O sentido breve das palavras, do poeta português Jorge Fragoso

5/novembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

poeta

Convite aos leitores do blog do poeta:

Será no sábado, dia 7, às 15 horas, em ponto, no Lugar Contemporâneo, na Avenida 9 de Julho, 3.653, Jardins, a 50 metros da rua Estados Unidos.

Lançamento do livro “O sentido breve das palavras”, pequena antologia que organizei com poemas de Jorge Fragoso, nascido em Moçambique e que vive em Coimbra.

O livro tem a capa e ilustração de Valdir Rocha.

Será uma tarde de vinho e poesia.

Está todo mundo convidado.

Quem comparecer receberá  a antologia gratuitamente.

As poetas Dalila Teles Veras, Flora Figueiredo e Constança Lucas farão uma leitura de seus poemas.

A atriz Patrícia Rizzo, também apresentadora da programação da tarde da Rádio Jovem Pan, fará  um recital poético teatral com os poemas de Jorge Fragoso. Patrícia faz comigo, todas as sextas-feiras, o quadro de poesia na Jovem Pan Online, sempre em homenagem a um poeta brasileiro ou do exterior.

Então está combinado. Alguém já disse que a poesia é necessária.

Então vamos a ela.

Lugar Contemporâneo. 15 horas. Encontro de amigos. Em nome da poesia.

Lugar contemporâneo: Avenida 9 de Julho, 3.653 – Jardins.

Subindo a Avenida 9 de Julho, sentido bairro-centro.

Na esquina com a rua Estados Unidos há uma agência bancária.

A seguir, o Lugar Contemporâneo, com estacionamento no local.

Para além da vida

4/novembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

caminho-da-graca-03

Ouço cantar os fados de uma fadista que eu não conhecia. Ganhei o CD de presente de um amigo de Coimbra. Chegou pelo correio. Ouço. O fado me envolve. Dependendo o dia, assalta-me e me invade como o mar. Como ando um pouco triste, estes fados entram em meu silêncio como o corte de uma vada. A fadista chama-se Aldina Duarte. O título do CD: “Apenas o amor”. Ouço muitas vezes um fado que diz assim: “Qualquer coisa de beleza/ tem de haver para além da vida”. Ouço, ouço, ouço. Sinto as palavras profundamente. O poema é da própria fadista, a música é popular. O título do fado é “M.F.”.

Não discuto valores literários. Não. Estou cansado disso. Falo para mim mesmo da importância deste fado neste momento, neste instante, agora já madrugada que atravessa as coisas, tanto silêncio em minha volta, tantas figuras que não existem mais e que permanecem em mim, os acenos que se perderam, a lágrima que se deixou morrer, o riso que deixou de existir e o poema que não existe mais. Importa o agora. Qualquer coisa de beleza tem de haver para além da vida.

Na memória uma voz triste

Não para de me dizer

Tudo aquilo que hoje existe

Um dia há de morrer.

Eternamente a tristeza

Prevalece desmedida

Qualquer coisa de beleza

Tem de haver para além da vida.

Devagar o esquecimento

Persuade o coração

Na corrida contra o tempo

Volta sempre a solidão.

Poema da última 2ª feira

2/novembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

alma

Quando meu irmão morreu,

numa segunda-feira escura,

senti que alguma coisa foi arrancada de mim,

mas ainda não sei o quê.

De certo um pedaço da infância,

que se guarda em algumas fotografias,

talvez uma palavra que não se disse,

um aceno que se perdeu.

Talvez uma blusa que se empresta num domingo,

mas não sei o que de mim foi arrancado

quando morreu meu irmão,

numa segunda-feira no meio da tarde.

Certamente os rumos que se seguiram,

que a vida sugere caminhos

no exato instante em que se renasce.

Vejo-o imóvel atrás de um arco-iris

e mais adiante há uma estrela que se cala.

No dia em que meu irmão morreu

não havia nenhum sonho a sonhar

nem nenhum desespero a sentir.

Não lhe fechei os olhos

como fiz ao meu pai em 1973.

Mas foi como se o fizesse,

bem no meio da tarde,

numa segunda-feira parada no tempo,

quando os gestos deixaram de existir

e a palavra foi pouca para se revelar.

Parou-lhe o coração num baque,

como se o mar o invadisse de repente

com tamanha dor que não se pode medir.

Estava só num quarto de sombras

e havia um punhal invisível

perto da cama,

sobre o tapete branco.

Havia também uma folha sem palavras,

porque nada havia por dizer.

Quando morreu meu irmão

numa segunda-feira imóvel,

alguma coisa se desprendeu

das imagens em sua volta,

como se voassem para longe e para sempre.

Alguma coisa de mim desapareceu,

talvez uma face que aos poucos se apaga,

talvez um par de sapatos

a subir por uma escada,

por certo

uma bicicleta percorrendo as nuvens,

talvez uma prece que eu tinha guardada,

mas eu não sei o que é.

Guardo de meu irmão

o gesto que lhe faltou,

aquele que escondeu a vida inteira,

sem que eu pudesse descobrir o seu destino.

Quanto por fim partiu

como se saísse pela fresta de uma janela,

pude observar que sua alma voava,

mas se debatia entre as paredes.

Depois anoiteceu e sendo noite

a fúria que se calava nas bocas

pulou como gafanhotos doentes

num campo de plantas raras.

Não saberei nunca explicar

as palavras de amor que nunca tive,

mas saberei dizê-las somente a mim,

quando der tudo por esquecido,

assim como se nunca tivesse havido

esse partir com asas quebradas

para dentro de si.

Assustam-me a fragilidade do corpo imóvel

e esse leve sorriso na boca nunca visto antes,

só  agora

no escuro deste instante de horas paradas.

Vejo-o como um pequeno risco no rosto

entre as flores amarelas.

Assusta-me essa camisa xadrez

com que se veste meu irmão,

como se fosse sair para um passeio.

Esse terço posto entre seus dedos

reza uma oração que não ouço, mas sinto.

Não vejo seus pés

que não caminham mais,

já  que o mundo se resumiu ao nada.

Anda por dentro de si

uma sombra inesperada

que lhe escapa dos sapatos

e sai a caminhar entre as pessoas.

Então está tudo terminado

como um vaso que se quebra,

um soluço que se guarda

do lado esquerdo do peito,

onde estão as raízes do dia

e os ventos que vêm de montanhas invisíveis.

É preciso, no entanto, calar a palavra

como se todas as sílabas deixassem de ser.

Não me despeço

porque há com ele um pedaço de mim,

talvez um gesto que se esqueceu

ou uma estrela que deixou de existir.

O céu é um guarda-chuva que se fecha

e o tempo pára nos olhos fechados.

Não há imagem,

apenas a face espessa do branco,

a tez que se transgride num corte vermelho

e sapara

o que é e o que deixa de ser.

Antes de se ir,

meu irmão tingiu ele mesmo os cabelos,

comprou uma camisa xadrez

e disse que ia dar uma volta.

Voltou à noite,

quando a noite não existia mais.

Ninguém soube por onde andou,

quais ruas percorreu,

se caminhou devagar,

se procurou algum sonho,

se foi a um baile,

ou se ele mesmo se deixou sonhar para sempre.

Saiu como saem as aves das árvores pelas manhãs,

assim com asas tímidas

como foram seus passos nas calçadas que não sei.

Voltou à noite

e dizia sentir frio.

Mas a noite não era mais uma noite,

e sim a boca de claridades,

dessas que cegam e apagam os olhos.

Trazia talvez duas luas no bolso

e um rosário de canções que não cantou.

Também trazia algumas flores,

duas cartas que não escreveu

e cinco ou seis palavras que não falou.

Mais tarde deixou-se amanhecer

com o sol

e voou com a alma na mão esquerda,

frágil como uma xícara,

leve como as árias

que essa música guardará para sempre.

Do livro “Os dias derradeiros”, ainda inédito.
Poema dedicado ao meu irmão Valter, escrito em 10 de março de 2008,
dia em que falaceu.

Pausa para meditação

29/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

anjo

Sei que as coisas ocorrem. E tudo que ocorre não é em vão. Há sempre um ensinamento, um rumo a se observar. Muitas crenças dizem que o maior aprendizado vem do sofrimento. O aperfeiçoamento. Mártires, santos, heróis. Há sempre uma lição a se tirar das coisas. Nada é em vão. Nada é por acaso. Não existe acaso, como não existe tempo. Estou vazio. Queria escrever algumas palavras, mas as palavras morreram. No entanto, tento pensar. Pode não parecer, mas confesso: sou uma pessoa frágil demais. Sinto as coisas com uma intensidade que me faz adoecer. Sempre foi assim. Sempre será assim. Meu pensamento está distante de mim. Eu estou distante de mim. Estou onde não me existo. Se ainda existissem palavras, talvez pudesse explicar melhor. Seja como for, é preciso seguir. Meus pequenos seres estão comigo, dentro de meu coração, assim como tantas coisas que se foram para sempre e que ainda estão comigo. Iluminadas. Seres iluminados. Procuro talvez um anjo. De asas brancas. De olhos longínquos,  de acenos invisíveis. Gostaria de dizer palavras breves. Gostaria de inventar uma breve manhã, uma noite breve. Procuro um anjo que me dê a mão. Queria dizer mais, mas as palavras deixaram de existir.

Os caminhos que não compreendo, em que me perco

28/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

fadasPrimeiro eu quero agradecer as palavras de afeto de tanta gente. Muitos dirão que se trata “apenas” de um cachorro. Mas não é isso. É preciso saber o significado de todas essas coisas. Desse silêncio. Dessa ausência. Pelo menos eu sinto assim. Escrevi uma carta para meu Guga que partiu e não sabia dessa repercussão. Eu fico comovido com estas manifestações de carinho. Alguém escreveu que esses comentários em meu blog pelo menos revelam que ainda existe amor entre algumas pessoas. É assim mesmo: algumas pessoas. Num mundo brutalizado como este em que vivemos, é muito difícil encontrar uma palavra de afeto, um gesto de afeto, um beijo de afeto, um toque de mãos por afeto. É muito difícil. O que vale mesmo é a violência em todas as coisas. Vejam bem: no sábado, aquela alegria inesperada, que me pegou de surpresa, no Projeto Autor na Praça. Depois o domingo, com alguns moradores de rua, com alguns pintores da Praça da República, com o café o meu amigo Evandro na sua Galeria. E na segunda-feira, meu pequeno cão parte para sempre. Eu me sinto meio perdido nestes caminhos que não chego a compreender, embora seja suficientemente espiritualizado para isso. Vejam bem: O Guga tinha a companhia da Belinha, uma fêmea de porquinho da Índia que vivia muitas vezes solta dentro de casa. Um bichinho incrível, que adormecia no meu colo e no colo de minha filha Amanda de Fátima e que também gostava de dormir no colo de minha outra filha Daysi de Fátima. Um bichinho lindo por quem me afeiçoei e a quem dava um pedaço de maçã todos os dias e uma folha de verdura. Não vou colocar a foto dela. Ontem doeu-me muito ao ver a foto do Guga. Eu não compreendo, eu não compreendo, eu não compreendo, eu não compreendo, eu não compreendo, eu não compreendo, eu não compreendo: meu pequeno bicho também se foi nesta madrugada, uma hora da manhã. Como é que eu vou compreender isso ? Eu tenho uma sensação triste de estar sendo punido por alguma coisa que fiz. Com o bichinho no colo, a Amanda quer enterrar Belinha imediatamente no jardim. Uma hora da madrugada, ainda ligo para alguns amigos. Preciso conversar com alguém. Preciso conversar com alguém. Preciso conversar com alguém. Perto das duas horas da madrugada de hoje, cavo no jardim uma pequena cova, molhado da chuva. Belinha está envolva a um lenço de seda. É sepultada com seu pequeno corpo inerte, seus pequenos olhos ainda abertos. Não sei de onde vem tanta dor. Isso foi hoje, duas horas da madrugada. Belinha também partiu algumas horas depois do Guga. Então fazer o quê ? Compreender o quê ? Dizer o quê ? Gritar o quê ? Não compreendo estes caminhos em que estou. Um deserto de coisas destruídas. Um desejo de sair, sem saber onde chegar, se é que existe algum lugar para chegar. Peço que meus 19 leitores me perdoem por tanta tristeza. Peço que meus 19 leitores me perdoem por mais esta notícia. Mas dizem que um blog é para isto mesmo. Pelo menos este que assino. A Jovem Pan, na palavra da Silvinha, me deu esta liberdade. Então me vejo aqui diante do computador escrevendo, como se estivesse conversando com alguém. E estou conversando com meus 19 leitores. Uma palavra que infelizmente se anula. Mais um pequeno ser que vivia comigo se vai assim como se estivesse correndo no jardim. Mais uma pequena estrela no céu, uma estrela bem pequenininha, escondida atrás da lua. Chama-se Belinha, a quem dedico meu aceno.

Guga, uma estrela no céu

27/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

cao

Guga, Guguinha, como eu lhe chamava, eu quero que você saiba que eu amei você a vida inteira.

Nem preciso lhe dizer isso, você sabe.

Escrevi vários livros com você ao meu lado, nas madrugadas, dentro da minha biblioteca.

Agora você foi embora e deixou um vazio imenso dentro de mim.

Um vazio imenso, Guga.

Chega sempre esse dia, mas eu só queria que você não tivesse sofrido tanto como sofreu.

Quero guardar de você  sua imagem linda do cão mais lindo do mundo, que conversava comigo todas as noites, que chorava comigo quando era preciso, que me olhava com uma ternura que não existe mais.

Eu sei que você não era somente um cão.

Havia em você um ser que conviveu comigo todo este tempo.

Guardarei você dentro de minha alma para sempre, Guga.

Como se guarda um aceno.

Como se guarda uma folha dentro de um livro.

Você me ensinou muitas coisas, Guga.

Tanto que escrevi um livro que ainda está guardado, que não tem título ainda, em que eu converso com você o tempo todo.

Uma longa conversa de um poeta com seu cão, na qual você fala as palavras que me dizia em silêncio.

Você se foi, meu cão, mas você ainda está aqui, ao meu lado, na minha biblioteca, com seus olhos apagados e com sua ausência dolorida, que dói, dói, dói, dói demais, Guguinha.

Um dia a gente ainda se vê em algum lugar não sei onde.

Mas eu sei, tenho certeza, de que você virou mais uma estrela no céu.

A mais bonita estrela do céu.

Eu sei onde você está.

E vou olhar você todas as noites.

Sempre falarei com você  num sonho qualquer que eu ainda consiga sonhar.

E sempre lerei para você  algum novo poema no meio da madrugada, quando íamos dormir.

Não esquecerei de você.

Nunca esquecerei de você.

Obrigado, meu cachorro, por todos os momentos de alegria que você me ofereceu, por todo o amor que me dedicou sua vida inteira, por todo carinho que sempre me deu ao lamber-me as mãos e o rosto, como se eu o merecesse.

Eu choro neste instante em que escrevo esta carta para você.

E sinto profunda dor no coração.

Uma dor ao ver suas coisas, seus brinquedos, o lugar onde você dormia sempre. É como se você estivesse subindo na minha cama.É como se ainda você estivesse caminhando pela casa.

E você está caminhando pela casa.

Está cheirando as plantas do jardim.

Está se escondendo da chuva.

Está à espera da maçã que eu lhe dava todos os dias e todas as outras frutas que você gostava.

Está à espera do doce de leite.

Eu me sinto triste, Guguinha, nem preciso lhe falar.

Sempre chega esse dia.

Sempre chega esse dia que é uma ferida.

Obrigado, Guga, por esse amor que você me dedicou.

Obrigado pelo afeto que me deu, que ficará em mim para sempre.

Uma tarde de poesia, emoção e lágrima

26/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

lagrima Eu não sabia que seria assim. Pensava que o encontro no Projeto Autor na Praça, no Espaço Plínio Marcos, na Praça Benedito Calixto, seria apenas uma breve apresentação de meu livro “Pastores de Virgílio” com uma leitura de poemas. Mas foi uma tarde que nunca mais vou esquecer. Uma homenagem que doravante fará parte de minha vida. Pela palavra de tantos amigos lá presentes, um ato de fé. A começar pela leitura de poemas de Celso de Alencar, Raimundo Gadelha, Whisner Fraga, Ronaldo Cagiano, Owaldo Rodrigues e pessoas que foram dizer poemas das quais não sei o nome. Quando o ator Clovis Torres começou a ler um poema de meu livro “À Noite, os Cavalos”, não deu para segurar. Foi emoção demais: “Álvaro, tira o demônio e dentro/ e fica vazio como um poço./ Corta o cabelo/ e deixa crescer mais a barba/ sem motivo nenhum./ Retira o avião do céu da tua boca/ e deixa calar a nuvem de teu nascimento”. Daí para adiante foi difícil. A tarde começou com  Raimundo Gadelha falando sobre o livro e, a seguir, li o poema “Eldorado de Carajás”. Esse poema foi lido por mim em Coimbra, no Terceiro Encontro Internacional de Poetas”, no qual eu representava o Brasil. Foi aplaudido de pé por dezenas de outros poetas de vários países que não entendiam uma única palavra em português. E aplaudiram pelo ritmo das palavras. “Eldorado de Carjás” não faz parte de nenhum livro meu, mas está publicado em quatro antologias de poesia em Portugal. Depois de ler esse poema, fui procurado no hotel em Coimbra por uma editora. E comecei, então, a publicar um livro a cada ano, em Portugal. Esse poema foi o mais discutido no evento. Na verdade, estou repetindo o que escreveu a professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, escritora Graça Capinha, no prefácio de meu primeiro livro publicado em Portugal “Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra”. Depois de minha leitura, os poetas presentes começaram a ler seus poemas. Chegou-se então a mim a atriz Marisa Carnicelli, com muitos recortes de jornais de quase trinta anos, com entrevistas sobre minha peça “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que recebeu o Prêmio Anchieta, então uma das maiores láureas do país para teatro nos anos 70. A peça ficou censurada por seis anos. E quando pôde ser montada tive de modificar algumas coisas. Por exemplo: tudo se passa numa cela, mas troquei o ambiente por um consultório médico. Foi muita emoção. Abraçou-me e me mostrou todos aqueles recortes de jornais, com fotografias da peça. Por fim, Marisa também leu um poema meu. A sempre presença da amiga Eunice Arruda. A Priscila, que faz este blog, com seu pai Augusto e sua mãe Maria Xavier. Tantos amigos que não via há tantos anos. Luiz Ernesto Kawall, que me me presenteou com uma bela foto antiga de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros. Jorge Narciso Caleiro Filho, que me ofereceu um Caderno com seus poemas, dizendo o quanto se espelha em mim. Não bastasse tudo isso, chega de repente uma senhorinha com um grande envelope. Apresenta-se a mim e diz que era a esposa de meu professor de violão, quando eu era adolescente. Mostra-me o exemplar com meu autógrafo de meu segundo livro, “Tempo Final”, um recorte de jornal com as primeiras notícias sobre mim e um desenho meu em nanquim e aquarela que eu lhe presenteei em 1963. E também Patrícia Cicarelli, que escreve um livro sobre mim e que vai a todo lugar onde estou para anotar coisas. Disse-me que essa tarde no Espaço Plínio Marcos foi marcante para o livro que está escrevendo. E entre tudo que ocorreu, uma cena que me deu um aperto no peito: um mendigo que anda pela praça se aproximou dizendo que gostava muito de mim e me ofereceu um poema escrito num papel todo amassada. Assim como chegou, desapareceu. Gostaria de ter conversado com ele. E por fim, a amizade de Edson Lima, que dirige o Projeto Autor na Praça há dez anos, com sua mulher que tem na praça Benedito Calixto um ponto de comidinhas portuguesas. Edson é um batalhador. Deu-me, no final, um CD, “Os mestres mulatos” – sinfonieta dos devotos de Nossa Senhora dos Prazeres. Para completar, agradeci sem saber ao certo o que devia dizer, mas me reportei à mentira da cultura brasileira, especialmente no que diz respeito à literatura e à poesia em particular. A mentira de suplementos culturais desonestos, feitos por gente sem compromisso com a História, sem compromisso com nada, que inventa nomes de “poetas” da noite para o dia, “poetas” que desaparecem do dia para a noite. Tudo em tom de uma louvação à mediocridade de um país sem identidade, o país da esperteza, da coisa torpe. Foi uma tarde de poesia, emoção e lágrima. Não vou esquecer nunca mais.

Pastores de Virgílio no projeto O Autor na Praça

22/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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poetalivro Será  no sábado, dia 24, às 15 horas. Estarei no Projeto que é levado adiante, com muita batalha, por Edson Lima. O Projeto é realizado no Espaço Plínio Marcos, na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros. É um local descontraído de música, poesia e toda forma de arte, além da feira de antiguidades. O convite foi feito por Edson Lima durante o primeiro lançamento de Pastores de Virgílio na Livraria Martins Fontes. Falaremos sobre o livro e haverá, também, leitura de poemas. Participarão Ronaldo Cagiano, Celso de Alencar, Whisner Fraga e Raimundo Gadelha. O ator ClovisTorres lerá alguns poemas meus. O cartunista Júnior Lopes fará caricaturas retratando o evento. Sábado a partir das 15 horas. Estaremos lá tentando levar um pouco de poesia, o pouco que resta, às pessoas que costumam freqüentar o Espaço Plínio Marcos, que era meu amigo, autor dos mais importantes do teatro deste país. Assim, Pastores de Virgílio vai seguindo sua trajetória. Uma espécie de ato de fé.

O dia poeta que passou

21/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

y1ppbhfjmrga6_q558zud6oetcybbl_1ciuzwpcjlsuhycmlxbicbj5tbgkieyncu1bng2oxgjxcesQuase meia-noite. Ainda é dia do poeta. Leio agora todas as manifestações de pessoas queridas, meus 19 leitores, que comentaram o texto. Fico comovido, sinceramente comovido. Por que eu seria merecedor de todas essas palavras ? Por que eu seria merecedor dos abraços que recebi aqui na Jovem Pan ? Gente amiga. Gente. E está tão difícil encontrar gente. Pessoas a gente encontra bastante, em todo lugar. Mas falo em gente. Os meus 19 leitores sabem que meu apelido é Poeta. Ninguém me chama pelo nome que me deu meu pai, o nome dele. Onde estará meu pai ?, pergunto-me nesta hora, quase meia-noite de um dia que termina, o dia do poeta. Alguém escreveu que o dia do poeta é todo dia. Todo dia é dia do povo, tem de ser do povo, sempre será do povo. O dia do povo. O dia que vai mudar. O dia que um dia será diferente. Um dia em que o dia nascerá com um sol amarelo, quase vermelho, para abraçar a todos. Haverá ainda um dia para a solidariedade. Para a generosidade. O dia do poeta está quase no fim. Resta-me agradecer aos meus 19 leitores que se encontram aqui todos os dias. Que se trocam afetividades. Só por isso já justifica a existência deste blog, no qual tenho toda a liberdade de escrever o que quiser. Na verdade, eu gostaria de escrever sobre a poesia, se ela ainda existisse. Gostaria de poder navegar meu pequeno barco de papel, mas que fosse manhã. Gostaria de me conhecer melhor para poder conversar comigo como amigo que nunca me fui. Gostaria de ainda ter um aceno, aquele que esqueci para sempre quando me despedi de mim.

O dia do poeta

20/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria

f-pessoa1929Pois é: hoje é o dia do poeta. Assim como existe dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados, dia da pátria e outros tantos dias, também existe o dia do poeta. Para que serve o dia do poeta ? Antes: para que serve um poeta ? Mais: para que ou para quem serve a poesia ? Hoje é o dia do poeta e eu não sei para que existe esse dia, já que a figura do poeta não serve para nada num mundo cada vez mais bárbaro. O poeta é um ser inútil. Como se não existisse. O poeta é um ser invisível que vive escondido de si mesmo. Como comemorar o dia do poeta ? Tomando um copo de vinho ? Viajando para Portugal ? Para a Espanha ? Comendo uma fatia de bolo de chocolate com licor ? Como se comemora o dia do poeta, se o poeta não existe mais ? Já existiu, hoje não existe mais. Os poetas foram todos mortos por uma violência que não caberia num verso. Os poetas morreram, como morreu também a poesia. Como comemorar do dia do poeta no Brasil ? Fazendo uma ode do desespero ? Escrevendo um poema em louvor à loucura ? O que se tem a dizer de um poeta, senão que ele é um ser vago entre o que é e o que não é e ainda no que deixa de ser ? O poeta morreu. O poeta desapareceu. O poeta mergulhou no mar para não voltar nunca mais. O poeta fez uma viagem interplanetária num foguete que explodiu entre as estrelas. Ninguém viu. Nem verá. O poeta guardou um aceno no bolso e caminha noites que não terminam. Hoje é o dia do poeta, esse ser que perambula dentro de si mesmo, sem paradeiro. Com uma caravela tenta se descobrir, continente desconhecido que é dentro de sua própria alma. Dia do poeta para que ? Para quem ? Por que ? O dia do poeta não existe. O calendário devia ser assim: dia 17 de outubro, dia 18 de outubro, dia 19 de outubro, dia 21 de outubro, dia 22 de outubro e assim por dia. O dia 20 devia ser pulado, como se pula uma poça de água da chuva da noite, que molhou as plantas do quintal. O resto é o mundo. E o mundo não me interessa.

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