NAMORADOS
quarta-feira - 11/junho/2008
Acredito que todos os poetas do mundo escreveram sobre o amor. Isso faz parte da vida do homem na Terra. Afinal, se não for por laços assim desse sentir, nada seria possível fazer. Eu acredito nisso. Mas há essa forma de amor que se traduz entre os namorados. Duas pessoas que se encontram, se amam, caminham juntas de mãos dadas, fazem juras para sempre, sorriem, choram juntas. Claro, são imagens simples que a gente pode tirar de uma fotografia. Como poeta, poderia recorrer à poeta portuguesa Florbela Espanca, num de seus poemas mais famosos, transformado em fado:
Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar:
Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Poderia recorrer à minha amiga querida Hilda Hilst, que já se foi:
Escreveste meu nome
Sobre a água?
A fogo, na alma
Desenhei o teu
Grafismo iluminado
Imantado e novo
Teu nome e o meu.
Poderia também recorrer a Carlos Drummond de Andrade, com seu poema famoso “Quadrilha”:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado na história.
E ainda poderia buscar uma palavra de amor, que fosse triste, de qualquer maneira, em Cecília Meireles:
Canta o meu nome agreste,
cheio de espinhos
o nome que me deste,
quando andei nos teus caminhos;
Canta esse nome amargo,
hoje perdido,
no tempo largo
sem mais nenhum sentido.
E buscar em Neruda, meu poeta querido, uma palavra que me falte, essa palavra que não existe, que está na boca, mas não salta:
Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas escuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
São estes os poetas que me falam neste dia. E por eles, e pelo dia dos namorados que são todos os dias, por eles escrevo não sei se crônica ou poema, se palavras que vão se perder.
As palavras que agora diz minha amiga atriz Patrícia Rizzo para que este dia de amor não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure, como Vinícius escreveu.
Haverá sempre alguém à espera de alguém.
Haverá sempre alguém se despedindo.
Haverá sempre uma lágrima.
Haverá sempre um longo abraço, comovido abraço, onde todas as palavras se anulam, onde todos os anseios se enlaçam.
Haverá sempre esse momento de descoberta, quando o corpo se estende como a tarde e os namorados caminham suas naus, as velas chegando a todos os portos, em busca da estrela do mar, em busca talvez do beijo que não foi dado, em busca sempre do que há para viver.
Haverá sempre uma carta de amor guardada na gaveta, com as palavras mais comoventes, com um adeus, com um pedido de voltar, com uma confissão colorida, ou com a alegria de todos os ventos, com esse desejo de não partir.
Haverá sempre um pedido de perdão.
Haverá sempre o afago, o amor como incêndio percorrendo todos os segredos, nessa alegria do encontro quando a vida se abre e se transforma numa só, quando todos os céus, todas as nuvens, árvores, folhas, quando todas as palavras se resumem num aceno.
Haverá sempre esse tempo de reencontro, quando as mãos se enlaçam e quando todos os caminhos se fazem pequenos.
Haverá sempre esse momento de paz, do beijo mais antigo que caminha pelas palmas das mãos e percorre todos os sentidos do corpo.
Sempre haverá um casal de namorados para embelezar o que tantas vezes se esquece, que se transforma em cores cinzas e esconde as cores vivas que fazem a vida respirar.
Sempre haverá um casal de namorados fazendo as mais incríveis juras de amor, as mais incríveis juras de todos os tempos – os casais de namorados, num tempo de desamor, quando o que vale não é o beijo, mas todas as marcas de qualquer solidão, a marca de um mundo que se isola, apagando os gestos mais simples, as palavras mais brancas.
Sempre haverá essa manhã, essa tarde, essa noite. Sempre haverá essa madrugada de corpos molhados, da vida sempre redescoberta num gesto que desvenda todas as coisas.
Sempre haverá alguém à espera com um ramo de flor, talvez um coração de chocolate, talvez uma estrela de ouro.
Haverá sempre alguém partindo.
Haverá sempre alguém chegando para viver.
Haverá sempre essa coisa do amor que enlaça, aperta, faz doer – essa coisa que o amor dispara pelo próprio ato de amar, o anseio por chegar, a saudade por não vir.
Haverá sempre esse encontro, os braços abertos, ciranda que roda o tempo, os braços abertos para o amor que desperta, que abre a porta e diz simplesmente: ”Estou aqui”.
Haverá sempre essa chegada, o beijo mais intenso correndo por todas as ruas da memória, por todas as ruas da alegria, por todas as ruas dos receios, por todas as ruas de todas as ruas.
Haverá sempre esse encontro, essa festa íntima dos namorados que desenham nas calçadas, nas chuvas, no frio, nas tardes de sol – esse desejo de fazer a vida e amar a vida para que, afinal, a vida possa dizer porque existe.










