A emoção é importante, mas o futebol tem que ser o protagonista do jogo

Felipe Altarugio   02/04/2018   Comentários desativados em A emoção é importante, mas o futebol tem que ser o protagonista do jogo

A paixão e a emoção, de modo geral, fazem parte do futebol. Especialmente no Brasil, onde o futebol representa um traço cultural marcante da população, é difícil separar futebol e sentimento. No futebol brasileiro, porém, cada vez mais a sensação ocupa praticamente todo o espaço nessa relação, sobrando muito pouco para o futebol em si.

No tumultuado Corinthians x Palmeiras de sábado, isso ficou muito claro. O objetivo principal passou a ser a vitória a qualquer custo. Jogar bola é secundário. O importante é ganhar. E esse pensamento traz à tona uma ideia de “vale tudo”. Vale briga, vale confusão, vale tumulto. Vale tudo, menos jogar bem. Essa concepção bizarra de que o resultado, superficial, é mais importante que o trabalho, o desempenho e o bem jogar do futebol alimenta o anti-jogo. Corinthians x Palmeiras, lembrando, serve como exemplo recente, apenas. Porque esse problema se estende a todas as praças esportivas do país.

O estigma de que o jogo é uma guerra existe amparado pelo resultadismo – essa linha de pensamento retrógrada e nociva que valoriza apenas o resultado (vitória ou derrota) sem considerar o desempenho, a estética e a filosofia de jogo. Cada vez mais, comemora-se a desgraça adversária em vez do próprio triunfo. A vitória não é aproveitada, é um alívio. Jogar bem não adianta, se não vencer. Com isso, cada vez mais, o futebol brasileiro perde a leveza. Se torna algo pesado, seco, rígido. E em meio a tudo isso a essência do futebol vai sumindo.

E a reflexão se estende à cobertura esportiva feita por nós, da imprensa. É raríssimo encontrar uma análise do jogo de fato, da tática, do futebol mesmo. Após a rodada, o futebol perde espaço para discussões sobre arbitragem – programas inteiros dedicados a decidir se o gol x estava ou não impedido, se o lance y era passível ou não de marcação de pênalti – ou sobre brigas e confusões. Quem bateu em quem. Quem deveria ter sido expulso e não foi. Quem não deveria ter sido expulso e foi. O que vale é o resultado, nu e cru. E a polêmica, mesmo que seja vazia.

Isso faz com que a análise seja perigosamente rasa e com que entremos em um ciclo de trabalhos interrompidos e regressões. A superficialidade da análise é refletida na gestão dos clubes, onde uma disputa de pênaltis muitas vezes define se um técnico continua ou não no comando da equipe. Os clubes não sabem como jogam, e não sabem como querem jogar. Agem também na emoção, no sensacionalismo. Jogam pra galera. Assim fica difícil qualquer evolução.

Quer dizer então que a emoção deveria ser suprimida do futebol? Evidente que não. O futebol é o que é por conta da paixão do torcedor, que atribui uma significação muito maior ao que poderia ser apenas um jogo. A emoção é o que faz com que o futebol ultrapasse a barreira de uma simples modalidade esportiva. O problema é quando emoção e futebol se tornam coisas que não podem, aparentemente, coexistir. É um ou outro. E não deveria ser assim. A emoção é um ingrediente fundamental, mas que não pode tomar o espaço do jogo em si. Do jogo bem jogado. Quando o sentimento passa a ter mais espaço que o jogo em si, o futebol perde o aspecto de espetáculo, de algo lúdico. Passa a ser apenas mais um problema entre tantos que a sociedade brasileira já é obrigada a enfrentar diariamente. A emoção do futebol é magnífica, mas o futebol ainda precisa ser o protagonista. Enquanto isso não acontecer, estaremos pra sempre presos nesse ciclo.

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