Arquivos para junho, 2009
BIBLIOTECA DE LIVROS TRISTES
segunda-feira - 29/junho/2009Madrugada de domingo, ligo a televisão sem ânimo na vida. E vejo na TV Senado, uma reportagem que me deu algum alento diante das adversidades. Um cidadão simples de Brasília, que trabalha num açougue, Luis Amorim, foi juntando livros, quase todos velhos, antigos, muito encontrados no lixo e fez uma pequena biblioteca dentro do açougue. O lugar começou a ser conhecido e esse cidadão brasileiro, Luis Amorim, que mereceu essa reportagem da TV Senado, começou a receber livros. Além do açougue, ele começou a fazer pequenas bibliotecas nos pontos de ônibus de Brasília, às quais chama de “parada de ônibus cultural”. No dia em que a TV Senado foi fazer a reportagem com Luis Amorim, o escritor Fernando Morais, estava lançando um livro lá. O Fernando disse, então, que pessoas como Luis Amorim é que deviam ser os ministros da Cultura e da Educação. Convirá dizer que Luis Amorim só tem o curso primário. Leu o primeiro livro, com muita dificuldade, aos 18 anos. Ele mesmo confessou: um livro de leitura fácil, mas que ele não compreendia. Num dos pontos de ônibus de Brasília, onde Luis deixa vários livros, um senhor aposentado lia um pequeno volume. E disse que, com o benefício que recebe da gloriosa Previdência Social do país, depois de trabalhar a vida inteira, ele não consegue comprar nem um jornal. Que dirá um livro que, no Brasil, custa caro demais. Vi a reportagem até o fim e fiquei comovido com iniciativas que nem têm ajuda de ninguém e batalham para sobreviver, enquanto esse Governo ausente pouco se lixa com tudo, menos com suas mentiras. O que dói é saber, por exemplo, que Buenos Aires, só Buenos Aires, tem mais pontos de venda de livros do que no Brasil inteiro. Só Buenos Aires. Por aí a gente pode medir as coisas. Mas a grande tristeza estava ainda por vir. Concluída a reportagem na TV Senado, dei uma rodada nas TVs européias. E parei na TV alemã. Parei porque as imagens mostravam livros, bibliotecas, livrarias. E isso foi imediatamente depois do programa da TV Senado. Imediatamente. Não entendo nada de alemão, claro. Mas a reportagem da TV alemã era sobre Leitura. O interessante é que foi a seguir, de imediato. Sem compreender uma única palavra, vi jovens, moços e moças sorridentes, bem vestidos, pegando livros nas prateleiras de bibliotecas fantásticas, pessoas lendo nos bancos dos jardins, crianças com seus pequenos livros infantis, senhores e senhoras idosas sentadas nas bibliotecas, em poltronas confortáveis, fazendo anotações com belos livros nas mãos. Não entendo alemão, mas deu para ver que um dos livros era sobre o Renascimento, sendo lido por um menino de uns 13 anos. Acabou a reportagem da TV alemã, desliguei a TV e fui dormir. Mas antes, pensei no cidadão brasileiro Luis Amorim, que fez uma pequena biblioteca dentro de um açougue e algumas outras pequenas nos pontos de ônibus, com livros que acha no lixo, outros que vem recebendo. Aí eu sinto a distância e a força de uma mentira contada centenas de vezes, até se transformar numa verdade. E todas as mentiras começa com uma frase assim: “Nunca antes na história deste país…”. Vão para o inferno, gente infame, desprezível. Eu te cumprimento daqui do meu canto, cidadão brasileiro Luis Amorim. Eu tenho a esperança de que este país um dia, de fato, vai se transformar numa Nação. Mas eu tenho mais certeza ainda de que uma Nação não se faz com mentiras.
EXISTÊNCIA
sexta-feira - 26/junho/2009
Primeiro eu perdi a mão esquerda e dois dedos da mão direita. Depois cortaram meus três pés. Também arrancaram parte de minha alma e um pedaço do coração. Mais adiante, tiraram-me a voz e costuraram minha boca com um alicate. Depois arrancaram meus cinco braços. Os dedos dos pés jogaram aos corvos. A seguir, tiraram meus cabelos compridos e arrancaram minhas sobrancelhas, fio por fio. Mais tarde tiraram-me o ar.
Depois apagaram os rumos e os destinos dos meus sapatos. Depois queimaram minhas roupas e minha calça que eu vestia nos domingos. Depois quebraram os ossos que me restavam no peito. A parte da alma que me restou tentou falar-me algumas palavras, mas meus ouvidos foram tapados. Pensei gritar, mas, sem voz, apenas solucei oito vezes. Acho que nove. Depois fecharam-me os olhos. Quando pensei em reagir, eu senti que não existia mais.
A HISTÓRIA DE UM POEMA
quinta-feira - 25/junho/2009
Todo escritor ou poeta tem um livro que gosta mais. Um livro que me marcou muito, até mesmo devido à sua realização, chama-se “Lindas Mulheres Mortas”, de poemas. Esse livro nasceu quando em visitei, por longo período, a chamada zona do meretrício, em São Paulo. Frequentei a zona um período pela manhã, depois à tarde, a seguir à noite e madrugada. Durou meses. Buscava informações para escrever o romance “A Faca no Ventre”, que já foi publicado no Japão. Ocorre que enquanto eu fazia minhas anotações, ouvindo aquelas pessoas, destacando a linguagem que usavam, fui me aproximando daquelas mulheres que passavam a noite inteira encostradas nos prédios. Afeiçoei-me por elas. Todas elas. E conversei muito com muitas mulheres de histórias quase sempre dramáticas. Ao mesmo tempo em que eu colhia subsídios para o romance, comecei, também, a escrever alguns poemas para aquelas mulheres que se tornaram minhas amigas.
De repente eu vi que tinha dois livros escritos, o romance e um de poemas, ao qual dei o título de “As Putas”. Um dia resolvi publicá-lo por uma pequena editora de um amigo meu. O título nada tinha de ofensivo. Muito pelo contrário. Meu afeto por elas está todo nesse livro. Meu amigo editor pediu-me que eu mudasse o título do livro, porque ele teria dificuldades para divulgá-lo. Aceitei. O título passou, então, a ser “Lindas Mulheres Mortas”, que faz parte de um verso de um dos poemas. É um livro que gosto demais. Todos os poemas tem a palavra “puta”.
Recentemente ocorreu o Festival da Mantiqueira - Diálogos com a Literatura, na pequena cidade de São Francisco Xavier, a 138 quilômetros de São Paulo, no Vale do Paraíba. Fica na estrada velha de Campos do Jordão, perto de Monteiro Lobato. Não fui convidado para o evento e se fosse não poderia ir porque não estou em condições de participar de nada. Não estou louco ainda, mas não falta muito. De qualquer maneira, quatro amigos meus compareceram ao evento, onde duas tendas foram instaladas para a conversa entre público e escritores. Foram para lá meus amigos Celso de Alencar, Whisner Fraga, Oswaldo Rodrigues e Roberto Piva. Numa noite, Celso Alencar distribuiu alguns poemas para os presentes, entre eles um do meu livro “Lindas Mulheres Mortas”, que foi lido por várias pessoas.
Meu amigo Whisner Fraga lembra que a leitura foi feita na Fundação Cassinano Ricardo. Diz que o poema foi lido por várias pessoas, cada um dando sua interpretação, o seu tom, reinventando os versos. “Foi uma coisa muito bonita mesmo”, diz Whisner, lembrando que na primeira leitura houve risos, poucos e abafados, mas depois as pessoas começaram a refletir.
Não estive lá, mas é como se estivesse, por meio da poesia. Isso é possível, porque os poetas além de duendes, são também mágicos e estão em vários lugares ao mesmo tempo, quase sempre adormecidos ou fugindo das sombras.
Depois de contar tudo isso aos meus 19 leitores, transcrevo o poema que foi lido por várias pessoas, cada uma de um jeito, cada uma com seu aceno, cada uma com sua voz, cada uma com sua alma.
SANTA IFIGÊNIA
As putas da rua Santa Ifigênia
envelhecem
junto com os prédios
da rua Santa Ifigênia.
As putas se misturam nos prédios
e ninguém sabe
se elas pertencem aos prédios
ou se os prédios pertencem a elas.
As putas da rua Santa Ifigênia
são mais tristes
que as putas da rua Aurora.
É difícil ser puta numa rua
que tem nome de santa.
O BACALHAU DO POETA
quarta-feira - 24/junho/2009A Priscila, que faz este blog existir, me disse assim:
-Poeta, o blog está muito triste. Vamos alegrar um pouco.
Perguntei a ela o que devíamos fazer.
Ela sugeriu colocar o vídeo O BACALHAU DO POETA.
Concordei.
Então segue o vídeo que fiz com meu amigo Tony Riva. Peço que meus 19 leitores me desculpem pelos “palavrões”. Na verdade, não são palavrões, porque foram ditos numa conversa entre amigos, num encontro de amigos, onde as palavras são faladas de maneira absolutamente natural, quer dizer, nesse caso, o palavrão não existe. E não existe mesmo. Espero que vocês gostem.
Parte 1
Parte 2
A ESTRELA
terça-feira - 23/junho/2009
Uma estrela cadente risca o céu da minha boca, onde três luas cheias adormeceram para sempre. Uma estrela. Uma estrela que fala e sente. Corta o céu num risco de luz e depois desaparece, como desaparecem os duendes de meu jardim. Eu acredito em duendes, mas eles não acreditam em mim. As palavras calam diante da estrela que risca o céu da minha boca. Então eu sinto não ser preciso falar nada. Não é preciso dizer nada. É só preciso sentir, sentir profundamente tudo, toda a intensidade de todas as coisas. A estrela me ensina. Corta o céu quando me deixo passear pressentimentos, sem saber onde chegar. Uma estrela cadente risca o céu da minha boca, onde três luas cheias adormeceram para sempre. Uma fada me acolhe e ao passar um pouco de chuva na ferida, canta uma canção que nunca ouvi. Então eu sinto não saber mais onde estou.
A BORBOLETA AZUL
segunda-feira - 22/junho/2009A borboleta azul sempre será azul dentro de mim, com seu voo simples, às vezes triste, como se não quisesse voar. Também voo com ela, como se também não quisesse voar. Mas eu não quero voar, porque tenho as asas feridas. Minhas asas estão cortadas por temporais imensos, desses que batem nas pedras. Minha alma está numa pedra. Assim, carrego uma pedra dentro de mim, com quem converso às vezes. Mas a borboleta azul, não. A borboleta azul é de outra paisagem, daquela que não existe. A borboleta azul faz parte de um poema que não foi e nunca será escrito, já que as palavras deixaram de ter sentido. As frases mudas são as que mais compreendo, aquelas que entram dentro de mim e me fazem adormecer. Sempre que adormeço, a borboleta azul pousa em cima de um móvel e também adormecida deixa que suas asas cresçam até que todo o quarto deixa de existir. E tudo se transforma numa borbolete azul. Nas manhãs, ela sai para sua vida, mas volta depois, como o mesmo azul, aquele azul irremediável, aquele azul para sempre, aquele azul que deixou de ser. A borboleta azul não sabe que eu existo, o que não significa absolutamente nada. Mas eu sei de sua existência, assim voando em volta de mim, como se eu merecesse.
A GAIVOTA
sexta-feira - 19/junho/2009CANTO
quinta-feira - 18/junho/2009
Canto talvez o canto que não exista mais. Que, distante, deixou de ser.
Mas canto, como se assim me fosse possível cantar.
Canto o que não sei nem nunca saberei.
Vejo as sombras atrás dos prédios de uma cidade que não amo.
Vejo pessoas nas janelas, vultos sem forma, escondidos como os seres invisíveis que não se mostram, porque não sabem.
Mas canto a palavra que morreu, com a boca que não tenho mais, com minha flauta azul que não consigo soprar.
Mas a música existe, embora não se ouça.
O tempo se arrasta no seu próprio corpo e tudo vai desaparecendo aos poucos, com aquele aceno que a gente retira das mãos e deixa escorrer pelos dedos, dentro das unhas.
Mas eu canto. Alguma coisa me faz cantar esta canção medieval, desse tempo em que nasci. Estou lá ainda, pelo menos a alma que lá permanece.
Ou talvez a sombra que me fugiu dos pés. Ou talvez o gesto que se
perdeu. No espelho, a imagem se apaga, o rosto some.
O tempo se vai para sempre, porque todas as coisas têm começo, meio e fim.
ALMA
quarta-feira - 17/junho/2009Existisse em mim uma alma feminina talvez pudesse dizer além de mim, porque a alma feminina é sempre descoberta do infinito e eu, homem à deriva, estou apenas diante do mar. Olho-me aos poucos e nos pedaços em que me guardo, sinto estar cansado dos meus sapatos que me levam a lugar nenhum, onde me encontro sempre a colher fragmentos de coisas que desconheço. Falta-me a alma de mulher para poder completar a própria trajetória poética, aquela que se iniciou no ventre de minha mãe que me acena quase distante de mim, com os dedos trêmulos e os olhos fechados, sem saber ao certo de uma realidade que me machuca, ao vê-la em silêncio, quase ausente de si mesma. Pego em sua mão mas ela não me vê, no entanto sabe de mim, que estou ali do lado de sua cama com dois cravos vermelhos nas mãos. Portugal está distante, mãe. É o último sonho que ainda guardo no coração.















