Arquivos para agosto, 2009

DAR UM TEMPO

sábado - 15/agosto/2009

 

LEMBRETE

Antes do texto “Dar um tempo” e das fotos que o ilustram, quero deixar um lembrete para os meus 19 leitores. Marquem na agenda sentimental, que só a gente conhece: o lançamento de meu livro “Pastores de Virgílio”, de entrevistas com grandes poetas e escritores brasileiros, será lançado pela Editora Escrituras no dia 10 de setembro, na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, 509, em frente à Estação Brigadeiro do Metrô. A exemplo de “Palavra de Mulher” (Editora Senac), “Pastores de Virgílio” constitui um documento sobre a literatura, especialmente poesia, produzida no Brasil atualmente. “Pastores de Virgílio” traz ainda duas entrevistas com poetas portugueses, Vasco Graça Moura e Ana Marques Gastão. Então eu peço que meus 19 leitores anotem na agente de sentimentos: dia 10 de setembro, Livraria Martins Frontes, Avenida Paulista, 509, a partir das 18 horas. Prometo que estarei presente.

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Deixe o mouse sobre a foto para saber a cidade.

Lisboa 

Lisboa

Lisboa

Coimbra

Coimbra

Santiago de Compostela

Santiago de Compostela

Salamanca

Geralmente quando um casal decide que tem que dar um tempo, está tudo acabado. Não tem volta. Eu vou dar um tempo no blog e também nas gravações na Jovem Pan Online. Vou dar um tempo. Vou em busca de mim. Vou também me ausentar de mim. Vou ver se me acho em algum lugar. Eu falo tudo, ou quase tudo, aos meus 19 leitores. Depois daquele assalto à minha casa, que eu descrevi aqui, as coisas pioraram muito, em relação a mim. Á minha saúde. Emocional e física. Está difícil encontrar o equilíbrio. O que machuca, mas machuca mesmo, é o sentimento de humilhação. Três caras, cada um com dois revólveres nas mãos, violentos. Aí é fácil. Aí é fácil espancar uma mulher até o desfalecimento. Aí é fácil encostar o revólver na cabeça ou enfiar o cano dentro da boca e gritar: “Onde está o dinheiro ?”. Como se eu fosse um milionário. Não sou milionário. “Onde está o dinheiro, seu fdp?”. A mulher desfalecida, numa poça de sangue. As duas filhas amarradas e amordaçadas. Seis revólveres. Aí é fácil. Para mim não passou. Ainda me sinto desequilibrado. Na semana passada, prenderam três bandidos exatamente na rua onde moro. Como aconteceu comigo, estavam no quintal de uma casa, esperando o primeiro da família abrir a porta. Mas um vizinho viu. Chamou a polícia. Foram presos. O delegado me chamou para ver se eram os mesmos. Fui até a delegacia. Pedi ao delegado se poderia vê-los pessoalmente. O delegado afirmou: “Não faça isso!”. Insisti. O delegado disse que não. Então fui vê-los naquele vidro em que os bandidos não vêem a pessoa que está fazendo um possível reconhecimento. Mas eles sabem exatamente a altura dos olhos de quem os está observando. E encaram com um olhar fulmimante. A gente treme. Enquanto me dirigia ao tal vidro, insisti com o delegado: se fossem os três, eu queria estar com eles numa sala, mas com policiais junto, claro. Eu me conheço. Eu lhes diria, tenho certeza: “E aí, fdp, é fácil espancar uma mulher com seis revólveres nas mãos. E aí, fdp, é fácil enfiar o cano de um revólver na boca de um cidadão completamente indefeso”. O delegado compreendeu, mas foi claro: se você fizer isso, você morre em alguns dias. Claro que o policial tem razão. Mas isso não sai de mim. Logo depois de comunicar ao delegado que não eram os mesmos bandidos que invadiram minha casa, pedi para vê-los de longe numa sala do Distrito Policial. E os vi encolhidos, encostados na parede, pareciam santos. Tive até vontade de dizer: “Doutor, solta os coitadinhos!”. Aliás, eu disse. O policial riu. E afirmou: “Você não sabe do que esses caras são capazes de fazer, esses mesmos que estão aí encolhidos encostados na parede!” A verdade é que cheguei no meu limite. Nem sei se tenho direito de falar sobre isto aqui. Certamente, não. Mas abro meu coração aos meus 19 leitores, às pessoas que participam deste blog, com manifestações que muitas vezes me comovem.Vou dar um tempo. Acho que volto. Deixo aqui algumas imagens de onde é possível ser feliz: Lisboa, Coimbra, Santiago de Compostela e Salamanca. Quem sabe eu esteja por lá. Se eu conseguir me encontrar, farei o possível para me trazer de volta. Demoro talvez uns 25 dias. Gostaria mesmo é de sair do planeta, mas por enquanto saio apenas do país. Vou dar um tempo. Com saudade.  

TOSSE

quinta-feira - 13/agosto/2009

poeta130809Não fui à festa de aniversário da minha amiga Denise Campos de Toledo por causa da tosse. O marido de Denise, Domênico, disse que vai me pegar. Eu expliquei: não dava para ficar lá tossindo. Todo mundo ia sair correndo de medo de mim, por causa da gripe suína. Não estou gripado. Só tenho tosse. Tosse. Tosse. A festa foi em um dos salões nobres da Sociedade Esportiva Palmeiras. Eu já estava até pronto para ir. Vesti uma camisa branca, uma calça preta, sapatos de camurça preto e um pulôver vermelho. Estava a caráter. Já que não podia entrar com a camisa do São Paulo, enfiei-me numa roupa com essas cores. Mas a tosse começou. Acho que foi o pulôver. Fui ao médico. Ele me examinou de tudo quanto é jeito. Mandou tirar uma chapa do pulmão. Fiz umas quinze. Vi uma sombras, acho que era minha alma. O médico olhou, olhou, olhou. Disse que estava tudo bem, mas receitou-me uma porção de remédios. Eu lhe perguntei com sinceridade: “Doutor, o senhor acha que eu vou morrer ?”. Não respondeu. Saí de lá tossindo. Entrei no elevador cheio de gente. Tossi. Todo mundo saiu correndo. Tive de faltar ao trabalho um dia da semana passada por causa da tosse. Até a Carla, que é minha auxiliar mais próxima, está evitando ficar perto de mim. Ela tem me enganado. Pede para tomar café, mas eu sei que ela vai fumar na calçada da avenida Paulista, já que os fumantes, todos eles, passaram a ser vistos como criminosos. Eu nunca fumei na vida. Essa lei anti-fumo é fascista. A lei não prevê um meio termo, o direito de cada um. Quem quer fumar que fume. Quem não fuma não precisa radicalizar como a questão foi radicalizada. Se eu fosse fumante, escreveria uma carta ao governador José Serra, dizendo que não passei a ele nenhuma procuração para salvar a minha vida. Quando chego à tarde na Jovem Pan, vejo muitas pessoas nas calçadas da Paulista fumando, como se fossem pessoas que de agora em diante têm de viver escondidas. Não existe meio termo. Todas as pessoas têm o seu direito. Não dá para uma lei cair na cabeça, de cima para baixo, e estamos conversados. Não é assim. Repito: nunca fumei na minha vida. Mas os fumantes não são criminosos, como quer o governador José Serra. Mas voltando à minha tosse. Não tomei remédio nenhum porque estou cansado de tomar remédio. Eu já sou um cara que entra na farmácia e pergunta se há alguma novidade. Aliás, tossi na farmácia e a moça que me atendia saiu de perto. A gripe suína é isso. Acho que minha gripe suína é diferente. Minha tosse tem incomodado até os vizinhos. Numa madrugada destas chamaram uma ambulância para mim. Queriam me levar para um hospital do SUS, que o presidente disse ser uma rede hospitalar de primeiro mundo. Quando lembro desse discurso começo a rir, mas paro logo por causa da tosse. Num destes dias eu estava numa livraria e comecei a tossir. A livraria ficou vazia em menos de um minuto. Ninguém entende a minha tosse. Agora começo a perceber porque de repente me vejo sozinho na redação da Jovem Pan. Todo mundo some. Basta eu tossir um pouco. Vou tirar uma licença e só vou voltar quando a tosse passar. O médico arriscou dizer que é alergia por causa do tempo frio. Tem de evitar blusa de lã. Tem de evitar uma porção de coisas. Eu gosto do Outono. Só que o Outono me dá tosse. O Outono e o Inverno de agora que de Inverno não tem nada. Minha tosse deve seguir até a Primavera. Perdi alguns amigos por causa da tosse. Falam comigo somente por telefone e assim mesmo só um pouquinho. O José Carlos Pereira, que é diretor de Jornalismo da Jovem Pan, não me chama mais para ir à sala dele porque tem medo da minha tosse. Aí eu acho bom. A tosse me salva dos encontros agradáveis que tenho com ele, ou tinha. Só fala comigo por telefone. Estamos a alguns metros de distância. Eu digo: “Quer que eu vá aí ?”. Ele responde: “Não, não, não precisa!”. O Nilton Travesso, que me dirige nas gravações da Jovem Pan Online - nas quais eu me vingo dessa gente que governa minha vida - inventou uma viagem à Nicarágua só para fugir. Os meus amigos Zé Ricardo e Rodrigo ligam a câmera e me deixam sozinho no estúdio. Dizem que precisam resolver uns problemas e somem. Se eu fosse ao Álvares de Azevedo já teria morrido há muito tempo. Ou o Cesário Verde. Já não posso mais freqüentar os cafés aqui na galeria. Eu entro e todo mundo sai. Isso não é justo. Minha tosse não passa gripe suína a ninguém. Num destes dias eu assaltei uma velhinha, aqui na Paulista. Eu a ajudei a atravessar a avenida e roubei a bolsa dela. Ela nem percebeu. Já fiz isso muitas vezes. Depois fico arrependido. A polícia viu. Na verdade, os policiais já estavam de olho em mim. Fui preso, levado a uma delegacia. Quando comecei a tossir, o delegado me mandou embora, dizendo que eu era inocente. Ontem me vi absolutamente sozinho num vagão do metrô. Sozinho. Os outros vagões estavam lotados. E eu ali sozinho, por causa da tosse. Estava lotado, mas quando comecei a tossir todo mundo fugiu. Alguns tentaram pular pela janela. Muita gente está evitando até me passar e-mail. Sinto-me infeliz. Preciso só de um xaropezinho qualquer. Talvez de uma carta de amor. Um aceno também serve.

MAIS ENCANTO NA HORA DA DESPEDIDA

quarta-feira - 12/agosto/2009

poeta120809

Hoje sonhei com Coimbra. Mas a quem isso pode interessar ? No entanto, escrevo aqui com meu silêncio. E coloco o fado de Coimbra “Balada da Despedida”, de Fernando Machado Soares e Edmundo Bettencourt, que se tornou uma espécie de hino da cidade. Canta-se sempre ao final de qualquer evento, especialmente ligado a questões culturais, sociais, até mesmo políticas. Sempre há um jantar de despedida com muito vinho e muito doce. Depois, já no início das madrugadas, quando tudo começa a se encerrar, sempre surge alguém para cantar essa canção que faz chorar. Então as pessoas se abraçam comovidas e se despedem até uma outra ocasião qualquer que pode não acontecer nunca mais. Esta canção, escrita inicialmente para despedida dos universitários do sexto ano de Medicina, na Universidade de Coimbra, se transformou nesse aceno que, ao mesmo tempo que enternece, também faz doer uma dor desconhecida que corre por dentro. Impossível ficar alheio a esse instante. O fado de Coimbra é completamente diferente do fado de Lisboa. Isso causa até algumas discussões fervorosas. Fernando Machado Soares, músico e historiador, nascido nos Açores, explica: “O fado de Coimbra é um cantar de índole folclórica, criado pelos estudantes da Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa/…/ A sua origem perde-se na noite dos tempos. Sabe-se, porém, até pelas diversas aflorações poéticas de que nos dá conta, que tem profundas raízes no folclore português, designadamente no mais propenso a um clima de melancólico lirismo, como o da Beira Baixa/…/O apoio da guitarra portuguesa, sempre associada à viola clássica, tornou o acompanhamento da canção de Coimbra tanto mais rico e variado”. Mas não quero entrar nesse assunto, já que ouço a Balada da Despedida porque sonhei com Coimbra e me deu uma vontade de saber escrever alguns versos. Quando eu era poeta tentei algumas vezes compreender o mundo. Quando desisti, eu estava diante do mar. Foi aí exatamente que me senti poeta de verdade, sem palavra alguma para dizer. E a canção me diz: “Coimbra tem mais encanto/ na hora da despedida”. Esses versos são repetidos muitas vezes na canção, separando as estrofes, que são os seguintes:

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida

Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que me dá vida.

Quem me dera estar contente
Enganar a minha dor
Mas a saudade não mente
Se é verdadeiro o amor

Não me tentes enganar
Com tua formosura

Que para além do luar
Há sempre uma noite escura

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Escrevo ouvindo a Canção da Despedida, cantada, quase sempre, coletivamente, por grupos de estudantes e antigos universitários já idosos, todos vestidos com a capa preta da Universidade. Eu me sinto sempre me despedindo de alguma coisa. Hoje sonhei com Coimbra. Mas a quem isso pode interessar ? Não deve interessar a ninguém. Sigo para a Sé-Velha e talvez faça uma prece qualquer, que desconheço. Talvez desça as escadas do “quebra-costas” e depois vou seguir em direção ao Convento da Rainha Santa Isabel. Passarei pela Quinta das Lágrimas e falarei com Inês de Castro, para sentir ainda mais o que me resta da loucura.

DOIS VERSOS

segunda-feira - 10/agosto/2009

poeta1008Neste final de semana dois versos me vieram à lembrança e grudaram em mim. São dois versos meus que impressionaram muito o poeta espanhol, professor de Direito da Universidade de Salamanca, na Espanha, Alfredo Perez Alencart. Até conversamos muito sobre o meu pequeno poema de dois versos. Em 2007, o X Encontro de Poetas Iberoamericanos foi dedicado ao Brasil. Para a infelicidade e raiva de muita gente, eu fui o poeta brasileiro homenageado no evento, com palestra a respeito de minha poesia, leitura de meus poemas por outros poetas, recebido pelo alcaide Julián Lanzarote Sastre, que concedeu o título de “Huéspede Distinguido de Salamanca a Don Álvaro Alves de Faria”. No final, a homenagem consistiu, ainda, no lançamento de uma antologia de meus poemas, de mais de 350 páginas, com tradução para o espanhol de Alfredo Perez Alencart, que recebeu o título “Habitación de olvidos”. O título é também um verso de um dos poemas selecionados. No entanto, lembro disso somente para situar os dois versos que fazem o pequeno poema incluído na antologia. Trata-se de um pequeno poema de um livro meu ainda inédito que tem o título “Os dias derradeiros”. São dois versos que, em Salamanca, renderam muita discussão. Sobre o pequeno poema, Alfredo Perez Alencart, de quem me tornei amigo, escreveu na antologia: “Faria nos tramite el dolor que su inteligência ha sabido parir emocionadamente. Él parece querer apagar los puntos de ignición, como se desprende de um brevíssimo poema inédito, titulado “Final” que gentilmente envió para esta antologia salmantina”. A seguir, ele coloca o poema de dois versos. Escreve depois: “No sé del alcance de sus deseos, máxime después del homenaje iberoamericano, bálsamo importante para qualquier poeta sabedor que su poesia ha sido la única carta de recomendación aqui aceptada”. Sinceramente, não sei ao certo porque os dois pequenos versos me vieram à cabeça neste final de semana, porque lembrei-me tanto de Salamanca e de Coimbra. Não sei exatamente porque esta lembrança. O pequeno poema pertence, como já disse, ao livro ainda inédito “Os dias derradeiros”. Não sei quando sairá. Se é que um dia será publicado. Escrevi tudo isto só para falar sobre esse pequeno poema que está gravado nas minhas palavras, como se costurado na minha pele. O poema é o seguinte:

FINAL

Ponho fim à vida
em legítima defesa.

PEDIDO

quinta-feira - 6/agosto/2009

poeta060809Pede-se a quem encontrar uma asa esquerda quebrada e já gasta pelo tempo e pela vida, entregá-la, por favor, a um homem que tropeça três vezes em cada três passos que dá. Esse homem vive num bosque, numa vila sem nome, onde as mulheres usam tranças e vestidos compridos. Há menestreis que cantam nas praças e, nesse lugar, as pessoas são felizes. Quase todas voam no início da noite e conversam com as plantas. Esse homem, que usa cabelo comprido e barba antiga, tem os olhos abertos para uma realidade que lhe causa profundos ferimentos, especialmente na alma que ele não conhece direito. Está sempre cercado de duendes, anjos e animais. Dizem que escreve versos, mas isso ninguém sabe se é verdade. Dizem, também, que costuma chorar sozinho por motivo nenhum ou por todos os motivos o mundo. Esse homem, que usa roupas largas, quase sempre escuras, tem gestos lentos e quase ninguém ouve o que diz, porque fala muito baixo. Esse homem costuma calar-se diante das planícies e das nuvens que percorrem seus sentimentos e se comove com as crianças, especialmente aquelas que não têm nada. Também costuma encantar-se com a música e as palavras. Ama as árvores e os jardins e também conversa com pássaros. Às vezes passeia pelo mar, numa caravela que ele mesmo fez quando buscava sua própria memória. Fora do bosque em que vive, dizem que ele enlouqueceu, mas isso não se sabe ao certo. Quando chove, especialmente nas tardes, anda pelas montanhas e procura suas ovelhas perdidas. Quem encontrar uma asa esquerda quebrada, por favor entregá-la a esse homem que deixou de voar, mas guarda ainda alguns sonhos.

O MURO DAS LAMENTAÇÕES

quarta-feira - 5/agosto/2009

poeta050809Eu agradeço todas estas manifestações em relação a mim, ao que escrevo neste blog. Na verdade, no que me diz respeito, meu blog parece meu muro de lamentações.Um muro particular para lamentar-me da vida. Acho que se tivesse uma namorada, digamos, e brigasse com ela, viria correndo aqui para escrever no meu blog o meu sofrimento. Estaria sempre escrevendo sobre qualquer coisa que me acontecesse.  Seria um bloguezinho de amenidades particulares, que não interessam a ninguém. Eu não sirvo para isto. Estou preparando uma maneira de parar. O que não me conformo são insultos que recebo de gente que nem sei se existe. Gente sem educação. Gente estúpida mesmo, para usar uma expressão mais correta. É preciso dizer, deixar claro, claríssimo, mas bem claríssimo mesmo, que não desejo para mim só aplausos e elogios. Não. Estou longe disso. Sinceramente, estou longe disso. Ocorre que escrevo aqui e gravo na Jovem Pan Online textos que nem sempre agradam alguns indivíduos de uma estupidez que vai além do suportável. Por exemplo, na 2ª.feira gravei um vídeo satirizando – é isso que faço – a linguagem chula do senhor presidente de República que logo logo vai falar palavrão nos seus pronunciamentos e será aplaudido por aquela platéia manjada. Nesse vídeo, explorei bastante um dos últimos discursos em que o senhor presidente do país xingava de “imbecis” e “ignorantes” aqueles que dizem que o bolsa-família é um programa eleitoreiro. Eu vi na televisão o senhor presidente da República dizendo isso, aos gritos, como se estivesse brigando numa esquina. Uma briga de rua. Ele é presidente do Brasil e tem de agir como presidente do Brasil. Não concordo com essa linguagem que não respeita ninguém. Um dia antes, o senhor presidente tinha dito que as disputas políticas são como uma partida de futebol e que não se pode tratar os adversários como inimigos. Depois grita, com uma platéia favorável, como já se tornou comum no cenário brasileiro, que os que dizem que o bolsa-família é eleitoreiro são imbecis e ignorantes. Aos gritos. Os gritos de um presidente da República que talvez, em algum momento, confundr o Brasil com uma esquina. Não é assim. Então, voltando, pego esses assuntos e satirizo, e sei que satirizo forte. Sempre fui assim. Se eu era assim no tempo da ditadura, criando para mim todos os tipos de problemas dentro do jornalismo, por que é que vou mudar agora ? Mas por causa deste vídeo, ironizando a fala chula do senhor presidente da República, os insultos foram demais, gente que tem mesmo essa função. Um indivíduo, depois de destratar-me covardemente escondido num e-mail, recomenda-me até livros para eu “aprender”. E o idiota me coloca na relação do que ele chama de “direita mesquinha”. E a gente nem sabe como pegar um cara desse para trocar umas palavrinhas com ele. Pior é que essas asneiras e essa estupidez ficam rodando por aí na Internet, coisa com a qual não sei lidar. Já me disseram que por uma crítica que fiz ao ex-ministro e incompetente Gilberto Gil, falando do Santo Dime, até hoje sou insultado de maneira rasteira. Isso faz quase três anos. Sobre esse vídeo em que o Santo Dime entrou até mesmo por um acaso, cheguei a pedir desculpas, escrevi, escrevi, escrevi, expliquei, expliquei, falei mais de cem vezes o respeito que tenho por tudo isso. A crítica era à inércia de um ministro mais preocupado com seus shows do que com a cultura de seu país. Não adianta. Mas se o Santo Dime depende dessa gente que me insulta, seu futuro é incerto. É gente muito baixa. E não é preconceito não. Estou falando em “gente baixa” no que diz respeito à educação, ao trato com as pessoas. Na verdade, o que sinto é que ainda existe um AI-5 invisível por aí, editado por uma corja que passou mais de vinte anos fazendo um discurso que eu ajudei a fazer e, no poder, mudou tudo. Comigo não. Eu tento seguir o caminho que me tracei. Por isso, de repente, isto tudo pode acabar porque, com toda a sinceridade mesmo, não sei conviver com isto. É uma questão de temperamento. Talvez de caráter.

SONHOS DESFEITOS

terça-feira - 4/agosto/2009

poeta040809

Os meus 19 leitores já devem estar cansados de ver aqui, quase sempre, minhas palavras expondo indignações. A esta altura da vida, não dá mais para mudar. Foi assim a vida inteira e agora, já caminhando no fim da linha, mudar para quê ? Na verdade, eu acho que incomodo muita gente, porque é impressionante o número de desafetos que arrumo em vários setores. Tanto nos vídeos que faço na JP Online, onde exponho, representando meus próprios textos, até o que escrevo aqui neste blog inofensivo. Sinceramente, sinto-me cansado de tudo isto. Meus 19 leitores já devem estar cansados também das minhas queixas quase diárias deste país em que vivemos. Vocês sabem que todas as sextas-feiras eu gravo com a Patrícia Rizzo, na JP Online, um quadro em homenagem a um poeta. Desta vez escolhi Hilda Hilst. E ao ler os poemas de minha amiga querida, me senti comovido com suas palavras: “Se algum irmão de sangue (de poesia)/ Mago de duplas cores no seu manto/ Testemunhou seu anjo em muitos cantos/ Eu, de alma tão sofrida de inocências/ O meu não cantaria?”. Sou uma pessoa sem ilusão alguma. Ex-poeta, tento lavar-me todos os dias das feridas. Mas nem tudo está perdido. Sinto isso, por exemplo, ao receber livros como “Venho de um país selvagem”, de Rodrigo Petrônio; ou “abismo poente”, de whisner fraga; ou “Dias Contados”, de Eunice Arruda. Por coisas assim sinto que ainda vale a pena seguir um pouco mais. Mas não sirvo para isto, como não sirvo mais para a poesia e para coisa nenhuma. Estou cansado de insultos de gente que não conheço, de ameaças, dessas coisas. Eu devo ser um sujeito perigoso. Na última vez que estive com Hilda Hilst andei com ela no seu grande quintal, de braços dados. Tomamos vinho do Porto e falamos mal de algumas pessoas. Hoje sinto saudade de minha amiga que vivia isolada num sítio em Campinas com 70 cachorros que recolhia nas ruas. Nesse dia ela me disse: “O que será de meus cães quando eu morrer, quem cuidará deles?”. Então eu a abracei fortemente e parece que sinto este abraço agora, neste instante, aqui ao lado de meus dois cães, que me dedicam carinho, como se o merecesse. Meus 19 leitores devem estar cansados de todas estas histórias. A poesia não existe mais. Portugal está distante, embora esteja dentro de mim. A lírica de Camões. A figura de Inês. Também vive em mim um Brasil que sempre desejei e que morreu no meu próprio desejo, para não dizer sonho. É inútil sonhar.

RUMO

segunda-feira - 3/agosto/2009

passaropoeta0308092

SOMOS TODOS LIVRES PARA CONSEGUIR A NOSSA LIBERDADE