Arquivos para setembro, 2009

VIOLÊNCIA-FINAL

quarta-feira - 30/setembro/2009

poeta2Meu tanque de guerra acabou. Sem qualquer glória. Cheio de multas. E incompreensões. Acabou. De maneira constrangedora. Mas fiz o que pude com ele. Arrebentei muita coisa, mas há muitas outras para arrebentar ainda. O final de meu tanque de guerra foi melancólico. Estacionei na rua, na zona azul. Comprei o papelzinho e coloquei na ponta do canhão. O papelzinho era falso, mas paguei assim mesmo. Voltei meia hora depois, o tempo suficiente que levei para tomar um copo de veneno. Quando voltei, meu tanque não estava mais lá. Os ladrões levaram. Perguntei para algumas pessoas se viram o roubo. Ninguém viu nada. Fui então a uma delegacia para fazer o boletim de ocorrência. O delegado me perguntou o que eu queria:
-Vim fazer um boletim de ocorrência…
-O que aconteceu ?
-Roubaram meu tanque de guerra que estacionei na zona azul…
O delegado me olhou com raiva e disse o seguinte:
-Olha aqui, ô imbecil, não me venha com veadagem aqui porque estou aqui para atender coisa séria… O que é que aconteceu ?
Pobre de mim. Encolhido em mim mesmo, repeti:
-Roubaram meu tanque de guerra que estacionei na zona azul…
Aí não teve jeito. Fui preso por desacato à autoridade. Ou por zombar da autoridade, não compreendi bem. Meu advogado está em Honduras, não consigo falar com ele. Acho que também está na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Quer dizer, pelo andar da carruagem vai ficar lá por tempo indeterminado.
Estou na cela, sem saber ao certo em que pensar. Meu tanque de guerra foi roubado e eu não consegui fazer tudo que desejava. Fica para outra vez.

VIOLÊNCIA-4

terça-feira - 29/setembro/2009

16-09-2007_12-36-58Isabel Cintra Nepomuceno, não se preocupe. Então você acha que eu teria coragem de passar com meu tanque de guerra por cima de um jardim, de uma biblioteca, de um parque ? Nunca faria isso. Se isso tivesse que acontecer, passaria antes com o tanque de guerra por cima de mim mesmo o que, aliás, não é uma má idéia. No entanto, isso não ocorrerá. Por enquanto, estou abrindo fogo e passando por cima das coisas que atiram na cara da gente, que a gente é obrigada e engolir todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias. Engolir e ficar quieto. Reclamar para quem ? Por exemplo: não faz muito tempo, o senhor presidente da República Federativa do Brasil disse com todas as letras que o atendimento público da saúde do país era de primeiro mundo. É que parece que o senhor presidente da República Federativa do Brasil esqueceu o que ele já viu na sua vida nas filas dos postos do INSS, aquelas pessoas desesperançadas, morrendo um pouco a cada minuto, um médico para atender 1.457 pacientes, essas coisas de sempre. E o senhor presidente disse que o atendimento público de saúde no Brasil era de primeiro mundo. Vou passar com meu tanque por cima de coisas assim, dessas declarações que não quero mais engolir. Vou passar com meu tanque de guerra por cima dos balões de ensaio do senhor prefeito da limpa cidade de São Paulo, que queria tirar 20 por cento do recursos destinados às creches, o que reduziria a merenda das crianças carentes em uma refeição. Foi balão de ensaio. Solta aí, vamos ver qual será reação. A reação foi péssima. Então o prefeito voltou atrás, mas antes disse que não sabia da medida. No Brasil nunca ninguém sabe de nada. Vou passar com meu tanque de guerra por cima. O mesmo senhor prefeito da limpíssima cidade de São Paulo também dispensou quase dois mil garis, aquelas pessoas que varrem a cidade e garantiu que esse serviço continuaria normal. O lixo foi se acumulando em todas as esquinas. Lixo, só lixo, só tem lixo em todo lugar na cidade limpa. Voltou atrás. Não vai mais cortar a verba da varrição. Vou passar com meu tanque de guerra por cima. Vou também passar por cima dos discursos do senhor presidente da República Federativa do Brasil. Também passarei com meu tanque de guerra por cima da Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. O Governo garantiu que não vai colocar nenhum dinheiro nisso. Mas todo mundo já está falando em financiamento ou seja lá o que for do BNDES. E os ladrões do dinheiro público estão se preparando para a mamata. Como nos Jogos Paramericanos no Rio de Janeiro, essa vergonha. Onde estão as contas dos gastos ? Ninguém sabe. Roubou-se muito, muito, muito. E tudo fica por isso mesmo. Vou passar com meu tanque de guerra por cima. Os poderes públicos querem me pegar, porque é proibido transistar com tanque de guerra. Mas eu vou seguindo em frente. Terei cuidado com as flores, com as crianças, com os animais, com os idosos, com os marginalizados, com as pessoas. O resto não me interessa. Quero passar por cima. Quero passar por cima.

VIOLÊNCIA-3

segunda-feira - 28/setembro/2009

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Depois que o comentário da Patrícia Cicarelli caí na real. Decidi, então, sair com meu tanque sem qualquer documentação. Está um pouco difícil porque a cidade tem tanto lixo nas ruas que até um tanque de guerra tem dificuldade. Mas eu estou tentando. Primeiro dei umas voltas no quarteirão para me adaptar. Depois comecei a usá-lo. Um marronzinho, atencioso à orientação do trânsito, ficou observando e ao me ver imediatamente tirou o talão de multas, mas meu tanque não tem placa, nem documento nenhum. A seguir, passei por cima de um veículo da CET que também, atenciosamente, orientava o trânsito da cidade, ajudando os motoristas presos nos congestionamentos. Passei por cima e fui em frente, em busca de meu grande destino, que nem o Brasil. É difícil andar com meu tanque em algumas ruas tão atenciosamente cuidadas pela prefeitura de São Paulo, porque se você escapa do lixo cai no buraco. Mas o tanque é tanque por causa disso. Dirijo o tanque de guerra como um herói de mim mesmo, para vencer as batalhas de todos os dias. A sobrevivência não é fácil. Pelas minhas contas, já destruí nove automóveis e alguns prédios públicos. Não matei ninguém. Só destruo coisas. Já enfrentei o problema de combustível adulterado. Abasteci num posto que já foi fechado quinze vezes por adulterar combustível. Eu não sei como o posto reabre dois ou três dias depois. Tenho intenção de fazer uma viagem longa com meu tanque de guerra. Gostaria de viajar até o planalto central do país. Dizem que lá existe muito rato e gatunos. Mas por enquanto vou ficar por aqui na cidade de São Paulo, com meu tanque de guerra, sem documentação nenhuma, com 300 marronzinhos atrás de mim fazendo anotações.

VIOLÊNCIA-2

sexta-feira - 25/setembro/2009

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Já acertei a compra do tanque de guerra para andar no trânsito da cidade de São Paulo, cheia de lixo por tudo quanto é lado. A cidade limpa. O tanque de guerra está meio caído, mas acho que vai dar para enfrentar a guerra diária. Mesmo não encontrando autoridade nenhuma em nenhum lugar, já fui tratar da documentação. O cara que me atendeu nuna repartição pública, absolutamente educado como um hiena raivosa, disse que os documentos vão demorar, a não ser que, sabe como é, a não ser que eu me disponha a dar alguma coisa em troca, algum dinheiro, essas coisas normais no país. Eu disse a ele que não quero entrar nesse jogo e ele deu uma gargalhada: “Você é um imbecil!”, disse ele, com ponto de exclamação e tudo. “Se não der algum por fora a documentação do tanque não sai”. Não sei ao certo o que fazer. Não é fácil ter um tanque de guerra. Mas vou conseguir. Resolvi não tirar o canhão. É possível até que eu use o canhão num momento mais delicado. Na verdade, eu estou disposto a tudo. Como cidadão aviltado em quase tudo, acho que cheguei ao meu limite e penso reagir a isto tudo. Vou começar com um tanque de guerra, para ver se consigo um pouco de paz. Vou pintá-lo de preto, grosseiramente, com tinta fosca. Colocarei no tanque um farol de milha potente para afugentar os assaltantes. Daqui a pouco vou telefonar ao funcionário da repartição pública que me atendeu com tanta atenção, eu até pensei que estava na Suiça. Já examinei o tanque de guerra que vai me servir no trânsito de São Paulo, a cidade civilizada, limpa, segura. Só tem um lugar dentro. Como não terei com quem conversar, vou falar mal de alguém comigo mesmo. Quero atravessar a cidade com meu tanque de guerra. E vou com um lenço branco na janelinha para mostrar aos marronzinhos. Quero dar muita risada, inclusive de mim mesmo.

VIOLÊNCIA

quinta-feira - 24/setembro/2009

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Violência não é somente dar um tiro em alguém. Não. Existem muitas formas de violência, contando, claro, os assaltos que ocorrem a cada minuto do dia e da noite. A barbárie, no entanto, está em tudo. Os meus 19 leitores devem prestar atenção no trânsito. Pessoas cordatas e educadas se transformam em verdadeiras feras ao pegar o volante de um carro. Hoje quem der uma raspadinha no carro de alguém a ordem é sair com os braços levantados. As brigas no trânsito se multiplicam. Muitos casos são resolvidos com tiros e acabam em morte. E a cara feia ? E os xingamentos ? Se você ultrapassar naturalmente outro carro, o motorista se sente humilhado e vai atrás. Faz de tudo para devolver a ultrapassagem. Como se você tivesse ferido o orgulho dele. Os xingamentos são deploráveis. Você não pode olhar para o motorista do lado. E aqueles que andam a 20 por hora na esquerda Vinte e Três de Maio falando no celular ? E aquele que fecha você com total brutalidade. Não dá para generalizar, mas o trânsito do São Paulo se transformou num dos mais graves problemas desta cidade perdida e sem saída. A tal cidade limpa que tem lixo em quase todas as esquinas. A tal cidade que inventou a inspeção veicular, mas só para carros novos, exatamente aqueles que já saem das fábricas com os dispositivos necessários para evitar a poluição do ar. Fora isso, é a violência, uma violência que cresce cada vez mais, que assusta. Eu estou pensando em comprar um tanque de guerra para andar na cidade de São Paulo. Mas vou tirar o canhão, para não ser chamado de agressivo. Pretendo falar com as autoridades sobre isso, para conseguir a licença. Só não sei onde encontrar alguma autoridade…

PRIMAVERA

terça-feira - 22/setembro/2009

primavera

Que seja a Primavera o dia mais longo, a espera de um novo amor, essa tarde que se aguarda, que seja o tempo tão infinito e mais que o infinito, que seja a Primavera a luz mais clara, que seja mais que o silêncio, a negação da dor, que seja a Primavera a asa perdida do anjo, o olhar do anjo, a palavra do anjo, que seja a Primavera a palavra, a única palavra, aquela palavra que deslumbra por seu encantamento, tão longo encantamento que o próprio encantamento se transforma, que seja a Primavera essa redescoberta da vida, sempre redescobrir a vida, reinventar a vida, fazer da vida a dádiva da vida, a vida da dádiva, que seja sempre o sonho por sonhar, por se fazer, esse direito de todos, absolutamente todos, o direito de sonhar e de viver, absolutamente todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, do todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, todos, que seja a Primavera da mulher, do homem, da criança, dos idosos, dos abandonados, das plantas, dos bichos, da terra, que seja a Primavera aquela chuva que vai chegar para lavar o pranto, abrir mais o rio que corre por dentro, que entra pelo mar, que no mar se estende ainda mais e percorre as escamas dos peixes, que seja a Primavera que ao nascer todos os dias faz do tempo um amanhecer que não cessa, que cresce e se acrescenta, que traduz no beijo escondido no estojo de veludo azul, onde estão os gestos mais delicados, que seja a Primavera ela mesma, a Primavera, a janela que se abre, um tempo que a cada ano se inaugura, que seja um aceno, um oceano, que seja o brilho dos olhos, que seja a ponta dos dedos, que seja o rumo, que seja mais que a ausência a desvendar, que seja a Primavera um abraço assim tão grande abraço que não caiba no corpo, que seja todas as distâncias percorridas, seja o tempo de esquecer, seja ela, a Primavera, o fado a cantar, o fado a viver, o destino que se desenha no coração, que se faz na alma, que seja a Primavera, que seja a Primavera, que seja.

E A REFORMA ORTOGRÁFICA?

domingo - 20/setembro/2009

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Por falar em cartas de amor, e a reforma ortográfica ? Os meus 19 leitores devem estar lembrados a arruaça que foi o anúncio das novas regras da Língua Portuguesa. Os jornais e revistas do Brasil correram para acatar as novas normas, de uma inutilidade ridícula. A questão do hífen, dos acentos, tantas bobagens que, no final de tudo, representam mais uma dessas histórias levianas de sempre. Os livros todos que estavam por sair passaram por revisões apressadas. Recebi muitas mensagens de escritores sérios zombando dessa insensatez. É, a minha expressão para situar isso é mesmo insensatez, porque não convém escrever uma palavra que possa definir mais claramente esse assunto esdrúxulo. O Português é ainda chamado de “língua romântica”. Original da Galiza e do Norte de Portugal, derivado do Latim falado pelos povos pré-romanos (será que tem hífen?) da Península Ibérica há mais de dois mil anos. Espalhou-se pelo mundo no século 15, quando Portugal tornou mais extenso seu império colonial, incluindo o Brasil. Conhecido como a “Língua de Camões”, o Português é a quinta língua mais falada no mundo. Pois em Portugal os jornais e as revistas não tomaram conhecimento desse ridículo. Os portugueses estão escrevendo da mesma maneira. Atualidade é actualidade. Ator é actor. E muitas outras coisas que não preciso lembrar aqui. E daí ? Que diferença faz ? Eu, particularmente, vou me encaixando nessa melancolia, mas fiz questão de não tomar conhecimento de regra nenhuma. Estou “aprendendo” lendo os jornais e revistas brasileiros. Não coloco mais acento em idéia, como antes, agora escrevo ideia. Já aprendi a tirar o chapeuzinho da palavra vôo, que agora escrevo voo. É, eu estou apreendendo. Gosto de coisas inúteis. No fim elas me divertem. Não vale a pena citar exemplos. A inutilidade vale por ela mesma. Neste exato momento a minha ideia para. Para que ? Não, para, no caso, é do verbo parar. A minha ideia para, cessa. A minha ideia para nada. Eu na verdade vou passar a escrever principalmente poemas em Português arcaico. Tenho certeza de que vou me sentir melhor.

CARTAS DE AMOR-3

sexta-feira - 18/setembro/2009

mini-saudade

AS CARTAS DE AMOR MORRERAM. A ÚLTIMA QUE EU RECEBI FOI NO DIA  25 DE ABRIL DE 1852. NÃO LI. GUARDEI NA GAVETA DE UM MÓVEL NO QUARTO ONDE VIVO ESCONDIDO DO MUNDO. ESTÁ GUARDADA ATÉ HOJE. NUNCA A LEREI. TENHO MEDO DAS PALAVRAS.

CARTAS DE AMOR-2

quinta-feira - 17/setembro/2009

solidao

TODAS MINHAS CARTAS DE AMOR NAO TÊM PALAVRAS, SÓ PONTO FINAL.

CARTAS DE AMOR

quarta-feira - 16/setembro/2009

diadosnamorados1Os funcionários dos Correios estão em greve. Ontem à noite, quando o repórter Francisco Verani saía para cobrir a assembléia que decidiria a greve em São Paulo, eu o chamei em prantos. Disse-lhe:

-Verani, por favor, diz para as lideranças dos servidores dos Correios que eu preciso enviar cinco cartas de amor. Peça para ele deixarem a greve para o mês que vem, porque essas cartas de amor são importantes para mim.

O Verani me olhou, compreendeu a minha aflição e prometeu que falaria com os líderes dos funcionários dos Correios.

Voltou perto das dez da noite. Foi até a minha mesa:

-Poeta, comuniquei a eles o seu pedido. Não deram a menor importância. São insensíveis às cartas de amor. Pior de tudo é que a greve vai começar.

Verani falou ainda:

-Eles disseram para você  usar a Internet.

Comecei a chorar copiosamente, como se dizia antigamente. Perguntava a mim mesmo: O que vou fazer com as minhas cartas de amor ? O que vou fazer ? Eu sou um homem muito antigo. Eu ainda gosto de receber cartas pelos Correios, muitas vezes envelopes perfumados. O que vou fazer com minhas cartas de amor.

Diante do meu desespero, o Francisco Verani comunicou:

-A greve começa à  meia-noite.

Tornei a dizer:

-Mas Verani, você disse a eles que eu preciso enviar as minhas cartas de amor e que isso é importante para que eu possa viver completamente fora da realidade do mundo ?

-Disse, poeta, mas nem tomaram conhecimento.

Fiquei olhando pela janela a avenida Paulista toda cheia de luz e de riscos vermelhos que fazem as lanternas dos automóveis. Lá embaixo as pessoas caminhavam quietas e pareciam distantes. Antes de me atirar pela janela eu telefonei para mim mesmo mas mandei dizer que não estava.