Uma tarde de poesia, emoção e lágrima
Eu não sabia que seria assim. Pensava que o encontro no Projeto Autor na Praça, no Espaço Plínio Marcos, na Praça Benedito Calixto, seria apenas uma breve apresentação de meu livro “Pastores de Virgílio” com uma leitura de poemas. Mas foi uma tarde que nunca mais vou esquecer. Uma homenagem que doravante fará parte de minha vida. Pela palavra de tantos amigos lá presentes, um ato de fé. A começar pela leitura de poemas de Celso de Alencar, Raimundo Gadelha, Whisner Fraga, Ronaldo Cagiano, Owaldo Rodrigues e pessoas que foram dizer poemas das quais não sei o nome. Quando o ator Clovis Torres começou a ler um poema de meu livro “À Noite, os Cavalos”, não deu para segurar. Foi emoção demais: “Álvaro, tira o demônio e dentro/ e fica vazio como um poço./ Corta o cabelo/ e deixa crescer mais a barba/ sem motivo nenhum./ Retira o avião do céu da tua boca/ e deixa calar a nuvem de teu nascimento”. Daí para adiante foi difícil. A tarde começou com Raimundo Gadelha falando sobre o livro e, a seguir, li o poema “Eldorado de Carajás”. Esse poema foi lido por mim em Coimbra, no Terceiro Encontro Internacional de Poetas”, no qual eu representava o Brasil. Foi aplaudido de pé por dezenas de outros poetas de vários países que não entendiam uma única palavra em português. E aplaudiram pelo ritmo das palavras. “Eldorado de Carjás” não faz parte de nenhum livro meu, mas está publicado em quatro antologias de poesia em Portugal. Depois de ler esse poema, fui procurado no hotel em Coimbra por uma editora. E comecei, então, a publicar um livro a cada ano, em Portugal. Esse poema foi o mais discutido no evento. Na verdade, estou repetindo o que escreveu a professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, escritora Graça Capinha, no prefácio de meu primeiro livro publicado em Portugal “Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra”. Depois de minha leitura, os poetas presentes começaram a ler seus poemas. Chegou-se então a mim a atriz Marisa Carnicelli, com muitos recortes de jornais de quase trinta anos, com entrevistas sobre minha peça “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que recebeu o Prêmio Anchieta, então uma das maiores láureas do país para teatro nos anos 70. A peça ficou censurada por seis anos. E quando pôde ser montada tive de modificar algumas coisas. Por exemplo: tudo se passa numa cela, mas troquei o ambiente por um consultório médico. Foi muita emoção. Abraçou-me e me mostrou todos aqueles recortes de jornais, com fotografias da peça. Por fim, Marisa também leu um poema meu. A sempre presença da amiga Eunice Arruda. A Priscila, que faz este blog, com seu pai Augusto e sua mãe Maria Xavier. Tantos amigos que não via há tantos anos. Luiz Ernesto Kawall, que me me presenteou com uma bela foto antiga de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros. Jorge Narciso Caleiro Filho, que me ofereceu um Caderno com seus poemas, dizendo o quanto se espelha em mim. Não bastasse tudo isso, chega de repente uma senhorinha com um grande envelope. Apresenta-se a mim e diz que era a esposa de meu professor de violão, quando eu era adolescente. Mostra-me o exemplar com meu autógrafo de meu segundo livro, “Tempo Final”, um recorte de jornal com as primeiras notícias sobre mim e um desenho meu em nanquim e aquarela que eu lhe presenteei em 1963. E também Patrícia Cicarelli, que escreve um livro sobre mim e que vai a todo lugar onde estou para anotar coisas. Disse-me que essa tarde no Espaço Plínio Marcos foi marcante para o livro que está escrevendo. E entre tudo que ocorreu, uma cena que me deu um aperto no peito: um mendigo que anda pela praça se aproximou dizendo que gostava muito de mim e me ofereceu um poema escrito num papel todo amassada. Assim como chegou, desapareceu. Gostaria de ter conversado com ele. E por fim, a amizade de Edson Lima, que dirige o Projeto Autor na Praça há dez anos, com sua mulher que tem na praça Benedito Calixto um ponto de comidinhas portuguesas. Edson é um batalhador. Deu-me, no final, um CD, “Os mestres mulatos” – sinfonieta dos devotos de Nossa Senhora dos Prazeres. Para completar, agradeci sem saber ao certo o que devia dizer, mas me reportei à mentira da cultura brasileira, especialmente no que diz respeito à literatura e à poesia em particular. A mentira de suplementos culturais desonestos, feitos por gente sem compromisso com a História, sem compromisso com nada, que inventa nomes de “poetas” da noite para o dia, “poetas” que desaparecem do dia para a noite. Tudo em tom de uma louvação à mediocridade de um país sem identidade, o país da esperteza, da coisa torpe. Foi uma tarde de poesia, emoção e lágrima. Não vou esquecer nunca mais.











26/outubro/2009 at 12:27 pm
Poeta, foi muito, muito emocionante. Tudo foi emocionante.
Adorei ver você. Adorei tudo.
Você merece.
26/outubro/2009 at 12:29 pm
Depois de tudo que vi no sábado à tarde na Praça Benedito Calixto,
tive uma sensação de profunda alegria por saber que nem tudo se perdeu.
26/outubro/2009 at 12:31 pm
Não tinha idéia de como você é, embora o conheça por fotografias
e pelos vídeos da Jovem Pan.
Mas ver pessoalmente é outra coisa, muito diferente.
Você me passou a idéia de um guerreiro.
E é assim que deve ser.
26/outubro/2009 at 12:36 pm
Foi mesmo uma tarde de pura emoção à flor da pele.
Parabéns poeta!
26/outubro/2009 at 1:04 pm
Álvaro, é uma pena que estava tão longe, em outro evento da Escrituras Editora, mas estive presente, sim, em pensamento e alma.
Você é um poeta não-poeta muito especial, revolucionário homem das palavras, que já deixou sua marca na Literatura Brasileira e Portuguesa. Esteja certo que muitos o reverenciam como a um professor, um mestre, um grande amigo.
Beijos de su antiga fã,
Carmen
26/outubro/2009 at 1:53 pm
Poeta, foi mesmo uma tarde memorável, inesquecível.
Você está de parabéns, poeta, por sua poesia, por sua literatura, pelo seu trabalho na
Jovem Pan e pelo que disse na praça, você e todos os outros poetas presentes.
Uma tarde inesquecível.
26/outubro/2009 at 2:55 pm
Você, militante da Emoção, da Fé, do Sonho, com muito de Dom Quixote; você, trovador de cantigas de escárnio e de cantigas de amor, certamente merece tudo o que recebeu nessa tarde de sábado, tanto quanto em muitas outras tardes e manhãs e noites, de muitos e muitos tempos, que O TEMPO NÃO EXISTE, QUE O TEMPO VERDADEIRAMENTE IMPORTANTE NÃO SE DEIXA GUIAR PELAS HORAS DO RELÓGIO. Pena que os limites do meu corpo e da minha vida não me tenhamm permitido ir, mas ACORDE COM TUA ALEGRIA ESTIVE, ESTOU E ESTAREI SEMPRE, MEU AMIGO.
26/outubro/2009 at 6:30 pm
Poeta, gostei muito de ver o senhor no “O Autor na Praça” na Praça Benedito Calixto.
Grande abraço.
26/outubro/2009 at 7:05 pm
Poeta Álvaro,voce é um eterno guerreiro.
Queira aceitar meus parabens do tamanho
do Mundo.
26/outubro/2009 at 7:36 pm
Querido Poeta, foi marcante sim. Sempre soube de seus leitores, admiradores e tantos fãs, de todas as ordens, que coleciona. Mas o que me impressionou, especialmente, foi o quanto você é carismático. Isso só é possível de se constatar num espaço público em que as pessoas têm a liberdade de passar e não ficar. A praça é lugar em que permanecer é uma escolha e não uma contingência. Digo isso, porque por mais prestigiado que seja um lançamento de livro, as pessoas vão a busca de um autógrafo, de confraternização, são amigos, leitores e admiradores que já aguardavam pelo momento e cumprem esse ritual que eu, particularmente, tenho como uma festa, uma homenagem, e sei que para você é um sofrimento. Tudo acontece como um encontro marcado. Porém, na praça pública, impera o improviso, a liberdade descompromissada. O que ocorreu no sábado na Praça Benedito Calixto, além da demonstração explícita do carinho que seus amigos e os coordenadores do espaço Plínio Marcos têm por você, foi um acontecimento. Sua poesia tocou a todos: aos que sabiam por que estavam lá, aos que não sabiam e acabaram participando desse momento de homenagem, porque eram visitantes fortuitos da feira no local e resolveram aderir à festa, e àqueles que nem sabiam se estavam em algum lugar, como mendigos e pessoas perdidas, abandonadas pela vida, pelo Estado à própria sorte, à miséria. Isso foi incrível. Mesmo essas pessoas despertencidadas de tudo, até mesmo de sua identidade, por um momento, foram tocadas por sua poesia, reconheceram-se na sua poesia e mais, foram até você, atraídos por sua figura, pelo momento de magia que é exatamente como posso descrever o que aconteceu por lá: o Poeta e a Poesia dizendo a que vieram. O mais sobre esse momento, Poeta, estará no meu livro, há muito a destrinchar dessa homenagem que lhe prestaram no sábado. Parabéns! Ao contrário do que diz não merecê-la - já discordei de você -, foi prova de puro merecimento, encantamento, ou estamos todos equivocados?!
26/outubro/2009 at 9:48 pm
Patrícia Cicarelli e todos os outros leitores: obrigado por essas manifestações
e também os comentários no texto anterior.
Obrigado mesmo.
Abraço fraterno a todos.
Hoje é um dia triste.
26/outubro/2009 at 10:00 pm
Ai, Álvaro, hoje o dia está cinza, o dia está chovendo, é verdade. Apesar disso, tenta ainda que o calor das lembranças imperecíveis do sábado te aqueçam por dentro, o possível que te for possível. Tenta, por favor.
Zuleika.
26/outubro/2009 at 10:44 pm
Álvaro: os poetas gostam das praças e as praças gostam dos poetas. Eis o motivo da alegria que rodou o sábado ensolarado.Os poemas, as conversas, os encontros que insistiam em não terminar. Foi um privilégio estar ali. Eunice Arruda
26/outubro/2009 at 10:56 pm
Poeta, o que sinto por você não posso dizer aqui.
Mas posso adiantar ser muita muita ternura.
Vi você de perto, você até me autografou um livro antigo.
Adorei receber um beijo seu.
26/outubro/2009 at 11:24 pm
Poeta, foi tudo muito bonito. Abraços!
27/outubro/2009 at 12:15 am
Foi genial !
27/outubro/2009 at 12:21 am
Poeta Álvaro , foi genial ! …gostaria muito de poder ouvir como nos anos 80 ao final do Jornal da manhã antes de começar o programa ” Show da manhã” suas lindas crônicas que enchiam nossos corações de ternura,amor,afeto … e esperança. Poderia solicitar a emissora a reedição das crônicas. Momento inesquecível de minha juventude! Abç ! Você me autografou certa vez que estive na Pan : A noiva da Av. Brasil , A faca no ventre e o Tribunal . Obrigado.
27/outubro/2009 at 12:59 am
Poeta, a sua figura é mesmo de um poeta.
Basta ver o seu olhar e seu gesto delicado.
Você é mesmo um poeta não apenas pelos livros que escreve
27/outubro/2009 at 1:03 am
Poeta, a sua figura é mesmo de um poeta.
Basta ver o seu olhar e seu gesto delicado.
Você é mesmo um poeta não apenas pelos livros que escreve e que
tenho quase todos.
Mas a sua figura é mesmo de um poeta.
E gostei demais de sua simplicidade em falar com as pessoas,
inclusive comigo que lhe cumprimentei.
Ouvi na Pan que você estaria lá.
Como frequento a Praça fui vê-lo de perto, porque já conheço você
pelos vídos da Jovem Pan.
Mas nos vídeos é um outro homem falando.
Já o poeta é um homem que fala poesia com veemência.
Aquele poema Eldorado de Carajás é uma música.
Parabéns sempre poeta.
Te amo te amo te amo te amo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
27/outubro/2009 at 2:56 am
Poeta, eu poderia passar na Jovem Pan para você me autografar
o seu livro “Melhores Poemas”?
27/outubro/2009 at 2:57 am
Passe quando quiser, Nancy, mas sempre à noite.
Por favor, telefone antes.
abraço