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Poesia?

FADA TRISTE 1

Sim, com interrogação. Só sendo mesmo louco para falar em poesia num tempo como este. E pensar que um dia confiei em gente tão indecente, até convivi com alguns. Gente oportunista. Por ordem stalinista, apareceram lá com as bandeiras que foram rasgadas. Iam protestar contra o quê? Esse movimento – me parece – nasceu espontaneamente exatamente contra a indecência. Deixa pra lá. Eu ainda me atrevo a falar de poesia. Mesmo com uma interrogação. Queria mesmo ir embora. O nojo – desculpem-me a expressão – começa a ser demais. Está insuportável. Os meus 19 leitores se lembram dos textos do dia dos namorados, quando escrevi que, se eu tivesse uma namorada, eu  a chamaria de fada e bailarina e pediria a ela que me desse de presente toda a poesia de Walt Whitman. Pois recebi esse presente. Deve existir em algum lugar uma fada-bailarina escondida em seus receios. Eu já sou diferente: os receios é que me escondem. Toda a poesia de Walt Whitman. Leio os primeiros versos de “Uma canção da terra que rola”, do livro traduzido por Bruno Gambarotto: “Uma canção da terra que rola, e de palavras adequadas/ Você pensava que eram aquelas as palavras, as linhas do alto?/ As curvas, os ângulos, os pontos?/ Não, não eram aquelas as palavras, as palavras substanciais estão no chão e no mar,/ Estão no ar, estão em você”. Procuro uma imagem dessa fada-bailarina que me enviou o livro de Whitman. Deve estar em algum lugar do mundo. Deve ser assim como imaginei. Só mesmo sendo louco para falar de poesia neste tempo de palavras anuladas. Para falar de fadas e de bailarinas e sobretudo falar ainda de sonhos. Agora sei que minha loucura não tem mais remédio. Mas eu também não quero remédio nenhum. Deixo hoje no blog um poema que gosto muito de meu livro “À noite, os cavalos” (2003). Serve bem para mim, especialmente agora. Chama-se “História”. O meu poema me diz o que sinto e não consigo dizer:

.

Assim como era de seu feitio

plantou a poesia no fundo do quintal

como se assim fosse possível

colher o poema futuro em seu tempo hábil.

Como se fosse possível

em tempo hábil colher o poema

se pôs a caminhar pela casa

e a abrir as janelas para um sol inexistente.

Para um sol inexistente

inventou chuvas

no limo de seu telhado

a casa parada no tempo de sua contemplação

os dias antigos mortos nos calendários.

Esperou esse suicida vestido

com murcha flor na lapela

que ao abrir a janela do dia

visse no quintal

a poesia que lhe fora prometida.

Assim como era de seu feitio

inventou no quarto uma chuva no fim da tarde

e pôs-se a observar a terra

com olhos de anseio de uma ave.

De nada valeram as juras parnasianas

nem de nada valeram as palavras gastas:

da terra saltou apenas a profunda ausência de tudo

que não compreendeu e por ela foi engolido.

Não há poesia nem poema na circunstância das noites

onde pássaros se perdem feridos a bater nas venezianas:

não há esse sentir na clausura do instante

o vidro trincado na tez do espelho da sala.

Vieram então outros setembros e meses esquecidos

na líquida paisagem do olhar inerte das paredes:

tinha passado o tempo como passam as aves nos outonos

como passam os barcos antes do naufrágio.

Não se sabe mais esse homem das tardes operárias

nem das fábricas de suas palavras nem de si

na proximidade de sua pele

rente à terra de suas plantas.

No fundo do seu quintal caminha agora rebanhos

pastor que é de sua viagem em volta do próprio corpo:

faz um tempo de manhãs claras

mas há um temporal atrás da porta.

Assim como era de seu feitio

fechou seu casaco de tardes

e se deixou ficar para sempre

entre o acaso e o que não é.

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  • Samantha

    Poema maravilhoso, me fez bem.

  • Damara-Maceió

    Andei ausente, mas tenho acompanhado, poeta.
    As coisas estão difíceis e os seus comentários foram corretos.
    Hoje volto à poesia, mesmo com a interrogação.
    Acho que sempre caberá poesia em qualquer circunstância.

  • LORCA

    Enfim, a poesia de volta, as outras coisas cansam demais, poeta, você sabe.

  • Rosário

    Li tudo poeta, adorei esse poema, é muito lindo.
    Mas destaco o que você chamou de gente indecente.
    Não dá mais para aguentar essa gente indecente.
    Para eles, o Brasil é uma aventura, mas parece que isso pode mudar.
    Pelo menos espero que mude.

  • SENHORA

    Os indecentes estão inconformados.
    É muita coragem aparecer na manifestação com suas bandeiras.
    Afinal, para quê?
    Bando de aproveitadores, indecentes mesmo, como você escreveu.

  • Zuleika dos Reis

    COMENTÁRIO MEU PARA O TEXTO DE 21 DE JUNHO DE 2013

    Ah, Poeta, por que tudo, por todos os lados, é tão
    terrivelmente difícil? Espantoso, quase inacreditável, ser-se tais ilhas
    cercadas só de interrogações por todos os lados. De todo modo, porque sou
    também ilha assim, sempre solidarizo-me contigo, sempre me haverei de
    solidarizar contigo, mesmo agora que me resto ilha quase sem palavras nenhumas,
    mesmo agora em que a minha cidadã, pobrezinha, aqui assim imóvel e muda como
    sói o seu – dela, cidadã – destino.
    Este teu poema, me comoverá para sempre.

    Reste-nos a esperança de um outro país, apesar dos tempos todos ainda só de
    névoas. Que nos reste, a todos, ainda.

    Quanto aos nossos próprios cidadãos e vândalos interiores… que ainda
    aprendamos, do modo possível, como restaurar ao menos alguns dos nossos
    veículos e edifícios de dentro, muitos deles seriamente danificados pelas
    perdas da vida, bem como por vândalos que também nos habitam a própria alma.
    Quem sabe nós e tantas mais ilhas afins e desafins, venhamos ainda a nos
    reconstruir, cada qual como outro(s) novo(s) e fecundos país(es).

  • PROFESSORA

    Que tudo nos seja uma grande lição.
    Quanto à poesia, poeta, sempre haverá de estar viva dentro de nós.

  • Maria Lúcia

    Encanto e desencanto, é assim que seguimos. Ainda seguimos.

  • Carlos Eduardo

    Eu estive lá mais uma vez poeta e vi de perto a gente indecente a que você se refere, eram intrusos numa manifestação que não é deles, eles parecem ignorar, a manifestação é contra eles. Mas estavam lá e de lá foram expulsos. Os indecentes. São mesmo grandes indecentes.

  • CAMILA

    Que belo poema, poeta.
    Você devia ter falado só da poesia e deixar os indecentes de lado.

  • Solano

    Os indicentes sempre foram indecentes, são indecentes e continuarão a ser indecentes.

  • Lucas Light

    Álvaro,só mesmo poemas como esse para amenizar um pouco

    as tensões da semana. Vejo nesse poema,História,um auto-retrato

    do poeta Álvaro Alves de Faria.Sensacional!

  • LUIZ ALBERTO

    Um dia, num arroubo de poeta, que nunca fui, escrevi um versinho assim: “Passei por entre pombos e eles revoaram em torno de mim. Por um instante, só por um instante, me senti parte deles…”

    Talvez tenha sido o momento de maior felicidade que senti na vida. Sinto saudades daquela felicidade que não tenho mais.

    Mas, poeta, os tempos atuais são outros, não são de felicidade. São de luta! Eterna luta. Do bem contra o mal. Do bom contra o mau.

    Modificando o verso, “lutar é preciso!” . Nossa vida agora está nas mãos dos maus. Nosso futuro precisa ficar nas mãos dos bons.
    Um beijo no coração de todos.

  • Missaci

    Eu me lembro da primeira vez que li esse Poema Poeta, quando abri seu “Trajetória Poética” e fiquei anestesiado e feliz ao ler cada verso desse Poema.
    A Poesia deve sim Poeta existir em todos nós; é o que nos faz viver !
    Muito obrigado Poeta !