Arquivos para abril, 2009
O MUNDINHO RIDÍCULO DA LITERATURA BRASILEIRA
terça-feira - 28/abril/2009Para escrever o que pretendo, utilizarei como ilustração a foto da moça rindo, que já usei em outro texto e que dá bem a idéia do que estou sentindo neste momento.
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Eu queria falar com meus 19 leitores sobrem esse mundinho ordinário que é a literatura brasileira. É tão ridículo que se impõe um ingrediente absolutamente deprimente que inclui até mesmo a famigerada inveja. Isso mesmo, inveja, um das coisas mais deploráveis do mundo e da vida do homem.
Os meus 19 leitores sabem que eu fui incluído pelo editor Luiz Alves na Coleção “Melhores Poemas”, a mais importante da poesia atualmente neste país, dirigida pela minha amiga escritora Edla Van Steen. Vocês não podem imaginar o que representou isso para os inimigos. Eu digo isso dando gargalhadas. Até porque todos sabem da minha posição em relação à poesia brasileira, como poeta e como crítico de literatura, especialmente de poesia. O que se produz neste país, descontadas as exceções, não posso generalizar, é constrangedor. E o comportamento de alguns carinhas que detêm o poder nos suplementos culturais é vergonhoso. De uma estupidez inacreditável.
Um poeta amigo que não escreve a poesia que escrevo, já que é ligado à poesia concreta, disse o seguinte:
-Poeta, este lançamento representa uma conssgração.
Isso veio de um poeta que escreve outro tipo de poesia, mas que é, antes de tudo, uma pessoa civilizada.
Estou escrevendo tudo isso para dizer o seguinte: quando saiu “Álvaro Alves de Faria – Melhores Poemas”, com seleção e belíssimo ensaio do poeta Carlos Felipe Moisés, o escritor Ronaldo Cagiano escreveu uma resenha longa sobre o livro, com o título “A poética do desassossego e da insubmissão”. Ronaldo fez uma espécie de roteiro de minha vida na poesia, e o fez de maneira honesta, como de resto é tudo que ele escreve.
Um idiota, que até então se dizia meu amigo, porque até tínhamos uma estreita ligação, que é editor de um jornal eletrônico para o qual escrevi várias vezes, se negou a publicar a resenha que tínhamos combinado meses antes, quando o livro sairia. Teve de sair bem depois porque fiquei doente. O idiota negou-se a publicar a resenha dizendo tratar-se de um “elogio gratuito”. Aliás, todas as resenhas são “elogios gratuitos” e a do Ronaldo Gaciano entrou nisso. Eu simplesmente não acreditei.
Então que lhe disse que, infelizmente, passei a vida inteira promovendo livros e autores, especialmente brasileiros – a vida inteira – escrevendo “elogios gratuitos”. Ele que enfie o jornal eletrônico dele num lugar bem seguro.
Pois a resenha do Ronaldo Cagiano sobre Melhores Poemas já saiu em quatro jornais, em um deles em página inteira, duas revistas e mais um grande número de sites e jornais eletrônicos, inclusive no exterior. A resenha do Ronaldo pode ser lida no meu site www.alvaroalvesdefaria.com
É preciso lembrar, também, que a resenha não foi aceita num jornal de literatura em que eu escrevia há mais de cinco anos, praticamente em todos os números, fazendo resenhas e longas entrevistas com autores brasileiros. Nesse caso, a desculpa foi a seguinte: O Ronaldo é seu amigo…
É assim que funciona essa droga que tem à frente uma gente medíocre. Ter sido incluído na Coleção da Editora Global de São Paulo foi um golpe mortal para alguns desafetos aventureiros, que falam, falam, falam, falam, teorizam, teorizam, teorizam, mas escrever bons poemas, livros de poemas, nada. Passam a vida fazendo exercícios e ditando as regras de um jogo ssujo do qual não participo, e tenho condições de não participar. Por isso, fugi para Portugal e por isso me transformei num poeta português.
O meu amigo Ronaldo Cagiano acaba de me comunicar onde a resenha que escreveu vai sair agora, numa das mais importantes revistas do país que trata de literatura com seriedade. Vou repetir: trata da literatura com seriedade.
Eu confesso, estou escrevendo este texto com raiva, mas rindo muito, dando muita risada. Peço que meus 19 leitores de desculpem estar tratando deste assunto aqui, mas o objetivo é mostrar como funciona a cultura neste país. Quase tudo conchavo.
Eu não sou um cara razoável. Não sou. Nunca serei. Eu sou um cara passional. Eu ajo com paixão e me entrego por inteiro às coisas que quero fazer. Passei a vida inteira escrevendo sobre livros, falando sobre livros e autores brasileiros, utilizando jornais, revistas, rádio e televisão.
Tudo “elogios gratuitos”, como o idiota do jornal eletrônico classificou a resenha do Ronaldo Cagiano.
Graças a Deus estou fora dessa sordidez. Meu negócio é poesia séria, não é conversa e discursinhos imbecis. De discursos já me valem os do Lula, que não agüento mais.
ENLOUQUECIMENTO
quinta-feira - 23/abril/2009A gente não fica louca de repente. Não. O enlouquecimento vem aos poucos, diante dos desencantamentos que se multiplicam e crescem cada vez mais. Fica então tudo um desencanto. Fica então uma mancha escura em tudo. Uma ferida. Uma palavra que se anula. Uma palavra que se perde. Uma palavra que deixa de existir. A loucura vem aos poucos, com a destruição de tudo. Os valores estão todos invertidos. A mediocridade ganha o espaço, a violência avança e as pessoas indefesas se escondem dentro de si mesmas, porque temem pela vida. O enlouquecimento vem aos poucos. Vem vagarosamente. Às vezes leva anos até se instalar. Então se instala. Então a gente chora. Depois a gente ri. Depois a gente foge. Depois a gente se procura. Depois a gente não se encontra. Depois a gente corre de encontro aos rios. Depois a gente procura o mar. Depois a gente conversa com as gaivotas. Depois a gente torna a chorar. Depois a gente torna a rir. Depois a gente fica em silêncio. O enlouquecimento vem aos poucos. A solidão também. O nada. O que não resta mais. Depois a gente se rende.
Depois a gente reza. Depois a gente tenta construir um aceno nas mãos e percebe que as mãos foram decepadas. É assim.
MINHA CONCLUSÃO: RIR ATÉ NÃO AGUENTAR MAIS.
quarta-feira - 22/abril/2009Estou sendo conduzido para um hospício.
Foram necessários oito enfermeiros e duas assistentes. Uma delas já me aplicou uma injeção. Ela me disse assim:
-Querido, você precisa se acalmar!
Ela me chamou de “querido”.
Pedi que soltassem um pouco a camisa de força para eu escrever algumas
linhas aos meus 19 leitores.
O problema é que não consigo mais parar de rir.
Estou incomodando os vizinhos, o cachorro, os passarinhos,
as pessoas que passam na rua, todo mundo. Estou incomodando todo
mundo porque não paro de rir.
Estou rindo sem parar e sei que vou continuar rindo.
Então os cinco psiquiatras que me atenderam decidiram me mandar para um hospício.
Dizem que é para relaxar um pouco.
Eu acatei. Eu só acato ordens.
Cheguei à conclusão que o melhor é rir mesmo, rir escancaradamente, rir até de maneira obscena, dando gargalhadas, um riso alucinado e também alucinatório.
Diante de tudo, o melhor é rir, rir, rir, rir, rir, rir, rir, rir, rir sem parar.
-Queridinha, pode apertar de novo a camisa de força.
Não sei porque ela está chorando.
DEVO RIR OU CHORAR ?
terça-feira - 21/abril/2009Os meus 19 leitores sabem o que aconteceu comigo.
Depois daquela ocorrência dramática, em minha casa, fiz tudo que a polícia mandou.
Entre as medidas de segurança, coloquei quatro câmeras que monitoram o ambiente dia e noite.
Assim, o morador da casa tem mais informação, pela imagem, do que está ocorrendo por exemplo na rua, diante de sua casa, no quintal, todos os locais.
A pedido da polícia coloquei quatro câmeras.
Ontem uma delas foi roubada.
Eu devo rir ou chorar ?
LISBOA
quinta-feira - 16/abril/2009
Tenho pensado muito em Portugal. Sonhado também. Sinto tristeza em dizer que as coisas me cansaram definitivamente. Esta paisagem melancólica não me serve mais. Eu também para ela não sirvo. Estou cansado de tantas notícias que só deprimem. Só deprimem. Estou cansado definitivamente de tanta mentira. Estou cansado definitivamente de tanta euforia enganosa. Estou cansado definitivamente de tanta gente sem escrúpulo nenhum. Nunca fui um jornalista de apenas informar, porque sempre, desde o início, entrei no jornalismo opinativo. Isso foi naturalmente. Agora nem dá para opinar mais. O país é um circo, como eu já escrevi aqui uma vez - e que o circo me perdoe pela comparação. O país é um circo, em que todos os dias há um espetáculo deprimente. Os palhaços somos nós, dentro de um picadeiro sem saída. Há também os palhaços que mandam, que têm o poder de dirigir as cenas. Esses são palhaços horríveis, criminosos. Definitivamente cansei. Os meus 19 leitores me perdoem por tanta desilusão. A palavra é essa mesma: desilusão. Me perdoem também pelo desencantamento absoluto. Absoluto. Absoluto. Tenho pensado muito em Portugal. Sonhado também. Tenho medo de sair às ruas. Tenho medo de ficar escondido dentro de casa. Tenho medo de ir ao quintal. Tenho medo de sair no trânsito. Tenho medo de adormecer. Tenho medo das notícias que escrevo todos os dias. Mesmo opinando, eu somente repercuto a mentira de cada dia. Todas as mentiras e tramóias de todos os dias, mazelas de uma gente desprezível. E põe desprezível nisso. E todos eles estão no poder. São eles que decidem o meu destino. Eles ordenam e eu obedeço. E nada mais há para fazer.
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Para acalmar um pouco esta dor brasileira, coloco no meu blog hoje outro poema de meu livro “Poemas Portugueses”, publicado em Portugal em 2002. Quem sabe eu consiga me sentir melhor.
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SETEMBRO
Nesta manhã de setembro
ao lado do Mosteiro dos Jerônimos
e ao ver o Tejo na branca água desta chuva
lembro das noites brasileiras
e das flores mortas nos alpendres.
Lembro do Brasil
nesta manhã de Portugal
ao lado do Mosteiro dos Jerônimos
como se não lembrasse de nada
já que me farto
dessa matéria das ruas e das pessoas.
Como se não lembrasse:
a poesia fere por dentro como o fogo que marca
sem deixar vestígios de sua chama invisível.
Como se assim pudesse entre os passos de meus sapatos
calar a palavra do poema.
Ah naus que saem de mim nesta aurora sem nome
a morrer navegadores de minha antiguidade
aqueles que ousaram cavoucar no mar o naufrágio do Outono
esse caminhar-se por dentro
por mares nunca dantes navegados.
Ah morrer na circunstância exata do não previsto
dessas
que não se mostram
que não se fazem
que não se calam
dessas
que dentro dos livros emergem como flautas doentes
e que na terra se plantam como raízes devoradoras
dessas
como a que vejo nesta manhã de setembro
ao lado do Mosteiro dos Jerônimos
a me lembrar das noites brasileiras
das bocas vermelhas de soluços
do corte do lábio que se arranca
à força de um alicate
(Tristes os cães se deitam nas praças)
O céu assim cinza
me parece um céu cinza
assim como está.
Que me venha um dia por esta terra matar-me em Lisboa.
Nesta manhã de setembro a olhar o rio
no deslumbramento que me oprime e me tira a liberdade
da lágrima e do soluço
pressinto ausências na realidade de não ter mais gestos
aqui
ao lado do Mosteiro dos Jerônimos nesta manhã de Portugal
entre santos e homens
mulheres de rostos ásperos
aqui
onde não me sei nem me principio
não me faço nem me estou.
POEMA
segunda-feira - 13/abril/2009BEATRIZ
Em algum lugar do mundo
existirá uma mulher chamada Beatriz
e haverá de ser colhedora de uvas
nas quintas de Portugal.
Em algum lugar do mundo essa Beatriz
estará usando sandálias de camponesa
será talvez pescadora das tardes e dos rios.
Em algum lugar me esperará
como se não esperasse ninguém
como se não fosse ela
a própria Beatriz em alguma igreja distante.
Estará essa Beatriz a colher os figos do Outono
com desejos de partir para os oceanos
a ouvir as aves
no pátio de sua espera.
Haverá de estar com uma bolsa de folhas
o musgo das árvores
o limo do chão.
Haverá de saber cantar silêncios
essa Beatriz à janela de um castelo.
Em algum lugar de Portugal.
(De meu livro “Poemas Portugueses”, publicado em Portugal em 2002)
SONHO
sábado - 11/abril/2009Tenho pensado muito em você, Coimbra. Sempre que me sinto triste eu penso em você. Eu acho que existe um pouquinho de mim em você. Sempre que me sinto abatido, penso em você. Sempre que me dói alguma coisa do lado esquerdo de minha alma, penso em você. Quando choro no sufocamento, penso abraçar você e me deixar esquecer. Nestas horas tristes penso em você Coimbra, que é uma cidade-mulher. Eu sei que você tem alma feminina, Coimbra. Seu nome é de mulher. Nestas horas tristes e de medo, penso em você Coimbra. Queria ficar com você a vida que ainda tenho por viver. Como talvez o último sonho. Queria poder andar com você, Coimbra, de mãos dadas, ao lado do Mondego, olhando as folhas do inverno no chão e ouvir cantar suas baladas, esse fado lento de tanta poesia que me faz viver. Queria estar com você Coimbra, nesta hora, nesta vida, neste instante, neste espaço do tempo, como o sonho a ser vivido. Queria ser mais poeta com você, como sempre consigo ser quando caminho ao seu lado, em suas ruas, nas roupas a secar nas janelas, nos vasos de flores. Queria agora estar com você, Coimbra, adormecido diante da Sé Velha, a observar os estudantes a cantar e a ver as cores que só você tem. Queria estar com você adormecido, junto ao seu corpo, suas pernas, suas mãos, seus olhos, sua boca. Queria viver em você, Coimbra. Queria fugir, Coimbra. Queria fugir, queria fugir, queria fugir. Quero fugir, Coimbra. Quero fugir. Quero deixar o lugar que não me pertence. Quero sair de mim. Quero ir-me. Quero conversar com Antero de Quental. Quero conversar com Miguel Torga. Quero andar em você. Quero passar uma noite da Primavera sentado à margem do rio, esperando Santa Clara e a Rainha Santa Isabel. Queria conversar, Coimbra. Queria me esconder. Queria falar com Inês de Castro na Quinta das Lágrimas e com ela percorrer a fonte dos amores. Queria tanto, Coimbra. Queria tanto. Queria poder chorar a dor que me percorre. Queria poder limpar-me de mim. Queria ter outra alma. Queria poder tocar meus sapatos rumos que não conheço, mas dentro de seu abraço, Coimbra, e de seu beijo, esse que nunca esqueci nem nunca esquecerei, desde o dia em que conheci você. Sempre que estou triste, penso em você, Coimbra. Como agora, que estou triste. Como agora. Estou triste, Coimbra. Uma tristeza sem cura, a marcar-me como a cicatriz feita num corte profundo de uma dor que vai além do que a palavra pode explicar.
POEMA
sexta-feira - 10/abril/2009AGRADECIMENTO
quarta-feira - 8/abril/2009Quero agradecer a todos que manifestaram o seu carinho por mim neste episódio. Sei que não sou o único caso. Sei disso. Isto acontece toda hora, em todo lugar, com finais mais violentos. Agradeço do fundo de meu coração todas essas palavras. Particularizei o meu caso, mas com a visão do que ocorre para tantas famílias. Eu fico comovido com estas manifestações.
Agradeço com minha alma.
É com tristeza que eu digo, com muita tristeza: a bandidagem venceu!
ET: Eu, você, todos nós, trabalhamos de janeiro a maio só para pagar impostos. Cinco meses de trabalho somente para pagar impostos. O que nos vem em troca é isso: saúde péssima, segurança péssima, educação péssima, tudo péssimo. E o exemplo vem de cima, lá de cima.
A bandidagem venceu!


















