MARINA

14/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

 

Hoje o Brasil amanhece mais pobre. Uma das poucas pessoas que prestavam nesse Governo entregou seu cargo, a ministra Marina Silva, que é um exemplo de mulher. Esse Governo não a merecia. Não teve apoio nem mesmo do presidente. Vocês se lembram quando foi descoberta aquela devastação vergonhosa no final do ano passado. Todo mundo fez discurso, inclusive o presidente que gosta muito de falar e discursar, mas não gosta de agir. Tem um comportamento relapso. Marina Silva, não. Ela explicou o que estava oc ocorrendo na região devastada: era o avanço da cultura de soja e da agropecuária, com projetos financiados pelo próprio Governo. O presidente Lula se encolheu, como é seu costume em momentos assim. Já o senhor ministro da Agricultura partiu para cima da ministra, dizendo que o seu setor respeita o meio ambiente. A ministra ficou sozinha. Alguns dias depois, o senhor presidente da República, como sempre, veio a público dar razão ao ministro da Agricultura. Em outras palavras, a ministra Marina Silva disse o que tinha de ser dito: a devastação da floresta era financiada pelo próprio Governo. Agora foi o golpe final, dado pelo presidente, que gosta de agir assim, gosta de trair: entregou àquele certo Mangabeira Unger o Programa da Amazônia Sustentável. Foi como abrir a porta do Governo e pedir para a ministra sair, bem ao jeito de Lula, que se omite nas questões sérias do país quando sua gente se envolve em escândalos que eu, particularmente, achava que nunca aconteceriam. A ministra saiu. É uma mulher. Eleita em Londres uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta. A notícia está no mundo. Mais uma notícia deste país sem sorte que ganha as manchetes do mundo. A ministra cotada para ser prêmio Nobel da Paz deixou o Governo-Lula, o governo da esperteza, do discurso. Hoje o Brasil está mais pobre.  A ministra Marina Silva não é mais ministra. Coloquem no lugar um vagabundo qualquer que atenda às reivindicações políticas e estará tudo certo. É assim que funciona. O resto é sofrer à tôa.   

RETRATO

13/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Eis-me em silêncio a contemplar não sei exatamente o quê. Vejo as coisas que me cercam. Ausentes objetos que me marcam. E um gesto que desaparece. Pego uma caneta e começo a desenhar meu rosto. Vejo-me por dentro, traço por traço, como se me fizesse, me construísse aos poucos, como se isso fosse alguma coisa importante. Nada é importante, absolutamente nada é importante, embora tudo seja importante. Faço primeiro meus olhos, para me ver. Coloco uma sombra entre eles, uma sombra que só eu vejo e só o desenho sabe que possui. Depois as sobrancelhas. Depois o nariz. Depois a barba. Depois os cabelos e vou seguindo em mim, em minha busca, com uma caneta para ver onde me chego e onde me consigo alcançar. Por fim, me vejo desenhado por mim, como se fotografado. Olho-me bem e me desconheço. Não quero me conhecer. Não me interessa me conhecer. Quero estar distante de mim. Mas guardo o desenho, um retrato inesperado que deixo aqui, como prova de minha ausência, ausência de mim mesmo. 

INDIGNAÇÃO

13/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

 

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Presidente, eu não gosto muito do senhor. O que, entre nós, não tem importância nenhuma, nenhum significado. Tem muita coisa que não aceito. O senhor fez um discurso de mais de 20 anos, no qual acreditei e depois me vi, digamos, enganado, se a expressão não for muito forte. Me desculpe. Mas presidente, sinceramente, o senhor merece o meu respeito, apesar as coisas que o senhor fala e de seu comportamento diante de situações escandalosas que deveriam merecer sua atenção vigorosa.

Deixemos isso para lá. O que quero falar, senhor presidente, é sobre a absolvição do fazendeiro acusado de mandar matar a missionária Dorothy Stang, no Pará. No primeiro julgamento, ele foi condenado a 30 anos. Por isso, por esse tempo, teve o direito a um segundo julgamento e foi absolvido.

O senhor veio a público e mostrou ao país e ao mundo a sua indignação. Essa absolvição representa um tapa na cara da sociedade. Representa, como o senhor falou, uma mancha na imagem do Brasil no exterior. E o senhor deixou claro que como presidente da República não pode dar palpite em decisões do Judiciário. Mas como cidadão não podia esconder sua tristeza.

Pois é, presidente, a sua indignação é a indignação das pessoas que ainda conseguem pensar no país. O senhor presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, não gostou do que o senhor disse. O presidente do Supremo não concorda que a absolvição do acusado de mandar matar a missionária norte-americana vá manchar a imagem do país.

O presidente do Supremo cita, para exemplificar, a morte do brasileiro em Londres, confundido como terrorista. Diz que ninguém foi punido e que essa história não manchou a imagem da Inglaterra. O ministro cita, também, o desaparecimento da menina Madeleine, em Portugal, e pergunta se a imagem de Portugal ficou manchada no exterior.

Como todo o respeito que o senhor me merece, senhor ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, como cidadão eu não concordo com o que senhor vem falando. O senhor cita a Inglaterra e cita Portugal, mas nós estamos no Brasil, que é uma espécie de terra de ninguém, onde as leis são motivo de gargalhadas, na mais correta acepção da palavra.

Estamos no Brasil, ministro, a terra a impunidade. O exemplo da Inglaterra e de Portugal não serve. Aqui mata-se à vontade, especialmente nessa região do Brasil. Isso mancha, sim, a imagem deste país no Exterior. Não é porque o presidente do Supremo fala que o cidadão tem de aceitar e calar a boca. Não. Eu não aceito isso. Não calo a boca exatamente por ser cidadão.

O que ocorreu no Tribunal do Júri de Belém representa, sim, uma vergonha que causaria profundo constrangimento em qualquer país civilizado.

Como não somos civilizados, fica tudo por isso mesmo.

Por isso, presidente Lula, defendo sua indignação que é também a minha indignação. O senhor tem razão de se sentir assim. O senhor é o presidente da República. Aceite, por favor, a minha solidariedade de cidadão brasileiro.

QUEM CHORA POR ISABELA?

12/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

 

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Fiz de tudo para não comentar o caso da menina Isabela, barbaramente assassinada, jogada do sexto andar de um prédio. Não me atrevia a escrever. Mas tenho acompanhado tudo. Quem afinal chora pela menina Isabela ?

O que estou cansado de ver é dissimulação, mentiras, mentiras, mentiras, desfaçatez, falta de escrúpulo, cinismo, muito cinismo, mais mentiras, descaramento, estou cansado de ver tudo isso.

Mas quem chora ou chorou pela menina Isabela ? Quem derramou uma lágrima pela menina Isabela entre os que estão envolvidos no caso, incluindo toda essa gente que está todos os dias no noticiário, falando, falando, falando, habeas corpus, acusações, mentiras, mentiras, mentiras, mentiras, descaramentos, todos que estão envolvidos nisso, todos, todos.

Quem chorou pela menina ? Ainda não vi ninguém chorar por Isabela. É como se a menina não existisse ou não tivesse existido. Ela faz parte de uma história em que só vale a mentira e a dissimulação. Ela entrou com sua vida jogada do sexto andar de um prédio, depois de ser agredida brutalmente e ser esganada.

Os que estão envolvido nessa história, que nunca derramaram uma única lágrima pela menina, até no dia de seu enterro, parecem viver num mundo à parte, onde reina, mesmo, a mentira, a desfaçatez pura.

O pai é acusado, junto com a madrasta da menina. Vi a entrevista dos dois na televisão. Nem uma lágrima. Falavam de si, somente de si. O pai chegou a sorrir em determinado momento. Eu me senti mal diante de tanta frieza. Falavam como se a menina assassinada não tivesse existido. Falavam de si, falavam de si, falavam de si, somente de si.

E no meio disso tudo, de todos os envolvidos, nem uma lágrima pela pequena Isabela, assassinada brutalmente por um criminoso ou mais criminosos calculistas, violentos. E pelo que eu estou entendendo, todo o ritual dessa brutalidade durou apenas alguns minutos.

Telefonemas rápidos para falar de tudo, menos chamar socorro para a menina estendida no jardim de um prédio, depois de jogada do sexto-andar, ainda viva. No chão, ainda respirando, nem uma lágrima de ninguém, nem um afago, nem um grito de dor ou desespero. Nada. Como se a peque na Isabela não existisse. Nem um beijo, um abraço, as mãos nos cabelos. Nada.

Não queria comentar a pequena vida da pequena Isabela, nem as mentiras e dissimulações que fazem essa história hedionda. Os que estão envolvidos nessa história discutem seus destinos. A pequena Isabela não merece uma única palavra de compaixão. Não. Estamos no mundo da brutalidade. Um sentimento de tristeza não se usa mais. O mundo pertence aos criminosos.

Mas ontem vi alguém chorar pela pequena Isabela. Sua mãe verdadeira, na entrevista à TV. Ela chorro. Ela comoveu. Bem diferente da entrevista anterior, dos acusados. Deu-me nojo. Desculpem-me a expressão. Nojo. Ontem vi lágrimas verdadeiras por Isabela, iguais às lágrimas de praticamente de todo o país, não dos envolvidos nessa história de terror e morte.

Chego à angústia de acreditar que todos os envolvidos são vítimas. Todos. Isabela, a pequena menina assassinada, é a culpada de tudo e deve ser condenada. Infelizmente, pelo que se vê nesse espetáculo deprimente, não dá para dizer outra coisa. E nisso tudo, entra também, sim, a paisagem de um país

LYGIA

11/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Neste domingo, penso em Lygia Fagundes Telles, minha amiga querida de tantos anos, desde meu primeiro livro adolescente. Sempre dela mereci um carinho especial. Uma mulher admirável, brasileira, que enobrece e dignifica o nome deste país chamado Brasil, quase sempre sem rumos em relação ao seu futuro, um país cheio de discursos constrangedores e mentiras que assustam. Fazia algum tempo que eu não via Lygia. Mas sempre nos comunicamos por recados de amigos, pequenos bilhetes, alguns raros telefonemas. Minha vida na poesia atravessou todo esse tempo sempre tendo Lygia ao meu lado. Tenho orgulho de dedicar-me sua amizade. E cada vez que a vejo renovo-me por dentro por sua palavra amiga, dessas que deixaram de existir entre as pessoas. Há alguns dias fui receber o Prêmio da Academia Paulista de Letras, por meu livro de poesia “Babel - 50 poemas inspirados na escultura Torre de Babel, de Valdir Rocha”. Lygia estava na APL à minha espera. Ela e meu querido Paulo Bomfim. Fiquei com Lygia bom tempo, recebendo dela a poesia que me falta no Brasil e que vou buscar em Portugal. Disse-lhe que sou um ex-poeta brasileiro, considero-me um poeta português, até porque meus seis últimos livros de poesia foram publicados em Portutal, exceto  “Babel”. Lygia já tinha ouvido falar nisso. Mostrou-se assustada com minha convicção. Disse-lhe: “Lygia, querida, cansei das mediocridades reinantes neste país de faz-de-conta com um jornalismo cultural sórdido”. Lygia ficou em silêncio e percebi uma certa tristeza em seus olhos bonitos. Lembrei-me disto agora, nesta manhã de domingo. Lembrei-me de nossa conversa. Lembrei-me de seu carinho. Coloco nesta pequena crônica uma foto de Lygia, feita enquanto conversávamos. Eu estava na sua frente e já sentia saudades dela.     

SÁBADO

10/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

 

Início da noite, longa, densa, calada, quieta nas esquinas. Imensa noite no seu início de noite que se inicia sem dizer. Vejo daqui as sombras. Pessoas circunstanciais que calam palavras perdidas. Um estrela no céu da boca. E um grito que pula da boca, como um beijo incendiário. Atravesso a avenida Paulista como se fugisse de mim. Eu fujo de mim. As palavras estão mortas. E os acenos desapareceram. Início da noite. Sábado, dia 10. O tempo não existe. Queria que chovesse.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

10/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

 

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O poeta Álvaro Alves de Faria presta uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, com a participação da atriz e apresentadora, Patrícia Rizzo.

O OLHAR

10/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Vejam o olhar desta mulher. Se um dia uma mulher me olhar com tal ódio eu dou um jeito de desaparecer do mundo. Ela é mulher do ex-governador de Nova York, aquele que se notabilizou em defesa da ética, de uma maneira inflexível, implacável, um defensor destemedido da lei e da moral.

Por oito anos, ele foi o procurador-geral do Estado de Nova York e esmagou os antiéticos, os imorais, os corruptos e todos aqueles que violavam a confiança do povo.

Com essa firmeza, ganhou projeção nacional nos Estados Unidos e se elegeu governador com 70 por cento dos votos. Sabem lá o que é isso? Quando ainda era procurador-geral, acabou com uma rede de prostituição e passou a apoiar o endurecimento das leis de Nova York para homens que procuram garotas de programa.

Como governador ampliou de três meses para um ano a pena de prisão para homens que procuram prostitutas. Era um verdadeiro herói para os movimentos feministas e para o povo em geral.

Mas alguns sábios do comportamento sempre disseram que a carne é fraca. O senhor governador de Nova York foi flagrado com uma prostituta num hotel de luxo. Era conhecido como o cliente 9. Encontrava com mulheres de programa em Washington, Texas e na Flórida, Gastou uns 80 mil dólares com elas.

O escândalo veio a público. Teve de renunciar. E renunciou com um pronunciamento ao lado da mulher, com quem é casado há mais de 20 anos. Tem três filhas.

Até que a história não me impressionou tanto. Sei de muitas mais ou menos assim em Brasília, por exemplo. Sei de muitas. Mas isso não me interessa e nem é da minha conta. Aliás, o presidente já disse que a gente não deve meter o nariz onde não é chamado.

Não me interessa qual será o destino do ex-governador de Nova York. O que me interessa mesmo é o olhar da mulher dele enquanto ele renunciava.

Vejam bem, não apenas o ódio e a raiva, mas também a profunda decepção e de dor que essa mulher mostra no olhar e no rosto inteiro. Um olhar fulminante, de fim de tudo. Dizem que todas as coisas começam e terminam. É isso. Mas não com um olhar assim. Principalmente de uma mulher. Não é um rosto, mas uma máscara machucada. Um rosto violentado. Como uma vida desfeita.

Tudo isso para dizer o seguinte: se os crimes contra a ética matassem, no Brasil sobrariam poucos, no que diz respeito, por exemplo aos políticos. Mas não são só eles. O Brasil está sempre em crise. Mas poucos falam que a maior crise brasileira é moral.

O BONÉ DO PRESIDENTE

10/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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Uma vez o presidente colocou o chapéu do MST e foi critica de quanto é lado. Ao colocar o boné dos sem-terra o presidente parece ter dado o recado ao país que o MST é aliado. Parece que é verdade. Pelo menos é que a gente vê por aí, invasões e provocações que às vezes fogem completamente ao controle e o Governo se cala.

O general falou sobre as reservas indígenas na floresta e foi chamado a dar explicações. Ficou tudo por isso mesmo, aquela conversa que não leva a nada, mas de qualquer maneira foi chamado a atenção.

Com o MST não é nada disso. Em nome da reforma agrária o movimento invade até prédio público, arrebenta tudo e tudo fica por isso mesmo. Mas na verdade eu não queria falar sobre isso. Eu estava falando do boné que causou tanto transtorno para o presidente.

Pois agora o presidente recebeu os pilotos da Stock Car, uma das principais categorias do automobilismo brasileiro. O presidente não se fez de rogado, muito pelo contrário: fez questão de experimentar os 17 bonés dos pilotos.

-Essa prova aí devia ser a álcool, o biocombustível é a salvação do mundo. Energia limpa. Uns idiotas aí dizem que o Brasil vai virar um canavial.

-Dizem que vai faltar alimento por causa das plantações da cana-de-açúcar.

-Já estão dizendo em vários países que a floresta amazônica está ameaçada por causa da cana-de-açúcar. Tem um cara lá em São Paulo que destruiu o jardim dele para plantar cana a fim de ajudar o Governo. Esse é um verdadeiro patriota. Vou dar um medalha para ele, como exemplo de cidadão.

-É mas ele falou também que acabou com o jardim porque vai faltar arroz que ele dá para os passarinhos. Acho que não vou dar medalha nenhuma.

-Essa prova aí do automobilismo devia ser a álcool, para mostrar para o mundo a pujança brasileira. Tem um cara aí da ONU que pediu a proibição imediata de investimento no biocombustível, dizendo que o biocombustível é culpado pela falta de alimento no mundo. É um imbecil.

-Bem, eu vou usando todos os bonezinhos que me derem. Mas essa prova devia ser a álcool, álcool genuinamente brasileiro, a salvação energética do mundo.

-Tem mais boné aí ? Só não quero colocar o do MST porque dá muita dor de cabeça…

GRAU DE INVESTIMENTO

10/maio/2008 por Poeta Álvaro Alves de Faria

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O Brasil ganhou grau de investimento. Estou tão feliz com essa notícia. Economia sólida. Os investidores podem vir que está tudo bem no país. O Brasil é um mar de rosas. Estou tão feliz.

O presidente Lula disse que quer todos os dólares do mundo no Brasil. Todos. Que bom! Todos os dólares do mundo no Brasil. Os ministros deram entrevistas, o nome do Brasil saiu nos jornais do mundo inteiro.

Estou tão contente. Eu vivo num país que tem grau de investimento. Vocês não percebem que beleza é isso. Uma verdadeira maravilha. Por isso que eu me sinto feliz. Ontem até dancei sozinho de madrugada aqui na avenida Paulista.

        Imeditamente uma viatura policial parou na minha frente. E um policial me perguntou o que eu estava fazendo às 3 e meia da manhã ali na avenida, no meio dos poucos automóveis que passam na Paulista naquela hora. Respondi:

-Senhor policial, o senhor não está vendo que eu estou dançando ?

Ele não gostou da resposta. Chegou mais perto e perguntou:

-Dançando por que ?

Aí eu disse:

-É que o Brasil conseguiu o grau de investimento!

O policial não compreendeu e já falou em desacato.

Eu voltei a falar:

-É isso, senhor policial, o Brasil conseguiu o grau de investimento!

Não teve jeito. Chamou-me de arruaceiro e me acusou de desacato à autoridade. Levou-me para um Distrito Policial. O delegado, sem me olhar, perguntou porque é que eu estava dançando na avenida Paulista. Respondi:

-Porque o Brasil conseguiu o grau de investimento.

O delegado respondeu: O que é que você está falando, a que você está se referindo ? Tá querendo brincar comigo ? Eu te arrebento aqui!

Tornei a falar no grau de investimento e fui preso por desacato ao delegado. Sozinho no fundo da cela, com meu guarda-chuva, fiquei pensando que com o grau de investimento tudo seria diferente no Brasil.

Não haverá mais violência, nenhuma criança será mais jogada do sexto-andar, não haverá mais tráfico de drogas, nem assaltos, nem assassinatos, todos os cidadãos brasileiros serão de fato cidadãos, não haverá mais fome, nem gente dormindo nas ruas em todo lugar agora que começa o frio. Tudo será diferente.

Soube agora mesmo que um pai matou o filho de 39 dias a socos, no Paraná. Isso também não acontecerá mais porque todas as pessoas serão boas. Por causa do grau de investimento conseguido pelo Brasil. Por isso que eu me sinto feliz, mesmo estando aqui com meu guarda-chuva, esperando o dia amanhecer.

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