O Atlético Paranaense tem mais um bom projeto, mas precisa mantê-lo

Felipe Altarugio   23/04/2018   Comentários desativados em O Atlético Paranaense tem mais um bom projeto, mas precisa mantê-lo

(Foto: Roberto Vazquez/Estadão)

Já há pelo menos duas décadas, o Atlético Paranaense é um dos clubes que servem como bom exemplo em muitas coisas. Uma boa estrutura física e um estádio moderno (isso desde antes das arenas que foram construídas para a Copa do Mundo) se aliam com princípios de desenvolvimento futebolístico dentro de campo.

O Atlético começou os anos 2000 muito bem em desempenho e resultado: uma base forte, título brasileiro em 2001, vice em 2004 e vice da Libertadores em 2005. Depois disso, houve uma queda, mas o Furacão se manteve, em linhas gerais, entre os principais times do Brasil.

O Atlético Paranaense não parece ter receio em fazer apostas e tentar inovar, se atualizar. Começou vários bons projetos nas últimas temporadas, mas acabou cedendo à pressão dos resultados e interrompendo praticamente todos eles. Parece haver no Furacão uma boa vontade maior com inovações, mas uma avaliação dessas inovações que funciona na base do curto prazo. E aí, evidentemente, não dá certo. Uma aposta precisa ser mantida no mínimo tempo por o suficiente para que seja possível analisar mais a fundo o que está sendo desenvolvido.

Fernando Diniz é mais uma ideia ousada do Furacão. Um dos poucos treinadores trabalhando no Brasil com uma filosofia de jogo muito bem definida, baseada na posse de bola, no volume ofensivo e na troca rápida de passes.

Mas em um país em que o conceito de jogo ainda é atrasado em relação a outros lugares, existe, sim, a resistência. No Brasil, quando o treinador é diferente e apresenta um conceito novo, é rejeitado de prontidão. E não apenas rejeitado, é cobrado em exagero. E muitos exigem que o Atlético Paranaense de Fernando Diniz seja campeão brasileiro vencendo todos os seus jogos.

Diniz sofreu isso no Audax. Após o vice-campeonato paulista em 2016, as cobranças no Paulistão do ano seguinte eram ainda maiores. Esqueciam-se, porém, que o Audax ainda era um time do interior que, assim como São Bento, Rio Claro, Oeste, XV de Piracicaba e outros, têm recursos limitados e elencos e objetivos mais modestos. E com um agravante: o Audax perdeu praticamente todo o seu time titular após a boa campanha. Sidão, Camacho, Ytalo, Yuri, Tchê Tchê, Bruno Paulo foram para os grandes de São Paulo. Mesmo assim, havia ainda a cobrança irracional e descabida para que o Audax brigasse pelo título de novo no ano seguinte. Porque, aqui, o ato de tentar fazer algo novo, algo diferente, é punido com uma cobrança desproporcional.

O futebol que o Atlético Paranaense tem jogado é excelente. Bonito de ver, mesmo. E isso passa não apenas pelo conceito de Fernando Diniz, mas também pela estrutura do clube e pelo projeto traçado no Furacão que envolveu, entre outros pontos, a preservação física do time titular com os reservas atuando durante praticamente todos os jogos nesse começo de temporada. Até porque implantar um sistema de jogo que é raríssimo no Brasil demanda mais tempo que o normal.

Por isso, o Atlético precisa estar preparado para eventuais desajustes no processo. É importante que o clube e a torcida não incorporem essa cobrança surreal que existe sobre Fernando Diniz justamente por ele ser diferente. Hoje talvez o Atlético Paranaense não apareça entre os candidatos a título brasileiro, mas a longo prazo isso poderia acontecer, com a condição de que o trabalho seja mantido. É fundamental que o clube e a torcida não cedam à eventual pressão do resultado, e que essa pressão não seja exagerada e desproporcional.

Pessoalmente, torço muito para o sucesso do Atlético de Fernando Diniz. Seria a semente de uma pequena esperança de que um dia o futebol possa voltar a crescer por aqui.

 

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