Calendário do futebol brasileiro deixa atletas sem jogar durante meia temporada

Felipe Altarugio   01/06/2017   Comentários desativados em Calendário do futebol brasileiro deixa atletas sem jogar durante meia temporada

No segundo semestre, 20 clubes paulistas fecham as portas e retomam as atividades apenas em 2018. Cerca de 30% dos atletas ficam desempregados

Novorizontino chegou às quartas do Paulistão e agora vai ficar inativo (Foto: Reprodução)

O calendário do futebol brasileiro é um dos problemas crônicos mais prejudiciais à boa prática do esporte no Brasil. No atual formato, com os campeonatos estaduais, muitos clubes ficam inativos no segundo semestre.

Sem atividade, é difícil manter o clube no topo. Não existe planejamento e nem continuidade do trabalho, além de todo o prejuízo financeiro: é mais difícil vender espaços publicitário nos estádios e no uniforme sem campeonatos relevantes para a exposição das marcas. Além disso, é quase impossível para um clube do interior vender planos de sócios-torcedores, afinal, qual o atrativo de pagar 12 mensalidades por ano, sendo que o time só joga durante 4 meses?

Segundo levantamento feito pela Folha de S. Paulo em 2015, mais de 30% dos atletas que disputam as séries A1, A2 e A3 do Paulistão ficam sem emprego após o final dessas competições. Isso é problemático em muitos pontos: primeiro, como um ser humano pode sobreviver com um emprego que só existe em menos da metade de um ano? E segundo, mas não menos importante, como manter o condicionamento físico para continuar jogando futebol profissional? É quase impossível.

Esse é o caso do Rio Claro em 2017. O time chegou até as semifinais da Série A2 do Paulistão e bateu na trave na briga pelo acesso à primeira divisão, perdendo para o São Caetano. O último jogo do time foi no dia 02 de maio. Se vencesse, garantiria a vaga na elite estadual e calendário. Com a derrota, o futebol volta agora só em 2018.

“É preciso criar algo que te mantenha arrecadando, que te mantenha em notoriedade, e sem atividade você não tem essa possibilidade. Pra você ter alto nível com investimento baixo, você precisa ter um trabalho constante” Sérgio Guedes, técnico do Rio Claro

O experiente Sérgio Guedes é o técnico do Rio Claro. Time fez a última partida no último dia 02 de maio e agora só volta em 2018. (Foto: Reprodução EPTV)

O técnico do Rio Claro é Sérgio Guedes. Experiente, ex-goleiro do Santos e da Seleção Brasileira, com passagens por clubes tradicionais do futebol brasileiro como jogador e como treinador, Sérgio fala sobre a importância que teria um calendário anual:

– Pra que você tenha seu patrimônio em atividade. Um jogador em atividade está em constante evolução, e nem todos os atletas têm essa oportunidade de ter uma sequência. Seria importante continuar jogando, e nem todos é possível que se coloque em algum outro lugar. Então há um prejuízo profissional. Isso é extremamente prejudicial não só ao clube, mas também ao atleta – explica.

Sérgio Guedes já treinou diversas equipes de São Paulo e do Brasil e lembra que esse não é um problema exclusivo do Rio Claro:

– São muitos os clubes que têm essa circunstância, e todos eles trabalham em cima de uma oportunidade, então por isso a importância de um clube estar em atividade. Você tendo calendário, você tem calendário, você tem essa reciclagem de jogador constante, melhores oportunidades de contratação. Então se você tem essa possibilidade, você tem que aproveitar e conquistar isso e não permitir que um concorrente seu o faça.

Ao todo, 20 clubes que disputaram alguma das três divisões do Campeonato Paulista ficaram inativos no restante da temporada. Além de todo o prejúizo profissional, existe também o prejuízo de marketing e financeiro para clubes e atletas.

– Quando você não tem atividade, você oscila, você deixa o seu torcedor à margem. Não são todos que ficam esperando pelos próximos três, quatro meses. O prejuízo é muito grande. É preciso criar algo que te mantenha arrecadando, que te mantenha em notoriedade, e sem atividade você não tem essa possibilidade. Pra você ter alto nível com investimento baixo, você precisa ter um trabalho constante. – complementa Sérgio Guedes.

O treinador tem contrato com o Rio Claro por mais dois anos, mas, com a inatividade, está liberado para procurar outro clube até o fim de 2017, quando, em teoria, se reapresenta ao Galo Azul.

Mesmo assim, o mercado não é fácil, afinal são vários técnicos e jogadores que ficam sem função no segundo semestre.

Copa Paulista

Para tentar superar esse problema, a Federação Paulista de Futebol criou a Copa Paulista, disputada por alguns clubes do estado de São Paulo no segundo semestre. Mesmo assim, a medida é pouco efetiva, uma vez que o campeonato não tem atrativos o suficiente e acaba não compensando financeiramente para o clube.

Ao final da competição, os gastos com viagens e salários são maiores que o retorno oferecido pela Copa Paulista, o que faz com que muitos clubes desistam de participar. Outros ainda jogam com atletas das categorias de base.

O calendário é um dos mais graves problemas estruturais do esporte brasileiro, e a cada ano em que ele não é consertado, o futebol do interior morre um pouquinho mais.

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