O título da Premier League: Guardiola venceu seu maior desafio até hoje

Felipe Altarugio   16/04/2018   Comentários desativados em O título da Premier League: Guardiola venceu seu maior desafio até hoje

Guardiola conseguiu o título da Premier League (Foto: Andy Rain/EFE)

Desde que começou a carreira como treinador, em 2007, a temporada 2016/2017 foi a única em que Pep Guardiola não conquistou nenhum título em sua carreira. Foi justamente sua primeira temporada no futebol inglês, à frente do Manchester City.

Com o seu conceito pessoal de jogo tendo sido formado dentro do Barcelona, não foi difícil para Guardiola implantar sua filosofia no clube. Em 2009, quando saiu do Barcelona B para o time principal, construiu, por meio de uma verdadeira revolução tática, um time praticamente imbatível. A partir dali, a história do futebol como um todo tem um importante marco: desse Barcelona em diante, treinadores e equipes precisaram se reinventar taticamente, se modernizar, para seguirem vivos em um cenário tão competitivo quanto o futebol europeu.

Existe, sim, um futebol pré-Guardiola e um futebol pós-Guardiola. O que não quer dizer que todos os times do mundo agora devam valorizar a posse de bola, tampouco que o jogo moderno seja somente um jogo ofensivo de futebol arte. O que mudou é que de 2009 em diante, mais que nunca, um time precisa ter um conceito, uma proposta, uma filosofia de jogo.

O ponto é que o Barcelona de Guardiola não determinou uma lei que precisa ser seguida quanto à forma do jogo, ele não criou um modelo rígido que obrigatoriamente tem que ser obedecido. Pelo contrário, a partir desse time do Barça, muitas portas foram abertas para que treinadores diferentes pudessem criar e implantar filosofias diferentes. Nenhum time precisa necessariamente jogar parecido com os times de Guardiola, mas os treinadores precisam estar atentos, se renovando. Existem exemplos de ótimos treinadores no futebol moderno que jogam de maneira defensiva, como Simeone e Conte. Existem aqueles que usam a intensidade física, como Klopp. Existem aqueles que gostam da posse de bola, como Pochettino e Sarri. Um mundo de possibilidades.

Guardiola deixa o Barcelona em 2012 e após um período afastado assume o Bayern em 2013. Na Alemanha, ele manteve a sua filosofia de jogo mas precisou adaptar alguns conceitos à tradição tática local. Guardiola aprimorou o futebol alemão, e o futebol alemão aprimorou o repertório de Guardiola. Nos três anos em que esteve no Bayern, conquistou as três edições da Bundesliga que disputou.

A ideia da diretoria do Bayern ao contratar Guardiola não era mantê-lo de maneira vitalícia no clube. E sim criar uma identidade. Uma filosofia que aliasse o que Guardiola e Bayern tinham de melhor. Uma marca na forma de jogar do clube. Uma herança. E esse objetivo foi alcançado.

Existe, evidentemente, uma supremacia histórica do Bayern na Alemanha. Mas mesmo com essa supremacia, nunca um time havia sido campeão alemão quatro vezes consecutivas. O Bayern foi o primeiro, em 2016, com os três títulos de Guardiola se juntando a um de seu antecessor, Heynckes. Em 2018, após a passagem de Pep, o Bayern chegou ao sexto título consecutivo (novamente sob o comando de Heynckes). Faz parte, sim, da herança de Guardiola ao Bayern.

Depois, veio o grande desafio: a Inglaterra. E esse desafio se revelaria o maior a Guardiola não apenas por a Premier League ser extremamente equilibrada, com times com alto potencial de investimento. Mas também por ser um terreno ainda hostil à modernidade no futebol.

A modernização do futebol europeu não chegou à Inglaterra. Isso fez com que os clubes ingleses vivessem em uma espécie de “bolha tática”, o que tornava o campeonato local extremamente atrativo, mas que, em uma escala continental, colocava os times da Inglaterra abaixo dos principais concorrentes europeus. Durante alguns anos, os principais times ingleses sofriam em jogos contra times medianos de outras ligas.

Demorou alguns anos a mais para que o mercado de treinadores da Inglaterra finalmente se abrisse a novos nomes vindos de fora. Hoje, Guardiola, Klopp e Pochettino são alguns dos nomes que começam a semear uma mudança na maneira de se jogar futebol no país – e que torna novamente o futebol inglês competitivo a nível continental.

Por essa tradição tática tão fechada e já enraizada no futebol inglês desde a invenção do esporte no país, o Manchester City se apresentou como o grande desafio a Guardiola. Quebrar esses paradigmas não só do clube, mas de todo o futebol da Inglaterra, como um todo, não seria uma tarefa fácil.

Assim como aconteceu no Bayern, Guardiola precisou ajustar alguns conceitos de jogo ao estilo futebol inglês. A filosofia continua a mesma, mas a maneira de implantá-la é variável. Guardiola precisou combinar sua proposta de controle de jogo com a intensidade e velocidade do jogo inglês. E isso demanda tempo. Especialmente em uma liga tão competitiva.

Voltamos, então, ao princípio do texto. A temporada 2016/2017 do Manchester City, a primeira da carreira de Guardiola em que ele não conquistou nenhum troféu. Foi a temporada em que foi semeado o título do ano seguinte. Não foi muita surpresa que Guardiola tenha encontrado tantas dificuldades em seu primeiro ano. Aquilo era apenas a semente de um projeto grandioso.

E hoje nós vemos o fruto. E não é só no título em si. O resultado é positivo, evidentemente, mas o futebol cada vez mais nos ensina a olhar mais para o rendimento. E o aproveitamento do City é impressionante: 87,9%. Em um campeonato que talvez seja o mais equilibrado do mundo. Dominando praticamente todos os jogos, até aqueles em que não ganhou.

O título do Manchester City é incontestável. Assim como Guardiola. Assim como é incontestável que o futebol mudou e continua se transformando, não só com Guardiola – ele é o exemplo maior, mas temos muitos outros empenhados em se reinventar. E ganhamos nós, apaixonados. Ganha o futebol, que melhora cada vez mais rápido e mais implacável. E cada vez mais, ou você evolui junto com o futebol, ou vai ser engolido por ele.

 

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