades com a censura e até mesmo para promover o livro. Ele tinha razão. Esse livro é uma longa carta de amor a essas mulheres, com quem eu tinha grande relação de amor e de afeto. Elas também gostavam de mim. Diziam entre si que eu era meio louco.

      Era um tempo louco, também, no bom sentido. Basta dizer que um dia fizemos uma aposta com outros jovens companheiros da redação. Duvidaram que eu e o Arley Pereira teríamos a coragem de dar uma volta pela cidade completamente nus, eu dirigindo o meu Dodge e o Arley Pereira no banco ao meu lado.

      E não foi muito tarde da noite, não. Umas 10 horas. A gente, nessa época, estacionava o carro na Sete de Abril mesmo. Deixei o Dodge em  frente aos Diários Associados, rua Sete de Abril, 230. Descemos todos. Eu e o Arley entramos no carro e tiramos a roupa. Tudo. Jogamos no banco de trás. Ficamos só de sapato. O que já era muito.

      E lá fomos nós. Descemos a Sete de Abril, pegamos a Xavier de Toledo, atravessamos o a Praça Ramos de Azevedo, passamos por trás do Teatro Municipal, descemos a Conselheiro Crispiniano, subimos a Avenida São João, entramos na Ipiranga e finalmente na Sete de Abril, até a porta do jornal. Completamente nus. Ganhamos a aposta, que era uma rodada de chope no Costa do Sol.

      As mulheres se negavam a acreditar, como Cinira Arruda e Baby Garroux. A Irene Ravache e Marlene França riram muito da história. Diziam que éramos uns “desavergonhados”. Bete Mendes seria presa como subversiva alguns meses depois. Foi torturada.    

      Lembrei-me da figura de meu amigo Arley Pereira agora, ao seguir nesta série de Carnaval, porque ele era o crítico de Música dos Diários Associados e da TV Tupi, e no Carnaval escrevíamos muito sobre a festa, especialmente eu, que estava metido em praticamente todas as pequeníssimas escolas de samba de São Paulo, uma cidade que não era a brutalização total que é hoje. Lembrei-me do Arley e acabei contando esta história, meu amigo que faleceu faz alguns meses.

      Eu sabia tudo do Carnaval, especialmente das escolas de samba, que eu defendia com unhas e dentes, porque, antes de tudo, eu sabia do esforço daquelas pessoas que praticamente não tinham nada, da periferia da periferia, e que pagavam uma fantasia simples para desfilar. Gente que dava a vida por sua escola, que chorava ao beijar a bandeira da agremiação antes do desfile começar. Gente que partia para o desfile como se fosse uma guerra. E depois existia aquela verdadeira zombaria dos cariocas em relação ao carnaval de São Paulo. Eu conhecia de perto o significado daquilo tudo, porque estava lá misturado. Na época eu gostava demais da “Mocidade Alegre”.

      Como jornalista cobri muitos anos dos desfiles e o jornal de dava a liberdade de escrever, um dia depois do desfile: “A escola campeã do carnaval deste ano é a…”. Nunca errei. Não que fosse infalível. Não. Mas eu sabia. E me desculpem estar usando tanto a primeira pessoa. Eu, eu, eu. É que isto, no afinal, soa como um depoimento.

      Os primeiros desfiles das pequenas escolas foram realizados no Vale do Anhangabaú. Com o crescimento das escolas, os desfiles passaram para a Avenida São João. Descrevo um desfile inteiro da São João num romance meu chamado “Autópsia”, que está esgotado há muitos anos. Da São João, o desfile foi para a Avenida Tiradentes, até a construção do sambódromo, onde ainda fui alguns anos, até me desligar do carnaval.

      Não saí desiludido, não, como pode parecer. Digamos, quase desiludido. Aquele carnaval da Tiradentes e depois do sambódromo não era mais o meu carnaval daquela gente simples e sincera com quem eu conversava nos bares distantes. A cidade era outra. Os meus 19 leitores podem não acreditar, mas a cidade de São Paulo já existiu, sim. Existiu de verdade. Eu sou testemunha disso. Uma cidade que era feliz. Os suicidas da época procuravam o Viaduto do Chá para se matar e se atiravam lá de cima para o chão do Anhangabaú.

      Cada notícia de suicídio no Viaduto do Chá que saía nos jornais provocava outros suicidas em potencial. Até que os jornais fizeram um acordo, de não noticiar mais suicídio no Viaduto do Chá. E nunca mais ninguém se matou no Viaduto do Chá. Até eu, impressionado com o número de gente que se atirava do viaduto, fiz de um suicida o personagem principal de um romance meu, também esgotado, “A faca no ventre” que foi publicado no Japão, vejam vocês. No Japão. No Brasil saiu pela editora Ática, de São Paulo.

      Tanto tempo depois, sinto que tudo de fato mudou. Mudou para sempre. Para nunca mais. Sinto-me triste. Sinto que estou triste ao escrever tudo isto. Alguém dirá que eu sou um saudosista, de maneira pejorativa. E eu responderei: Sou saudosista sim, tenho saudade de uma cidade que morreu, de um carnaval que era do povo, para o povo, pelo povo. Tenho saudade das coisas que desapareceram, de amigos que já se foram, dos poemas que não foram escritos, das namoradas que eram sempre desesperadas e das mulheres que me habitaram a alma, como se fossem uma eterna Colombina que sempre estaria presente nas esquinas e no sonho que se desfez.