Arquivos para a categoria ‘Encantamentos’

POEMA

quarta-feira - 3/junho/2009

mulher_2_ladyofmysterytopA mulher tem duas almas,

uma que chora, outra que ri:

a que ri chora sempre,

a que chora morre em todo entardecer,

quando a vida entardece.

Tem duas almas: uma que esquece,

outra que foge sempre das igrejas

mas entre anjos permanece.

A mulher tem duas faces,

a que se mostra, a que se esconde:

na que se mostra ela se cala,

depois se guarda escondida

no retrato de uma sala.

Tem duas almas:

uma que fere, outra que é ferida,

a que se corta não se vê na que se fere,

a preferida.

A mulher tem duas primaveras:

a que nasce sempre nas árvores

e a que lembra esquecimentos,

a que silencia o ser ausente,

a que floresce pressentimentos.

Tem duas vidas:

a que vive e adormece

e a que, adormecida,

na sua alma a vida tece.

RAINHA

segunda-feira - 1/junho/2009

rainhas

Eu sei que sou o bobo da Corte.

Mas não sinto nenhuma deselegância em confessar que meu coração pertence somente à Rainha.

A princesa está apaixonada por mim e dela faço uso, com doces juras de amor, para alcançar a sua mãe.

Sei que depois disso serei decapitado.

Mas a cabeça eu já perdi há muito tempo. 

CARNAVAL - 8

sábado - 7/fevereiro/2009

 

Colombina

Fica então poeticamente decretado o seguinte:

1.Durante o desfile do Bloco, todo mundo terá direito de ser feliz

2.Durante o desfile, todas as mulheres poderão chamar-se Rosa, Hortência, Margarida, Florbela, Flora, Adália e outros nomes afins

3.Todos terão direito de voar

4.Todos terão direito de ter uma lágrima nos olhos

5.Todos terão direito à fantasia e ao sonho, mesmo o mais impossível de viver

6.Todos terão direito de se vestir de anjo

7.Quem quiser poderá tirar a máscara de todos os dias

8.Todos os acenos poderão ser para ninguém

9.Todos poderão andar de mãos dadas

10.Quem quiser poderá usar uma sandália de prata

11.Todos terão direito a uma nuvem branca

12.Todos poderão comer algodão doce

13.Quem quiser pode ser vestir de palhaço para poder chorar com graça

14.Todos terão direito a receber um poema no final do desfile

15.Será proibido proibir qualquer manifestação de afeto

16.Todos terão direito de levar duas estrelas no coração

17.Todos terão direito de assistir ao amanhecer

18.Quem quiser, pode levar seu cão

19.Todos terão o direito de brincar de ciranda

20.Por fim, a Fada Madrinha do Bloco, que será a Priscila, escolherá o lugar onde todos ficaremos escondidos.

ENCANTAMENTOS

quarta-feira - 28/janeiro/2009

Gostaria de escrever sobre todas as formas de encantantamento, todas. Seu eu pudesse, falaria do encantamento de algumas coisas que ainda ne tocam. Falaria talvez das manhãs, se elas ainda existissem. Falaria talvez de um poema, se eu lembrasse de algum. Lembraria a figura de algum poeta, se eles ainda estivessem no mundo. Gostaria de falar de encantamentos. Gostaria de falar dos sonhos dos moradores de rua, mas eu não sei se eles sonham. Sei que sofrem. Eu não sei se existe encantamento nas pessoas que sofrem como eles. Gostaria de falar das imagens que passaram por mim e que hoje são apenas um profundo esquecimento na minha memória. Gostaria de escrever sobre todas as formas de encantamento. Gostaria de falar sobre as palavras, mas as palavras estão gastas, quase todas perderam o sentido. Gostaria de falar de uma tarde num circo, mas os circos desapareceram. Uma tarde de domingo, escondida em algum lugar da infância. Gostaria de escrever sobre encantamentos, como andar de mãos dadas, como fazer juras de amor, como escrever uma carta, como caminhar junto ao mar, como andar entre as árvores, como mexer na terra, como colher sementes, como tomar um copo de vinho ou como rezar uma prece desconhecida. Gostaria de escrever sobre encantamentos. Gostaria de ser encantador de serpentes. Gostaria de tocar flauta. Gostaria de andar descalço mais vezes. Gostaria de caminhar na chuva. Gostaria de ser apresentado a mim mesmo. Gostaria de escrever sobre encantamentos. De falar uma linguagem que ninguém entendesse. Gostaria de ver mais as gaivotas que nunca vejo. Gostaria de passear sentimentos entre as pedras. Gostaria de escrever sobre encantamentos. Gostaria de colher as estrelas cadentes. Gostaria também de guardar as luas cheias que nascem no teto de meu quarto. Gostaria de mexer nas plantas, com o cuidado de um monge que chora. Gostaria de cantar para as aves. Gostaria de escrever sobre encantamentos, mas eu sei que não conseguiria.

MELHOR É TER UM CÃO

domingo - 25/janeiro/2009

Neste domingo, caminhando por  meu bairro, notei uma coisa que me comoveu. Tanta gente passeando com seu cão, uns soltos, outros na coleira. Meninas contentes no domingo pela manhã, com o cão a caminhar, a conversar. As pessoas conversam com seus cães e ele conversam com seus donos. Vi dezenas de moças, mulheres, homens idosos, todos caminhando com seu cão pelas ruas cheia de árvores. De repente tive a sensação de que todo mundo tem um cão em casa. Mexo em todos eles. Os donos permitem. Pergunto se é “menino” ou “menina”. Pergunto o nome. Mexo neles como se fossem meus. Não posso mais passear com meu cão, o Guga, porque, infelizmente, ele perdeu a visão. Tentei tudo que me foi possível para evitar. Não consegui. Ele só sabe andar dentro de casa. Mas adora sair na rua, de sentir que está na rua, embora na rua ele não consiga dar um único passo porque tem medo. Tenho então um carrinho parecido com o dos bebês e levo meu cão às vezes para passear. Ele quer cheirar tudo. Às vezes ele brinca com meu porquinho da Índia, menina, que pelo tratamento que recebe, é completamente diferente, conforme diz a veterinária amiga que cuida dela e do Guga. Chama-se Belinha. Também vive solta dentro de casa e some de vez em quando. A veterinária diz: “Não é possível o que vejo nesse pequeno bichinho, um bichinho que lambe o rosto do dono. Porquinho da Índia não faz isso!”. Mas o meu faz. A veterinária viu isso quando precisei levar Belinha à clínica, porque se mostrava doente. Ela tremia de medo. Os animais sabem quando vão ao médico. Choram que nem crianças. Depois do exame, agarrou-se a mim e me lambeu o rosto muitas vezes. A veterinária não acreditou no que estava vendo. Mas voltando ao início: tenho a sensação de que todo mundo tem um cão. Sinceramente, fiquei feliz em ver tantos cães com seus donos no domingo pela manhã, caminhando pelas ruas. Para mim, o cão é parte da família. E a propósito, para concluir esta pequena crônica, nesta semana o jornalista Ricardo Noblat utilizou um poema meu no seu blog, um dos mais lidos no país, por suas informações exclusivas especialmente na área da política. O “Blog do Noblat”, do jornal O Globo Online, é fonte de informações preciosas, uma referência. Pois o Noblat me honrou ao usar um poema meu em seu blog, motivo de orgulho para mim. O poema chama-se “Noite” e pertence ao meu livro “À noite, os cavalos”. É o seguinte:

Melhor é ter um cão

com quem se possa conversar,

especialmente à noite.

Melhor é ter um cão

para em silêncio ser ouvido,

como se as palavras não existissem,

nem conversas,

nem dizeres.

Com um cão as palavras

são desnecessárias.

Nesta sala vivemos quietos

diante da janela

e isso nos basta.

ENCONTRO COM O AMIGO

domingo - 25/janeiro/2009

A vida separa as pessoas. Não estou falando nada de novo. Absolutamente nada. Mas também nada de novo tenho a dizer. Aliás, nada tenho a dizer. Neste domindo resolvo dar uma volta no bairro onde vivo há tantos anos, a vida inteira. Encontro um amigo que não via há muito tempo, amigo da adolescência, do time de futebol, o Grêmio Desportivo Monções. Encontro o amigo Heitor Iório, o Heitor, meia direita, camisa 8. Caminhamos juntos. Ele me diz: “Eu sou um de seus 19 leitores”. E nos lembramos das coisas que há tanto passaram, as vidas que se separaram, uns pelos caminhos da própria vida, outros, infelizmente, para sempre. Infelizmente. Falamos de futebol. Heitor me diz: “P. time o nosso, poeta, p. time, se lembra?”. Então ele me dá a escalação inteira de nosso time. “Você era o seca-ponta, se lembra ? O adversário não conseguia jogar contra a gente. P. time era o nosso!”. É verdade. Que belo time da várzea daquele tempo, quando todos éramos adolescentes, todos ou quase todos éramos estudantes. Depois, a vida. E a vida levando um para cada caminho. Heitor me diz dos caminhos que seguiu. E me informa que acompanhou o meu, por ser no jornalismo, na literatura. Tem sempre alguma notícia em algum lugar. Conversamos sobre a morte de meu irmão. Tudo se vai. Tudo vai desaparecendo. Não me sinto triste, mas não sei como me sinto. Os amigos da adolescência que de vez em quando a gente encontra numa esquina, numa rua, numa igreja, num estádio. O abraço. E depois aquela emoção de ver a paisagem antiga de nós mesmos, os rumos, uns certos, outros incertos. Nos despedimos com um abraço comovido. Resta sempre aquela amizade e amor que não desaparecem, embora as pessoas não se vejam mais. Mas estão lá guardados, no estojo das lembranças, está lá guardado o gesto nunca esquecido dos que se querem bem. É o que nos resta: querer bem, para que o mundo seja um pouco melhor.

PEQUENA HOMENAGEM A QUEM MERECE MUITO MAIS

sábado - 24/janeiro/2009

Esperei alguns dias para ver o comportamento da imprensa brasileira sobre o assunto. A repercussão foi pífia. É uma palavra horrível, essa. Mas foi pífia. Eu me refiro à jogadora de futebol feminino Marta, Marta Vieira da Silva, 22 anos, considerada a melhor jogadora do mundo por três anos consecutivos. Recebeu o prêmio da Fifa há alguns dias. Até agora, só Ronaldo tinha conseguido isso, ser o melhor do mundo três vezes para o Brasil. Zidane também conseguiu. Marta já jogou como profissional, digamos assim, 189 vezes. Marcou 191 gols. Uma marca incrível, difícil de se conseguir. O técnico Renê Simões, hoje no Fluminense, além de técnico estudioso do futebol, diz que Marta tem a habilidade de Ronaldinho Gaúcho, o domínio de bola de Kaká, a velocidade do jogador português Cristiano Ronaldo, driba como Robinho e tem faro do gol como o Ronaldo. Pois essa jogadora brasileira, a melhor do mundo, pouco é festejada no país do futebol, o país do futebol para homens, claro. Mulher não tem vez. Não devia ser assim. Não pode ser assim. Marta veio daqueles becos de sempre, como é a origem de quase todos os atletas brasileiros. Nasceu em Dois Riachos, em Alagoas. Quando ela recebeu pela terceira vez o seu troféu de melhor do mundo, no Ópera House, em Zurique, na Suiça, teve anunciada sua transferência para o time dos Los Ângeles Sol, que pertence à liga americana de futebol e quer se tornar o melhor time feminino do mundo. Contratou bem. No Brasil, Marta não teria onde jogar, a exemplo das outras jogadoras brasileiras que defendem a seleção e depois vivem de esmolas o tempo todo. Aqui o futebol é masculino. Marta não merece apenas as palavras simples que escrevo aqui. Não. Merece muito mais. Fosse este um país civilizado, Marta seria uma espécie de heroína, seria chamada a dar entrevistas na televisão, falaria de sua vida, de seus anseios, de seus sonhos. Mas aqui, não. Aqui não há homenagem nenhuma. Três vezes a melhor jogadora de futebol do mundo. Certamente, nos Estados Unidos reconhecerão o seu valor. Que ela merece. Aqui ela não teria chance nenhuma, bailarina que é no palco dos estádios.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, DE COSTAS PARA O MAR, OUVE O HOMEM DO POVO, SEM RUMO E SEM DESTINO.

sábado - 10/janeiro/2009

Eu sei que o senhor foi um grande poeta brasileiro. Sem também que os poetas não são respeitados no Brasil. Eu sei dessas coisas porque de vez em quando eu leio nos jornais que acho no lixo. Leio um pouco antes de dormir em algum beco. Leio devagar porque não sei ler depressa. Eu sei que o senhor foi um grande poeta. Senão não teria esta estátua aqui no calçadão. Eu acho que está tudo errado. Está tudo errado. Esses caras ficam falando aí o tempo todo, mas está tudo errado. Dizem que está tudo bem, que a gente vai prá frente e o escambal, mas eu não sinto isso não. Se eu quiser comer, tenho de pedir ou pegar no lixo dos restaurantes. Se não for assim eu não como nada. Eu ando por aí o dia inteiro. O senhor fica sentado aqui dia e noite. Eu já li que de vez em quando os caras roubam os seus óculos. Os caras roubam e depois vendem para comprar droga. Eu também entro numas assim. Mas fico mais na minha. Só ando por aí. Gosto de entrar no mar, mas só de noite. De dia os caras acham ruim. Então eu fico de longe olhando as coisas. Fico olhando de longe. Eu sei de todas as coisas que acontecem por aí. Está tudo errado. E os caras dizem que está tudo certo. Que está tudo bem. Não está tudo bem nada. Os caras falam o dia inteiro sem parar. Eu vejo nas televisões ligadas nas lojas. Eu fico assistindo. Todo dia tem tiroteiro por aqui. Eu assisti a festa da passagem do ano. Foi linda, cheia de fogos, tudo colorido. Uma porção de gente bonita. Eu fiquei no meio de todo mundo. Acho que eu também tenho o direito de ver as coisas coloridas. Acho que eu também tenho o direito de ver essas coisas bonitas. Eu acho que eu também tenho o direito de viver.  Olha, o senhor é um grande poeta, mas eu nem sei direito o que é ser poeta. Eu sei que um poeta escreve poesia. Isso eu sei. Eu não sei direito o que é poesia. Mas eu acho que eu sou uma poesia. Eu acho mesmo. Eu sou uma poesia que alguém escreveu e depois jogou fora. Eu estou fora do mundo. Eu estou fora de tudo. Eu só existo. E vou andando. Eu gostaria muito que o senhor pudesse falar alguma coisa para me dizer se eu estou certo ou errado.

PEQUENO POEMA NA TARDE DE SÁBADO

sábado - 10/janeiro/2009

Minha poesia é árida.

Tem de ser árida.

Mas nessa aridez, não pode perder a alquimia do sonho.

E árida, tem de ser ferida.

Feridárida.

Estou cansado de contemplações.

DIA DO ASTRONAUTA

sexta-feira - 9/janeiro/2009

Hoje é o Dia do Astronauta. Acredito, sinceramente, que seja o meu dia. Hoje é meu dia. Explico: vivo em órbita há mais de 40 anos e sempre estou no espaço. Atualmente ando perdido no firmamento. Vejam os meus 19 leitores que bonito: ando perdido no firmamento. Só sei que o foguete que me levou para o espaço (o mais correto seria dizer “que me mandou para o espaço”) simplesmente desapareceu. Saí com um vidrinho de cola para dar uma arrumada numa rachadura e ele sumiu. Sumiu e eu fiquei por aqui, rodando para todo lugar. Faz tempo que estou perdido no espaço. Na verdade, eu sempre estive em órbita. O problema é que eu não tenho rumo. E ninguém passa por aqui para me resgatar. Meu oxigênio está acabando. Não sei a quem recorrer. Poderia, por exemplo, telefonar para alguém na Terra. Mas não uso celular. E telefonar para quem, a esta altura da vida ? Eu vejo a Terra daqui de cima. Está toda estragada. Mas também não posso fazer nada. Nem posso fazer nada comigo mesmo. Perdido no espaço, deixo que meu pensamento voe livre, como se fosse um pássaro. Mas não dá para pensar muito. Chega uma hora que não dá para pensar mais. Só sei que continuo em órbita e a culpa é do Governo. Se eu conseguir voltar, quero uma indenização. Mas na verdade, se eu voltar é capaz de me prenderem, porque me desprendi do foguete que me levou para o espaço, para o infinito. Às vezes tenho a impressão de estar no meu infinito. A minha vantagem é que eu vejo as estrelas de mais perto, mas isso já acontecia quando eu estava no planeta. Não é novidade nenhuma estar em órbita, já que sempre vivi no mundo da Lua. Eu tenho esperança que o foguete ainda vai passar por aqui para me resgatar. Só não sei se quero voltar para o Brasil. Quem sabe a Bósnia ?  Uzbequistão ? Casaquistão ? Quirguistão ? Pode ser qualquer outro lugar que termine em “ão”. Queria mesmo ir para a Palestina. Daqui de cima eu vejo melhor a brutalidade. Mesmo tão distante e abandonado no espaço, eu continuo sonhando. Isso ninguém tirou de mim ainda. Quando eu voltar, acho que vou escrever poesia. É o mesmo que não fazer nada para sempre.