Arquivos para maio, 2009
CRIME E CASTIGO
quinta-feira - 28/maio/2009
Há temas que são difíceis de tratar. Faz alguns dias gravei um vídeo para a JP Online sobre a menina assassinada em Rio Claro, interior de São Paulo, com um tiro na cabeça. Fiz o texto e gravei mostrando minha indignação que é verdadeira diante dos assassinos quase sempre impunes. E tem gente que defende. Tem gente que chega até mesmo a justificar o crime de matar, de tirar a vida de outra pessoa. Por exemplo: há quem defenda que quando uma mulher decide terminar um namoro ou um casamento tem de morrer mesmo. Como se o homem fosse o dono dela. No caso de minha amiga Sandra Gomide, por exemplo, assassinada com dois tiros por alguém que até hoje ficou na prisão apenas quatro dias. Sabem quando ele será preso ? Nunca. Por que ela foi assassinada ? Porque ela queria viver. Então ele matou, covardemente. E tem gente que defende. Defende e até justifica o assassinato. Em outras palavras, diz que ela tinha de morrer mesmo. É assim que as coisas funcionam neste país. Aquela moça (não tenho outro termo) que ajudou a matar os pais, a Suzane, já vai sair da prisão. Cumpriu um sexto da pena e já está se preparando para sair. Dá vergonha. Dá revolta. Voltando ao assunto inicial: gravei um vídeo sobre a menina Gabriela, que levou um tiro na cabeça dentro de casa e morreu. O assassino é um menor de 17 anos. Um menor assassino que é protegido pelas leis deste país. O menor assassino, que matou a menina Gabriela, pode votar para escolher o presidente da República, mas não responde pelos seus atos criminosos. Gravei o vídeo e recebi muitas manifestações, entre elas muitas com críticas violentas, como se eu fosse um fascista, ou um nazista, ou qualquer coisa que o valha. Mas eu sou assim mesmo, eu ponho a cara para bater, talvez seja esse o meu mal. Eu não vou compreender nunca como é que um menor assassino de 17 anos, que sabe muito bem o que está fazendo, pode votar para escolher o presidente da República não responde pelos seus atos. Eu não vou compreender. A gente vive com leis dos anos 30 e 40. O mundo mudou muito, para pior. As informações vêm de todos os lados. É um bombardeio de informações sobre tudo. Então um menor de 17 anos que mata, violenta, faz o que bem entende, não responde pelos seus atos criminosos. Mas ele pode votar para escolher o presidente da República. Isso não cabe na minha cabeça. Como não cabe na minha cabeça que o assassino de Sandra Gomide tenha sido preso por apenas quatro dias, mais nada. O que mais assusta é que tem “gente” que ainda defende o assassino e justifica. No caso da Sandra, por exemplo, o cara que andou me aborrecendo, deixa claro o seguinte: ela tinha de morrer mesmo. Sei que o assunto é delicado, mas não sei fugir de assuntos delicados.
O texto do vídeo que gravei na JP Online é o seguinte:
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Ouço a notícia de que a polícia prendeu o menor de 17 anos acusado de atirar na cabeça da menina Gabriela, de 8 anos, na cidade de Rio Claro.
Foi mais um assalto brutal, de absoluta violência. Eram dois ladrões. E um deles disparou contra a menina, que morreu no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.
Podem ter certeza. Esse menor assassino, criminoso cruel e perverso, terá todo tipo de proteção. Não tenham dúvida.
Já a família da menina assassinada durante o assalto, não terá uma palavra de conforto de qualquer autoridade. Nem precisa, sinceramente.
É interessante que no Brasil menor de 16 anos pode votar para escolher o presidente da República, por exemplo.
Mas não responde pelos seus atos criminosos. E menor, no caso, é um cara violento, que faz o que bem entende com suas vítimas porque sabe que as leis deste país não o atingem.
O menor delinqüente tem salvo conduto para matar quem quiser, para roubar, violentar, fazer o que bem entende, que ficará impune e ainda merecerá cuidados especiais.
Quem já esteve nas mãos desses caras sabe bem do que estou falando. Repito: quem já esteve nas mãos desses caras sabe bem co que estou falando. Menor criminoso no Brasil vota para presidente da República, mas não responde por seus crimes.
O menor criminoso pode matar a vontade, famílias inteiras, se quiser, ou apenas uma menina de 8 anos de idade. Tanto faz.
Sabe-se que esse menor preso é criminoso desde os 14 anos e já praticou todos os tipos de barbaridade.
Certamente amanhã estará nas ruas novamente. A menina Gabriela não voltará mais.
Mas o bandido, esse sim, gozará da vida
matando a seu bel prazer, sem dever satisfação a ninguém, protegidos por leis que servem somente aos bandidos, não à sociedade.
O menor criminoso foi preso, e daí ? Daí, nada e ponto final.
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Esse foi o texto que escrevi e interpretei no vídeo que fiz na JP Online. Sinceramente, repetindo, sei que o assunto é delicado. Mas a sociedade tem de ser prática. Existe muita hipocrisia nisso tudo. Confesso que não me sinto bem quando sou xingado como fui por causa desse texto e desse vídeo. Gente que defende mesmo o menor criminoso, mas não fala uma única palavra sobre a menina assassinada friamente com um tiro na cabeça, como se a menina não existisse. Por isso que, muitas vezes, tenho vontade de parar de escrever porque – sempre foi assim – não escondo o que sinto diante das coisas. Então coloco isso no blog, nem sei porquê, sinceramente. Nem sei porquê. Coloco no blog porque a indignação dói. A raiva também.
PALAVRAS
quarta-feira - 27/maio/2009Sou um homem feito de palavras que não uso mais. As palavras esquecidas para sempre. As que anunciavam uma chegada, as que serviam para despedidas. Um dia me vi diante do mar. E vi as gaivotas. E também os peixes. Então me deixei levar. Transformei-me em uma árvore que se devorou em si mesma. As palavras morreram. No seu lugar coloquei cinco pedras. Todas têm alma. Falo com elas, mas só à noite, quando estão adormecidas. Depois também adormeço e faço de conta que existo.
PROCURA-SE
terça-feira - 26/maio/2009NECROLÓGIO QUE ZÉ RODRIX ESCREVEU PARA ELE MESMO
sábado - 23/maio/2009Conversei algumas vezes com Zé Rodrix. Sempre me pareceu uma pessoa demais cordial para viver num mundo como este. Uma das vezes foi quando falamos sobre seu livro de estréia, “Diário de um Construtor do Templo”, no qual ele tirou o “é” do “Zé” e assinou Z.Rodrix. Um ótimo escritor. Do compositor não preciso falar. Não é necessário. Aliás, nada é necessário.
Mas eu quero passar aos meus 19 leitores um necrológio que Zé Rodrix escreveu para ele mesmo, em 2004, a pedido do jornalista Ulisses Mascarenhas. O texto foi guardado pelo jornalista Luis Nassif, que passou uma cópia para o poeta Ulisses Tavares.
O poeta Ulisses Tavares me envia esse auto-necrológio de Zé Rodrix, informando que esteve na sua despedida e de lá saiu com o coração murcho.
Tanta gente ruim fica por aqui e pessoas como ele vão embora para sempre. Lembro-me de seu entusiasmo a me falar de seu livro, dizendo que os leitores participariam da construção do Templo que o Rei Salomão mandou erguer para seu Deus Yahweh. Ao mesmo tempo os leitores conheceriam a história de Joab e seu destino. Seria, como dizia, um encontro com o Rei dos hebreus e a revelação dos segredos mais íntimos do Grande Mestre Arquiteto, Hiran-Abiff, que permite compreender o verdadeiro significado da palavra Mestre.
Era seu livro de estréia, um romance, no qual ele usou como epígrafe o Salmo 133, que diz: “Oh, quão bom e quão suave/ é viverem os irmãos em união:/ é como o óleo perfumado na cabeça,/ que desce sobre a barba, a barba de Aarão:/ é como o orvalho do Hermon/ que desce sobre o Monte Sião,/ pois o Senhor derramou ali sua bênção e vida para sempre”.
Na primeira página ele faz agradecimentos a algumas pessoas, entre elas sua mulher Júlia e seus filhos e finalmente “aos pedreiros-livres de todo o Universo, a quem esta história precisa ser contada e recontada a cada momento, para que nunca percamos de vista quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.
Coloco tudo isso no meu blog para mostrar o que existia na alma do músico, compositor, maestro, arranjador, ator, autor, pintor, publicitário, professor e jornalista.
O necrológio que Zé Rodrix escreveu para ele mesmo, em 2004, é o seguinte:
“Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios.
Podem sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, já que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso.
Peço parcimônia nos eflúvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa.
Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”
Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Não pretendo puxar a perna de ninguém à noite e nem assombrá-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possível. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus próprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre já será um grande intróito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como já vou chegar lá tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que não será difícil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da política do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, já tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num Sábado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte.”
30 ANOS
terça-feira - 19/maio/2009Na minha vida
tudo faz 30 anos.
Faz 30 anos que me matei pela primeira vez.
Faz 30 anos que fugi com uma mulher descalça para Cingapura.
Também faz 30 anos que me casei com uma astronauta
que hoje vive em outro planeta.
Faz 30 anos que esqueci um livro de Miguel Torga num parque.
Faz 30 anos que uma estrela cadente caiu no meu quintal.
Faz 30 anos que eu explodi um submarino
inimigo que invadiu um aquário
que eu tinha na sala com peixes azuis.
Faz 30 anos que escrevi um poema de amor.
Faz 30 anos que esqueci de enviar uma carta.
Faz 30 anos que pela única vez acreditei na poesia.
Também faz 30 anos que eu comecei a ficar à deriva de mim.
Faz 30 anos que encontrei Cesário Verde na Galeria Metrópole,
pouco antes de ele ter sido envenenado na Praça da República.
Faz 30 anos que eu deixei de ser poeta
por ter a certeza de que a poesia não me levava a nada.
Também faz 30 anos que eu me atirei
no mar com uma pedra amarrada nos pés.
Faz 30 anos que descobri uma nova estrela no céu.
Faz 30 anos que uso a mesma roupa de domingo.
Faz 30 anos que li o primeiro poema de Eugénio de Andrade.
Faz 30 anos que fiz um barco de papel
para atravessar o oceano e naufraguei.
Faz 30 anos que descobri não ser navegador.
Faz 30 anos que vi que nada mais havia para descobrir.
Faz 30 anos que decidi esquecer.
Faz 30 anos que resolvi não dizer mais nenhuma palavra
e me deixei engolir por um silêncio
feito de fúria e temporais.
Faz 30 anos que entrei num espelho
e do outro lado da imagem me vi do avesso,
fazendo tudo ao contrário de mim,
o que ocorre até hoje,
30 anos depois.
Faz 30 anos que fiz minha primeira viagem interplanetária
e não consegui mais voltar.
Faz 30 anos que plantei canteiros impossíveis
numa planície que não existia.
Faz 30 anos que calei espantos
como se assim pudesse me salvar.
Faz 30 anos que não aprendi a tocar violino.
Faz 30 anos que saltei do Viaduto do Chá
e vi o último crepúsculo do Anhangabaú.
Faz 30 anos que tentei escrever um poema.
Faz 30 anos que me sinto equivocado.
Faz 30 anos que me comovo.
Faz 30 anos.
Na minha vida tudo faz 30 anos.
Faz 30 anos que conheci uma bailarina.
Faz 30 anos que fugi com ela para lugar nenhum.
Faz 30 anos que ela me deixou diante do mar.
Faz 30 anos que a procuro para saber seu nome.
Faz 30 anos que me perdi de mim
e fiz questão de não me encontrar mais.
Faz 30 anos que Rilke bateu à minha porta
acompanhado de três anjos de cabelos azuis
com um castiçal aceso nas mãos.
Faz 30 anos que aprendi a voar
e me juntei aos pássaros
especialmente os que estavam perdidos.
Faz 30 anos que desisti.
CONVITE
quinta-feira - 14/maio/2009
Convido meus leitores para o lançamento do livro “Estação das Tormentas”, do poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart. Será no sábado, dia 16, às 16 horas, seguido de um recital de poesia com vários poetas de São Paulo. Uma tarde de poesia e vinho.
O pequeno livro será distribuído gratuitamente aos presentes.
O lançamento será na Livraria Martins Fontes, na avenida Paulista, 509, em frente à estação Brigadeiro do Metrô.
“Estação das Tormentas” foi publicado pela RG Editores, com desenho de capa e ilustração de Valdir Rocha.
Os poemas de Alfredo Perez Alencart foram traduzidos por mim, com a ajuda de minha amiga Carmén Barreto.
O recital de poesia reunirá os poetas Celso de Alencar, Eunice Arruda, Luiz Roberto Guedes, Mariana Ianelli, Raimundo Gadelha, Ronaldo Cagiano, Rubens Jardim e Zuleika dos Reis.
Conheci Alfredo Pérez Alencart em Salamanca, na Espanha, depois de ter sido convidado por ele a participar do X Encontro Iberoamericano de Poetas, em 2007, nesse ano dedicado ao Brasil e que teve em mim o poeta brasileiro homenageado, com o lançamento de uma antologia da minha poesia, traduzida por ele.
Alfredo Pérez Alencart, poeta e ensaísta, nasceu em Porto Maldonado, no Peru, em 1962. É professor de Direito na Universidade de Salamanca, na Espanha, membro da Academia Castelhana e Leonesa de Poesia e diretor do Centro de Estudos Ibéricos e Americanos de Salamanca. Desde 1998 é coordenador dos Encontros de Poetas Iberoamericanos, que organiza na Fundação Salamanca Cidade de Cultura. Entre 1992 e 1998 foi Secretário da Cátedra Poética “Frei Luis de Leon” da Pontifícia Universidade de Salamanca. É autor de vários livros de poesia. Tem poemas publicados em livros e antologias traduzidos para o alemão, inglês, italiano, russo, árabe, indonésio, búlgaro, hebreo, sérvio e coreano.
No prefácio que escrevi, digo que Alfredo Pérez Alencart pode ser chamado de um homem que faz de sua poesia um gesto de solidariedade. O poeta produz uma poesia dirigida ao homem e a toda forma de vida, o que significa, antes de tudo, estar ligado ao mundo, com os olhos voltados aos mais fracos, aos que são obrigados a se submeter às humilhações que já se tornaram rotina num mundo de perversidades que passaram a constituir a paisagem mais nítida do ser humano.
EXEMPLO
quarta-feira - 13/maio/2009
Eu lido, todos os dias, com as notícias mais sórdidas que se pode imaginar, especialmente na área da política, na qual uma porção de gente ordinária dá as cartas, manda e desmanda. Em toda minha vida nunca vi tanta desfaçatez como vejo agora. Um cenário lastimável, de gente que traiu e ainda trai com cinismo. Gente que não presta mesmo. Gente que gosta de fazer discurso e no discurso mostra bem com palavras chulas o que vai por dentro. É um quadro que dói, porque este país não tem sorte mesmo. O que importa é o poder. Pura e simplesmente. Enganaram-se os que acreditaram. Gente que se tinha na maior conta não passa de um farrapo no que diz respeito à ética. E isso vale para quase todos. Sou um brasileiro profundamente amargurado. Não consigo mais conviver com essa mentira. Mas, no meio disso tudo, alguns poucos se salvam. E faz tempo que vejo a figura de um homem com muito respeito, pelas dificuldades que enfrentar com dignidade de um ser humano que não se deixa envolver pelas falcatruas de todos os dias, esse espetáculo deprimente que enche de vergonha aqueles que ainda conseguem pensar. Pena que esse homem, por quem tenho admiração, ajudou essa canalha toda que aí está. Eu me refiro ao senhor vice-presidente da República, José Alencar, que luta contra um câncer há 12 anos. A última cirurgia, no Sírio Libanês, durou 18 horas. Ontem o vice voltou ao hospital, para exame de rotina, como se informou. E foi constatado que todos os tumores retirados voltaram. Os médicos estão pensando o que devem fazer de agora em diante. E diante dessa notícia, esse homem que admiro, não se deixa abater. Ele sabe quanto a vida lhe é preciosa. Eu chego a me comover com seu comportamento diante da doença, com suas palavras, com sua coragem de enfrentar a adversidade, sempre cordial, sincero, um sorriso, um aceno de mãos trêmulas. A isso chamo dignidade. Seria diferente se no Governo todos tivessem essa dignidade. Eu escrevo estas palavras porque, nesse Governo, quase ninguém me merece qualquer respeito. Escrevo estas palavras que nada significam porque vejo nesse homem um exemplo de ser humano. Um homem. Apenas isso: um homem, na correta acepção da palavra.
poema
segunda-feira - 11/maio/2009devo morrer em 90 dias,
mas até lá poderei
plantar quatro girassóis no meu quintal.
também poderei falar
com alguns pássaros que se perderam
ou andar a esmo com meu revólver de plástico.
devo morrer em 90 dias,
mas ainda terei tempo de escrever algumas cartas,
embora nada tenha a dizer a ninguém.
sobre minha liberdade direi que é consequência de mim,
do que desejei fazer e não consegui,
como escrever um poema
que me tornasse um homem mais humano.
no entanto não consegui,
fugiu-me a palavra quando dela precisei
e nas minhas mãos restou-me um pedaço da face,
como se dela necessitasse
para entar numa loja
ou numa farmácia.
terei ainda tempo de repensar algumas coisas
e mudar as imagens em que acreditei a vida inteira.
nunca tive verdade alguma absoluta
e a poesia foi somente um equívoco
que não me perdoo,
porque cortou-me por dentro
e me fez sangrar o sangue que eu não tinha mais.
devo morrer em 90 dias,
mas ainda terei tempo de desenhar
uma lua no teto de meu quarto,
de ajudar os gafanhotos nas chuvas
e talvez fazer um rio no meu jardim,
onde eu possa molhar os pés.
não haverá poemas nem encantamentos,
só as serpentes do meu acaso
caladas no fundo do espelho.
então verei meu rosto pela última vez
e não me reconhecerei
porque sou um estranho de mim,
aquele que me habitou sem minha ordem
e consumiu para sempre
a alma que já se foi.
Mãe
sábado - 9/maio/2009
Esta imagem que se multiplica na tecida tez da face, onde vive o gesto mais antigo do teu rosto.
Assim quero ver-te, como se fosses a ave que voa sempre e traz a tarde nas asas de um tempo que atravessa a vida, como as de um anjo que percorre o céu a colher estrelas.
Assim, mãe, meu silêncio diante de teu aceno, essa planície que guardas na bolsa, onde adormecem os teus segredos e tuas palavras que saltam da boca como crescem as plantas no teu jardim de hortências.
Não esquece, mãe, da tua manhã que sempre haverá ao lado da tua janela, nem esquece o dia sempre por nascer, esse dia que se inaugura nos retratos e nos espelhos.
Fala da tua saudade, mãe, como se assim tudo pudesse se descobrir outra vez, o teu xale de esquecimentos, a dor ausente de ver o tempo ir-se embora, como vão os pássaros diante das chuvas.
Espera, mãe, adormecer novamente teu avental, onde guardas as avelãs e as cerejas, o varal onde estendes as noites em que te guardas, talvez soluço, talvez um riso, talvez um canto, talvez um sonho.
Atravessa, mãe, o dia em que te fazes no encantamento de todas as coisas, as que não existem mais e as que estão ainda por nascer.
Por fim, mãe, estende tuas mãos à folha da planta que trazes entre os dedos, e deixa, mãe, que cresçam mais as horas e as imagens das paredes.
Por fim, mãe, aproxima teu abraço, tuas mãos envelhecidas, teu olhar que se estende pelas cores, e reinventa o mundo, mãe, reinventa o mundo para que a vida possa se concluir.
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