Arquivos para a categoria ‘Literatura’

JORNAL VAGALUME

quarta-feira - 1/outubro/2008

Minha amiga poeta Cida Sepulveda é editora de um jornal na Internet que trata de Literatura. Nem tudo está perdido. Tem sempre alguém que briga pelas coisas. Que faz com que as coisas aconteçam. Ela me pede que eu coloque no meu blog o endereço do jornal, o que faço com o maior prazer do mundo.

Peço que meus 19 leitores acessem www.jornalvagalume.com

Notícias literárias, críticas, resenhas, poesia, tudo que o mundo precisa para ser um pouco melhor. 

ZULEIKA DOS REIS

quarta-feira - 1/outubro/2008

zuleikadosreis300908.jpgA melhor poesia brasileira, atualmente, é escrita por mulheres. Cito algumas delas, só para exemplificar, sabendo, de antemão, que esquecerei de muitos nomes: Eunice Arruda, Cida Sepulveda, Neide Archanjo, Astrid Cabral, Mariana Ianelli, Dalila Teles Veras, Lina Tâmega Peixoto, Beatriz Helena Ramos Amaral,  Thereza Christina Rocque da Motta, Leila Echaime, Helena Armond, Mirian de Carvalho e muitas, muitas, muitas outras. Mais uma prova de que a poesia atual do país pertence às poetas mulheres é o livro de Zuleika dos Reis, “Flores do Outono”, da Editora Paubrasil, que será lançado neste sábado, dia 4 de outubro, na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, 509, das 15 às 18 horas. Zuleika dos Reis é professora de Português na rede municipal de ensino de São Paulo, formada em Letras pela USP. Tem dois livros publicados, “Poemas de Azul e Pedra (1984) e “Espelhos em fuga” (1989). Dedica-se, também, ao haicai. Tive a honra e o prazer de escrever o prefácio de “Flores de Outono”, que é o seguinte:    

*

Antes de tudo é preciso dizer que este livro de Zuleika dos Reis é um longo canto de amor à vida. Um longo poema que se debruça na natureza para expressar-se como poesia, essa coisa invisível que ainda existe em algum lugar, embora seja este um tempo de brutalização de tudo.

Não para Zuleika dos Reis que tem os olhos voltados à vida e, neste caso, às árvores que insistem viver. Viverão enquanto existirem poetas assim, de olhar generoso, de braços abertos a existência do brilho ainda possível.

“Flores do Outono” é uma conversa íntima de Zuleika dos Reis com a árvore que ela vê da janela de seu apartamento. Com ela conversa. Com ela sonha. Com ela chora. Com ela lembra. Todos os anos suas flores saltam, como podem saltar os poemas nas páginas dos livros, a poesia esquecida nas frestas dos objetos.

Essa árvore a quem a poeta dedica seu amor, é mais que poesia: é também proteção a uma natureza ameaçada cada vez mais pelo homem que, irracional em tudo que faz, destrói as folhas dos dias que já são derradeiros.

A poesia de Zuleika dos Reis escorre pelas mãos, como se nascesse a todo instante e a todo instante tivesse que se dizer viva, unicamente porque está viva. A poesia escrita por mulher poeta pode ser a salvação neste quadro melancólico que todos vivemos.

Prova disso é este livro tocante, que vai entrando na alma de seu leitor, aos poucos, abrindo os caminhos, com uma palavra feita de sensibilidade apurada, tendo sempre, por base, a palavra da poesia japonesa, essa observação das coisas ínfimas, que ninguém vê.

Zuleika dos Reis vê. E escreve. Escreve um imenso canto de amor. À vida e a tudo que a rodeia, mesmo o que se mostra como dor, esse ferimento que nos marca e nos faz sentir melhor o mundo.

A poeta inicia seu livro oferecendo toda sua trajetória ao leitor nos primeiros versos: 

            Vejo da janela

            uma árvore florescendo

            no tempo do outono.

            A natureza permite

            que eu venha ainda a sorrir.
 

Nada mais justo a alguém que louva a natureza ferida no olhar de uma árvore que se esconde certamente em si mesma, em seus receios, nas flores possíveis, nos pássaros, nas tardes em que começa a adormecer. No outro dia, ao abrir-se a janela, lá está ela, esplendorosa e radiante, porque isso ainda existe, basta saber observar.

Zuleika confessa em um dos poemas sua identidade com o que cerca suas palavras e sua poesia, num poema de sua intimidade, como se dissesse a si mesma que é preciso seguir:

            O pássaro-pássaro

            não sabe das estações

            mas aprendi nomes

            e o que sei deste momento:

            Quero florescer no outono.

Essa é a linguagem deste belíssimo livro de uma poesia rara, quando a poesia rara tornou-se quase inexistente num cenário deprimente de acasos e falsas palavras. Felizmente ainda existem poetas assim, especialmente mulher. É preciso repetir: especialmente mulher, que sentem mais, que se multiplicam em si mesmas e sabem colher a poesia necessária para a vida.

Só a poeta deste livro terá a liberdade de conversar como conversa com sua árvore que há tantos anos faz parte de sua existência:

      És toda compacta

      agora, flor, na tua hora

      de plena certeza.

      Nenhuma dúvida ou medo.

      O cantor, frente ao aplauso.

Esse aplauso pode ser o poema escrito por quem conhece esse ofício de escrever poemas. O poema e a poesia. A poesia e o poema. Essa amálgama de sentimentos, de gestos, o aceno último que se desenha no ar para que fique nesse quadro de palavras o que respira.

Zuleika dos Reis produz um poema contido e aí reside, forte, essa admiração pela poesia do Japão, o tanka, o haicai, o poema que tem de expressar tudo em palavras mínimas. E isso é encantamento puro.

É preciso, também, dizer das palavras de amor. Das palavras feitas de afetos. Das palavras que insistem existir num poema feito com a delicadeza de um monge, com o gesto feito do lírico, do sonho, do silêncio, do verso amoroso que no zelo de seu amor se deixa existir.

“Flores do Outono” é encantamento puro. Um longo poema de amor. A um amor talvez distante, um amor que talvez não saiba, mas também à natureza, especialmente ela, que se mostra no verde da luz e na brancura da palavra. Palavra como esta, de um livro que comove por sua beleza.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

quinta-feira - 25/setembro/2008

mariadorosariopedreira.jpgA melhor poesia do Brasil, atualmente, é escrita por poetas mulheres. São as mulheres que sabem da poesia. O resto, com algumas pouquísssimas exceções, não existe. Só leviandades. Coisa descartável. Que nem chega a existir. Pois a essa poesia das poetas mulheres brasileiras vai somar-se a poesia de uma poeta de Portugal, Maria do Rosário Pedreira. Acabo de escrever o prefácio de seu livro “O Canto do  Vento nos Ciprestes”, a sair no Brasil brevemente, pela Editora Escrituras. Meus olhos brilham a ler este livro. Deixei-me levar por essa poesia de Maria do Rosário, para escrever o que me vinha da alma. Um prefácio sentimental ? Pode ser, mas sem excluir a análise do poema como texto literário. O que me encanta nas poetas mulheres é o toque feminino. Nem todas as mulheres conseguem deixar essa marca feminina em seus poemas. O que, a bem da verdade, não é nenhum desmérito. Mas a poesia com esse toque feminino me encanta. Caso de Maria do Rosário, que nasceu em Lisboa em 1959, tem vários livros publicados, incluindo romances, poesia, ensaios literários e crônicas. “O meu amor não cabe num poema - há coisas assim/ que não se rendem à geometria deste mundo”, escreve ela num poema. Continua: “O meu amor é maior que as palavras; daí inútil/ a agitação dos dedos na intimidade do texto”. Como ela afirma num poema, “é no momento que encerra a beleza de um gesto/ que se prolonga a vida”. Um dos poemas de seu livro diz assim: “Que é das palavras ? Como chamar/ por quem se esconde se, sem elas/ nem o silêncio tem nome ?”. Escrever esse prefácio me faz mais leve. Me faz até acreditar. “O Canto do Vento nos Ciprestes” diz que Deus tem as mãos grandes e que o amor não tem memória. É assim essa poesia que encanta, como a de tantas outras mulheres poetas do Brasil, que fazem a melhor poesia neste vale de lágrimas e enganos. Some-se a elas a poesia dessa mulher de Portugal, com a palavra poética de magia e encantamentos. É preciso encantar-se. Encantar-se sempre. É o que nos resta.   

O ESCRITOR NEGRO MACHADO DE ASSIS

quarta-feira - 24/setembro/2008

machado_de_assis1.jpgA universitária Alessandra Mirna, de São Paulo, escreveu à Jovem Pan depois de assistir a um vídeo que gravei na Jovem Pan Online, já há algum tempo. A mensagem de Alessandra é a seguinte: “Sou estudante do curso de Letras e hoje, pela primeira vez, ouvi alguém se referir a Machado de Assis como o maior escritor negro da história da literatura brasileira. Geralmente ouço referências a ele como mulato ou mestiço, mas como negro é a primeira vez. E isto me proporcionou uma grata e satisfeita alegria, não pela negritude até então negada a este escritor, mas pela justiça feita à história desse negro e de muitos outros que espero sejam contemplados com a mesma medida de justiça, ainda que tardiamente”. Alessandra Mirna tem mais do que razão. Infelizmente, este é o país do faz-de-conta, o país dos equívocos e sobretud0 da mentira. Não me canso de dizer isso. E vou continuar repetindo. O país da mentira em praticamente em todos segmentos, especialmente na Literatura. Vou sempre repetir o que penso escrevendo ou fazendo meu quadro na Jovem Pan Online. Não é à toa que fugi para Portugal em busca da poesia que me falta aqui. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Alessandra tem razão. É verdade: sempre que se fala ou se escrecre sobre Machado de Assis, referem-se a ele como mestiço ou mulato. Isso ocorre comumente na crítica literária brasileira vagabunda, com algumas exceções, nos livros de história da literatura, no ensino, em tudo. Sabem o que ocorre: é hipocrisia demais. O que reina ainda é muito preconceito, muita gente preconceituosa  que parece ter receio de dizer as coisas como as coisas de fato são. A hipocrisia é isso. E hipocrisia num país surrealista soa como impostura pura e simples. Machado de Assis era negro, sim. Um escritor brasileiro negro. Que mal há em se dizer isso ? O que essas figuras que escrevem nos livros de história querem afinal esconder, se é que cabe tal expressão ? Um escritor negro. Merecedor de todos os elogios por ser considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Negro. Negro. Vou repetir: um escritor brasileiro negro. É preciso parar com essa coisa ridícula e preconceituosa. Mesmo em vários livros que estão saindo agora, quando se comemora o centenário da morte do escritor, nenhum autor o chama de negro. Quando a ele se referem vêm as palavras chaves: “mulato” ou “mestiço”. Na verdade, muitos já estão se tocando. Mas preferem não dizer nada em relação ao negro Machado de Assis. Podem não usar nem mestiço nem mulato. Mas também não dizem negro. Não. Há muito tempo o crítico norte-americano Harold Bloom escreveu que Machado de Assis foi o maior escritor afro-descendente de todos os tempos, comparando o escritor negro brasileiro a Dante, Shakespeare e Cervantes. Quer dizer: um crítico do peso de um Harold Bloom diz o que este país evita dizer. O que é que, afinal, se esconde atrás disso ? Mulato, mestiço ? É absolutamente vergonhoso que este país ainda se esconda num preconceito que não se pode admitir. Machado de Assis deve ser respeitado. Era negro. E assim deve ser chamado em sua grandeza, tido coomo o dono da maior literatura que este país já produziu.   

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO

sábado - 30/agosto/2008

alphonsusfilho.jpgO poeta Alexei Bueno me liga do Rio e me dá a informação. O poeta Alphonsus de Guimaraens Filho faleceu. O Glauco Matoso me passa um e-mail também informando da morte do poeta. Eu pergunto: Onde está esse jornalismo cultural vagabundo deste país que sequer deu a notícia ? A gente mede um país por coisas assim. Morre um poeta do porte de Alphonsus e o jornalismo cultural medíocre sequer dá uma notícia. O jornal O Globo, do Rio de Janeiro, deu hoje uma nota absolutamente ridícula e vergonhosa, constrangedora em todos os sentidos. As coisas são assim. Amigo de Alphonsus, Alexei se diz indignado. Uma das últimas publicações de Alphonsus de Guimaraens Filho é de 2003, quando ele reuniu sua obra poética no livro “Só a noite é que amanhece”. Alexei escreveu, então, que essa obra propicia ao leitor um verdadeiro reencontro com a história da poesia brasileira no século 20, através de mais de 20 livros e de seis décadas de atividade de um de seus principais protagonistas. Alexei Bueno acentuou: De “Lume de estrelas” (1940) até “O Tecelão do assombro” (2000), “delineia-se uma das trajetórias mais longas e coerentes do lirismo brasileiro”. Não dá para entender como sequer se noticia a morte de um poeta como Alphonsus de Guimaraens Filho. Se fôssemos um país civilizado, o jornalismo cultural seguiria o mesmo caminho e, claro, o poeta morto seria lembrado por sua obra e sua vida em favor da literatura brasileira, da poesia, especialmente. Mas não. Só a mediocridade desse jornalismo cultural, dessa crítica ridícula, pode ignorar a morte de um poeta desse porte, em favor de nomes insignificantes que habitam os suplementos culturais, especialmente do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nomes que não resistem a qualquer crítica razoável. Mas estão sempre aí, com uma “obra” absolutamente inócua, vazia e de uma inconsistência espantosa. Isso ocorre na prosa e na poesia, excetuando-se alguns nomes que não preciso citar. Mas a maior parte é de uma desimportância que dói, especialmente aqueles que, não faz muito tempo, apresentaram-se como “trangressores”. Dá vontade de dar gargalhadas. Mas, na verdade, esse é o cenário triste de um país que trilha sempre pelos rumos incertos em quase tudo. O jornalismo não poderia ser diferente. É ausente. É distante. É inconsequente. O poeta Alphonsus de Guimaraens Filho morreu no Rio de Janeiro. Com raras exceções, os críticos literários, os analistas da literatura, os que fazem jornalismo cultural, não morreram agora. Eles estão mortos há muito tempo. E ainda não sabem. 

BREVES RESENHAS

segunda-feira - 25/agosto/2008

Zoozona
Mauro Gama
Editora Girafa, São Paulo   

la_lectureed.jpgQuando se lê um livro como “Zoozona”, do poeta Mauro Gama, tem-se ainda alguma esperança. Nem tudo se perdeu. E falar isto neste país pode ser uma dádiva, dessas que algumas divindades ainda oferecem os homens. Eis um livro de poesia, de Mauro Gama, a quem José Guilherme Merquior chamou de mestre, dizendo-o “uma das vozes mais admiráveis da poesia em nossa língua”. Merquior estava certo. Aliás, Merquior pouco errava, queiram ou não seus desafetos. Provou até que uma estrela acadêmica decadente brasileira ligada aos poderes vigentes não passava de uma plagiadora de Spinoza, que transformou o filósofo holandês em militante de seu partido. Mas isso não tem nada a ver. Estamos falando de “Zoozona”, uma aula de poesia e de poema. Uma lição de como se colhe a poesia ainda existente e como se constrói a poesia sem a farsa de um João Cabral de Melo Neto, por exemplo, que usava régua e compasso para estruturar seu poema sem alma e sem sangue, um engenheiro juntando seus tijolinhos com fio de prumo. O poeta e crítico Mauro Gama não é farsante. Não. Prova são os poemas deste livro. É bom colocar aqui palavras do poeta para explicar sua obra: “Desde o início, minha criação poética teve sempre duas vertentes. Uma voltada para dentro, subjetiva, lírica, introspectiva, e a outra voltada para fora, objetiva, social e até política, satírica com freqüência”. Mauro Gama explica que essas, no entanto, não são diferenças rígidas, inalteráveis. Seus dois primeiros livros, “Corpo verbal” e “Anticorpo”, mantém essas diferenças com toda nitidez: “São paradigmas desse comportamento, de antinomia e complementaridade”. O poeta observa, então, que a partir delas – como diz – “a divisão se observa mais em grau, em predomínio, do que em terrenos, ou conjuntos, distintos”. São dois livros num só volume: “Zôo” e “Marcas da noite”. Sem erro: o que de melhor se pode produzir em termos de poesia, especialmente num país que está sempre a se enganar no que diz respeito a esse gênero literário. A poesia se transformou em algo descartável completamente por conta da mentira de todos os dias de um jornalismo cultural medíocre que inventa poetas da noite para um dia, que escrevem poemas que não resistem a uma crítica razoável.  “Marcas da noite”, especialmente, é uma lição de poesia e de poema, tal beleza de palavras em tom poético de música. Vejam apenas os primeiros versos do poema “Ação nleiturrenoired.jpgo escuro”: “Na escuridão repisada/ de águas esquivas/ e tábuas/ um cheiro vivo de velas/ e flores já sufocadas”. Um retrato de palavras certeiras. Mais um exemplo, em “Fuga em si menor”: “As estrelas – feridas – se descamam/ perdem pestanas viram mamas e ânforas:/ há olhos congelados dedos cegos/ tubérculos em febre. Os lagos arfam/ passa um frêmito azul na água dos juncos/ os sapos se extasiam a banda e os banhos/ brilham erguem-se cantos balões bombos”. Mauro Gama sabe lidar com as palavras. Faz com elas o que bem entende. O som, as sílabas, a frase poética, o verso, as letras. Isso também está presente em “Zôo”, poemas sobre e para bichos, numa linguagem poética rara. Como em “Girafa”, pequeno exemplo: “Este é um camelo metafísico:/ cansou de areia de deserto/ e é um movimento para cima -/ sempre partindo para o céu”. O poeta e também crítico de literatura observa na sua apresentação que “a poesia, quando verdadeira, jamais se esgota na composição, ou na fisionomia gráfica que adquire”. Tem razão. É assim mesmo. Por fim, tomo a liberdade de sugerir ao leitor de “Zoozona” que arranque um trecho do livro que tem o título “Saída”, da página 87 a 91. Arranque e jogue fora. Esqueça. Trata-se somente de uma mancha num belíssimo livro de poesia. De uma inutilidade surpreendente. Uma espécie de pequeno manifesto, bem pequeno mesmo, que torna difícil entender porque razão entrou neste livro. Num dos trechos, Mauro Gama afirma que “perpetrar sonetos, por exemplo, é caso de internação”. Para citar apenas dois casos, teríamos então de internar imediatamente Glauco Matoso e tirar Bruno Tolentino da morte para interná-lo também. Arranquem essa parte. Poetas como Mauro Gama têm, claro, o direito de escrever o que bem entenderem. Mas quando a bobagem é demais, dói.      

Melhores crônicas de Austregésilo de Athayde
Coordenação de Murilo Melo Filho
Direção da Coleção de Edla Van Steen
Editora Global, São Paulo
 

Houve um tempo no Brasil em que falar-se de Austegésilo de Athayde era falar em Academia Brasileira de Letras, tanto tempo ele presidiu a entidade. Ficou 35 anos como presidente da entidade. Austregésilo foi eleito para a Academia e tornou-se seu presidente em 1959. O ensaísta Murilo Meloleiturarenoir-fulled.jpg Filho organizou esta antologia das melhores crônicas do escritor, consultando, como explica, milhares e milhares de textos escritos ao longo de 60 anos de atividade jornalística e de escritor de Austregésilo de Athayde, carreira iniciada em 1921. O organizador  diz o seguinte: Austregésilo foi o admirável retratista daquele mais de meio século da instigante vida brasileira, social e política, que descreveu como mestre, cronista-testemunha e, não raro, como participante de uma época de ouro da história brasileira”. É exatamente isso que vamos encontrar neste livro As Melhores Crônicas de Austregésilo de Athayde, publicado pela Editora Global, na coleção dirigida pela escritora Edla Van Steen. Austregésilo costumava dizer que o jornalista tinha de ser um profeta de seu tempo. Isso ele fez, sempre analisando os fatos brasileiros de maneira incisiva. Austregéliso nasceu em Caruaru, Pernambuco, em 1898. Seu nome era Belarmino Maria Austregésilo Augusto de Athayde. Morreu no Rio de Janeiro em 13 de setembro de 1993.    

Contos Indiscretos
Sérgio Keuchgerian
Mundo Editorial Editora, São Paulo

O autor início seu belo livro de contos com esta epígrafe do poeta Carlos Drummond de Andrade: “Não facilite com a palavra amor”. Estes contos mostram um autor que sabe lidar com as palavras e cria situações que são, mesmo, literatura da melhor qualidade. As histórias apresentadas por ele têm uma elaboração de quem sabe se situar diante e dentro da literatura. “Contos Indiscretos” é um lançamento raro nesta paisagem de pobreza absoluta e de equívocos cada vez mais eloqüentes numa literatura agredida todos os dias por gente sem escrúpulo algum. Não é o caso deste autor, dono de uma narrativa que não deixa dúvidas: estamos, sim, diante de um grande escritor que, em 2002, publicou o romance “Diário da Busca”. Não são contos simplesmente, mas histórias sobre a condição do homem e seu interior, onde residem conflitos e encantamentos. Só não gosto da apresentação de Naum Alves de Souza, que utiliza a palavra “transgressor” para situar os contos. Essa palavra caiu em descrédito depois que alguns inconseqüentes dela se apossaram com o raciocínio de uma minhoca. Depõe contra. Os contos aqui apresentados são belas histórias humanas, de um escritor que sabe das coisas. O autor nasceu em São Paulo em 25 de janeiro de 1962. 

A Invenção do Milagre
Agilson de Araújo
Editora Mundo Editorial, São Paulo
 
 
Este é um ótimo romance de Agilson de Araújo. “A invenção do milagre”, lançamento da Editora Mundo Editorial. Como observa o próprio autor, narra a crônica atemporal da alma brasileira. Mais que isso, muito mais que isso. Transcrevo aqui o tema deste livro, descrito por Agilson de Araújo: Século 21. Brasil. Um poderoso coronel à moda antiga entra em crise. Desconfia que seus problemas estão dentro de sua própria casa. Desse lide, digamos assim, segue-se uma história marcante de um Brasil que todos sabemos existir. Alguns fingem que não vêem. Mas é impossível esconder esse país obscuro. Crimes, violência, catástrofes e até uma CPI. E nesse quadro melancólico, a figura do coronel, o mito do sebastianismo como um falso milagre. O sebastianismo que surgiu em Portugal no século 16, com a morte de D. Sebastião, na batalha contra os árabes. O autor explica que o mito do sebastianismo está presente no Nordeste brasileiro em diversas manifestações culturais. O livro revela o que a história brasileira está cansada de viver: a ordem é manter o poder, custe o que custar. 

Dos Escombros de Pagu
Tereza Freire
Editora Senac, São Paulo

Fazia tempo que não saia um livro-documento como este “Dos escombros de Pagu”, da historiadora Tereza Freire, lançamento da editora Senac, de São Paulo. O livro nasceu da dissertação de mestrado em história social da autora, apresentado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 2005. Um belíssimo trabalho sobre a vida de uma das mulheres mais admiráveis que este país já conheceu, Patrícia Galvão, a Pagu. Patrícia Galvão viveu pouco. Morreu na cidade de Santos, Litoral Paulista,  com 52 anos, no dia 12 de dezembro de 1962, ao lado de sua mãe e sua irmã. Mas teve uma vida riquíssima. Tereza Freira afirma que a vida de Pagu lhe chamou a atenção não só por ter sido mais uma mulher excluída dos estudos históricos e da literatura, como também por sua formação artística e cultural, por sua militância política, pela coerência – que lhe custou caro – entre o pensar e o agir, vivendo, apenas e radicalmente, de acordo com os seus idéias. Tereza Freire diz tudo nesta frase: “O que mais me fascinou em Pagu foi a prática obstinada de liberdade e sua coragem”. O livro da historiadora Tereza Freire foi escrito com absoluta competência sobre essa mulher presa e torturada tantas vezes por suas posições políticas. Da última vez que saiu a prisão, Pagu tentou  matar-se duas vezes, uma com um tiro na cabeça, outra com um tiro no peito. “Dos escombros de Pagu” é livro obrigatório. 

80 anos de poesia
Mário Quintana
Editora Globo, São Paulo

Um dos principais lançamentos dos últimos anos foi a poesia completa de Mário Quintana pela Editora Globo que desde o ano passado vem publicando os livros desse grande poeta brasileiro. Mais que justo. O que se vê na área da poesia neste país é vergonhoso. Então de vez em quando a gente tem um alento e pode respirar um pouco. A Editora Globo está lançando mais um volume dessa obra, agora com o título “80 anos de poesia”,  comemorando o centenário do poeta, com seleção e organização de Tânia Franco Carvalhal, que cuidou de toda a coleção Mário Quintana. Mais um volume precioso de poesia desse poeta que produziu uma das obras mais importantes da poesia deste país. Uma poesia sem invenções, feita somente da própria poesia, em retratos que só o olhar especial pode captar. É o caso de Mário Quintana, que deixou a poesia existir. Ele só escreveu. E escreveu com sua existência. 

Os livros de Sayuri
Lúcia Hiratsukathereaderfragonarded.jpg
Lançamento da editora S.M., São Paulo 

Eis um livro absolutamente comovente. Especialmente agora que se comemora o centenário da imigração japonesa ao Brasil. Mas já houve um tempo em que a hostilidade aos japoneses era espantosa, durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil e o Japão cortaram relações diplomáticas. Os japoneses que aqui viviam eram perseguidos, suas escolas fechadas, uma repressão que hoje não se conta é até se evita lembrar. Claro, os tempos são outros. Mas Lúcia Hiratsuka revela esse tempo, um tempo em que até os livros japoneses tinham de ser escondidos para evitar a apreensão. “Os livros de Sayuri”, da editora S.M., é uma contribuição cultural das mais importantes, narrado por Lúcia, na primeira pessoa, história de uma menina japonesa que escondia seus livros como uma jóia preciosa. Eram mais que uma jóia preciosa. É a história de uma família japonesa no Brasil, com seus dramas e dificuldades para viver num país que, na época, era-lhe hostil. Lúcia Hiratsuka também faz as ilustrações do livro, seguindo a tradição do traço japonês. Um livro comovente. Não deixem de ler. 

MÁRIO QUINTANA

sexta-feira - 1/agosto/2008

mario2.jpgUm pequeno poema de Mário Quintana de quatro versos que fazem meu retrato atual, sem retoques. Palavras corretas que colho em meu receio. Porque me vejo. Porque me sinto. Quatro versos que me servem, que o poeta me oferece para dizer-me e observar-me melhor:

 

           Antes, todos os caminhos iam.
           Agora todos os caminhos vêm.
           A casa é acolhedora, os livros poucos.
          E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

 

Prefiro falar sobre Mário Quintana sem me ater em análises críticas. No caso de Quintana nada disso é necessário. Gostaria, de fosse capaz, de escrever-lhe uma espécie de crônica, talvez um poema, talvez uma única palavra. Uma carta. Estou diante do livro “80 anos de poesia”, lançado agora pela Editora Globo, com o nome do poeta no meio da capa. Leio na página 127 um pequeno poema que tem exatamente o nome de “Poema”:

 

           O poema
           essa estranha máscara
           mas verdadeira do que a própria face…

 

Que belo poeta brasileiro esse homem que viveu praticamente recluso a vida inteira. Uso a expressão pela maneira que Quintana levou a vida e deixou-se por ela ser levado, como convém tantas vezes.

     Vejam “Crônica”:

      “Ah, essas pequenas coisas tão quotidianas, tão prosaicas às vezes, de que se compõe meticulosamente a tessitura de um poema…talvez a poesia não passe de um gênero de crônica, apenas uma espécie de crônica da eternidade”.

Conheci o poeta pessoalmente, em São Paulo, nos anos 70. Conversei com ele. Foi no Sindicato dos Jornalistas. Eu era editor do suplemento “Jornal de Domingo”, que criei do Diário de S. Paulo, dos Diários Associados. Minha redatora era Tereza Linhares, então casada com o poeta Carlos Queirós Teles, que se foi tão cedo. Disse à Tereza:

     - Hoje Mário Quintana estará em São Paulo. Vamos fazer uma matéria com ele. Sei que ele é arredio a entrevistas. Mas vamos tentar. Você tem de conseguir. Vou junto, mas só para observá-lo. Farei um perfil.

E lá fomos nós para o Sindicato. E vi de perto aquele homem quieto, sorriso branco na boca, os olhos pequenos, atentos, a voz baixinha. Fizemos a matéria que foi possível. Pelo menos rendeu muitas fotos de meu amigo José Moura, companheiro de muitas reportagens de muita repercussão que, infelizmente, se foi recentemente.

No domingo saíamos com Quintana como matéria principal de um suplemento que, antes de tudo, era democrático na informação cultural. Nesse tempo eu trabalhava com um censor do meu lado, no fechamento do jornal.

Então não dá, pelo menos para mim, que sou um ex-poeta, para falar de Mário Quintana sem lembrar de coisas assim. Nada de análises críticas. Nada. O que me vale é sua figura de poeta, na mais correta acepção da palavra. Prefiro usar aqui o que sobre ele escreveu Manuel Bandeira:

            Quer livres, quer regulares,
            abrem sempre os teus cantares
            como flor de quintanares.

Bastam-me estas palavrinhas singelas de Bandeira para dizer Quintana. Estas palavras para construir um texto quase carta, talvez uma crônica-poema a quem só teve a poesia como respiração. 

Pouquíssimas palavras. O que tem de ser dito a poesia diz. E a poesia está aqui, na voz de minha querida atriz Patrícia Rizzo. Ela fala os poemas do poeta Mário Quintana. A poesia fala mais. A poesia diz. A poesia mostra. Faz o retrato.

Mário Quintana, o que dizer de Mário Quintana ? Nasceu no dia 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, na fonteira oeste do Rio Grande do Sul. Estaria completando 102 anos. Mudou-se para Porto Alegre em 1919.

Mário Quintana é um caso a parte na poesia brasileira. Um caso a parte que começou em 1940, quando publicou seu primeiro livro “A rua dos cata-ventos”. Um poeta da simplicidade, mas essa simplicidade que só os grandes escritores sabem alcançar no despojamento de sua linguagem.

Construía seus poemas como quem escreve uma carta, num estilo que sempre se marcou pela ironia e especialmente a perfeição na estrutura do poema. Mas não foi só poeta: é preciso ressaltar seu trabalho de tradutor, quase sempre esquecido.

Mário Quintana traduziu mais de 130 obras da literatura universal, autores como Virgínia Woolf, Marcel Proust e Giovanni Papini.

O poeta praticamente nunca teve uma casa. Viveu quase a vida inteira em hotéis. O último, por muitos anos, o Hotel Majestic, no centro velho de Porto Alegre, que foi tombado e transformado em Centro Cultural, batizado como Casa de Cultura Mario Quintana.

Por três vezes Mário Quintana tentou se eleger membro da Academia Brasileira de Letras. Nunca conseguiu o número de votos necessários. Mas poderia haver uma quarta tentativa, quando seu nome era unanimidade. No entanto, Mário Quintana recusou e nunca escondeu seu ressentimento. E ao recusar candidatar-se pela quarta vez, quando de fato seria eleito, escreveu seu famoso “Poeminha do Contra”, que é assim:

            Todos esses que aí estão
            atravacando meu caminho
            eles passarão…
            Eu passarinho.

Um grande poeta brasileiro de muitos livros e muitos belos poemas. Sempre disse que sua vida está em seus poemas: “Meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”, dizia ele. Afirmava que idade só existem duas: a do nascimento e a da morte. Não se conformava que as pessoas consideradas tristes ou introspectivas tivessem que fazer tratamento médico.

O poeta é considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira do século 20, com livros memoráveis, a expressão é essa mesma, memoráveis. Um poeta que cultivou a palavra e como homem viveu uma vida que poucas vezes ultrapassou os limites de Porto Alegre, onde morreu aos 88 anos, no dia 5 de maio de 1994.

Por fim, peço que Mário Quintana conclua meu texto de agradecimento por sua existência, com suas palavras mais nobres, com seu gesto mais lento, aquele que conheci uma vez, a única vez que o vi e que com ele conversei, como se falasse com um monge inesquecível:

            - Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido com um cavalo. Por não ter nada de mais nem de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

JOÃO UBALDO RIBEIRO

segunda-feira - 28/julho/2008

A poeta e escritora Cida Sepulveda lembrou-me a palavra que eu tanto queria usar no comentário que fiz sobre o Prêmio Camões a João Ubaldo Ribeiro. Eu sabia o que queria dizer, mas a palavra não me vinha à cabeça. “Pedante”. É essa a palavra que eu queria usar, mas não me ocorreu. Então volto a escrever sobre o assunto, utilizando a expressão que me faltou: a reação de João Ubaldo Ribeiro ao receber a notícia de que tinha sido distinguido com o Prêmio Camões foi de um pedante. E põe pedantismo nisso. Um pedante que quis passar a idéia de que está acima de qualquer coisa em relação à literatura. O prêmio Camões - o mais importante para escritores de língua portuguesa - devia ser respeitado, especialmente por quem o recebe. Ou então recuse. Desde que escrevi o comentário, passou a noite. E essa decepção que a reação que teve não me sai da cabeça. Muito pedantismo demais. Um pedante que fez gênero, só isso. Suas palavras, no fundo, mas no fundo mesmo, foram de desprezo ao prêmio que lhe anunciaram. Um desprezo que não cabe na própria literatura que produz. Para resumir: um boboca.   

PRÊMIO CAMÕES A JOÃO UBALDO RIBEIRO

domingo - 27/julho/2008

Confesso-me um pouco decepcionado com a reação do escritor João Ubaldo Ribeiro ao saber que foi distinguido com o Prêmio Camões de Literatura, o mais importante para escritores de língua portuguesa. Uma reação assim bem baiana, como quem está pouco se lixando com o prêmio e com a notícia do prêmio. Li pelo menos os principais livros de João Ubaldo Ribeiro, a começar por “Sargento Getúlio”, depois “Viva o povo brasileiro”, “O sorriso do lagarto” e finalmente “A casa dos budas ditosos”. Não chega a ser um Jorge Amado - que aliás também recebeu o Prêmio Camões - mas João Ubaldo, nascido na Ilha de Itaparica em 1961, é um excelente escritor brasileiro. O Prêmio Camões foi criado pelos governos do Brasil e de Portugal. Para sentir sua importância, basta lembrar que seu primeiro ganhador, em 1989, foi o grande Miguel Torga. E no ano passado, o Prêmio Camões foi entregue a Antonio Lobo Antunes, o maior escritor português atual. Ao receber a notícia, João Ubaldo Ribeiro não foi nada modesto: “Acho que ganhei porque mereço”. Eu acho que mereceu. Por que não ? Mas me confesso decepcionado com essa pose não sei de quê, coisa assim como a dizer que não está nem aí, essas bobagens que soam ridículas aos que ainda conseguem pensar neste país. João Ubaldo pertence a Academia Brasileira de Letras desde 1993. Não acho que ao saber-se vencedor do Prêmio devesse sair por aí dando cambalhotas e gritando. Não. Não acho isso. Mas que não mostrasse tanta indiferença, só para fazer gênero. Essa reação me decepcionou porque ele me parece ser gente séria. É um grande escritor, tenho certeza disso. Seus livros provam que não existe só leviandades na literatura brasileira. Provam que ainda existem escritores e poetas sérios no país. Mas a sua reação foi ridícula. Coisa assim que não cabe num autor como ele. Uma reação inócua. Não cabe nele nem na literatura que produz. Talvez tenha querido mesmo dar a idéia de que não está nem aí. Tem esse direito. Mas não queira dar a idéia de que está desfazendo do Prêmio. Não. A reação que teve me deu a impressão de que ele não vai aceitar. Vamos ver então se é gênero ou se ele revelou o que de fato sente em relação ao prêmio que que lhe foi distinguido.    

MÁRIO QUINTANA

sexta-feira - 25/julho/2008

hpoeta25.jpgPouquíssimas palavras. O que tem de ser dito a poesia diz. E a poesia está aqui, na voz de minha querida atriz Patrícia Rizzo. Ela fala os poemas do poeta Mário Quintana. A poesia fala mais. A poesia diz. A poesia mostra. Faz o retrato.

Mário Quintana, o que dizer de Mário Quintana ? Nasceu no dia 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, na fonteira oeste do Rio Grande do Sul. Estaria completando 102 anos. Mudou-se para Porto Alegre em 1919.

Mário Quintana é um caso a parte na poesia brasileira. Um caso a parte que começou em 1940, quando publicou seu primeiro livro “A rua dos cata-ventos”. Um poeta da simplicidade, mas essa simplicidade que só os grandes escritores sabem alcançar no despojamento de sua linguagem.

Construía seus poemas como quem escreve uma carta, num estilo que sempre se marcou pela ironia e especialmente a perfeição na estrutura do poema. Mas não foi só poeta: é preciso ressaltar seu trabalho de tradutor, quase sempre esquecido.

Mário Quintana traduziu mais de 130 obras da literatura universal, autores como Virgínia Woolf, Marcel Proust e Giovanni Papini.

O poeta praticamente nunca teve uma casa. Viveu quase a vida inteira em hotéis. O último, por muitos anos, o Hotel Majestic, no centro velho de Porto Alegre, que foi tombado e transformado em Centro Cultural, batizado como Casa de Cultura Mario Quintana.

Por três vezes Mário Quintana tentou se eleger membro da Academia Brasileira de marioquintana1.jpgLetras. Nunca conseguiu o número de votos necessários. Mas poderia haver uma quarta tentativa, quando seu nome era unanimidade. No entanto, Mário Quintana recusou e nunca escondeu seu ressentimento. E ao recusar candidatar-se pela quarta vez, quando de fato seria eleito, escreveu seu famoso “Poeminha do Contra”, que é assim:

   Todos esses que aí estão
   atravacando meu caminho
   eles passarão…
   Eu passarinho.

Um grande poeta brasileiro de muitos livros e muitos belos poemas. Sempre disse que sua vida está em seus poemas: “Meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”, dizia ele. Afirmava que idade só existem duas: a do nascimento e a da morte. Não se conformava que as pessoas consideradas tristes ou introspectivas tivessem que fazer tratamento médico.

O poeta é considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira do século 20, com livros memoráveis, a expressão é essa mesma, memoráveis. Um poeta que cultivou a palavra e como homem viveu uma vida que poucas vezes ultrapassou os limites de Porto Alegre, onde morreu aos 88 anos, no dia 5 de maio de 1994.

(Clique aqui e assista o vídeo pela Jovem Pan Online)