SOBERBA
16/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Eu achava que já tinha visto tudo na minha vida. Achava. Mas diante das cenas da política deste pobre país, às vezes acredito que não estou acordado. Devo estar sonhando. A realidade que se mostra vai além do que qualquer mente romântica poderia imaginar. Principalmente quando essa mente romântica conheceu de perto, bem de perto, muitos dos personagens que uivam por aí como lobos doentes e famintos. Todas as barreiras da ética e da vergonha foram destruídas. Todas. Toda a pregação de tantos anos foi esquecida. A soberba impera como uma doença maligna. Eu achava que já tinha visto tudo. Mas não vi não. Acho agora que falta muito ainda por ver. As pessoas se transformam completamente de maneira que chega a ser inacreditável. Em nome do poder vale tudo, mas vale tudo mesmo. A ordem é passar por cima de tudo, burlando leis de todas as maneiras, num jogo perverso que não respeita nada. O passado não existe. Esqueçam. Os personagens grotescos caminham triunfalmente. Eu pensava que já tinha visto tudo. Estava enganado.
O DIA PROFESSOR
15/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Hoje é o Dia do Professor, entre tantos outros dias dedicados a tantas categorias profissionais, a personalidades, a santos, a coisas. Mas na questão do Professor o dia tem de ser especial. Guardo belas lembranças de professores e professoras que habitaram minha vida desde a infância. Uma figura ainda singela que guardo em mim, as primeiras palavras de ensinamento e também, desde criança, aqueles pequenos poemas que eu nem sabia o que eram. Depois o ensino médio, já nos anos que antecederam a efervescência política. As professoras de Português, dona Ana, dona Rosário, dona Irma. “Dona” digo agora, porque éramos todos jovens, se é que cabe a expressão. Da professora Irma guardo muitos risos de minhas provas de História em que, não sabendo ao certo responder, inventava coisas alucinadas nas respostas e ela me dava a nota necessária e depois lia minhas provas para outras classes. Era uma aula de muitos risos. Eu distorcia os fatos históricos e invertia os papéis dos personagens. De alguma maneira isso me tornou conhecido na escola que era dirigida pela irmã de um ex-vice-governador de São Paulo. Uma escola em que um dia liderei uma greve contra o aumento das mensalidades. Era uma loucura total. Já as professoras de Português Ana e Rosário apenas liam minhas provas com aquela linguagem que elas diziam ser “demais” para um adolescente. Lembro-me bem dessas pessoas que me marcaram a vida. Mas hoje a figura do professor é a de um homem e de uma mulher acuados pela delinqüência de alunos violentos, especialmente na periferia, onde as tais autoridades não põem os pés e fazem de conta que não existe. A periferia só existe nos discursos. Aqui em São Paulo, por exemplo, dentro de escolas sujas, pichadas, caindo aos pedaços, os professores são agredidos fisicamente. É impossível dar uma aula decente. E se o professor reclamar pode morrer. Droga, muita droga. Armas. Violência em tudo. Os alunos que estão interessados nas aulas são também vítimas dessa violência. E não acontece absolutamente nada. Ninguém mais é reprovado então a gente vê adolescentes de 14,15 anos, que não sabem formar uma frase. Com toda sinceridade, tenho pena dos professores de hoje que vão à periferia dar aulas. Pena e respeito. Muito respeito. Um ensino péssimo feito em condições péssimas, um beco sem saída. Talvez isso interesse. Interessa manter escolas municipais ou estaduais caindo aos pedaços. Talvez interesse a alguém.
SÉCULO XVIII
14/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaENGANO
13/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaDIA DA CRIANÇA
10/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaLENNON
9/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Fariapara começar eu não acredito em acaso, em coincidências, essas coisas, porque de repente a gente percebe que por trás desses “acasos” e dessas “coincidências” existe uma coisa maior que não sei explicar, nem é preciso.
ontem eu e meu amigo sérgio, aqui da jovem pan, começamos a falar sobre John lennon. falei da profunda admiração que tenho por lennon. tenho quase tudo dele, particularmente dele. dos beatles também. mas ontem a nossa conversa era sobre o john lennon, tudo sobre ele, as coisas que lembrávamos, músicas, atitudes. disse então ao meu amigo que há uma música cantada por lennon que me toca muito, é contagiante.
meu amigo sérgio procurou no you tube e eu vi lennon cantando essa canção que me comove tanto, stand by me, contagiante, mágica. não é dele,
é de bem e.king, que lennon gravou como ninguém.
conversamos muito sobre lennon e essa conversa surgiu do nada.
vi algumas vezes o vídeo de lennon e stand by me.
depois começamos a escrever nossas notícias ridículas de todos os dias, as mesmas coisas, aquelas coisas que a mim já cansaram, que não suporto mais ouvir, escrever, passar para frente.
mas nesta madrugada o “acaso” e as “coicindências” me assustaram.
madrugada já do dia 9, hoje. descobri que hoje seria aniversário de lennon.
nasceu em liverpool no dia 9 de outubro de 1940.
morreu assassinado em nova york no dia 10 de dezembro de 1980.
nisso não preciso nem quero falar.
como não acredito nem em coincidências nem em acaso, passo aos meus 19 leitores do vídeo de lennon cantando stand by me.
um momento de absoluto encantamento.
ARREPENDIMENTO
8/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaNuma dessas noites alucinadas, em que saí em desvario, andei pelos becos da cidade, lugares onde ninguém entra. Caminhei tropeçando nas pedras e me agarrando nas coisas possíveis. Mas não existem mais coisas possíveis. E no auge dessa angústia extraordinária nada poética, encontrei uma figura quieta escondida do mundo. Apresentei-me falando baixo, até porque minha voz começa a desaparecer. Ele me disse, então, que era Pedro Álvares Cabral, o navegador português. Conversamos um pouco e ao nos despedirmos, pediu-me desculpas pelo que fez em 1500, dizendo que não sabia que ia terminar assim.
PERGUNTA
7/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaFoi mesmo uma grande festa a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos em 2016. O presidente até chorou. E garantiu que o Brasil fará uma Olimpíada como o mundo nunca viu. Já a ministra Dilma dizia dentro de uma camisa da Seleção Brasileira de Futebol que o Brasil será uma potência internacional. O presidente garantiu que todos os gastos serão rigorosamente fiscalizados. A ministra disse o mesmo. Não foi assim nos Jogos Panamericanos. Até hoje não se sabe para onde foi tanto dinheiro. Em Compenhague, onde a cidade do Rio foi anunciada, o ministro dos Esportes, que tem nome de cantor, Orlando Silva, chegou a cantar para uma platéia extasiada. Na Praia de Copacabana houve festa que atravessou a madrugada, com muita música e declarações de amor à cidade. Já ao presidente afirmou que naquela noite se beliscou várias vezes para saber se era mesmo verdade. Festa, festa, festa, muita festa, todo mundo feliz. Os Jogos Olímpicos serão realizados na cidade do Rio de Janeiro, com um carnaval ininterrupto. E tem ainda a Copa do Mundo de 2014. Quer dizer: muita gente terá um bom tempo para enriquecer com muita facilidade. Mas o que vale mesmo é a festa, a festa dia e noite, noite e dia, sem parar. O Brasil no primeiro mundo. Mesmo diante de um quadro tão feliz, eu gostaria de fazer uma pergunta. É a seguinte: Já está tudo combinado com os traficantes ?
MERCEDES SOSA
5/outubro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaQuando Mercedes morreu
era dia 4 de outubro de 2009
primavera do Brasil
dia de São Francisco de Assis
quando Mercedes morreu
morreu com ela a América Latina
do sonho e da traição
do desespero e da luta
do sangue e da terra
quando Mercedes morreu
num dia 4 de outubro
morreu com ela a canção do povo
o grito das ruas
um pedaço do coração
quando a juventude era o espelho da angústia
morreu com ela
quando Mercedes morreu
La Negra com seu próprio grito
a lenda que era de si mesma
essa mulher
essa voz latino-americana
do exílio e de todas as mortes
morreu um pedaço de tudo
morreu outra vez Violeta Parra
que matou-se em fevereiro de 1967
Gracias a la vida
Volver a los 17
morreu um pedaço do sonho
morreu a poesia amarga
contra todas as injustiças
morreu a palavra muda dos oprimidos
morreu um aceno que se perdeu
num tempo de amargura
quando Mercedes morreu
morreu com ela um poema que não se fez
morreu com ela o gesto solidário do mais fraco
morreu com ela a dor da tortura
morreu com ela a própria morte do sonho
num dia 4 de outubro
primavera no Brasil
dia de São Francisco de Assis.

















