CARTAS DE AMOR
16/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Os funcionários dos Correios estão em greve. Ontem à noite, quando o repórter Francisco Verani saía para cobrir a assembléia que decidiria a greve em São Paulo, eu o chamei em prantos. Disse-lhe:
-Verani, por favor, diz para as lideranças dos servidores dos Correios que eu preciso enviar cinco cartas de amor. Peça para ele deixarem a greve para o mês que vem, porque essas cartas de amor são importantes para mim.
O Verani me olhou, compreendeu a minha aflição e prometeu que falaria com os líderes dos funcionários dos Correios.
Voltou perto das dez da noite. Foi até a minha mesa:
-Poeta, comuniquei a eles o seu pedido. Não deram a menor importância. São insensíveis às cartas de amor. Pior de tudo é que a greve vai começar.
Verani falou ainda:
-Eles disseram para você usar a Internet.
Comecei a chorar copiosamente, como se dizia antigamente. Perguntava a mim mesmo: O que vou fazer com as minhas cartas de amor ? O que vou fazer ? Eu sou um homem muito antigo. Eu ainda gosto de receber cartas pelos Correios, muitas vezes envelopes perfumados. O que vou fazer com minhas cartas de amor.
Diante do meu desespero, o Francisco Verani comunicou:
-A greve começa à meia-noite.
Tornei a dizer:
-Mas Verani, você disse a eles que eu preciso enviar as minhas cartas de amor e que isso é importante para que eu possa viver completamente fora da realidade do mundo ?
-Disse, poeta, mas nem tomaram conhecimento.
Fiquei olhando pela janela a avenida Paulista toda cheia de luz e de riscos vermelhos que fazem as lanternas dos automóveis. Lá embaixo as pessoas caminhavam quietas e pareciam distantes. Antes de me atirar pela janela eu telefonei para mim mesmo mas mandei dizer que não estava.
SAUDADE
15/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de FariaOS ENCONTROS AOS DOMINGOS
14/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Nos domingos, logo cedo, eu tenho um destino certo: Praça da República. Poucas vezes deixo de ir. Gosto de conversar com os pintores e escultores que expõem na praça. Sempre enfrentam problemas com a Prefeitura. Não faz muito tempo, tiraram os artistas da praça. Foram obrigados a expor apenas na calçada. Com isso, as pessoas e os artistas se atropelavam. Ninguém via nada. Uma confusão completa na calçada em volta da Praça da República. E a praça completamente vazia. Ou melhor: no meio da praça gente fumando maconha, traficantes, essas coisas normais da atualidade perversa. A praça vazia completamente, e os artistas e visitantes de atropelando na calçada. A Prefeitura, por sua vez, dizia que estava tudo bem. Os tecnocratas ainda destruirão este país. Eles se metem em tudo que funciona para destruir. Comecei a escrever notícias na Jovem Pan. Quase todos os dias. Mandei fazer uma reportagem lá. Até que o ex-secretário Andrea Matarazzo admitiu que a exposição estava sendo destruída pelos tecnocratas municipais. Porque tem tecnocrata federal, estadual e municipal. No caso da Praça da República eram os tecnocratas municipais. São todos medíocres, embora se dizem geniais. O ex-secretário decidiu, então, abrir as ruas internas da praça para que a exposição continuasse a ser como sempre foi e que se transformou um local tradicional neste cidade sem saída. Há artistas excelentes na praça. Meu destino nos domingos de manhã na Praça da República se prendia, também, à questão dos moradores de rua do Largo do Arouche. Mas eu confesso com muita tristeza, com muita tristeza mesmo, eu tenho que me curvar a esta angústia que me habita: deixei isso de lado. Até mesmo os livros que eu oferecia para escolas públicas da periferia, para as pequenas bibliotecas das favelas. Deixei tudo de lado. Não me interessa mais nada disso. Isso começou depois do assalto violento que sofri em minha casa. O que é que posso fazer ? Espero que eu mude esta postura com o futuro. Mas me sinto humilhado e tenho dentro de mim uma raiva que não posso esconder, por não ser hipócrita. Sempre militei na esquerda, especialmente em ações na área social. Não quero saber de mais nada disso. Me perdôem os meus 19 leitores por este desabafo. Me perdôem. No fundo, sei que não pode ser assim, mas não consigo reverter esta situação que vive na minha alma. Mas voltando à Praça e seus artistas sempre perseguidos pela Prefeitura Municipal, pelos tecnocratas e agora por verdadeiros leões-de-chácara que andam pela praça com a camiseta de fiscais. As pequenas autoridades. Ah, as pequenas autoridades. Depois de visitar a praça, meu destino certo é visitar a Galeria Art Place de meu amigo Evandro Muniz. Longas conversas. Sempre falamos mal de alguém. Agora o meu amigo está se especializando em fazer café. Comprou uma máquina na Itália e faz café de todos os tipos. Deu-me um catálogo e pediu que eu escolhece um tipo. Escolhi um café que nunca ouvira falar. Logo depois me apresentou uma delícia. Eu chego lá e pergunto: Hoje vamos falar mal de quem ? E agora tem o café, um belo café com um leite cremoso. Meu amigo Evandro já me presenteou com vários quadros. Minha casa é um verdadeiro museu. Além das quase 300 bailarinas, há ainda as esculturas de bonze, muitas. E mais de 100 quadros. Neste domingo ele me ofereceu um pequeno quadro de um belíssimo pintor de Belém, Pina. Disse-lhe, então, que pretendo construir uma outra área em cima da minha biblioteca, para colocar especialmente mais quadros. E afirmei que meu único problema é não mexer com cimento, areia, tijolo, telha, essas coisas. Não quero ninguém fazendo essa obra lá. Ninguém. Quero uma coisa pré-construída. É só chegar lá e colocar em cima da biblioteca. Disse então ao meu amigo que a gente tem de tomar cuidado com as pessoas que não conhece. Ele me respondeu com alguma tristeza que, muitas vezes, a gente tem de tomar cuidado exatamente com as pessoas que conhece, ou pensamos conhecer, infelizmente. Fiquei em silêncio e lhe dei razão. Vi que disse isso com alguma tristeza. Deve ter suas razões. Não lhe perguntei porquê. Não tinha esse direito. A seguir, meu amigo me fez outro café com leite. Peguei o quadro que me deu. Saí pela cidade, como sempre. Fui até a floricultura do Largo do Arouche e senti que minha tristeza está muito maior do que eu imaginava.
O TOCADOR DE FLAUTA
11/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Foi uma noite de festa. O lançamento de “Pastores de Virgílio” me fez conhecer muita gente que freqüenta este blog que fala de coisas antigas e de silêncios. Isabel deixou-me 16 rosas vermelhas. Cito apenas seu nome para representar, neste texto, todas as outras pessoas que conheci. No final, talvez ainda valha a pena caminhar mais alguns passos. O livro Pastores de Virgílio pode significar mais um passo. O caminho é longo, eu sei. Sei também que todos os valores estão invertidos. Quase tudo se perdeu. Mas a festa de lançamento deu-me um alento, de ver tantos amigos e pessoas que não conhecia ali, folheando o livro. Um livro de ausências e pressentimentos. Resumindo tudo, escrevi na 4ª.capa do livro: “Este é um tempo de inversão de valores e de leviandades. Uma história brasileira. Uma cena do Brasil. Mesmo sendo amargo em relação à produção literária brasileira atualmente, especialmente no que diz respeito à poesia, acredito na sinceridade de muitos que trabalham seus poemas, seus romances, seus contos, com absoluta honestidade. O país é um circo, é verdade, mas ainda existe gente séria”. Claro que eu não me refiro unicamente à produção literária. Não. Eu me refiro a quase tudo. Por isso, continuarei a tocar minhas avenas com minha flauta de esquecimentos. É isso que escrevi em todos os autógrafos que dei. Todos. Continuarei tocando minha flauta, aquela que quase ninguém ouve. Mas se uma pessoa ouvir, se um animal ouvir, se uma planta ouvir, já terá valido a pena. Sou um pastor de ovelhas. Caminho montanhas de vento e sei que estou perdido com minhas sandálias de distâncias e meu cajado de sentimentos. É possível que ainda exista poesia em algum lugar. Está quase tudo destruído, mas o discurso é outro. Eu cansei de mentiras. Tocarei minha flauta até me falta o ar. E quando me faltar o ar, ainda tentarei soprar a música que deve sair de terra. Ainda cantarei por dentro todos os silêncios que me fizeram até hoje. Depois adormecerei.
O NOVO LIVRO
9/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
É sempre uma coisa que mexe por dentro. Sempre a mesma ansiedade. Mas sinto que isso ocorre de maneira mais acentuada quando se trata de um livro de poesia. Aí sim fico meio perdido ou perdido inteiro, pelo respeito que tenho pela poesia, pelo que ela significa na vida da homem neste planeta destruído. Não quer dizer que livros de outros gêneros que escrevo não me inquietem também. Não. É que livros como “Pastores de Virgílio” não ferem minha alma como ferem os livros de poemas, porque na poesia as palavras saltam de mim como um incêndio que vai consumindo tudo. Infelizmente neste ano deu tudo errado, já que, por motivos pessoais, ligados à minha vida, tive de adiar muitos projetos. Chegou uma hora em que a editora Escrituras cobrou, com razão. Dois livros estão prontos, entramos em setembro, os livros são datados por ano, como é que vamos fazer ? Não dá para adiar mais nada. A editora se encarregou de marcar a data dos lançamentos, “Pastores de Virgílio” agora, na 5ª.feira, e “O Sermão do Viaduto de Álvaro Alves de Faria”, de Aline Bernar, com um ensaio de Nelly Novaes Coelho, como posfácio, no dia 2 de dezembro em São Paulo e no dia 5, logo em seguida, no Rio de Janeiro. Aline, do Rio de Janeiro, sem me conhecer, fez tese de doutorado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sobre O Sermão do Viaduto. Soube disso em Portugal e pedi que meus amigos de lá descobrissem para mim o nome dela. Descobriram. Ela me escreveu. Então seu trabalho se transformou num livro. O livro trará os poemas de O Sermão do Viaduto, os que eu falava no Viaduto do Chá, com microfone e quatro alto-falantes. Foram nove recitais e cinco prisões pelo Dops, acusado de subversivo. Claro, eu era, como diziam os jornais da época, um “agitador”. Depois o Dops proibiu os recitais definitivamente. Aline Bernar descobriu o livro e fez seu trabalho. Isso ainda existe. Ainda não a conheço pessoalmente, por incrível que possa parecer. Falamos por e-mail. Conversamos duas vezes por telefone. No ano que vem pretendo me programar mais, principalmente na questão existencial, para não me perder tantas vezes. Pretendo lançar os sete livros publicados em Portugal num só volume, pela Escrituras, com o título “Alma Gentil/Raízes”, no dia 25 de abril, em que se comemora a Revolução dos Cravos. Depois, talvez em setembro, “Madrigais” ou “Mar Português”, em Portugal. Por fim, já em dezembro, quero lançar meu livro de história em quadrinhos, com meu personagem Pintim. Nos anos 70 eu desenhava uma tira do Pintim para os Diários Associados. Quero fazer um livro com ele. Vai chamar-se “Pintin – Dramas Existenciais de um Passarinho”. Já tenho desenhadas perto de 500 histórias de quatro quadrinhos cada uma. Quer dizer, espero fazer tudo isso. Mas agora o pensamento está em “Pastores de Virgílio”, ou em Virgílio, nele mesmo, partindo de o Guardador de Rebanhos. Como já disse, vou continuar a tocar minhas avenas, com minha flauta de silêncios e palavras cortadas. Mas sempre longe da partitura oficial. Nada tenho com as partituras oficiais. Quero tocar minha flauta para os que estão ausentes de si, os que perderam o aceno e os que têm a alma a escapar pela boca.
PASTORES DE VIRGÍLIO
8/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
1.Alguns de meus 19 leitores perguntam por que “Pastores de Virgílio”. Recorri a esse título pelo amor que tenho à poesia de Fernando Pessoa, especialmente pelo heterônemo Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos. No poema XII desse livro ele diz: “Os pastores de Virgílio Tocavam avenas e outras coisas/ E cantavam o amor literariamente./ (Depois – eu nunca li Virgílio, para que o havia de ler?/ Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio/ E a natureza é bela e antiga”. Esses versos me pegaram. Acho que os poetas e escritores de hoje também tocam suas flautas, mas não sabem para quê ou para quem. Eu não preciso repetir aqui o que eu penso da produção da poesia brasileira atual, descontando, sempre, as exceções. Os poetas são todos pastores de Virgílio tocando flauta para quase ninguém. Fora isso, eu, particularmente, toco fora do ritmo, não sigo a partitura oficial. Nunca seguirei a partitura oficial. Tocarei ainda minhas avenas com minha flauta sempre ao por-do-sol. Enquanto existir por-do-sol.
2.Tocador de flauta que ainda sou, ex-poeta num tempo de desesperos, espero vocês no lançamento, na Livraria Martins Fontes, na Paulista, 509, a partir das 18 horas. Um copo de vinho sempre fará bem. Baco, o deus do vinho, deverá estar em algum canto da livraria, dizendo poemas romanos em silêncio.
3.A ilustração do blog, hoje, mostra uma pintura de Virgílio recitando seus poemas.
4.Rosa Cardoso: então você acha que eu acharia ruim com essa beleza, verdadeira maravilha, que aconteceu no blog ? Nem pensar! Quero mais é que seja sempre assim. Cada vez mais.
DE VOLTA AO BLOG E PASTORES DE VIRGÍLIO
6/setembro/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Gente do céu! O blog se transformou em um ponto de encontro, onde pessoas conversam e trocam palavras num tempo de absoluta brutalidade e violência de todos os lados. Uma maravilha! Uso até ponto de exclamação. Sinto-me feliz que seja assim. Sinto-me feliz de, nesta volta, constatar essa aproximação entre as pessoas. Sou até capaz de acreditar na poesia. Os meus 19 leitores não podem imaginar o significado disso. O significado desse grande abraço que as pessoas ainda podem se dar. Fico, sinceramente, comovido com essa manifestação de afeto, quando afeto é até mesmo uma palavra e um sentimento que foram esquecidos. Mas muitos ainda o cultivam. Pelo menos dá para caminhar mais alguns passos. Eu preciso caminhar mais alguns passos. Todos nós precisamos caminhar mais alguns passos. Pequenos que sejam. Estou comovido com esta manifestação de tanto carinho, imerecido. Quando a Jovem Pan me ofereceu este espaço, pensava em escrever somente sobre literatura. Mas a literatura morreu faz tempo. Salvam-se alguns poetas, alguns escritores. O resto é marketing. Nunca pensei que, com o tempo, as coisas fossem mudando assim como mudaram. De repente o blog passou a ser uma conversa diária de dissabores, tristezas e possíveis alegrias. Repito: estou comovido e só tenho a agradecer. Ofereço a todos vocês o arco-iris que me resta.
Mudando de assunto:
Na 5ª.feira, dia 10, será o lançamento de mais um livro meu, “Pastores de Virgílio”, publicação da Editora Escrituras, de São Paulo. Não é um livro de poesia, mas de entrevista com poetas e escritores brasileiros. Segue a mesma linha de “Palavra de Mulher”, que lancei em 2003, em que entrevistei e fiz o perfil de vinte das maiores escritoras brasileiras. Neste “Pastores de Virgílio” trago a palavra de 38 escritores e poetas do país e de dois poetas portugueses, Vasco Graça Moura e Ana Marques Gastão. Entre os brasileiros estão, para citar apenas alguns: Affonso de Romano Sant´Anna, Alexei Bueno, Astrid Cabral, Carlos Felipe Moisés, Carlos Nejar, Carpinejar, Celso de Alencar, Cyro de Mattos, Dalila Teles Veras, Deonísio da Silva, Edla van Steen, Flora Figueiredo, Ferreira Gullar (num depoimento comovente) Glauco Matoso, João de Jesus Paes Loureiro, José Paulo Paes (sua última entrevista pouco antes de morrer), Lília A. Pereira da Silva, Mariana Ianelli, Marco Lucchesi, Miguel Jorge, Miguel Sanches Neto, Péricles Prade, Raquel Naveira, Roberto Piva, Ronaldo Cagiano, Roniwalter Jatobá, Ulisses Tavares e alguns outros. Num trecho da introdução, na qual explico o objetivo do livro - que é ser um documento sobre a produção literária nacional – digo o seguinte: “Esta introdução é escrita para um livro de resenhas e de entrevistas com poetas e escritores brasileiros, incluindo dois poetas portugueses. Resenhas honestas. Vou repetir: resenhas honestas. Repito mais uma vez para que fique bem claro a alguns tolos que cultivam a vaidade própria dos idiotas: resenhas honestas, porque não sou leviano”. Claro que essa afirmação tem endereço certo, que nem convém discutir aqui. Não vale a pena. O país está caindo aos pedaços, embora o discurso seja outro. Isso inclui, também, o jornalismo. Estou cansado de ser jornalista. Quero ter uma floricultura. Então espero os meus 19 leitores na 5ª.feira, depois das 18 horas, na Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista, 509, em frente à estação Brigadeiro do Metrô. Venham tomar um copo de vinho comigo. Juro que não vou faltar.
DAR UM TEMPO
15/agosto/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
LEMBRETE
Antes do texto “Dar um tempo” e das fotos que o ilustram, quero deixar um lembrete para os meus 19 leitores. Marquem na agenda sentimental, que só a gente conhece: o lançamento de meu livro “Pastores de Virgílio”, de entrevistas com grandes poetas e escritores brasileiros, será lançado pela Editora Escrituras no dia 10 de setembro, na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, 509, em frente à Estação Brigadeiro do Metrô. A exemplo de “Palavra de Mulher” (Editora Senac), “Pastores de Virgílio” constitui um documento sobre a literatura, especialmente poesia, produzida no Brasil atualmente. “Pastores de Virgílio” traz ainda duas entrevistas com poetas portugueses, Vasco Graça Moura e Ana Marques Gastão. Então eu peço que meus 19 leitores anotem na agente de sentimentos: dia 10 de setembro, Livraria Martins Frontes, Avenida Paulista, 509, a partir das 18 horas. Prometo que estarei presente.
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Deixe o mouse sobre a foto para saber a cidade.
Geralmente quando um casal decide que tem que dar um tempo, está tudo acabado. Não tem volta. Eu vou dar um tempo no blog e também nas gravações na Jovem Pan Online. Vou dar um tempo. Vou em busca de mim. Vou também me ausentar de mim. Vou ver se me acho em algum lugar. Eu falo tudo, ou quase tudo, aos meus 19 leitores. Depois daquele assalto à minha casa, que eu descrevi aqui, as coisas pioraram muito, em relação a mim. Á minha saúde. Emocional e física. Está difícil encontrar o equilíbrio. O que machuca, mas machuca mesmo, é o sentimento de humilhação. Três caras, cada um com dois revólveres nas mãos, violentos. Aí é fácil. Aí é fácil espancar uma mulher até o desfalecimento. Aí é fácil encostar o revólver na cabeça ou enfiar o cano dentro da boca e gritar: “Onde está o dinheiro ?”. Como se eu fosse um milionário. Não sou milionário. “Onde está o dinheiro, seu fdp?”. A mulher desfalecida, numa poça de sangue. As duas filhas amarradas e amordaçadas. Seis revólveres. Aí é fácil. Para mim não passou. Ainda me sinto desequilibrado. Na semana passada, prenderam três bandidos exatamente na rua onde moro. Como aconteceu comigo, estavam no quintal de uma casa, esperando o primeiro da família abrir a porta. Mas um vizinho viu. Chamou a polícia. Foram presos. O delegado me chamou para ver se eram os mesmos. Fui até a delegacia. Pedi ao delegado se poderia vê-los pessoalmente. O delegado afirmou: “Não faça isso!”. Insisti. O delegado disse que não. Então fui vê-los naquele vidro em que os bandidos não vêem a pessoa que está fazendo um possível reconhecimento. Mas eles sabem exatamente a altura dos olhos de quem os está observando. E encaram com um olhar fulmimante. A gente treme. Enquanto me dirigia ao tal vidro, insisti com o delegado: se fossem os três, eu queria estar com eles numa sala, mas com policiais junto, claro. Eu me conheço. Eu lhes diria, tenho certeza: “E aí, fdp, é fácil espancar uma mulher com seis revólveres nas mãos. E aí, fdp, é fácil enfiar o cano de um revólver na boca de um cidadão completamente indefeso”. O delegado compreendeu, mas foi claro: se você fizer isso, você morre em alguns dias. Claro que o policial tem razão. Mas isso não sai de mim. Logo depois de comunicar ao delegado que não eram os mesmos bandidos que invadiram minha casa, pedi para vê-los de longe numa sala do Distrito Policial. E os vi encolhidos, encostados na parede, pareciam santos. Tive até vontade de dizer: “Doutor, solta os coitadinhos!”. Aliás, eu disse. O policial riu. E afirmou: “Você não sabe do que esses caras são capazes de fazer, esses mesmos que estão aí encolhidos encostados na parede!” A verdade é que cheguei no meu limite. Nem sei se tenho direito de falar sobre isto aqui. Certamente, não. Mas abro meu coração aos meus 19 leitores, às pessoas que participam deste blog, com manifestações que muitas vezes me comovem.Vou dar um tempo. Acho que volto. Deixo aqui algumas imagens de onde é possível ser feliz: Lisboa, Coimbra, Santiago de Compostela e Salamanca. Quem sabe eu esteja por lá. Se eu conseguir me encontrar, farei o possível para me trazer de volta. Demoro talvez uns 25 dias. Gostaria mesmo é de sair do planeta, mas por enquanto saio apenas do país. Vou dar um tempo. Com saudade.
TOSSE
13/agosto/2009 por Poeta Álvaro Alves de Faria
Não fui à festa de aniversário da minha amiga Denise Campos de Toledo por causa da tosse. O marido de Denise, Domênico, disse que vai me pegar. Eu expliquei: não dava para ficar lá tossindo. Todo mundo ia sair correndo de medo de mim, por causa da gripe suína. Não estou gripado. Só tenho tosse. Tosse. Tosse. A festa foi em um dos salões nobres da Sociedade Esportiva Palmeiras. Eu já estava até pronto para ir. Vesti uma camisa branca, uma calça preta, sapatos de camurça preto e um pulôver vermelho. Estava a caráter. Já que não podia entrar com a camisa do São Paulo, enfiei-me numa roupa com essas cores. Mas a tosse começou. Acho que foi o pulôver. Fui ao médico. Ele me examinou de tudo quanto é jeito. Mandou tirar uma chapa do pulmão. Fiz umas quinze. Vi uma sombras, acho que era minha alma. O médico olhou, olhou, olhou. Disse que estava tudo bem, mas receitou-me uma porção de remédios. Eu lhe perguntei com sinceridade: “Doutor, o senhor acha que eu vou morrer ?”. Não respondeu. Saí de lá tossindo. Entrei no elevador cheio de gente. Tossi. Todo mundo saiu correndo. Tive de faltar ao trabalho um dia da semana passada por causa da tosse. Até a Carla, que é minha auxiliar mais próxima, está evitando ficar perto de mim. Ela tem me enganado. Pede para tomar café, mas eu sei que ela vai fumar na calçada da avenida Paulista, já que os fumantes, todos eles, passaram a ser vistos como criminosos. Eu nunca fumei na vida. Essa lei anti-fumo é fascista. A lei não prevê um meio termo, o direito de cada um. Quem quer fumar que fume. Quem não fuma não precisa radicalizar como a questão foi radicalizada. Se eu fosse fumante, escreveria uma carta ao governador José Serra, dizendo que não passei a ele nenhuma procuração para salvar a minha vida. Quando chego à tarde na Jovem Pan, vejo muitas pessoas nas calçadas da Paulista fumando, como se fossem pessoas que de agora em diante têm de viver escondidas. Não existe meio termo. Todas as pessoas têm o seu direito. Não dá para uma lei cair na cabeça, de cima para baixo, e estamos conversados. Não é assim. Repito: nunca fumei na minha vida. Mas os fumantes não são criminosos, como quer o governador José Serra. Mas voltando à minha tosse. Não tomei remédio nenhum porque estou cansado de tomar remédio. Eu já sou um cara que entra na farmácia e pergunta se há alguma novidade. Aliás, tossi na farmácia e a moça que me atendia saiu de perto. A gripe suína é isso. Acho que minha gripe suína é diferente. Minha tosse tem incomodado até os vizinhos. Numa madrugada destas chamaram uma ambulância para mim. Queriam me levar para um hospital do SUS, que o presidente disse ser uma rede hospitalar de primeiro mundo. Quando lembro desse discurso começo a rir, mas paro logo por causa da tosse. Num destes dias eu estava numa livraria e comecei a tossir. A livraria ficou vazia em menos de um minuto. Ninguém entende a minha tosse. Agora começo a perceber porque de repente me vejo sozinho na redação da Jovem Pan. Todo mundo some. Basta eu tossir um pouco. Vou tirar uma licença e só vou voltar quando a tosse passar. O médico arriscou dizer que é alergia por causa do tempo frio. Tem de evitar blusa de lã. Tem de evitar uma porção de coisas. Eu gosto do Outono. Só que o Outono me dá tosse. O Outono e o Inverno de agora que de Inverno não tem nada. Minha tosse deve seguir até a Primavera. Perdi alguns amigos por causa da tosse. Falam comigo somente por telefone e assim mesmo só um pouquinho. O José Carlos Pereira, que é diretor de Jornalismo da Jovem Pan, não me chama mais para ir à sala dele porque tem medo da minha tosse. Aí eu acho bom. A tosse me salva dos encontros agradáveis que tenho com ele, ou tinha. Só fala comigo por telefone. Estamos a alguns metros de distância. Eu digo: “Quer que eu vá aí ?”. Ele responde: “Não, não, não precisa!”. O Nilton Travesso, que me dirige nas gravações da Jovem Pan Online - nas quais eu me vingo dessa gente que governa minha vida - inventou uma viagem à Nicarágua só para fugir. Os meus amigos Zé Ricardo e Rodrigo ligam a câmera e me deixam sozinho no estúdio. Dizem que precisam resolver uns problemas e somem. Se eu fosse ao Álvares de Azevedo já teria morrido há muito tempo. Ou o Cesário Verde. Já não posso mais freqüentar os cafés aqui na galeria. Eu entro e todo mundo sai. Isso não é justo. Minha tosse não passa gripe suína a ninguém. Num destes dias eu assaltei uma velhinha, aqui na Paulista. Eu a ajudei a atravessar a avenida e roubei a bolsa dela. Ela nem percebeu. Já fiz isso muitas vezes. Depois fico arrependido. A polícia viu. Na verdade, os policiais já estavam de olho em mim. Fui preso, levado a uma delegacia. Quando comecei a tossir, o delegado me mandou embora, dizendo que eu era inocente. Ontem me vi absolutamente sozinho num vagão do metrô. Sozinho. Os outros vagões estavam lotados. E eu ali sozinho, por causa da tosse. Estava lotado, mas quando comecei a tossir todo mundo fugiu. Alguns tentaram pular pela janela. Muita gente está evitando até me passar e-mail. Sinto-me infeliz. Preciso só de um xaropezinho qualquer. Talvez de uma carta de amor. Um aceno também serve.




















