Para além da vida

caminho-da-graca-03

Ouço cantar os fados de uma fadista que eu não conhecia. Ganhei o CD de presente de um amigo de Coimbra. Chegou pelo correio. Ouço. O fado me envolve. Dependendo o dia, assalta-me e me invade como o mar. Como ando um pouco triste, estes fados entram em meu silêncio como o corte de uma vada. A fadista chama-se Aldina Duarte. O título do CD: “Apenas o amor”. Ouço muitas vezes um fado que diz assim: “Qualquer coisa de beleza/ tem de haver para além da vida”. Ouço, ouço, ouço. Sinto as palavras profundamente. O poema é da própria fadista, a música é popular. O título do fado é “M.F.”.

Não discuto valores literários. Não. Estou cansado disso. Falo para mim mesmo da importância deste fado neste momento, neste instante, agora já madrugada que atravessa as coisas, tanto silêncio em minha volta, tantas figuras que não existem mais e que permanecem em mim, os acenos que se perderam, a lágrima que se deixou morrer, o riso que deixou de existir e o poema que não existe mais. Importa o agora. Qualquer coisa de beleza tem de haver para além da vida.

Na memória uma voz triste

Não para de me dizer

Tudo aquilo que hoje existe

Um dia há de morrer.

Eternamente a tristeza

Prevalece desmedida

Qualquer coisa de beleza

Tem de haver para além da vida.

Devagar o esquecimento

Persuade o coração

Na corrida contra o tempo

Volta sempre a solidão.

23 Respostas para “Para além da vida”

  1. Laerte Vieira Diz:

    Caro poeta, como você já bem disse: não acontece por acaso.
    ABraço

  2. Beatriz Diz:

    Mensagem lindíssima poeta, belíssima.
    Imagino você, sua imagem descrita, ouvindo seus fados…
    Adorei…
    Mil beijos para você.

  3. Regina M. Diz:

    Prezado poeta Álvaro Alves de Faria: adoro tudo que escreve e essa mensagem de hoje
    também me pega pelo coração, o fado que você ouviu da fadista que não conhecia.
    Parabéns pelo seu blog, que caminho todos os dias com pés descalços.

  4. Zuleika dos Reis Diz:

    “Qualquer coisa de beleza tem que haver para além da vida.” Talvez, talvez… algo desta “qualquer coisa que tem que haver para além da vida” tenha a explicação para pelo menos algumas das coisas tantas, quase todas, de beleza, que se perderam nesta vida. Talvez, quem sabe, que de alguma esperança se tem que viver, se tem que viver, ainda que seja apenas da esperança desta “qualquer coisa de beleza que tem que haver para além da vida”.

  5. Regina M. Diz:

    Cara leitora Zuleika: não compreendi nada do que você quis dizer.
    Afinal você gostou ou não gostou.
    Sei que você está sempre presente no blog do poeta, com comentários bonitos mesmo,
    principalmente poéticos.
    Mas hoje não compreendi. Pareceu-me uma reprovação.
    Se eu estiver errada me perdôe.
    Abraço para você.

  6. sandra maria reis peres Diz:

    Querido Poeta Alvaro,

    Belissimo este poema de hoje,

    nos leva a refletirmos sobre a vida

    e do outro lado da vida com esperança

    beijos

    Sandra

  7. Zuleika dos Reis Diz:

    Não, querida Regina. Como poderia não gostar? Muito pelo contrário. Se não ficou claro o que eu quis dizer, vou tentar tornar o que disse, na medida do possível, um pouco mais claro. Eu pretendi dizer que, talvez, nesse além da vida, na beleza que reste neste além da vida, se possa compreender o que se perdeu de beleza NESTA VIDA. Desculpe se não me torno, ainda aqui, clara o suficiente. Também eu amo os fados, que eles sempre falam de destinos e este fado, sua letra é linda. A letra, linda, de um fado que eu não conheço, que quem sabe ainda possa vir a conhecer.
    Beijo
    Zuleika.

  8. Isabel Campos Diz:

    Querido Poeta

    Ainda que o tempo voe
    ainda que volte sempre a solidão
    figuras que não existem mais
    permanecem em ti
    porque sorveste a essência daqueles momentos
    porque amou intensamente.
    Importa o agora
    importa o amor!
    Aqui há tanta beleza
    além da vida também
    com certeza.

    Abraço da Bel

  9. Regina M Diz:

    Desculpe-me Zuleika, pelo mal entendido.
    Puxa vida, é a primeira vez que participo do blog do poeta e já crio um caso.
    Desculpe-me.

  10. Zuleika dos Reis Diz:

    Querida Regina, você tem todo o direito de buscar o entendimento de algo que não ficou claro. Não sei se esclareci o suficiente mas, tenha certeza: você não criou nenhum caso, espero que minha resposta não lhe tenha dado esta impressão; criar um caso é coisa muito diferente e eu nos vejo e nos considero, a ambas, pessoas abertas a diálogo feito de respeito mútuo e de mútua consideração. Espero também ter esclarecido, a você e a quem mais não tenha compreendido, o possível a esclarecer do que escrevi naquele meu primeiro comentário. Não me peça desculpas, por favor; não há nada a desculpar.
    Beijo
    Zuleika.

  11. Jacira Diz:

    Poeta, penso em você ouvindo fado, o fado de Portugal com sua tristeza,
    quase todos os fados são muito tristes.
    Mas esse verso que você destaca é mesmo muito bonito.
    Por isso lhe chamou atenção, especialmente neste momento.
    Gostei demais do que você escreveu, como sempre.

  12. Vasconcellos Diz:

    Parabéns, poeta, mais uma vez parabéns.
    Você tem o dom de mexer com as pessoas.
    De abrir o coração das pessoas.

  13. AUGUSTO ROQUE Diz:

    POETA,temos que acreditar que existe alguma coisa além da vida.
    seguramente algo belo. estamos aqui de passagem e ficaria difícil
    viver sem a esperança de que algo de bom nos reserva após a morte.
    creio que a alma é imortal. DEUS,através das coisas lindas da natureza,
    nos mostra o jardim que iremos encontrar após a alma se separar
    do corpo. temos que acreditar.
    amigo,como bom português que sou,também adoro fados.
    Amalia Rodrigues, Carlos do Carmo e outras feras como a citada por
    voce,nos fazem chorar. o fado é triste,sim,mas quanta beleza e quanta
    verdade em suas letras!
    só voce, com essa sua sensibilidade,para nos presentear com algo
    tão belo e profundo.
    grande abraço.

  14. ROSA CARDOSO Diz:

    BÔA NOITE, POETA
    BÔA NOITE, AMIGOS.

    Linda sua página de hoje, triste, sofrida mas….. muito linda.
    Viemos a esse mundo com alguma missão a cumprir, acredito muito na vida após a morte, uma nova vida.
    Lá encontraremos nossos entes queridos, nossos acenos, não teremos lágrimas a derramar, não levaremos
    nenhuma lembrança do que vivemos aqui, tudo será apagado. Teremos um recomeço, teremos o que tanto
    almejamos, é preciso acreditar nisso para podermos enfrentar os novos e grandes desafios que teremos
    amanhã e depois e depois….

    MUITO LINDA SUA PÁGINA DE HOJE

    UM ABRAÇO POETA.
    UM ABRAÇO AMIGOS

    ROSA CARDOSO

  15. ROSA CARDOSO Diz:

    “LIRIO QUEBRADO”

    Entreguei ao vento a morte
    Para ver se me esquecia
    Nem mais sou nem movimento
    Acalmaram o meu tempo
    No deserto em que vivia

    Corri praças roubei flôres
    Em jardins cheios de gente
    Cruzei as rosas com lírios
    Numa teia de martírios
    Quase leve e transparente

    Letra de ALDINA DUARTE

    MÚSICA DE ALFREDO MARCENEIRO

    UM ABRAÇO POETA

    UM ABRAÇO AMIGOS.

  16. Zuleika dos Reis Diz:

    Grande abraço a ti, querida Rosa, e a todos os amigos.
    Zuka, ou aquela que em algum tempo e lugar, muito para além da presente vida, virá ainda a reconhecer o próprio rosto em algum pleno espelho. Que o Pai nos seja para sempre louvado, amém.

  17. gilmar oliveira Diz:

    Este poeta Álvaro é genial ! Muito além do nosso tempo!

  18. ROSA CARDOSO Diz:

    BÔA NOITE, ZUKA.

    Sai dessa amargura ZUKA, admire as flôres, se encante com os lindos pássaros veja a beleza do

    CÉU E DO MAR, olhe para o espelho e veja quanta beleza tem em você.

    UM BEIJO ZUKA.

    ISABEL NEPOMUCENO CADÊ VOCÊ?

    ROSA CARDOSO.

  19. ROSA CARDOSO Diz:

    POETA,

    Seu video de hoje um show, CARLA MACEDO simplesmente fantástica.

    Nota 1000 CARLA MACEDO. UM SHOW.

    UM ABRAÇO A VOCÊS.

    ROSA CARDOSO.

  20. José Anito Diz:

    “Apenas o amor

  21. Zuleika dos Reis Diz:

    Obrigada sempre, querida Rosa, por suas palavras de afeto e ternura. Deixa-me dedicar-te três poeminhas que escrevi há mais de vinte anos e que estão no meu livro Espelhos em Fuga, de 1989. De repente, bateu uma saudade sem remédio daquela Zuleika, que reconhecia alguma beleza em si mesma, sim.

    ABELHA

    Entre favos de mel se move
    a flor dos bichos pequenos.

    O POETA SÁBIO

    O poeta sábio
    repartindo
    com o outro
    o arroz integral
    do silêncio.

    E um último:
    SOLAR

    Acolher o dia
    pacientemente
    (a alegria é um produto artesanal).
    Brotar em sobressaltos de verde
    (o Sol que me aquece
    não é um sol mineral).

    Desculpem, amigos, só quis me lembrar, por um instante, de mim.
    Zuka.

  22. ROSA CARDOSO Diz:

    Não peça dsculpas de nada ZUKa, você é de carne e osso tem seus sentimentos sempre a flôr da pele

    Lindos poemas, essa é a ZUKA que brilha e continuará brilhando

    OBRIGADA ZUKA.

    UM BEIJO

    ( aqui em casa todos dormem vou um pouco de música no fone de ouvido)

    ATÉ AMANHÃ.

    ROSA CARDOSO

  23. Zuleika dos Reis Diz:

    Até amanhã, querida Rosa. Durma bem.
    Todo carinho
    Zuka.

Deixe uma Resposta