A tática, a mística e o rolo compressor do Liverpool

Felipe Altarugio   04/04/2018   Comentários desativados em A tática, a mística e o rolo compressor do Liverpool

Mais uma noite europeia memorável em Anfield (Foto: Peter Powell/EFE)

Não é à toa que Jürgen Klopp é o adversário mais indigesto para Guardiola. Somando o 3 a 0 dessa Champions League, são seis vitórias do alemão contra quatro do catalão, além de três empates. Ambos os treinadores têm traços de sua vida, de sua personalidade e de sua formação refletidos na maneira com que escalam suas equipes.

Guardiola é genial. E isso é indiscutível. Talvez o maior de todos os tempos. Aprimorou a escola de futebol da Espanha e principalmente do Barcelona. Se expandiu e implantou técnicas novas no Bayern e agora no City. O desafio de impor sua filosofia ao futebol inglês, que parecia enorme, foi praticamente superado com o iminente título da Premier League e com os impressionantemente absurdos 90% de aproveitamento em 31 rodadas. Apenas uma derrota, diante do Liverpool. Diante de Klopp.

Guardiola é o principal agente da talvez maior revolução da história do futebol (Foto: Peter Powell/EFE)

Enquanto muitos tenderam a pensar que o antídoto para Pep Guardiola fosse um jogo excessivamente defensivo, retrancado e reativo, o que se vê de fato é outra coisa. Manchester United, Chelsea e outros tentaram esperar o City em suas defesas. E falharam. Mesmo com placares pequenos (1 a 0 em ambas ocasiões), os Citizens dominaram amplamente o jogo. Esperar por Guardiola é abrir mão de qualquer possibilidade de controle do jogo. É entregar de bandeja a bola para o time que hoje mais sabe o que fazer com ela.

O futebol de Guardiola não é eficaz porque é ofensivo. É vitorioso porque é genial, inventivo, planejado, estudado. Poucos detalhes escapam a Guardiola. Poucos jogos escapam aos seus times. Simplesmente colocar todos os jogadores atrás da linha da bola não é uma resposta à altura para enfrentar os times dele. Pode funcionar pontualmente em uma ou duas ocasiões, mas não é essa a melhor maneira de enfrentar o volume de jogo guardiolista.

Klopp é diferente. Para o alemão, o futebol é caótico e só pode ser entendido até certo ponto. A maneira de superar essas barreiras lógicas de compreensão do jogo é simplesmente o combate. O ataque. A velocidade. A antítese do caos organizado. A luta e a intensidade da escola alemã têm seus traços bem marcantes nos times de Jürgen Klopp.

O caos de Jürgen Klopp (Foto: Peter Powell/EFE)

O Liverpool, assim como fez nos três confrontos contra o City na temporada, foi direto à jugular dos Citizens. Sem rodeios. É o embate puro, a força, a pressão, o sufoco. Três gols em 31 minutos, com uma intensidade em sua proposta que beira a insanidade. E perfeição, ou quase isso. Porque fazer isso exige um grau de acerto extraordinário. Um erro nesse ataque caótico pode dar justamente o que não se pode dar a Guardiola: espaço no campo de ataque. Foi o que aconteceu no 5 a 0 para o City no primeiro duelo entre as duas equipes na temporada. A expulsão de Mané comprometeu a pressão dos atacantes sobre os zagueiros adversários. Como consequência, os ataques do City eram implacáveis, fatais.

Fatal como foi o Liverpool depois nos 4 a 3, e hoje nos 3 a 0. Já tinha escrito aqui que o mais importante sobre os 4 a 3 foi a maneira com que o Liverpool foi capaz de comprimir o City e abrir 4 a 1; e que em um duelo de mata-mata de Champions League não haveria o “relaxamento” que houve nesse jogo, caso alguma vantagem fosse construída.

Relaxamento que não tiveram também as milhares de vozes em Anfield, cantando durante os 95 minutos do jogo e criando uma atmosfera que é cada vez mais rara entre os grandes clubes europeus. Resgatando e invocando a alma de tantas memoráveis noites europeias que tiveram lugar em Anfield. A mística dos cinco títulos de Champions League dos Reds certamente foi um obstáculo também hoje.

A tática bem aplicada, a intensidade, a voracidade e o espírito do Liverpool garantiram uma boa vantagem aos Reds.

Mesmo assim, talvez ainda seja esse o duelo mais aberto dessa fase da Champions League. Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique praticamente encaminharam as suas vagas e me surpreenderia muito se houvesse alguma virada nesses confrontos. Surpresa que seria muito menor do que o City reverter a vantagem. Afinal, é Guardiola.

 

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