NECROLÓGIO QUE ZÉ RODRIX ESCREVEU PARA ELE MESMO
sábado - 23/maio/2009Conversei algumas vezes com Zé Rodrix. Sempre me pareceu uma pessoa demais cordial para viver num mundo como este. Uma das vezes foi quando falamos sobre seu livro de estréia, “Diário de um Construtor do Templo”, no qual ele tirou o “é” do “Zé” e assinou Z.Rodrix. Um ótimo escritor. Do compositor não preciso falar. Não é necessário. Aliás, nada é necessário.
Mas eu quero passar aos meus 19 leitores um necrológio que Zé Rodrix escreveu para ele mesmo, em 2004, a pedido do jornalista Ulisses Mascarenhas. O texto foi guardado pelo jornalista Luis Nassif, que passou uma cópia para o poeta Ulisses Tavares.
O poeta Ulisses Tavares me envia esse auto-necrológio de Zé Rodrix, informando que esteve na sua despedida e de lá saiu com o coração murcho.
Tanta gente ruim fica por aqui e pessoas como ele vão embora para sempre. Lembro-me de seu entusiasmo a me falar de seu livro, dizendo que os leitores participariam da construção do Templo que o Rei Salomão mandou erguer para seu Deus Yahweh. Ao mesmo tempo os leitores conheceriam a história de Joab e seu destino. Seria, como dizia, um encontro com o Rei dos hebreus e a revelação dos segredos mais íntimos do Grande Mestre Arquiteto, Hiran-Abiff, que permite compreender o verdadeiro significado da palavra Mestre.
Era seu livro de estréia, um romance, no qual ele usou como epígrafe o Salmo 133, que diz: “Oh, quão bom e quão suave/ é viverem os irmãos em união:/ é como o óleo perfumado na cabeça,/ que desce sobre a barba, a barba de Aarão:/ é como o orvalho do Hermon/ que desce sobre o Monte Sião,/ pois o Senhor derramou ali sua bênção e vida para sempre”.
Na primeira página ele faz agradecimentos a algumas pessoas, entre elas sua mulher Júlia e seus filhos e finalmente “aos pedreiros-livres de todo o Universo, a quem esta história precisa ser contada e recontada a cada momento, para que nunca percamos de vista quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.
Coloco tudo isso no meu blog para mostrar o que existia na alma do músico, compositor, maestro, arranjador, ator, autor, pintor, publicitário, professor e jornalista.
O necrológio que Zé Rodrix escreveu para ele mesmo, em 2004, é o seguinte:
“Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios.
Podem sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, já que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso.
Peço parcimônia nos eflúvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa.
Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”
Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Não pretendo puxar a perna de ninguém à noite e nem assombrá-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possível. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus próprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre já será um grande intróito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como já vou chegar lá tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que não será difícil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da política do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, já tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num Sábado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte.”











