O ciclo sem fim de erros no São Paulo

Felipe Altarugio   03/07/2017   Comentários desativados em O ciclo sem fim de erros no São Paulo

(Foto: Divulgação / saopaulofc.net)

Muricy Ramalho foi tricampeão brasileiro treinando o São Paulo em 2006, 2007 e 2008. Antes disso, nenhum time jamais havia conseguido tal feito. Foi ovacionado pelo torcedor, especialmente em 2008, quando o Tricolor conseguiu uma arrancada histórica e tirou o título do Grêmio, conquistando a taça na última rodada, no dia 06 de dezembro.

No dia 19 de junho de 2009, Muricy foi demitido. Seis meses e treze dias após a festa do tricampeonato. Bastou uma eliminação na Libertadores da América diante do Cruzeiro para que o trabalho que estabeleceu o mais próximo de uma dinastia que já tivemos no Campeonato Brasileiro fosse destruído.

Desde então, o São Paulo sofre. Ricardo Gomes assumiu o time e durou um ano. Vieram depois Sérgio Baresi, Adilson Batista, Emerson Leão, Paulo César Carpegianni, Ney Franco e Doriva – sem contar os retornos de Muricy e Paulo Autuori, treinadores do período vitorioso entre 2005 e 2008. Todos esses foram demitidos. Desde então, o São Paulo se tornou especialista em não deixar nenhum treinador trabalhar.

Isso sem falar também em Juan Carlos Osorio e Edgardo Bauza. Os dois deixaram o clube para assumir seleções, então tecnicamente não foram demitidos. Disse “tecnicamente”, porque é sempre bom lembrar que os dois tinham os trabalhos bastante questionados. Não se pode dizer que, se não tivessem ido para México e Argentina, Osorio e Bauza teriam terminado 2015 e 2016, respectivamente, no comando do Sâo Paulo. Pelo contrário. Na minha opinião, o mais provável é que tivessem sido demitidos antes do fim da temporada.

O clube é mal administrado. Não tem planejamento algum. Vende jogadores alegando que precisa pagar dívidas, mas gasta milhões em contratações semanas depois. O São Paulo sofre desmanches no meio do ano regularmente há algumas temporadas. Alguns vão alegar que é uma questão de calendário, já que o meio do ano é quando o mercado europeu está aquecido. Mas não é só isso. O fluxo de saída do São Paulo é anormal. Só em 2017, o elenco sofreu 22 alterações, entre chegadas e saídas. É muita coisa. É quase um elenco inteiro.

Rogério Ceni é vítima do imediatismo. Mais uma. Os resultados não eram bons no Brasileirão, mas havia uma perspectiva de trabalho a longo prazo. “Talvez”, muitos pensaram, “por ser ídolo, Rogério terá o tempo que outros não tiveram”. Estavam enganados. E aí faço a pergunta: se nem Rogério Ceni segurou, quem vai segurar? Dorival? Marcelo Oliveira? Mano? Infelizmente, não é o treinador ou o projeto que determinam se um treinador permanece no cargo no futebol brasileiro, mas sim o resultado.

Rogério está em início de carreira como treinador e talvez não tenha sido mesmo o melhor momento para treinar o São Paulo. Mas um erro não justifica o outro. Pela maneira com que enxerga o futebol, pelo conceito de jogo, pelas referências usadas por Ceni, o trabalho era promissor, a longo prazo. Mas “longo” e “prazo” são duas palavras que não podem ser utilizadas juntas na mesma sentença. Não na gramática do futebol brasileiro. Tudo o que importa é o resultado. Ganhar, mesmo que por 1 a 0. Mesmo sem merecer. Mesmo sem projeto, sem filosofia, sem conceito. Enquanto ganhar, tá bom. Como estava bom com Muricy até 2008.

O São Paulo tem um problema crônico de má gestão. Juvenal, Aidar e agora Leco. Trabalhos interrompidos, promessas não cumpridas, times não montados. E o reflexo aparece dentro de campo. Talvez cegos pela política interna, os dirigentes não conseguem perceber os rastros na estrada em que estão percorrendo. Não percebem que o clube segue os mesmos passos que trilharam, nos últimos anos, Corinthians, Grêmio, Atlético Mineiro, Palmeiras, Botafogo, Vasco e Internacional. E essas histórias nós já sabemos como terminaram.

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